sábado, 1 de março de 2014

ALETA DO MÊS: Andreu Blanes, um espanhol na alta roda



Estou com os meus companheiros. Treinámos durante a manhã e acabámos de comer. Agora é tempo de pausa à espera do treino da tarde que irá ser num terreno de bosque muito fechado e com detalhe rochoso, tal como no WOC 2011. Será uma partida em massa, seguramente. Enquanto aguardamos e descansamos, jogamos às cartas. Tenho uma mão cheia de cartas boas. Esta rodada é minha!” Um exercício simples, um apelo à imaginação e uma resposta que diz muito daquilo que é o atual líder do novíssimo Ranking Mundial de Sprint. Falamos de Andreu Blanes Reig, espanhol de Onil, Alicante, onde nasceu há 22 anos atrás. Um atleta que respira Orientação por todos os poros e cujo pensamento na vitória é uma constante. Mesmo em momento de pausa. Mesmo num jogo de azar!


Nome: Andreu Blanes Reig
País: Espanha
Disciplina: Orientação Pedestre
Pontos altos: 31º lugar na Distância Média (WOC 2013, Vuokatti), 24º lugar no Sprint (WOC 2012, Lausanne), 14º lugar na Estafeta (WOC 2013, Vuokatti), Vice Campeão do Mundo Júnior de Sprint (JWOC 2011, Rumia-Wejherowo)
Posição no Ranking Mundial: 64º (em 31/12/2013)
Posição no Ranking Mundial de Sprint: 1º (provisório)


A entrevista sofrera algum atraso devido à época de exames em Espanha, mas agora que tudo está mais calmo temos algum tempo para conversar. E Andreu Blanes começará por satisfazer essa curiosidade relativamente aos estudos: “Estou no Curso de Engenharia Civil e estes eram os exames da primeira metade do curso, deles dependendo a aprovação de todo o trabalho desenvolvido desde o início do ano letivo, em Setembro.”

A Orientação foi a razão de estar agora na UCAM – Universidad Católica San António de Múrcia, depois de lhe ter sido oferecida a possibilidade de ter uma bolsa de estudos e poder seguir em frente com o desporto e o ensino. Andreu aceitou e acaba de se mudar para Múrcia, depois de quatro anos a estudar e a treinar em Madrid. Segundo ele, “a principal razão desta mudança teve a ver com as facilidades de treino e de estudo que tenho em Múrcia e que não tinha em Madrid. Em Madrid era impossível fazer as duas coisas ao mesmo tempo e os estudos são, sem dúvida, o mais importante com vista ao futuro.”


Corria mais do que o mapa”

Tudo começou no Desporto Escolar. O entusiasmo levou-o a apaixonar-se pela prática desportiva e era presença em vários grupos de modalidades distintas. Mas à medida que começou a perceber que o tempo não dava para tudo, o leque de opções foi-se reduzindo. O Futebol foi o primeiro a cair e logo a seguir o Basquetebol. Acabou por ficar apenas a Orientação, num processo que ele próprio não sabe explicar muito bem, até porque, reconhecidamente, no início, as suas qualidades físicas se sobrepunham às qualidades técnicas. Ou, fazendo uso das suas palavras, “corria mais do que o mapa”.

E contudo, em 2011, chega ao pódio mundial de Juniores, conquistando a medalha de prata na distância de Sprint. O atleta não nega essa realidade e reconhece: “A ida para Madrid e o ingresso no Centro de Alto Rendimento Joaquín Blume acabou por ser determinante. Creio que a mudança foi o resultado duma reflexão pessoal e teve a ver com essa necessidade de pensar a sério no meu futuro, começar a dar no duro e a analisar o porquê das coisas. Foi um passo determinante para ser aquilo que sou hoje, foi a chave para chegar à Elite e ter sido Vice-Campeão do Mundo.”

Falando de 2011 e desse Campeonato do Mundo de Juniores, na Polónia, fica a enorme emoção e uma grata recordação do apoio recebido daqueles que lhe são mais próximos. “ Foi uma experiência incrível e os meus companheiros foram duma ajuda preciosa naqueles momentos, fazendo com que corresse mais rápido”, lembra. Uma experiência seguramente enriquecedora e que teve inúmeras consequências, tanto a nível desportivo como pessoal: “Foi importante na minha carreira porque me ajudou a perceber que me encontrava no bom caminho e que com trabalho poderia chegar à Elite da orientação mundial. Também foi importante porque significou poder correr pela equipa sueca do Södertälje-Nykvarn Orientering e ter como sponsor a Salomon, para além duma pequena ajuda do Governo espanhol.”


Há pessoas que fazem da orientação o seu sonho”

- Quais as maiores dificuldades que se colocam ao orientista Andreu Blanes?

“As dificuldades maiores são económicas, embora a questão da crise económica seja, no nosso caso, quase uma não questão. Na verdade, uma vez que já temos tão pouco, também não nos podem tirar grande coisa. Sejamos realistas: Em Espanha não existem meios para um desporto como a Orientação e tudo é feito à custa de muito poucos recursos. É um problema de sempre, embora se deva reconhecer que os meios de que a Federação dispõe são cada vez menores. Conseguir um simples apoio é quase missão impossível. Felizmente, há pessoas que fazem da orientação o seu sonho e acreditam naquilo que eu próprio acredito. É graças a elas e ao seu esforço que eu tenho a possibilidade de estar aqui agora.”


Gosto de fazer coisas diferentes dumas vezes para as outras”

Falando de si e daquilo que constitui a rotina do treino, Andreu Blanes explica que a sua semana está sempre dependente de haver ou não competição. Mas o mais normal é algo do género: Segunda feira descanso ativo, terça feira séries (intervalos), quarta feira treino técnico, quinta feira mudanças de ritmo, sexta feira rolar, sábado e domingo competição. E tudo isto sob a supervisão dum treinador: “Ao longo da minha carreira tive dois treinadores: Jesus Gil e Alberto Minguez. Ambos me ensinaram muito. O treinador é sempre alguém muito importante, é ele quem indica a forma de colocar as peças para formar o puzzle”, afirma.

Para além da Orientação, o atleta gosta de todo o tipo de desportos mas não acompanha nenhum em especial. Também gosta muito de cinema, embora não seja um frequentador tão assíduo como gostaria. O mesmo se passa com a leitura. Sobretudo, gosta de fazer coisas diferentes dumas vezes para as outras, “é mais divertido do que fazer sempre as mesmas coisas”, diz.


Só o tempo dirá onde chegaremos, mas chegaremos longe!”

- Nos recentes Campeonatos do Mundo, a Espanha conseguiu meter pelo menos três atletas em cada uma das finais A individuais e o Andreu alcançou na Distância Média o melhor resultado de sempre dum orientista espanhol em Campeonatos do Mundo de Elite. Que Espanha é esta e até onde pode ir?

Temos uma boa equipa, uma equipa jovem e com muitas possibilidades em termos de futuro. Agora somos apenas uma possibilidade, mas esperamos no futuro chegar a ser uma realidade. Não dispomos de grandes meios, mas há gente a trabalhar muito para que o dia da nossa afirmação chegue. E todos nós ansiamos por esse momento o mais rapidamente possível. A soma dos atletas com motivação e das pessoas que estão na base deste projeto mostrará certamente resultados enormes. Só o tempo dirá onde chegaremos, mas chegaremos longe!


António Martinez, Roger Casal e Thierry Gueorgiou

Andreu Blanes tem com António Martinez - outro valor seguro da orientação espanhola e mundial -, uma relação muito especial. Mas quem são, afinal, os “Niños Bomba”? A resposta não se faz esperar: “Os 'niños bomba' eram dois meninos que faziam orientação, uma vezes muito bem e outras vezes muito mal (risos). Hoje as coisas são mais a sério e já conseguimos que a diferença entre as provas boas e as menos boas se vá esbatendo a pouco e pouco. António e eu sempre estivemos juntos e para os dois é muito importante termo-nos um ao lado do outro. É impensável ver-me numa prova importante sem o António e creio que o mesmo se passa com ele. Temo-nos apoiado sempre e vamos continuar a fazê-lo.”

Para além de António Martínez, há dois outros atletas que Andreu aprecia no espetro da Orientação mundial. São eles Thierry Gueorgiou e Roger Casal, este último outra enorme referência da modalidade em Espanha. Acerca do primeiro, comenta que “é espetacular aquilo que faz e consigo aprender imenso com ele”. Quanto ao seu compatriota, as palavras são igualmente elogiosas: “Apesar de estar sozinho, conseguiu ir muito longe. Foi uma felicidade poder aprender com ele dia após dia.” Em resumo: “Sem dúvida, quando me olho ao espelho e vejo até onde quero chegar, é com eles que me comparo”, conclui.


Um passo mais na minha carreira”

- Ainda recentemente, em Portugal, foi possível vê-lo subir por duas vezes ao lugar mais alto do pódio duma prova pontuável para o ranking mundial de Sprint, à frente de atletas como Daniel Hubmann, Fréderic Tranchand, Philippe Adamski ou... Thierry Gueorgiou. Que valor dá a estas vitórias e que o colocam na liderança do ranking mundial de Sprint?

Estas vitórias são apenas um passo mais na minha carreira e querem dizer que estou no bom caminho. Pessoalmente, são duas vitórias muito motivadoras, sobretudo porque não é facil perceber se estamos a fazer bem as coisas ou não e aqui tenho a confirmação. Mas há ainda muito para fazer e todo um trabalho árduo pela frente.


Os resultados são bons e as sensações também”

Andreu Blanes prepara com afinco e ambição uma nova temporada. Mas as coisas mudaram bastante, o atleta está numa universidade nova, numa cidade nova e a viver novas experiências. “Neste momento os resultados são bons e as sensações também”, diz. Daí que o futuro, pelo menos no imediato, seja sorridente: “Espero continuar assim e estar a 100% nos momentos mais importantes da temporada. Até esta altura o treino foi mais de volume, mas agora começo a trabalhar a orientação com mais intensidade. Esta pré-época está a ser fantástica e tenho viajado muito, repartindo o meu treino entre Portugal e Espanha. Quero continuar assim, com este afinco, para poder chegar na melhor forma à Taça do Mundo, em Espanha, e aos Campeonatos da Europa, em Portugal.

O grande objetivo é sempre o Campeonato do Mundo, mas este é também o ano dos Campeonatos da Europa e da Taça do Mundo em Espanha. Três apostas fortes e que merecem a seguinte antevisão: “Creio que poderei conseguir bons resultados e vou trabalhar para isso com todas as minhas forças. Sobretudo, espero desfrutar das provas e alcançar o melhor resultado possível.” Referindo-se concretamente à Taça do Mundo, em Espanha, Andreu Blanes deixa-nos a sua opinião: “Creio que será um grande evento. Sei que irei encontrar provas desafiantes e exigentes e espero estar ao meu melhor nível.” A terminar, uma certeza em jeito de convite: “Aqueles que vierem a Espanha vão poder contar com orientação de grande qualidade e enfrentar uma equipa espanhola na máxima força. Vai ser, sem dúvida, inesquecível!”


Perguntas e respostas

Questão colocada por Daisy Kudre, a Atleta do Mês de Fevereiro: “ - Os Campeonatos do Mundo de 2017 terão lugar na Estónia. Já correu aqui alguma vez e acha que os terrenos são à sua medida para alcançar bons resultados?”

E a resposta de Andreu Blanes: “Nunca corri na Estónia mas penso que os terrenos serão ao meu gosto, talvez não agora, mas seguramente em 2017. É tudo uma questão de treino. Terei 25 anos quando disputar o WOC 2017 e as minhas expectativas são as de que estarei nessa altura no pelotão da frente.”

Finalmente, a questão de Andreu Blanes para Martin Fredholm, o Atleta do próximo mês de Abril: “Como é que treina Orientação de Precisão? E qual o melhor momento da sua carreira? Porquê?”. Resposta para descobrir dentro de 31 dias.

[Leia a Reportagem na versão original inglesa em http://orienteering.org/athlete-of-march-on-the-way-to-the-top/. Publicação devidamente autorizada pela Federação Internacional de Orientação]


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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