terça-feira, 31 de dezembro de 2013

BRUNO NAZÁRIO: 2014, A ÉPOCA DA MUDANÇA! (PARTE II)



(continuação)

Deixando o plano internacional e analisando a temporada no plano interno, que avaliação faz?

B. N. - Em País algum a Orientação vive das Elites, mas sim das pessoas no seu todo. Assim, a grande reflexão que deve ser feita – não apenas por mim, mas por todos os agentes da modalidade – é sobre o que se passa, porque é que as nossas provas têm cada vez menos pessoas a participar. Mais do que analisar quem ganhou ou quem perdeu o ranking, essa é que deve ser a grande preocupação, porque é que temos cada vez menos pessoas nas provas.

E porquê, Bruno?

B. N. - Bem, eu já por duas vezes expressei a minha opinião acerca deste assunto no local próprio, que é a Assembleia Geral da Federação Portuguesa de Orientação. Na minha opinião, há um excesso de provas de âmbito nacional. Uma família portuguesa tipo, casal com um ou dois filhos, não tem capacidade financeira para fazer o número necessário de provas para completar o ranking. É quase incomportável, a não ser que tenha por detrás um clube que suporte a maior parte dessas despesas. Por isso, a minha perspetiva é a de que a orientação se deveria apoiar cada vez mais nas provas de âmbito local e regional, minimizando assim os custos dum fim de semana longe de casa, com a viagem, o alojamento, a alimentação e ainda as inscrições nas provas a pesarem fortemente no orçamento familiar. Se queremos evoluir, temos de ter muita gente a praticar orientação em Portugal. Veja-se o que se passa com uma modalidade que nos é próxima e que é o Trail running, com provas a nascer todos os dias “como cogumelos” e dando possibilidade às pessoas de, se não nesta semana, na próxima, participarem e fazerem aquilo que gostam sem a preocupação duma grande deslocação. Acho que está aí um bom exemplo de como se cativam praticantes. É uma questão de percebermos, afinal, aquilo que queremos. Mas volto a frisar que esta é uma reflexão que deve ser feita não só pela Direção da Federação mas também por todos os agentes da modalidade.

A quebra no número de participantes está à cabeça das suas preocupações e é a grande conclusão que retira da análise à temporada que agora termina. E em termos competitivos, também houve retrocesso?

B. N. - Sim. O facto de não termos em todas as provas os melhores atletas faz com que o nível competitivo seja menor. Seria de esperar que os dois primeiros classificados do ranking estivessem nos Campeonatos do Mundo e nenhum deles esteve. Houve um grande número de atletas que viu a sua participação em inúmeras provas condicionada por compromissos profissionais e académicos. Veja-se o caso do Tiago Aires, o nosso atleta mais valioso e que, à partida, está impossibilitado de participar num grande número de provas por se disputarem em mapas que ele próprio desenhou. Mas penso que com um número de provas mais reduzido a competitividade aumentaria e os resultados finais do ranking traduziriam de forma mais fiel a realidade da nossa orientação.

Ou seja, ter os atletas mais focalizados nas grandes provas, nos grandes momentos, para a obtenção de grandes resultados.

B. N. - É precisamente isso que nós queremos. Da forma como o calendário da Taça de Portugal está construído, de Janeiro a Novembro, um atleta para vencer o ranking não pode focar o seu pico de forma num Campeonato do Mundo, que é aquilo que se pretende em relação aos nossos melhores atletas. Pessoalmente, eu prefiro que os atletas da seleção treinem para estar em pico de forma no Campeonato do Mundo, do que ter um atleta que está sempre bem, pontua muito nas provas da Taça de Portugal e até acaba por ser o vencedor, mas que depois não consegue aquele pico para estar em altíssimo nível nos Mundiais.

Homens versus Damas. Este ano não tivemos atletas femininas nos Campeonatos do Mundo e eu perguntava-lhe se estamos a desinvestir no setor feminino.

B. N. - Eu diria que não é uma questão de desinvestimento. Infelizmente, a Federação não tem dinheiro para levar duas equipas completas aos Campeonatos do Mundo, como eu desejaria, e o problema passa desde logo por aí. Também podíamos fazer como fizeram os nossos colegas espanhóis, prescindir duma semana de adaptação e treino na Finlândia antes dos Campeonatos e levar mais atletas. Mas penso que, em termos de resultados, isso não iria ser proveitoso. Foi uma opção minha, baseada na análise que fui fazendo ao longo da época. Não vejo isto como um desinvestimento, é mesmo a tal questão da falta de recursos para levar toda a gente que pretendemos.

Sem recursos, estamos condenados a não conseguir inverter esta situação tão rapidamente quanto o desejável?

B. N. - Não sei. A minha esperança é que a próxima época seja a época da mudança. Vamos ter os Campeonatos da Europa em Portugal e, finalmente, não teremos limitações em termos de atletas, podendo apresentar equipas completas tanto no setor masculino como no feminino. Da mesma forma, apesar de não sabermos ainda com que orçamento vamos poder contar, existirá um investimento no sentido de levar atletas femininas aos Campeonatos do Mundo em Itália. É um esforço e uma aposta na tentativa de melhorar o campo feminino e eu acho que há margem e motivação para que tal aconteça.

Esta nova “fornada” de atletas, os nossos juniores, os nossos juvenis... o que é que vem aí?

B. N. - Vêm aí atletas que terão pela frente muitos anos de experiência nos escalões jovens, algo que é fundamental para que depois consigam dar o salto para a Elite. São sobretudo atletas do escalão H16 – o João Bernardino, o António Ferreira, o João Novo, o Ricardo Esteves, o Daniel Catarino... -, mas que vão ter de trabalhar muito até atingirem esse patamar.

Curiosamente não mencionou nenhuma atleta feminina...

B. N. - Não, não mencionei. Mas como deve ter reparado, nenhum destes atletas deu ainda o salto para a Elite, enquanto que nas raparigas a situação é diferente. A ideia de formar um grupo de meninas e de mulheres para o EOC, leva-nos a pensar em nomes como a Beatriz Moreira, a Joana Fernandes e a Carolina Delgado, todas elas pertencentes aos escalões jovens, e também a Vera Alvarez, com idade ainda de junior, para integrarem os trabalhos da seleção sénior. Algumas delas, possivelmente, estarão em Palmela, naquilo que constitui uma aposta de futuro e também lhes dará a possibilidade de fazerem a transição para a Elite da forma mais tranquila possível.

Pegando no assunto dos Europeus, que Campeonatos vão ser estes? De que forma é que o fator casa poderá jogar a nosso favor?
B. N. - Não sei, as coisas ainda não estão completamente definidas na minha cabeça. Em relação às provas de Sprint e às finais, está tudo já bastante bem estruturado face ao tipo de terrenos que vamos ter, mas tenho ainda bastantes dúvidas no que diz respeito às restantes qualificatórias. Julgo que irá ser um Campeonato com um elevado nível organizativo, na linha daquilo que Portugal já deu mostras de ser capaz. Não sei se a escolha de terrenos terá sido a mais adequada, tendo em conta aquilo que são as características dos nossos atletas, mas cá estaremos para dar o nosso melhor e para dignificar o País.

Face à ligação muito grande que tem com orientistas do Mundo inteiro, consegue perceber neste momento o interesse que o evento está a despertar? Há muitas pessoas a contactá-lo no sentido de saberem exactamente aquilo que poderão esperar?

B. N. - No início houve algumas pessoas a nível internacional a questionarem-me sobre o tipo de terrenos e nota-se agora algumas seleções e alguns atletas, a título individual, a procurarem os terrenos mais adequados para virem preparar o Campeonato da Europa. No entanto, não vejo o interesse pelo Campeonato da Europa como se de um Campeonato do Mundo se tratasse. O Campeonato do Mundo continua e continuará sempre a ser a prova mais importante da época para todos os atletas a nível internacional.

Dentro de dias, os melhores atletas do Mundo vão começar a instalar-se em força no nosso País preparando a nova época. Este ano, contudo, percebe-se que há uma enorme concorrência por parte da Espanha, da Itália e mesmo da Turquia. Como é que avalia uma situação que, em última análise, pode resultar na perda duma certa hegemonia verificada nos últimos anos em Portugal, em termos de Campos de Treino e de provas de elevado nível na chamada temporada de Inverno?

B. N. - A concorrência a nível mundial faz parte do processo de globalização e nós não podemos impedir que os outros organizem. A perspetiva portuguesa deve ser sempre a de manter um padrão elevado de qualidade das nossas organizações, porque é nelas que muitos atletas internacionais confiam. Entendo que, se continuarmos a fazer bem o nosso trabalho, os atletas continuarão a visitar-nos. Agora, temos de ser realistas e perceber que não vamos fidelizar as pessoas para sempre, que Portugal é e será eternamente o único destino de Inverno. Qualquer um de nós gosta de variar no local escolhido para passar férias e os atletas, sobretudo os atletas de Elite, buscam também terrenos e desafios diferentes para, ano após ano, terem experiências novas e que enriqueçam mais a sua capacidade de navegação.

Agora que caminhamos para o final da nossa Entrevista, três questões muito rápidas, para três respostas rápidas também: “WOC in the Future”?

B. N. - Não sei se vou conseguir dar-lhe três respostas rápidas (risos). Tive a oportunidade de intervir este ano na Conferência de Presidentes da IOF, onde me manifestei contra o novo formato do Campeonato do Mundo de Séniores. Como é sabido, o escalonamento dos países em três divisões limita o número de atletas presentes nas finais de Distância Longa e de Distância Média e esta é a grande machadada na modalidade dada pela própria Federação Internacional. Aquilo que se está a fazer é dizer a muitos atletas de muitos países que podem deixar de treinar tendo em vista os Campeonatos do Mundo porque nunca conseguirão lá chegar. Isto irá conduzir, fatalmente, a um decréscimo do nível competitivo nos países em questão. Como é que se motiva um grupo de dez ou quinze atletas a treinar época após época se todos eles sabem que apenas um irá estar presente nos Campeonatos do Mundo?

Mediatização?

B. N. - Em termos de mediatização, aquilo que eu gostaria de ver a Federação Internacional fazer era dar um apoio efetivo às organizações. Se tomarmos como exemplo o Campeonato do Mundo deste ano, teremos de reconhecer que dificilmente se fez tanto no campo da mediatização. A produção e difusão de conteúdos foi extraordinariamente bem desenvolvida e a preocupação da Federação Internacional deveria ir no sentido de garantir este nível de mediatização duma forma consistente, investindo por exemplo em todas as provas da Taça do Mundo e na sua difusão regular pelas grandes canais televisivos ligados ao desporto. Mas aquilo que eu vejo é o deixar as coisas correrem um pouco ao sabor dos interesses das organizações, aparentemente sem uma estratégia concertada. E as coisas não funcionam desta forma.

Ambas as respostas anteriores levam em certa medida à terceira questão: países ricos versus países pobres”?

B. N. - Essa é a verdadeira questão. Basta ver as inscrições para a Taça do Mundo, na Turquia. Salvo erro estão inscritos atletas de treze países e alguns desses países têm apenas um ou dois atletas inscritos e que, muito provavelmente, irão a expensas próprias. Resultado: o nível dos ricos é cada vez maior, enquanto os pobres têm cada vez mais dificuldades em chegar lá acima. As possibilidades de uns e de outros não tem comparação e, com medidas da Federação Internacional como estas, é a própria justiça desportiva que é colocada em causa.

Do seu ponto de vista, qual é o momento alto da temporada?

B. N. - Para mim, o momento mais alto da temporada é, obviamente, a despedida da Simone Niggli. Trata-se duma atleta que deu muito à Orientação – e estou certo que continuará a dar -, uma atleta que marca toda uma era e aquela despedida na Final da Taça do Mundo, no Post Finance, na Suiça, é realmente fenomenal. Ainda para mais, sair pela porta grande com uma vitória foi ouro sobre azul. Para mim é o momento maior da Orientação a nível internacional nesta temporada.

Para terminar, uma questão que parte duma hipótese, a de estarmos aqui a conversar dentro de um ano, fazendo o balanço de mais uma temporada. Nessa altura, o que espera ter para me contar?

B. N. - Muito sinceramente, espero poder contar que o meu novo bebé – que ainda não sei se vai ser menino ou menina – nasceu na hora certa, correu tudo bem e se está a desenvolver normalmente. Para mim isso é o mais importante, é a nossa vida pessoal, é isso que eu devo à minha família e é isso que eu pretendo para 2014. Deixo ainda um voto para a comunidade orientista em geral, de que tudo corra pelo melhor com as organizações, que as pessoas se motivem para desenvolvermos a Orientação em Portugal e, sobretudo, que consigamos cativar mais pessoas para a prática do nosso desporto.


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

BRUNO NAZÁRIO: 2014, A ÉPOCA DA MUDANÇA! (PARTE I)



Bruno Nazário, selecionador nacional de Orientação Pedestre, vem hoje ao palco do Orientovar fazer o balanço de mais uma temporada. Tempo para recordar alguns dos momentos que marcaram a época que agora termina, tempo de apontar rumos para 2014, “a época da mudança”.


Há um ano atrás, sensivelmente por esta altura, acabávamos de ver o seu traçado de percurso de Distância Média do 3º dia do Portugal O' Meeting vencer o concurso “Course of the Year 2012” promovido pelo World of O. Já este ano, foi possível saborearmos com o Tiago Romão a vitória na presente edição do mesmo concurso. Que significado têm estas duas distinções para a orientação portuguesa?

Bruno Nazário (B. N.) - Bem, estes concursos valem o que valem. Não é uma votação feita por um painel de especialistas, é uma votação feita pela comunidade orientista, mas não deixa de ser a prova da qualidade e do nível organizativo que o Portugal O' Meeting tem no panorama internacional. É a nossa prova rainha, aquela que nos dá visibilidade.

É curioso ter usado a expressão “estes concursos valem o que valem”, precisamente a mesma que o Tiago usou na altura em que o entrevistei a propósito da sua vitória. Este relativizar das coisas leva-me a perguntar-lhe se, em 2013, este percurso foi mesmo o melhor do ano para si ou se, na sua ótica de especialista, a escolha recairia noutro percurso.

B. N. - É uma questão complicada. Quase me atreveria a dizer que, centrando-me apenas no Portugal O' Meeting – e isto sem qualquer desprimor para com as outras organizações -, para mim o traçado do percurso de Distância Média WRE está muito bem conseguido e, em termos exclusivamente de traçado, tem mais méritos do que o percurso de Sprint que acabou por ganhar. No entanto, estas votações também têm em conta outros fatores e aqui o fator terreno acabou por ser determinante, isto numa aldeia genuína e num cenário deslumbrante, ao qual ninguém consegue ficar indiferente.

Em termos pessoais, quais os reflexos deste tipo de reconhecimento?

B. N. - São sempre momentos agradáveis, momentos em que sentimos que o nosso trabalho é reconhecido, é apreciado e tem qualidade. São momentos especiais e que nos dão, de certa forma, algum alento para continuarmos a fazer aquilo que gostamos. Mas não mais do que isto.

Há um ano atrás a crise económica instalava-se de forma particularmente intensa no nosso país, os cortes generalizavam-se, a ofensiva brutal aos trabalhadores seguia o seu rumo imparável e os professores eram – e são! - particularmente penalizados pelas políticas cegas dos nossos governantes. Tendo presente que o Bruno é Professor [esta Entrevista foi gravada num dia particularmente agitado para os professores, 18 de Dezembro, dia da malfadada prova de avaliação de conhecimentos e competências], com que estado de espírito é que, no meio de tanta incerteza e de tanta revolta, se fundamenta o trabalho de preparação de toda uma temporada? Onde é que se vai buscar a motivação?

B. N. - Devo dizer-lhe que esta pergunta é excecional, é uma pergunta que vai ao encontro das frustrações que alguém que está no meu cargo sente. Alguém que, sobretudo, sabe que podia fazer-se muito mais com apenas um bocadinho a mais. Motivação é algo que, frequentemente, acaba por me escapar por entre os dedos, sendo obrigado a focar-me nas pequenas vitórias que os atletas, com o seu esforço e com a sua dedicação, vão conseguindo. Não deixando de valorizar o trabalho da Federação, quem me dá a motivação para continuar são os atletas. Ano após ano temos vindo a dar pequeninos passos, temos conseguido fazer sempre um bocadinho mais, mas conscientes de que as nossas capacidades nos permitiriam fazer muito mais e muito melhor se tivéssemos um pouco mais de condições. E isto é verdadeiramente frustrante.

Mas acha que esta é uma questão essencialmente conjuntural ou que há uma gestão dos dinheiros por parte da Federação que acaba por não ser a mais adequada? Esse “bocadinho a mais” que referiu existe e não é aplicado ou não há nada a fazer porque, pura e simplesmente, o bocadinho não existe?

B. N. - Essa é uma questão que deveria ser colocada à Direção da Federação porque, na realidade, são eles que fazem a gestão dos dinheiros. Mas o Orçamento é público e cada um de nós pode verificar em que rúbricas são aplicados os dinheiros. A verdade é que o orçamento para as seleções é irreal! Estágios, deslocações ao estrangeiro, equipamentos, técnicos, tudo... Se eu abordar este assunto com alguém e referir o orçamento que temos, as pessoas até se riem. Na conceção de qualquer treinador internacional, é impossível perceber aquilo que nós conseguimos fazer com tão pouco dinheiro. Mesmo os nossos colegas espanhóis têm um orçamento para a Pedestre pelo menos duas vezes superior ao nosso. A não ser alguém que o faça a título pessoal, que tenha a necessária disponibilidade financeira - o que, nos tempos que correm, não é fácil -, as nossas possibilidades de participação em grandes competições internacionais resumem-se aos Campeonatos do Mundo e, excecionalmente, aos Campeonatos da Europa que, no próximo ano, terão lugar no nosso País. O nosso orçamento é de tal maneira baixo que, muito provavelmente, não teremos sequer capacidade financeira para participarmos nas etapas da Taça do Mundo que terão lugar aqui ao lado, em Espanha.

Apesar de todas estas restrições, foi possível “fazer omeletes sem ovos” nos recentes Campeonatos do Mundo. Tivemos, pela primeira vez na nossa história, atletas presentes em todas as finais A, o que só por si constitui um facto digno de nota.

B. N. - A expressão é precisamente essa, “fazer omeletes sem ovos”. Mas é igualmente importante que a comunidade orientista perceba que o nível de resultados obtidos está claramente acima do nível da Orientação em Portugal. Não é qualquer país que consegue estar presente num Campeonato do Mundo com apenas quatro atletas – e, dos quais, um teve o azar de contrair uma gastroenterite dois dias antes do início dos Mundiais – e que consegue chegar a quatro finais A num conjunto de sete qualificatórias. Falhámos um pouco os nossos objetivos na Estafeta mas, no restante, aquilo que conseguimos é verdadeiramente fabuloso. Para mim é fabuloso! Não serão resultados como os alcançados pela Ucrânia, por exemplo, que conseguiu uma extraordinária medalha de bronze na Estafeta, mas em que todos os seus atletas vivem e treinam na Suécia. Os nossos atletas não têm nada disso. Tirando o Tiago Aires, que passou alguns dias na Suécia com o seu clube, todos os restantes atletas trabalharam nos clubes em Portugal, reuniram-se um par de vezes nos estágios da seleção e foram a Vuokatti conseguir o que conseguiram.

Há essa grande capacidade de superação nos grandes momentos...

B. N. - Não sei se lhe chamaria assim. Eu acho que nós temos talento... Há um enorme mérito no trabalho que os atletas desenvolvem, o mérito é deles e não do selecionador. A minha posição no meio disto tudo é um pouco a de “manager”, a pessoa que consegue gerir os talentos, que consegue gerir um orçamento reduzido e fazer “das tripas coração” para estarmos uma semana antes do Campeonato do Mundo em Vuokatti, encontrar uma casa por um preço baixíssimo – as pessoas nem imaginam onde ficámos alojados – e com isso podermos ter tido connosco também o Rafael Miguel, que nos ajudou muito no trabalho de recuperação física dia após dia. São pequenos ganhos, pequenos pormenores colocados ao serviço dos atletas e que acabam por funcionar muito bem, permitindo-lhes pôr em prática o seu enorme talento. Eu acho que é este talento que faz a diferença.

No conjunto de resultados alcançados pelos nossos atletas nos Mundiais há algum em particular que mereça ser realçado?

B. N. - Gostaria realmente de realçar o trabalho que foi feito no seu conjunto, embora nem tudo tivesse sido perfeito. Por exemplo, na final de Distância Longa, se combinarmos as melhores pernadas do Diogo Miguel e as melhores pernadas do Tiago Aires, verificamos que facilmente conseguiriamos alcançar um resultado no top 30, algo que nunca conseguimos antes e que era o nossos grande objetivo. Mas naquele dia houve coisas que correram menos bem, o Tiago sofreu muito durante a prova com cãibras – e foi pena, esta era uma prova muito à sua medida -, o Diogo também falhou nalguns pontos mas, no cômputo geral, tivemos mesmo aqui a prova de que o nível dos portugueses é suficientemente elevado para um top 30 na Longa. O João Mega, no seu primeiro ano de sénior e na primeira vez num Campeonato do Mundo, fez um resultado muito bom num Sprint muito complicado, num percurso muito traiçoeiro, com muitas opções. Esteve realmente muito bem e as portas ficam abertas a grandes vôos já no próximo ano.

Não perca amanhã a segunda parte da Entrevista, aqui, no seu Orientovar.


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

sábado, 28 de dezembro de 2013

VERA ALVAREZ: "O SEGREDO É O TRABALHO"



Grande figura feminina da Orientação portuguesa na temporada que agora termina, Vera Alvarez é a convidada de hoje do Orientovar. Juntando ao título nacional Absoluto, os títulos de Sprint, Distância Média e Estafetas e ainda a vitória na Taça de Portugal, a atleta alcançou um feito inédito na história da nossa Orientação, sendo este um dos temas da Entrevista. Mas há mais, muito mais!


Partiu para os Campeonatos Nacionais Absolutos na liderança do ranking da Taça de Portugal e acabou por confirmar 'em absoluto' uma vitória mais que merecida, juntando aos títulos nacionais de Estafetas, Sprint e Distância Média também o título nacional Absoluto. Com esta “cereja no topo do bolo”, conseguiu atingir todos os objetivos a que se tinha proposto no início da temporada?

Vera Alvarez (V. A.) - No início da época defino sempre os meus objectivos, sendo que esta época centrei a minha atenção na preparação para o JWOC. Este ano, em território português, não sabia bem o que esperar e estava um pouco receosa em relação aos resultados que poderia vir a obter, mas sabia que ganhar estava dentro das minhas possibilidades. No final, a sorte sorriu do meu lado e presenteou o meu esforço com os resultados nos Campeonatos Nacionais. Apresentei-me bem fisicamente, confiante e ganhei o Sprint, a Média e as Estafetas (com a preciosa ajuda da Mariana Moreira e da Susana Pontes). No entanto, lesionei-me duas semanas antes do JWOC e foi-me praticamente impossível fazer as provas ao nível a que queria, ficando muito longe dos meus principais objectivos. Assim sendo, não considero a minha vitória nos Absolutos como a "cereja no topo do bolo", mas sim como um bom sinal e incentivo para o ano que se avizinha.

Com que motivação encarou as derradeiras etapas da Taça de Portugal e como viu a conquista do título nacional absoluto?

V. A. - Toda esta época foi bastante diferente do que me habituei até agora na Orientação. E diferente para melhor! Desde os Iniciados que, mesmo competindo sempre num escalão acima da minha idade, me sinto sozinha em competição e sem necessidade de fazer uma grande prova para ganhar. Para ultrapassar esta questão, sempre me prendi às provas internacionais para fazer mais e melhor. Este ano não foi preciso fazer isto, sentindo claramente que a competitividade, bem como as derrotas ao longo desta temporada, me motivaram ainda mais a evoluir como atleta. Quando não ganhava, saía da prova com uma força extra para treinar e trabalhar de forma a que na próxima vez a situação não se repetisse. Neste sentido, encarei as etapas da Taça de Portugal de uma forma muito mais séria este ano. Quanto aos absolutos, esta é uma prova que já há uns anos sinto que tenho capacidade para ganhar, mas em que tenho sempre problemas: não pude participar várias vezes, já fui desclassificada na qualificatória, fiz sempre más provas na final... até ao ano passado, quando deitei tudo a perder mesmo no fim e acabei por ficar a 26 segundos do título. Este ano queria contrariar esta tendência de uma vez por todas e, por isso, esta foi uma vitória com um sabor especial.

Em todo este processo, nesta combinação de sucesso, onde é que reside o segredo?

V. A. - Segredo... Bem, não diria que é segredo. É preciso treinar para ter resultados e se não há trabalho, não há sucesso. Claro que não posso negar que todo o apoio familiar que tenho, assim como a experiência que tenho vindo a ganhar nos últimos anos, jogam sempre a meu favor. No entanto, estes fatores por si só não determinam o sucesso. Eu consigo sentir perfeitamente que quando faço mais erros técnicos é quando estou mal fisicamente. Quando estou em forma, tudo isto se inverte: sinto-me focada, determinada, confiante que vou fazer uma boa prova e muitas vezes isso acontece. O segredo é o trabalho e só é preciso vontade para o concretizar.

Quer falar-me um pouco do seu dia-a-dia?

V. A. - Sendo estudante do segundo ano de Medicina, preciso de dedicar muito tempo ao estudo e este ano está a ser mais complicado não só por ter aulas todos os dias como também por gastar mais de duas horas em transportes por dia. Tenho horários de aulas muito variáveis dependendo dos dias da semana mas predominantemente são à tarde. Assim sendo, em dia de treino bidiário, corro mal acordo. Se não for, limito-me a estudar até à hora a que preciso de ir para a faculdade. No final das aulas volto a casa pelas 19 horas e corro por volta das 20h/21h. Depois do treino ainda volto ao estudo até me deitar, geralmente tarde. Em todo este processo sinto que faria bastante diferença ter companheiros de treino pois não gosto especialmente de correr sozinha todos os dias.

Esta foi uma temporada claramente atípica. Basta ver que nenhum dos três primeiros classificados do ranking da Taça de Portugal em Homens Elite esteve presente nos Campeonatos do Mundo para se perceber facilmente que há aqui coisas, no mínimo, estranhas. Como é que avalia a temporada 2013 da orientação portuguesa?

V. A. - Claramente que o ranking da Taça de Portugal, não sendo levado com o mesmo empenho por todos os atletas, não reflecte de uma forma clara o valor dos atletas nacionais. Embora a orientação portuguesa agora tenha esta época anual, nós continuamos a trabalhar para estar em forma em junho e julho, quando são os mundiais, e a descansar nas férias de Verão. Dado tudo isto, e não esquecendo as frequentes lesões que muitos atletas sofrem, é natural que o ranking da Taça de Portugal não seja um objectivo para muitos de nós. Nesta temporada vários atletas que poderiam ter dado um diferente rumo aos rankings estiveram ausentes pelas mais variadas razões, sendo que não nos podemos basear no ranking para avaliar 2013. Assim sendo, baseio-me nos excelentes resultados do WOC para dizer que esta foi uma boa temporada na orientação portuguesa, pelo menos na vertente masculina. A vertente feminina é mais difícil de avaliar, mas creio que em alguns momentos se denota evolução.

A verdade é que Portugal não apresentou qualquer atleta feminina nos Mundiais de Vuokatti. Vê isto como um desinvestimento na categoria feminina de elite ou tratou-se duma situação apenas conjuntural?

V. A. - A orientação masculina é muito mais competitiva e isso ninguém pode negar. É assim em todo o mundo. Ainda assim, não concordo que sejamos desvalorizadas pois nós não temos culpa que isto aconteça e trabalhamos para fazer a nossa parte. A situação, embora também provocada por condições conjunturais, deixou-nos descontentes.

E em termos globais, qual é para si o momento ou a personalidade que marcam a temporada que agora chega ao fim?

V. A. - Simone Niggli, sempre e mais uma vez. Saiu em grande!

O ponto alto da temporada em Portugal costuma ser o Portugal O' Meeting. Este ano, contudo, teremos em Abril os Europeus a monopolizar o grosso das atenções. Quer falar-nos de um e de outro, no primeiro caso porque se trata duma organização do seu clube e no segundo caso porque irá, pela primeira vez, representar Portugal ao mais alto nível?

V. A. - Embora, por motivos académicos, não possa estar tão dentro da organização do Portugal O' Meeting como pretendia, o CPOC está a fazer um excelente trabalho e tenho a certeza que vai ser uma prova a recordar. O essencial está feito: uns mapas fantásticos! Quanto aos Europeus sem dúvida que é uma excelente oportunidade para eu me estrear numa competição sénior. Será brutal estar nos EOC em solo português e espero representar Portugal da melhor forma.

Que outros objetivos traça para o próximo ano, tanto no plano pessoal/profissional como no desportivo?

V. A. - A nível académico este ano será (está a ser) bastante complicado. Sendo assim, o meu principal objectivo a nível académico/pessoal é fazer todas as disciplinas e o mais cedo possível para poder dedicar mais tempo aos treinos. Preciso de muito tempo para estudar, mas como quero aumentar bastante a carga de treino este ano vai ser preciso muita ginástica... No plano desportivo, tendo em conta que esta será a minha última época de júnior, o JWOC será a grande competição a ter em conta. A nível nacional, os meus objectivos passam sempre por ganhar tudo o que conseguir, se estiver em condições para tal. Por isso mesmo, todos os campeonatos nacionais e o ranking são inevitavelmente incluídos nos objectivos.

A terminar – e até porque estamos perto de virar a página de mais um ano – pedia-lhe que exprimisse um desejo para 2014.

V. A. - Saúde! Só lhe damos valor quando não a temos (ou quando passamos o dia a estudar doenças...). A este desejo incluo também a ausência de lesões a todos nós. Bom 2014! :)


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

NAOM 2014: THIERRY GUEORGIOU É CABEÇA DE CARTAZ EM CASTELO DE VIDE



Prova maior do calendário nacional de Orientação Pedestre, o Norte Alentejano O' Meeting prepara-se para a realização da sua 8ª edição. Castelo de Vide será em 2014 o palco de todas as emoções, num evento que pontuará para o ranking mundial da modalidade e que conta já com a presença confirmada do número 1 do mundo, o francês Thierry Gueorgiou.


Foi em 2007 que o Norte Alentejano O' Meeting apresentou as suas credenciais pela primeira vez. Partindo duma aposta do Grupo Desportivo dos Quatro Caminhos, logo nesse ano se percebeu que o potencial da região para a prática da Orientação encontrava um paralelo perfeito na ambição do clube nortenho em avançar com a proposta dum projeto intermunicipal de grande envergadura e que colocasse esta vasta região no mapa da Orientação mundial. Ao município de Nisa juntaram-se, sucessivamente, Castelo de Vide, Alter do Chão, Crato, Portalegre e Marvão, transformando o sonho inicial nessa realidade indesmentível: o Norte Alentejano O' Meeting é, nos dias de hoje, um evento dos mais destacados a nível mundial, atraindo ano após ano todos os grandes especialistas ligados à modalidade.

Com o programa distribuído por três etapas, o NAOM 2014 terá lugar nos dias 25 e 26 de janeiro, integrando o calendário da Taça de Portugal de Orientação Pedestre 2014. A Barragem de Póvoa e Meadas receberá a etapa inaugural – uma prova de Distância Média -, seguindo-se da parte da tarde, no coração de Castelo de Vide, uma etapa de Sprint pontuável para o ranking mundial e para o Circuito Nacional Urbano 2014. No último dia de provas, regresso a Póvoa e Meadas para nova prova de Distância Média que encerrará o evento. Aos atletas é oferecida ainda a oportunidade de participarem no Model Event que terá lugar no dia 24 e servirá de adaptação aos mapas e terrenos da competição “pura e dura”. Disponíveis estão, desde já, os Campos de Treino, com a oferta de 18 percursos de floresta, 7 sprints urbanos e mais de 300 pontos de controlo no total.

Com as inscrições a decorrer a bom ritmo - são já 141 os atletas em representação de 9 países que confirmaram a sua presença -, o Grupo Desportivo dos Quatro caminhos tem para oferecer percursos de grande qualidade técnica em magníficos terrenos, para dois dias da melhor orientação. A par dos melhores atletas nacionais e de Thierry Gueorgiou, o líder do ranking mundial e vencedor do NAOM em 2011, irão estar igualmente presentes em Castelo de Vide o nº 2 do mundo, o suiço Daniel Hubmann, o seu irmão Martin Hubmann (nº 9 do mundo) e ainda a grande revelação da temporada que agora termina, o russo Leonid Novikov, Campeão do Mundo de Distância Média e de Estafetas em título.

Tudo para acompanhar em http://www.gd4caminhos.com/naom2014/.


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

ANTÓNIO HERNANDEZ: A ORIENTAÇÃO DE PRECISÃO É FIXE!



A Orientação de Precisão em Espanha procura retomar um caminho iniciado por Roberto Munilla há sensivelmente três anos. Novo timoneiro desta ainda frágil nau, António Hernandez leva-nos numa corrente de sonhos ao encontro de novos destinos.


Pedia-lhe que, de forma sucinta, me falasse da sua relação com a Orientação.

António Hernandez (A. H.) - Por uma questão quase de tradição familiar, sempre senti uma atração especial pelo campo e pela montanha. Para além disso, desde muito novo que fazia Atletismo. No dia em que descobri que podia “meter os dois proveitos no mesmo saco”, nem queria acreditar. Estávamos em Julho de 1989 e… até hoje!

Ao receber a proposta, no passado mês de Setembro, para assumir os destinos da Orientação de Precisão em Espanha, o que o levou a aceitar o desafio?

A. H. - Em primeiro lugar, gosto desta disciplina. Atrai-me o desafio técnico que encerra. Por outro lado, ao longo destes quase vinte e cinco anos, fiz de tudo na Orientação: competi, tracei percursos, cartografei, treinei, organizei e assumi funções, tanto em clubes como em federações. Depois de, em 2012, abandonar a presidência do Clube Alcon (Léon), que eu próprio fundei, fiquei sem qualquer tipo de encargo na minha agenda. Foi então que José Samper, Diretor Técnico da Federação Espanhola de Orientação (FEDO), me pediu ajuda nesta matéria. E porque não? Encaro-o como um desafio particularmente motivador do ponto de vista pessoal.

Que levantamento fez da disciplina e qual o ponto da situação neste momento?

A. H. - Sem pretender retirar o mérito ao trabalho dos anteriores responsáveis, diria que se encontra praticamente tudo por fazer. Eles iniciaram um caminho que eu procuro seguir agora. Roberto Munilla organizou o primeiro Campeonato de Espanha de Orientação de Precisão em 2012, mas devido a problemas laborais viu-se impedido de o fazer em 2013. O meu objectivo passa por, não apenas fazer com que se volte a organizar em 2014, mas também nos anos seguintes. Esta será, talvez, a face mais visível do trabalho que tenho pela frente. Mas na Federação o projecto envolve muito mais do que isto: actividades de formação, cartógrafos, captação de atletas paralímpicos, etc. Outra situação que temos de enfrentar tem a ver com a necessidade de desmistificar a ideia generalizada entre a comunidade orientista e que é a de que a Orientação de Precisão é – e que ninguém me leve a mal aquilo que vou dizer – para avozinhos e deficientes. Porquê? A Orientação de Precisão é fixe!

Sente, então, que a comunidade orientista em Espanha não está consciente da importância da Orientação de Precisão, no mínimo enquanto modalidade inclusiva por excelência?

A. H. - De facto não está. É que nem sequer se trata de colocar a Orientação de Precisão num plano secundário. É mesmo algo que é visto como fácil e sem quaisquer objectivos. E depois, o pessoal da Pedestre chega eventualmente às provas cheio de ideias preconcebidas, uma vez que são “orientistas” e estão naturalmente acima do exigido a um paralímpico. Puro engano, aliás factualmente demonstrado pelo grande número de falhas que cometem e pelos resultados geralmente muito aquém do esperado. Já quanto ao carácter inclusivo por excelência, isso nem sequer é questionável. Está implícito na responsabilidade social da Federação e dos próprios orientistas e tem sido uma preocupação desde sempre.

Os seus primeiros atos no cargo tiveram a ver com a participação, em Palmela, na última etapa da Taça de Portugal de Orientação 2013 e com as participações nos Clinics Internacionais promovidos pela Federação portuguesa, primeiro, e depois pela Federação espanhola, em Alicante, no início de Novembro. Quer falar-me dessas experiências?

A. H. - A nossa disciplina é nova e somos muito poucos. Logo, não podemos desperdiçar toda e qualquer oportunidade que surja para nos reunirmos, aprendermos e colocarmos questões. O Clinic de Palmela, como parcela do labor organizativo do Campeonato da Europa de Orientação de Precisão ETOC 2014, foi uma oportunidade que nós, espanhóis, não poderíamos desaproveitar. Knut Ovesen soube transmitir-nos uma parte muito importante da sua longa experiência. Por outro lado, como competidor, não podia perder uma das poucas competições levadas a cabo na Península Ibérica. Também em Alicante, pela primeira vez no historial da FEDO e da Escola Espanhola de Técnicos de Orientação, foi incluída a Orientação de Precisão no mais importante Clinic organizado anualmente em Espanha. Foi mais um passo!

Que estratégias se propõe desenvolver no sentido de promover e dinamizar as actividades de Orientação de Precisão em Espanha?

A. H. - É necessário romper com essa dinâmica de que a Orientação de Precisão não é divertida, que é um “desatino”. Os orientistas não paralímpicos, envolvidos com a modalidade, têm de ser os embaixadores da Orientação de Precisão nas zonas de influência dos seus clubes, organizando competições e cursos de iniciação para todos: Paralímpicos e não só. A Federação não pode – não deve! - fazer tudo. Deve ser, isso sim, o pólo aglutinador, aquele que coordena as mais diversas atividades. Nesse sentido, Roberto Munilla e qualquer outro com vontade de ajudar será muito benvindo. Já faço Orientação há tempo suficiente para saber que, trabalhando em equipa, se chega mais longe, tanto no espaço como no tempo. A experiência diz-me igualmente que não devo iludir-me, visto sermos poucos aqueles dispostos a colaborar e a trabalhar. Seria estupido poder pensar que sou um todo-poderoso. Sou aquele que coordena, não o mais nem o menos importante, apenas mais um, porventura o mais visível.

Que equipa espanhola vamos poder ver em Portugal no próximo ano a disputar o Campeonato da Europa de Orientação de Precisão?

A. H. - Pelo menos eu, a Ana Belén e o José António Tamarit, que já nos conheces. Temos um novo membro na equipa e espero que possa estar disponível nessa altura. Quanto aos atletas paralímpicos, estamos a procurar mas não vai ser fácil.

A Federação Espanhola vai assumir a organização do II Campeonato Ibérico de Orientação de Precisão?

A. H. - Vou dar uma novidade. Se tudo correr normalmente, nos 5 Dias Internacionais de Espanha, evento que decorrerá em Palencia no mês de Agosto (www.o5dias.com), terá lugar uma competição de Orientação de Precisão que iremos fazer com que seja Campeonato Ibérico. É uma pena que não possa ser em Soria em Abril, coincidindo com o Campeonato Ibérico de Orientação Pedestre. Mas devo ser sincero, teria de ser eu a organizá-lo e não tenho tempo. Participar no ETOC e organizar o campeonato de Espanha, ambos os eventos no mês de Abril, é de todo impossível. Não obstante, para os atletas da Pedestre, recomendo que não percam Soria e o mapa de Valonsadero, onde tiveram lugar as Estafetas do EYOC 2010. No futuro teremos Orientação de Precisão neste mapa; o terreno é espetacular e possui condições para o desenho dos percursos tendo em atenção as especificidades desta disciplina.

Foi um dos mentores do projecto que levou à criação de um Grupo no Facebook chamado “Iberia O-Prec”. Qual a importância deste projecto? É apenas uma partilha isolada de experiências ou é sobretudo um exemplo de como podemos e devemos - portugueses e espanhóis – caminhar de mãos dadas?

A. H. - Sou Leonês... para mim Portugal é muito especial e querido, trabalhar em conjunto é algo que, pessoalmente, me emociona. Por outro lado, que o projeto de desenvolva nas redes sociais é o mais lógico nos dias que correm. Primeiro, é o futuro; e depois somos poucos. Necessitamos de estar próximos uns dos outros.

O que espera retirar desta experiência à frente dos destinos da Orientação de Precisão em Espanha?

A. H. - Faço parte duma Junta Diretiva que terminará o seu mandato em 2015 e não posso prever o que se irá passar depois. Até essa data, o meu objetivo é que a Orientação de Precisão em espanha siga crescendo e, mais importante do que tudo, que não estagne quando eu sair. Se isto acontecesse, seria um fracasso. Devemos orientar as nossas atitudes no sentido de criar as bases necessárias sobre as quais assente o futuro da disciplina. Se me é permitido sonhar, estando eu ou outra pessoa à frente dos destinos da Orientação de Precisão em Espanha, posso dizer que descobri já uma zona que dava para um Campeonato do Mundo: Zona de floresta com micro-relevo, acessível de acordo com os requisitos da disciplina, já cartografado com uma equidistância de 2,5 m e muitos quilómetros de mapa.

Agora que nos preparamos para virar a página de mais um ano, pedia-lhe que exprimisse um desejo para 2014.

A. H. - Não posso limitar os votos ao desporto, uma vez que há coisas mais importantes na vida. Para 2014 desejo com todas as minhas forças que tanto em Espanha como em Portugal todas as pessoas que estão desempregadas encontrem um trabalho digno desse nome.


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

ANTÓNIO AMADOR E O MOMENTO ATUAL DA ORIENTAÇÃO PORTUGUESA



António Amador, Diretor Executivo da Federação Portuguesa de Orientação, vem hoje ao Orientovar fazer o balanço de 2013 e perspetivar a temporada que se avizinha. Com os Campeonatos da Europa de Orientação Pedestre e de Orientação de Precisão no centro das atenções, uma entrevista que coloca a tónica na análise ao atual momento da nossa Orientação.


O ano encerra com essa grata notícia do percurso de Sprint do Portugal O' Meeting 2013, em Monsanto, desenhado por Tiago Romão, ter sido considerado “Percurso do Ano” pelo prestigiado site World of O. Como é que viu essa distinção?

António Amador (A. A.) - É mais uma prova da nossa qualidade organizativa e uma nota de prestígio, não apenas para a pessoa que traçou o percurso, como também para o próprio evento. O facto de estar mais uma vez integrado no Portugal O' Meeting vem comprovar a enorme qualidade organizativa deste evento e a forma como atrai todos os melhores atletas mundiais. Só assim consegue afirmar-se, entrando nestas votações e vencendo pelo segundo ano consecutivo.

É verdade que, como refere, é a segunda vez que vencemos - o ano passado com um traçado de percurso do Bruno Nazário e num evento que teve o António Amador, curiosamente, como um dos Diretores do Evento. Esta repetição surpreende-o?

A. A. - O percurso era muito bom e logo na altura recebeu elogios de todos os participantes. Depois é o facto de estar integrado no Portugal O' Meeting e de, logicamente, “correr esse risco” de poder vir a ser considerado o Percurso do Ano. O mesmo percurso, numa prova sem a expressão do Portugal O' Meeting, provavelmente passaria despercebido. É o conjugar de vários fatores, do trabalho técnico do cartógrafo e do traçador de percursos a um evento com esta dimensão.

Centrando-nos naquilo que foi a temporada que agora termina, que balanço faz do ponto de vista competitivo?

A. A. - Temos muitos dos nossos melhores atletas numa fase de transição do seu percurso académico e este foi um ano um bocadinho atípico. Mas não nos podemos esquecer que tivemos das melhores participações de sempre em termos internacionais, com atletas presentes em todas as finais A do Campeonato do Mundo Pedestre. Quanto aos nossos jovens, realmente os resultados no EYOC ficaram abaixo das expectativas, sobretudo porque a competição teve lugar em Portugal e face à forma como eles se prepararam. Mas são ciclos... podemos não ter neste momento um conjunto de atletas com grandes resultados na faixa etária dos 18 aos 20 anos, mas temos uma “fornada” muito interessante a despontar, jovens com muita capacidade e que acreditamos possam vir a alcançar, dentro de um ou dois anos, resultados muito bons em termos internacionais.

E do ponto de vista organizativo e da participação nas provas?

A. A. - O balanço na Pedestre é positivo. Quanto aos eventos, continuamos a ter uma grande qualidade organizativa, continuamos a ter clubes a querer organizar eventos, sobretudo nas vertentes da Pedestre e da BTT, inclusivamente com os calendários de 2015 já completamente fechados. Em termos de participação, conseguimos manter de certa forma estável o número de presenças nas provas, uma vez que ainda há clubes com capacidade para suportar os custos de participação dos seus atletas. Já o balanço na BTT acaba por ser menos positivo, tendo-se verificado uma efetiva quebra nos índices de participação, julgo eu que relacionada com os custos elevados e uma logística mais pesada, aliás em linha de conta com aquilo que tinha já acontecido na temporada anterior. Esta é uma situação que nos preocupa, particularmente numa altura em que Portugal viu ser-lhe atribuída a organização do Campeonato da Europa em 2015 e do Campeonato do Mundo no ano seguinte.

De que forma é que se inverte a situação?

A. A. - São várias as medidas a tomar. A partir da próxima temporada, a Federação Portuguesa de Orientação passará a assumir os custos de participação dos atletas até aos 20 anos nas provas de Orientação em BTT. Também prolongámos a oferta por mais um ano do sistema de gestão de provas, quer para a Orientação em BTT quer para as Corridas de Aventura. São medidas tendentes a reduzir os custos de oganização e a garantir mais algum retorno nestas vertentes. Na Pedestre, a grande alteração tem a ver com a decisão de pôr um ponto final nas provas de Nível 2. Estávamos a perceber que as provas de Nível 1 vinham a ser de certa forma prejudicadas em termos participativos, enquanto as de Nível 2 tinham um labor organizativo e logístico equivalente às de Nível 1 e depois eram prejudicadas pelo facto de serem de Nível 2 e de pontuarem menos para o ranking. Assim, decidimo-nos por esta medida, esperando ir de encontro aos interesses da modalidade e podermos inverter esta tendência de decréscimo de participação nas nossas provas.

É sabido que os recursos da Federação são limitados. Como é que se consegue ir dando “pão a tantas bocas”?

A. A. - Apesar dos cortes sofridos, não fomos das Federações mais penalizadas a este nível. Por outro lado, conforme consta do Relatório e Contas recentemente aprovado, conseguimos um conjunto de receitas próprias que nos permitem ir colmatando esses cortes que vamos tendo. Desde que esta Direção tomou posse, nunca tivemos a necessidade de cortar nas verbas atribuídas às seleções e, pelo contrário, até temos subido alguns montantes.

O segredo das receitas próprias está nessa aposta na organização de competições internacionais?

A. A. - Não tenho números – é uma área na Federação que não me diz tanto respeito – mas julgo que sim. A nossa dependência do IPDJ em 2013 rondou os 30%, sendo o resto receitas próprias. Mas esta aposta nas organizações de âmbito internacional tem outro sentido, para nós igualmente fundamental e que é o de dar a conhecer melhor a modalidade em Portugal. Por outro lado, estas organizações fazem com que haja uma bolsa de voluntários muito valiosa, criando entre si laços que perduram e que são extraordinariamente úteis para a modalidade. Também leva à criação de mapas novos, por vezes em zonas onde a modalidade não tinha chegado ainda, o que constitui igualmente uma significativa mais valia. Mas sim, é verdade que o cunho financeiro destes eventos é um dos aspetos mais relevantes para conseguirmos algum retorno e reinvestirmos esse valor na modalidade.

Falou num melhor conhecimento da modalidade por parte do grande público. É essa a sua convicção?

A. A. - Nós conseguimos ver a modalidade mais presente nos órgãos de comunicação social, não sei se com resultados relevantes ou não. É muito difícil divulgar a Orientação. Enviado aos orgãos de comunicação social um press-release referente a um Campeonato do Mundo, as probabilidades de ser publicado são escassas. Felizmente conseguimos que muitos e bons artigos fossem publicados graças aos parceiros que tivemos nos grandes eventos e acredito que muito mais gente tenha ouvido falar de Orientação. Quanto ao retorno que isso traz para a modalidade, sinceramente é difícil de medir, mas compete-nos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para divulgar os nossos eventos. Tratando-se de eventos de cariz internacional, é mais fácil conseguir a desejada recetividade por parte dos órgãos de comunicação social e, portanto, aí não podemos falhar.

Os eventos vão-se espalhando um pouco por todo o país, há uma multiplicação de esforços no sentido de levar as provas a locais onde os terrenos garantam a necessária qualidade técnica, mas depois continuamos a ver as pessoas, as escolas, as autarquias, de costas voltadas para os próprios eventos e para a Orientação dum modo geral. O trabalho de proximidade parece existir apenas em função do evento e não da modalidade. Isto não o preocupa? Não sei se me fiz compreender...

A. A. - Percebi a pergunta, não sei é o que hei-de responder. Infelizmente, não se tem conseguido fazer avanços significativos nesse capítulo. A propósito do EYOC, nós assinámos protocolos com três autarquias que até se envolveram na organização do evento, mas a verdade é que, praticamente, não tivemos participantes das zonas onde o evento foi organizado. Mas se isto já é mau, pior do que isso é não conseguirmos deixar alguém nos locais – um clube, uma associação – com capacidade para poder divulgar a modalidade e fazer um trabalho posteriormente. Esta devia ser uma das maiores preocupações das organizações quando abraçam um evento fora do seu raio de ação, deixar a semente, deixar lá alguém que prossiga o caminho acabado de começar a ser feito. Mesmo que consigamos trazer a população para o evento, se não houver lá um trabalho de continuidade as coisas acabam por se perder.

Admito que a resistência por parte das escolas, dos professores, em envolverem-se com a modalidade é real mas nós, talvez, também não saibamos “bater à porta” da melhor forma ou com a insistência devida...

A. A. - Eu julgo que é um bocadinho das duas coisas. Há modalidades muito mais fáceis de pôr em prática no Desporto Escolar do que a Orientação. Nós, basicamente, só conseguimos penetrar nas Escolas onde temos professores que praticam a modalidade, e mesmo nesses há, por vezes, uma grande saturação. É muito mais fácil trabalhar com os alunos em pavilhão do que na floresta. Por outro lado, também há clubes que não fazem qualquer tipo de trabalho junto das escolas das zonas onde se inserem. Haver um professor numa escola que decida agarrar o desafio da Orientação é fundamental para que a modalidade se imponha. A minha experiência num clube como o Ori-Estarreja diz-me isso mesmo. Fizemos inúmeras ações junto das escolas da região e sempre sem grandes resultados. Só quando conseguimos ter a Professora Eugénia ou o Professor Paulo Pinto a divulgarem e a pegarem na modalidade dentro das próprias escolas é que os resultados apareceram.

Começando a projetar a próxima temporada, admito que à cabeça das suas preocupações estarão os Campeonatos da Europa, em Abril. Mas antes disso vamos ter pela frente o ciclo de provas WRE, pontuáveis para o ranking mundial, com o ponto alto a centrar-se novamente no Portugal O' Meeting. De que forma antevê este ciclo?

A. A. - A ronda inaugural da Taça do Mundo, na Turquia, e o Portugal O' Meeting são coincidentes em termos de datas. Penso que ao nível da participação de atletas estrangeiros de topo poderemos ser algo prejudicados, mas tenho a certeza que alguns dos melhores atletas do mundo não deixarão de vir a Portugal. Embora sejam estes atletas que dão nome ao evento, é às faixas etárias de maior idade que o Portugal O' Meeting vai buscar o maior volume de participantes e esses vão continuar a vir. Daí que, globalmente, estou confiante que o impacto não seja muito significativo. Quanto aos Campeonatos do Mediterrâneo, penso que aqui o número de participantes será superior ao verificado no primeiro WRE do ano passado, sobretudo pela sua posição mais favorável no calendário, ainda no mês de Fevereiro.

E pouco mais de um mês depois temos aí os Campeonatos da Europa. Que Campeonatos serão estes?

A. A. - Sabemos que estarão cá os melhores atletas do Mundo e vamos criar todas as condições para que o Campeonato da Europa seja um evento à altura daquilo que está em causa. Toda a vertente técnica está a ser acautelada para que possamos ir ao encontro daquilo que os atletas desejam e que é um evento de qualidade superior em termos técnicos; toda a logística está também a ser tratada para que consigamos dar a melhor resposta em termos da envergadura do evento, enfim, estou em crer que iremos organizar um evento muito bom, ao nível das nossas organizações anteriores em termos internacionais. Entretanto, paralelamente, criámos também um evento aberto a todos, o EOC Tour, com a expectativa de podermos ter uma grande participação de atletas estrangeiros. Mas aqui tenho mais dúvidas e, sinceramente, não sei muito bem o que vamos poder esperar em termos de participação nesse evento.

Simultaneamente, teremos a realização do Campeonato da Europa de Orientação de Precisão ETOC 2014. Para o evento, no seu todo, que mais-valias advém desta sobreposição de eventos?

A. A. - Não creio que seja uma mais-valia. Se a organização dum evento desta natureza, só por si, já é complicada, muito mais complicado se torna organizar os dois eventos em simultâneo. São competições diferentes, são publicos-alvo diferentes e, muito sinceramente, penso que a vertente de Precisão só teria a ganhar com o facto de os dois eventos serem disputados em separado. Ainda assim, penso que vamos ter um volume de participações superior àquilo que temos visto nas grandes competições internacionais disputadas até ao momento. A margem de progressão desta disciplina é muito grande e o interesse crescente que a Orientação de Precisão suscita leva-me a acreditar que o número de participantes em competições como os Campeonatos do Mundo ou os Campeonatos da Europa irá crescer exponencialmente nos próximos anos.

Se, por hipótese, viermos a ter duzentos atletas a competir no ETOC - no fundo o dobro dos atletas que estiveram presentes nos últimos Campeonatos da Europa e Campeonatos do Mundo –, isso assusta-o?

A. A. - Não me assusta. Todo o trabalho técnico terá de ser feito de igual forma, quer seja para um atleta, quer seja para duzentos. Naturalmente que o prolongar do tempo de execução de cada uma das provas vai penalizar a organização em termos do cansaço físico. Isto será mais evidente na competição de TempO e nos Pontos Cronometrados, onde há um grande número de pessoas envolvidas e com tarefas muito repetitivas. Não é indiferente estarem ali três horas ou estarem cinco ou seis. Seguramente é mais complicado termos duzentos atletas do que termos cem, mas que venham esses duzentos que nós estaremos à altura para os receber e para lhes proporcionar a qualidade exigida a uma competição deste nível, independentemente do número de participantes.

Que equipa é esta que, liderada por si, irá organizar o ETOC?

A. A. - Começaria por realçar o trabalho que tem sido desenvolvido até ao momento pelo Ricardo Chumbinho. Eu estive envolvido até há bem pouco tempo no Campeonato da Europa de Jovens de Orientação Pedestre e tem sido ele que tem assumido essa coordenação e esse esforço de gestão da equipa. Ele tem tido um trabalho relevante na criação de toda a infra-estrutura para a organização do ETOC. Temos a felicidade do acompanhamento de dois supervisores nomeados pela Federação Internacional de Orientação – o Knut Ovesen e o Ola Wiksell – que perceberam as nossas dificuldades em termos organizativos e têm dado um contributo muito válido e apoiado em todos os aspetos. A sua experiência e conhecimento técnico dão-nos mais garantias para que consigamos organizar um evento de qualidade. Estamos a criar a equipa, os lugares-chave estão definidos, estamos a tentar dar alguma experiência às pessoas e penso que conseguiremos responder de acordo com as necessidades duma organização deste tipo.

Em termos organizativos teremos então um 2014 preenchido pelas provas WRE e pelos Campeonatos da Europa de Pedestre e de Precisão, enquanto na vertente participativa as nossas seleções marcarão presença nas grandes competições internacionais. E em termos pessoais? Como é que vira a página dum ano tão importante e se prepara para abraçar outro, não menos importante?

A. A. - Estas coisas vão deixando as marcas. Este fechar do ano 2013, com a organização do Europeu de Jovens, foi muito cansativo. Somos voluntários nisto, mas temos a nossa atividade profissional e a nossa vida familiar a quem devemos dar prioridade. A verdade é que há situações na Orientação que não se coadunam muito com o “ir fazendo” e estes compromissos assumidos pela Federação são para fazer, não para ir fazendo. Chego ao final de 2013 cansado, sinceramente, e daí estar a tentar recuperar um bocadinho para poder agarrar o ETOC como já deveria ter agarrado. Mas estou em crer que, virando o ano, as forças estarão recuperadas e vamos conseguir levar até ao fim este compromisso dos Europeus.


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

MOÇAMBIQUE: O SONHO COMANDA A VIDA!



O que fazer para mostrar a Orientação às pessoas daqui? Como? Quando?... Como é que se consegue que elas, tendo tão pouco para viver, sintam prazer em pegar num mapa e numa bússola, embrenhando-se na floresta à procura dos pontos?” Aquilo que começou por ser um breve sussurro da alma, depressa se transformou num grito ensurdecedor. Os sonhos podem tornar-se reais e, no mais íntimo de José Samper, o sonho da Orientação em Moçambique acabava de nascer.


A promessa de mais um dia abrasador surgiu com os primeiros raios de sol lançados sobre a terra quente e vermelha. Às seis da manhã, eram muitos aqueles que aproveitavam para fugir ao calor, gozando a suave frescura do Parque Antonio Repinga, em Maputo, para o habitual “jogging” matinal. Uma pessoa passa a correr por outra e dispara: “ - Você é Búlgaro?” A cinta que trazia, onde, em Búlgaro, se encontrava escrito “Amo a Orientação”, denunciara-o. “ - Não, sou espanhol mas corri na Bulgária”, respondeu. “ - Eu estudei Educação Física na Bulgária”, disse o primeiro, à medida que se afastava. Uns dez minutos mais tarde, não mais, quiseram as voltas do destino que se voltassem a cruzar, retomando a conversa: “ - Sabe, eu sou o Ministro da Educação e do Desporto de Moçambique. Gostava de conversar consigo no meu gabinete. Pode ser às 10?”

Estávamos no início de 2001 e José Samper encontrava-se em Moçambique há apenas quatro meses. Tinha dito adeus à carreira militar e começara a dirigir a Comissão Técnica de Orientação da Spanish Grouping of Orienteering Clubs (percursora da Spanish Orienteering Federation) mas a sua presença ali nada tinha a ver com o desporto ou com a Orientação em particular. Apesar disso, o projeto de cooperação na área da agro-pecuária não o impedia de olhar à sua volta e de se perguntar o que fazer para mostrar a Orientação às pessoas daqui. Como conseguir que elas, tendo tão pouco para viver, sintam prazer em pegar num mapa e numa bússola e se embrenhem na floresta à procura dos pontos, era uma pergunta condenada a ficar sem resposta neste que é o terceiro País mais pobre do Mundo. E agora a resposta e a oportunidade estavam ali, isso mesmo podia Samper ler nos olhos de Joel Libombo, tal como ele mais um “louco” neste “mundo de loucos” que é o desporto.


Cooperação desportiva, um compromisso

Esta história “como nos filmes”, este encontro fortuito e a conversa que se lhe seguiu no Gabinete do Ministro Libombo, foi a semente que germinou e que trouxe em 2004 o seu primeiro fruto. Na história do desporto moçambicano, firmava-se nesse ano a primeira cooperação desportiva de sempre com uma entidade estrangeira, no caso concreto com a Federação Espanhola de Orientação. Mas entre o primeiro contacto e esta data histórica há todo um longo e árduo percurso feito de paciência, dedicação e amor à Orientação e a Moçambique.

Quando, a 27 de Julho de 2004, José Samper desembarca uma vez mais no Aeroporto Internacional de Maputo com o propósito de colaborar no impulso final da criação da Federação Moçambicana de Orientação, para trás ficavam dois anos e meio de dedicação e muito trabalho, as aulas com os escuteiros moçambicanos à sexta feira à tarde no Colégio da Polana, a aventura que foi o desenho do mapa da Ilha Xefina com naufrágio incluído, os “percursos” de Orientação no Parque António Repinga e todo um trabalho silencioso e constante da Liga Nacional dos Escuteiros de Moçambique, da Agência Espanhola de Cooperação Internacional e da Federação Espanhola de Orientação para conseguir que o Conselho Superior dos Desportos de Espanha e o Ministério da Juventude e do Desporto de Moçambique firmassem esse primeiro compromisso de cooperação desportiva.


Associação de Orientação Cidade de Maputo

Normalizada a parte administrativa do Convénio, foi a vez de arrancar com as ações no terreno. Mas logo aí surge um primeiro grande revés. Se é verdade que a colaboração da Liga Nacional dos Escuteiros de Moçambique foi preciosa desde o primeiro instante no processo de implementação da Orientação naquele país africano, não é menos verdade que a Liga acabou por constituir-se num factor constrangedor da evolução do próprio processo, pelo menos no que respeita aos seus propósitos originais. Ao contrário da Liga, que pretendia ver a prática da Orientação restringida exclusivamente aos seus associados, Samper sonhava com um projeto muito mais abrangente, um projeto em que todos – escolas, universidades, clubes – tivessem acesso à prática da modalidade num mesmo plano. Essa seria uma condição indispensável para a criação da Federação Moçambicana de Orientação. Os caminhos da história levam a que a Liga se demarque do processo a partir de 2004 e ainda hoje se está por saber que resultados teriam sido alcançados se as coisas se passassem tal como a Liga dos Escuteiros pretendia. Mas estes são os factos.

Procurava-se agora uma pessoa que, em Moçambique, pudesse liderar o projeto, uma pessoa que juntasse ao conhecimento da prática desportiva alguma experiência na área do ensino, que tivesse a necessária solvência económica, que fosse jovem e ambicioso mas que, acima de tudo, acreditasse no projeto da Orientação para Moçambique. E foi assim que surgiu o nome de Arnaldo Junior Machevene que, juntamente com os “dissidentes” da Liga Nacional de Escuteiros, Neuso Sigauque, Nuno Cossa e Cardoso Olimpo, criaram a 11 de janeiro de 2004 a Associação de Orientação da Cidade de Maputo (AOCM), entidade que viria a ser reconhecida oficialmente no dia 17 de outubro de 2007, conforme estatutos publicados no Boletim da República de Moçambique.


De 2004 a 2007

Os primeiros passos da nova Associação deram indicações de muito empenho e ambição. Assim, em 24 de Abril de 2004, a AOCM organizou a I Etapa de Divulgação de Orientação, a primeira prova oficial em Moçambique. A presença de um atleta moçambicano na Taça dos Países Latinos em 2004 (Vila Real, Portugal) e em 2005 (Sevilha, Espanha), bem como a participação com oito atletas no Torneio Internacional alusivo aos 25 anos da Federação Sul Africana de Orientação (África do Sul, Fevereiro de 2006), são marcos distintivos dos primórdios da Orientação moçambicana. Em 2006, foram organizados diversos eventos de Orientação em Moçambique, entre os quais o 1º Curso de Orientação para Técnicos de Nível 1, ao qual assistiram 30 formandos, e os 15 km de Orientação na Catembe, que contou com a presença do Diretor-Geral de Educação de Moçambique e teve cobertura televisiva na televisão estatal moçambicana.

No início de 2007, o mítico campeão do mundo Jorgen Martensson visitou Maputo, tendo sido preparada uma competição no Parque dos Continuadores e na qual participaram 300 crianças. A impressão de Martensson foi extraordinariamente positiva, selando o compromisso de colaborar na organização e promoção duma prova internacional em Moçambique, a qual teve lugar no mês de Novembro e contou com a participação de uma centena de atletas nórdicos. Mas o ano de 2007 não foi apenas importante por este facto e pelo reconhecimento governamental da Associação de Orientação da Cidade de Maputo já referido anteriormente. Na sua reunião de Helsinquia, em 19 a 21 de Janeiro, o Conselho da IOF viria a conceder àquela entidade o estatuto de provisional associate member, ratificado em Agosto do ano seguinte, na República Checa, no decurso da XXIV IOF Ordinary General Assembly.


Estagnação

O entusiasmo inicial resultante do 1º Curso de Orientação para Técnicos de Nível 1 começa a arrefecer. Aos trinta formandos pedia-se agora que trabalhassem durante dois anos no ensino da Orientação em Escolas, centros religiosos ou culturais, bairros ou onde quer que fosse, para que lhes pudesse ser outorgada a titulação definitiva. Pedia-se também que, para desenvolver as ditas atividades, realizassem os mapas elementares necessários, tendo a Federação Espanhola de Orientação, subvencionada pelo Conselho Superior dos Desportos de Espanha, oferecido para o efeito um computador portátil, com o programa OCAD instalado.

A verdade, porém, é que os progressos nos anos seguintes foram praticamente nulos. A principal causa desta situação teve a ver com a falta de meios, tornando-se clara a impossibilidade em avançar com um projeto que acabou por se confrontar com uma total falta de apoios. A verdade é que não havia dinheiro para pagar aos monitores formados para dar aulas nas Escolas e nenhum deles logrou alcançar a desejada titulação. Nem mesmo o Presidente da Associação de Orientação de Maputo, Arnaldo Junior, que entretanto deixaria Moçambique em busca dum futuro melhor, obrigando à reestruturação de todo o projecto.


Presença histórica nos Mundiais de Desporto Escolar

Teremos de avançar no tempo até 2013 para vermos a Orientação moçambicana sair do limbo onde caíra graças à presença de quatro alunos da Casa do Gaiato de Moçambique nos Campeonatos do Mundo de Orientação de Desporto Escolar ISF, que tiveram lugar no Algarve, Portugal. No plano técnico, toda a operação teve na Federação Espanhola de Orientação o seu suporte básico, enquanto no âmbito financeiro e logístico, revestiu-se de grande importância a colaboração da Fundação Mozambique Sur, uma organização não-governamental localizada em Madrid, bem como de muitos orientistas espanhóis que se coletaram para viabilizar esta presença histórica.

Embora a participação moçambicana não tivesse caráter oficial – Moçambique não é membro da ISF – Vasco João, Alexandre Samuel Mungambe, Edgar Mário Felisberto e Joaquim Perezza Macinga tiveram uma presença extraordinária, colocaram a 'alma' em todas as atividades, deram tudo o que tinham e foram, também eles, verdadeiros protagonistas deste Campeonato do Mundo. Capazes de suportar os treinos intensos durante uma semana, desde a alva até ao por do sol, com frio, com chuva, os “quatro mosqueteiros” deixaram bem vincado o propósito de completar as suas provas de forma digna e não serem meras anedotas. Competiram de forma desigual com atletas que se prepararam para esta competição durante três ou quatro anos, que possuem todos os meios e que participaram em dezenas de competições até chegar aqui. Mas conseguiram alcançar plenamente os seus objetivos e devem estar orgulhosos pelo trabalho realizado e pelos resultados alcançados.


Projetos para o futuro

Embora a Associação de Orientação da Cidade de Maputo mantenha nos dias de hoje alguma atividade – o Diretor Técnico da Associação, Nuno Cossa, participou este ano no Clinic O-Ringen, na Suécia -, o momento atual da Orientação em Moçambique vive, basicamente, do trabalho desenvolvido pela Casa do Gaiato de Moçambique, sob a coordenação de José Samper. Para o efeito, aquele técnico desloca-se um mês por ano a Moçambique e recebe em Espanha alguns elementos da Escola moçambicana durante igual período. Na Escola Casa do Gaiato o trabalho é dirigido e coordenado por Raúl Canovas, um técnico voluntário espanhol e ainda, quando a disponibilidade o permite, pelo austríaco Gert Blinder. É um trabalho dirigido a dois grupos distintos, um com doze jovens nascidos em 1998 e 1999 e o outro com vinte jovens nascidos em 2000 e 2001. O treino técnico é feito muitas vezes com recurso à fotografia aérea, pelo que uma das necessidades mais prementes é a execução de mapas. Os cooperantes voluntários cartógrafos são benvindos – a Escola suporta os custos da estadia e alojamento -, na certeza duma experiência que não será facilmente esquecida.

Mas não só de cartógrafos precisa a Orientação em Moçambique para que possa crescer e desenvolver-se. Este é um projeto que deve, por si só, “falar ao coração” de todos e de cada um que ama a Orientação. Imagine-se o quão maravilhoso seria ver as Federações que têm mais tradições e recursos “adoptarem” uma Escola moçambicana ou de outro país africano, de forma séria, comprometida. Neste momento encontra-se em fase de preparação um projeto que procurará atrair orientistas de todo o mundo, oferecendo-lhes excelentes condições de alojamento na Paia de Bilene a troco, tão somente, da partilha de conhecimentos. Este insere-se num projeto mais amplo e designado “Orienteering Africa”, cujos pressupostos serão muito em breve apresentados na página que está a ser criada para o efeito em www.orienteeringAfrika.com. E que bonito seria ver “jovens orientistas” de cabelos brancos de todo o mundo a ensinarem os alunos das Escolas moçambicanas. Poderá haver propósitos mais nobres do que aqueles que se afirmam pelo quebrar de barreiras e pelo esbater de diferenças?


Mais trabalho, melhor trabalho

O programa para 2014 já se encontra devidamente estruturado e passa pela seleção, já em Março, dos jovens que estarão presentes no Silva O-Camp, na República Checa e nalgumas provas em Espanha durante os meses de Julho e Agosto. Este intercâmbio ocorre ao abrigo dum protocolo visando a integração através da Orientação, coordenado pela Fundação Moçambique Sul e pela Federação Espanhola de Orientação e envolvendo também os Centros Educativos de Espanha. Por outro lado, e numa altura em que Moçambique desenvolve esforços no sentido de se associar à ISF – Federação Internacional do Desporto Escolar - prossegue o trabalho de observação e de seleção visando a formação duma equipa de quatro jovens atletas que representarão o país nos Campeonatos do Mundo de Orientação de Desporto Escolar WSCO 2015, que terão lugar na Turquia.

As últimas palavras são de José Samper, o “pai” da Orientação em Moçambique, respigadas da carta escrita ao Padre José Maria, Diretor da Casa do Gaiato de Moçambique, no rescaldo dos Campeonatos do Mundo de Desporto Escolar ISF 2013. Palavras que servem de balanço do trabalho realizado, que são o espelho dum tempo presente e lançam um olhar de esperança no futuro. “Impossível não me sentir feliz e orgulhoso quando, depois de quatro horas de competição na montanha, encontrei uma das crianças já próximo da meta, esgotada, bebendo água num riacho, mas disposta a chegar à meta a todo o custo; impossível não me sentir contente e grato quando os via ensaiar, no final de cada dia, a dança do festival; impossível não me sentir contente com o aplauso e carinho de todas as nações, dos portugueses, à sua passagem no desfile inaugural e à entrada no estádio, eu sendo um moçambicano mais; impossível não me sentir feliz com o carinho dispensado pelos meus meninos e meninas espanhóis aos meus meninos de Moçambique. Este foi e será o estímulo para o trabalho diário de muitos Gaiatos. Os sonhos podem tornar-se reais!”

Joaquim Margarido

[Leia a versão original do artigo em http://www.orienteering.org/edocker/inside-orienteering/2013-6/InsideOrient%206_13.pdf. Publicação devidamente autorizada por Federação Internacional de Orientação]