sábado, 28 de dezembro de 2013

VERA ALVAREZ: "O SEGREDO É O TRABALHO"



Grande figura feminina da Orientação portuguesa na temporada que agora termina, Vera Alvarez é a convidada de hoje do Orientovar. Juntando ao título nacional Absoluto, os títulos de Sprint, Distância Média e Estafetas e ainda a vitória na Taça de Portugal, a atleta alcançou um feito inédito na história da nossa Orientação, sendo este um dos temas da Entrevista. Mas há mais, muito mais!


Partiu para os Campeonatos Nacionais Absolutos na liderança do ranking da Taça de Portugal e acabou por confirmar 'em absoluto' uma vitória mais que merecida, juntando aos títulos nacionais de Estafetas, Sprint e Distância Média também o título nacional Absoluto. Com esta “cereja no topo do bolo”, conseguiu atingir todos os objetivos a que se tinha proposto no início da temporada?

Vera Alvarez (V. A.) - No início da época defino sempre os meus objectivos, sendo que esta época centrei a minha atenção na preparação para o JWOC. Este ano, em território português, não sabia bem o que esperar e estava um pouco receosa em relação aos resultados que poderia vir a obter, mas sabia que ganhar estava dentro das minhas possibilidades. No final, a sorte sorriu do meu lado e presenteou o meu esforço com os resultados nos Campeonatos Nacionais. Apresentei-me bem fisicamente, confiante e ganhei o Sprint, a Média e as Estafetas (com a preciosa ajuda da Mariana Moreira e da Susana Pontes). No entanto, lesionei-me duas semanas antes do JWOC e foi-me praticamente impossível fazer as provas ao nível a que queria, ficando muito longe dos meus principais objectivos. Assim sendo, não considero a minha vitória nos Absolutos como a "cereja no topo do bolo", mas sim como um bom sinal e incentivo para o ano que se avizinha.

Com que motivação encarou as derradeiras etapas da Taça de Portugal e como viu a conquista do título nacional absoluto?

V. A. - Toda esta época foi bastante diferente do que me habituei até agora na Orientação. E diferente para melhor! Desde os Iniciados que, mesmo competindo sempre num escalão acima da minha idade, me sinto sozinha em competição e sem necessidade de fazer uma grande prova para ganhar. Para ultrapassar esta questão, sempre me prendi às provas internacionais para fazer mais e melhor. Este ano não foi preciso fazer isto, sentindo claramente que a competitividade, bem como as derrotas ao longo desta temporada, me motivaram ainda mais a evoluir como atleta. Quando não ganhava, saía da prova com uma força extra para treinar e trabalhar de forma a que na próxima vez a situação não se repetisse. Neste sentido, encarei as etapas da Taça de Portugal de uma forma muito mais séria este ano. Quanto aos absolutos, esta é uma prova que já há uns anos sinto que tenho capacidade para ganhar, mas em que tenho sempre problemas: não pude participar várias vezes, já fui desclassificada na qualificatória, fiz sempre más provas na final... até ao ano passado, quando deitei tudo a perder mesmo no fim e acabei por ficar a 26 segundos do título. Este ano queria contrariar esta tendência de uma vez por todas e, por isso, esta foi uma vitória com um sabor especial.

Em todo este processo, nesta combinação de sucesso, onde é que reside o segredo?

V. A. - Segredo... Bem, não diria que é segredo. É preciso treinar para ter resultados e se não há trabalho, não há sucesso. Claro que não posso negar que todo o apoio familiar que tenho, assim como a experiência que tenho vindo a ganhar nos últimos anos, jogam sempre a meu favor. No entanto, estes fatores por si só não determinam o sucesso. Eu consigo sentir perfeitamente que quando faço mais erros técnicos é quando estou mal fisicamente. Quando estou em forma, tudo isto se inverte: sinto-me focada, determinada, confiante que vou fazer uma boa prova e muitas vezes isso acontece. O segredo é o trabalho e só é preciso vontade para o concretizar.

Quer falar-me um pouco do seu dia-a-dia?

V. A. - Sendo estudante do segundo ano de Medicina, preciso de dedicar muito tempo ao estudo e este ano está a ser mais complicado não só por ter aulas todos os dias como também por gastar mais de duas horas em transportes por dia. Tenho horários de aulas muito variáveis dependendo dos dias da semana mas predominantemente são à tarde. Assim sendo, em dia de treino bidiário, corro mal acordo. Se não for, limito-me a estudar até à hora a que preciso de ir para a faculdade. No final das aulas volto a casa pelas 19 horas e corro por volta das 20h/21h. Depois do treino ainda volto ao estudo até me deitar, geralmente tarde. Em todo este processo sinto que faria bastante diferença ter companheiros de treino pois não gosto especialmente de correr sozinha todos os dias.

Esta foi uma temporada claramente atípica. Basta ver que nenhum dos três primeiros classificados do ranking da Taça de Portugal em Homens Elite esteve presente nos Campeonatos do Mundo para se perceber facilmente que há aqui coisas, no mínimo, estranhas. Como é que avalia a temporada 2013 da orientação portuguesa?

V. A. - Claramente que o ranking da Taça de Portugal, não sendo levado com o mesmo empenho por todos os atletas, não reflecte de uma forma clara o valor dos atletas nacionais. Embora a orientação portuguesa agora tenha esta época anual, nós continuamos a trabalhar para estar em forma em junho e julho, quando são os mundiais, e a descansar nas férias de Verão. Dado tudo isto, e não esquecendo as frequentes lesões que muitos atletas sofrem, é natural que o ranking da Taça de Portugal não seja um objectivo para muitos de nós. Nesta temporada vários atletas que poderiam ter dado um diferente rumo aos rankings estiveram ausentes pelas mais variadas razões, sendo que não nos podemos basear no ranking para avaliar 2013. Assim sendo, baseio-me nos excelentes resultados do WOC para dizer que esta foi uma boa temporada na orientação portuguesa, pelo menos na vertente masculina. A vertente feminina é mais difícil de avaliar, mas creio que em alguns momentos se denota evolução.

A verdade é que Portugal não apresentou qualquer atleta feminina nos Mundiais de Vuokatti. Vê isto como um desinvestimento na categoria feminina de elite ou tratou-se duma situação apenas conjuntural?

V. A. - A orientação masculina é muito mais competitiva e isso ninguém pode negar. É assim em todo o mundo. Ainda assim, não concordo que sejamos desvalorizadas pois nós não temos culpa que isto aconteça e trabalhamos para fazer a nossa parte. A situação, embora também provocada por condições conjunturais, deixou-nos descontentes.

E em termos globais, qual é para si o momento ou a personalidade que marcam a temporada que agora chega ao fim?

V. A. - Simone Niggli, sempre e mais uma vez. Saiu em grande!

O ponto alto da temporada em Portugal costuma ser o Portugal O' Meeting. Este ano, contudo, teremos em Abril os Europeus a monopolizar o grosso das atenções. Quer falar-nos de um e de outro, no primeiro caso porque se trata duma organização do seu clube e no segundo caso porque irá, pela primeira vez, representar Portugal ao mais alto nível?

V. A. - Embora, por motivos académicos, não possa estar tão dentro da organização do Portugal O' Meeting como pretendia, o CPOC está a fazer um excelente trabalho e tenho a certeza que vai ser uma prova a recordar. O essencial está feito: uns mapas fantásticos! Quanto aos Europeus sem dúvida que é uma excelente oportunidade para eu me estrear numa competição sénior. Será brutal estar nos EOC em solo português e espero representar Portugal da melhor forma.

Que outros objetivos traça para o próximo ano, tanto no plano pessoal/profissional como no desportivo?

V. A. - A nível académico este ano será (está a ser) bastante complicado. Sendo assim, o meu principal objectivo a nível académico/pessoal é fazer todas as disciplinas e o mais cedo possível para poder dedicar mais tempo aos treinos. Preciso de muito tempo para estudar, mas como quero aumentar bastante a carga de treino este ano vai ser preciso muita ginástica... No plano desportivo, tendo em conta que esta será a minha última época de júnior, o JWOC será a grande competição a ter em conta. A nível nacional, os meus objectivos passam sempre por ganhar tudo o que conseguir, se estiver em condições para tal. Por isso mesmo, todos os campeonatos nacionais e o ranking são inevitavelmente incluídos nos objectivos.

A terminar – e até porque estamos perto de virar a página de mais um ano – pedia-lhe que exprimisse um desejo para 2014.

V. A. - Saúde! Só lhe damos valor quando não a temos (ou quando passamos o dia a estudar doenças...). A este desejo incluo também a ausência de lesões a todos nós. Bom 2014! :)


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

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