segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

MOÇAMBIQUE: O SONHO COMANDA A VIDA!



O que fazer para mostrar a Orientação às pessoas daqui? Como? Quando?... Como é que se consegue que elas, tendo tão pouco para viver, sintam prazer em pegar num mapa e numa bússola, embrenhando-se na floresta à procura dos pontos?” Aquilo que começou por ser um breve sussurro da alma, depressa se transformou num grito ensurdecedor. Os sonhos podem tornar-se reais e, no mais íntimo de José Samper, o sonho da Orientação em Moçambique acabava de nascer.


A promessa de mais um dia abrasador surgiu com os primeiros raios de sol lançados sobre a terra quente e vermelha. Às seis da manhã, eram muitos aqueles que aproveitavam para fugir ao calor, gozando a suave frescura do Parque Antonio Repinga, em Maputo, para o habitual “jogging” matinal. Uma pessoa passa a correr por outra e dispara: “ - Você é Búlgaro?” A cinta que trazia, onde, em Búlgaro, se encontrava escrito “Amo a Orientação”, denunciara-o. “ - Não, sou espanhol mas corri na Bulgária”, respondeu. “ - Eu estudei Educação Física na Bulgária”, disse o primeiro, à medida que se afastava. Uns dez minutos mais tarde, não mais, quiseram as voltas do destino que se voltassem a cruzar, retomando a conversa: “ - Sabe, eu sou o Ministro da Educação e do Desporto de Moçambique. Gostava de conversar consigo no meu gabinete. Pode ser às 10?”

Estávamos no início de 2001 e José Samper encontrava-se em Moçambique há apenas quatro meses. Tinha dito adeus à carreira militar e começara a dirigir a Comissão Técnica de Orientação da Spanish Grouping of Orienteering Clubs (percursora da Spanish Orienteering Federation) mas a sua presença ali nada tinha a ver com o desporto ou com a Orientação em particular. Apesar disso, o projeto de cooperação na área da agro-pecuária não o impedia de olhar à sua volta e de se perguntar o que fazer para mostrar a Orientação às pessoas daqui. Como conseguir que elas, tendo tão pouco para viver, sintam prazer em pegar num mapa e numa bússola e se embrenhem na floresta à procura dos pontos, era uma pergunta condenada a ficar sem resposta neste que é o terceiro País mais pobre do Mundo. E agora a resposta e a oportunidade estavam ali, isso mesmo podia Samper ler nos olhos de Joel Libombo, tal como ele mais um “louco” neste “mundo de loucos” que é o desporto.


Cooperação desportiva, um compromisso

Esta história “como nos filmes”, este encontro fortuito e a conversa que se lhe seguiu no Gabinete do Ministro Libombo, foi a semente que germinou e que trouxe em 2004 o seu primeiro fruto. Na história do desporto moçambicano, firmava-se nesse ano a primeira cooperação desportiva de sempre com uma entidade estrangeira, no caso concreto com a Federação Espanhola de Orientação. Mas entre o primeiro contacto e esta data histórica há todo um longo e árduo percurso feito de paciência, dedicação e amor à Orientação e a Moçambique.

Quando, a 27 de Julho de 2004, José Samper desembarca uma vez mais no Aeroporto Internacional de Maputo com o propósito de colaborar no impulso final da criação da Federação Moçambicana de Orientação, para trás ficavam dois anos e meio de dedicação e muito trabalho, as aulas com os escuteiros moçambicanos à sexta feira à tarde no Colégio da Polana, a aventura que foi o desenho do mapa da Ilha Xefina com naufrágio incluído, os “percursos” de Orientação no Parque António Repinga e todo um trabalho silencioso e constante da Liga Nacional dos Escuteiros de Moçambique, da Agência Espanhola de Cooperação Internacional e da Federação Espanhola de Orientação para conseguir que o Conselho Superior dos Desportos de Espanha e o Ministério da Juventude e do Desporto de Moçambique firmassem esse primeiro compromisso de cooperação desportiva.


Associação de Orientação Cidade de Maputo

Normalizada a parte administrativa do Convénio, foi a vez de arrancar com as ações no terreno. Mas logo aí surge um primeiro grande revés. Se é verdade que a colaboração da Liga Nacional dos Escuteiros de Moçambique foi preciosa desde o primeiro instante no processo de implementação da Orientação naquele país africano, não é menos verdade que a Liga acabou por constituir-se num factor constrangedor da evolução do próprio processo, pelo menos no que respeita aos seus propósitos originais. Ao contrário da Liga, que pretendia ver a prática da Orientação restringida exclusivamente aos seus associados, Samper sonhava com um projeto muito mais abrangente, um projeto em que todos – escolas, universidades, clubes – tivessem acesso à prática da modalidade num mesmo plano. Essa seria uma condição indispensável para a criação da Federação Moçambicana de Orientação. Os caminhos da história levam a que a Liga se demarque do processo a partir de 2004 e ainda hoje se está por saber que resultados teriam sido alcançados se as coisas se passassem tal como a Liga dos Escuteiros pretendia. Mas estes são os factos.

Procurava-se agora uma pessoa que, em Moçambique, pudesse liderar o projeto, uma pessoa que juntasse ao conhecimento da prática desportiva alguma experiência na área do ensino, que tivesse a necessária solvência económica, que fosse jovem e ambicioso mas que, acima de tudo, acreditasse no projeto da Orientação para Moçambique. E foi assim que surgiu o nome de Arnaldo Junior Machevene que, juntamente com os “dissidentes” da Liga Nacional de Escuteiros, Neuso Sigauque, Nuno Cossa e Cardoso Olimpo, criaram a 11 de janeiro de 2004 a Associação de Orientação da Cidade de Maputo (AOCM), entidade que viria a ser reconhecida oficialmente no dia 17 de outubro de 2007, conforme estatutos publicados no Boletim da República de Moçambique.


De 2004 a 2007

Os primeiros passos da nova Associação deram indicações de muito empenho e ambição. Assim, em 24 de Abril de 2004, a AOCM organizou a I Etapa de Divulgação de Orientação, a primeira prova oficial em Moçambique. A presença de um atleta moçambicano na Taça dos Países Latinos em 2004 (Vila Real, Portugal) e em 2005 (Sevilha, Espanha), bem como a participação com oito atletas no Torneio Internacional alusivo aos 25 anos da Federação Sul Africana de Orientação (África do Sul, Fevereiro de 2006), são marcos distintivos dos primórdios da Orientação moçambicana. Em 2006, foram organizados diversos eventos de Orientação em Moçambique, entre os quais o 1º Curso de Orientação para Técnicos de Nível 1, ao qual assistiram 30 formandos, e os 15 km de Orientação na Catembe, que contou com a presença do Diretor-Geral de Educação de Moçambique e teve cobertura televisiva na televisão estatal moçambicana.

No início de 2007, o mítico campeão do mundo Jorgen Martensson visitou Maputo, tendo sido preparada uma competição no Parque dos Continuadores e na qual participaram 300 crianças. A impressão de Martensson foi extraordinariamente positiva, selando o compromisso de colaborar na organização e promoção duma prova internacional em Moçambique, a qual teve lugar no mês de Novembro e contou com a participação de uma centena de atletas nórdicos. Mas o ano de 2007 não foi apenas importante por este facto e pelo reconhecimento governamental da Associação de Orientação da Cidade de Maputo já referido anteriormente. Na sua reunião de Helsinquia, em 19 a 21 de Janeiro, o Conselho da IOF viria a conceder àquela entidade o estatuto de provisional associate member, ratificado em Agosto do ano seguinte, na República Checa, no decurso da XXIV IOF Ordinary General Assembly.


Estagnação

O entusiasmo inicial resultante do 1º Curso de Orientação para Técnicos de Nível 1 começa a arrefecer. Aos trinta formandos pedia-se agora que trabalhassem durante dois anos no ensino da Orientação em Escolas, centros religiosos ou culturais, bairros ou onde quer que fosse, para que lhes pudesse ser outorgada a titulação definitiva. Pedia-se também que, para desenvolver as ditas atividades, realizassem os mapas elementares necessários, tendo a Federação Espanhola de Orientação, subvencionada pelo Conselho Superior dos Desportos de Espanha, oferecido para o efeito um computador portátil, com o programa OCAD instalado.

A verdade, porém, é que os progressos nos anos seguintes foram praticamente nulos. A principal causa desta situação teve a ver com a falta de meios, tornando-se clara a impossibilidade em avançar com um projeto que acabou por se confrontar com uma total falta de apoios. A verdade é que não havia dinheiro para pagar aos monitores formados para dar aulas nas Escolas e nenhum deles logrou alcançar a desejada titulação. Nem mesmo o Presidente da Associação de Orientação de Maputo, Arnaldo Junior, que entretanto deixaria Moçambique em busca dum futuro melhor, obrigando à reestruturação de todo o projecto.


Presença histórica nos Mundiais de Desporto Escolar

Teremos de avançar no tempo até 2013 para vermos a Orientação moçambicana sair do limbo onde caíra graças à presença de quatro alunos da Casa do Gaiato de Moçambique nos Campeonatos do Mundo de Orientação de Desporto Escolar ISF, que tiveram lugar no Algarve, Portugal. No plano técnico, toda a operação teve na Federação Espanhola de Orientação o seu suporte básico, enquanto no âmbito financeiro e logístico, revestiu-se de grande importância a colaboração da Fundação Mozambique Sur, uma organização não-governamental localizada em Madrid, bem como de muitos orientistas espanhóis que se coletaram para viabilizar esta presença histórica.

Embora a participação moçambicana não tivesse caráter oficial – Moçambique não é membro da ISF – Vasco João, Alexandre Samuel Mungambe, Edgar Mário Felisberto e Joaquim Perezza Macinga tiveram uma presença extraordinária, colocaram a 'alma' em todas as atividades, deram tudo o que tinham e foram, também eles, verdadeiros protagonistas deste Campeonato do Mundo. Capazes de suportar os treinos intensos durante uma semana, desde a alva até ao por do sol, com frio, com chuva, os “quatro mosqueteiros” deixaram bem vincado o propósito de completar as suas provas de forma digna e não serem meras anedotas. Competiram de forma desigual com atletas que se prepararam para esta competição durante três ou quatro anos, que possuem todos os meios e que participaram em dezenas de competições até chegar aqui. Mas conseguiram alcançar plenamente os seus objetivos e devem estar orgulhosos pelo trabalho realizado e pelos resultados alcançados.


Projetos para o futuro

Embora a Associação de Orientação da Cidade de Maputo mantenha nos dias de hoje alguma atividade – o Diretor Técnico da Associação, Nuno Cossa, participou este ano no Clinic O-Ringen, na Suécia -, o momento atual da Orientação em Moçambique vive, basicamente, do trabalho desenvolvido pela Casa do Gaiato de Moçambique, sob a coordenação de José Samper. Para o efeito, aquele técnico desloca-se um mês por ano a Moçambique e recebe em Espanha alguns elementos da Escola moçambicana durante igual período. Na Escola Casa do Gaiato o trabalho é dirigido e coordenado por Raúl Canovas, um técnico voluntário espanhol e ainda, quando a disponibilidade o permite, pelo austríaco Gert Blinder. É um trabalho dirigido a dois grupos distintos, um com doze jovens nascidos em 1998 e 1999 e o outro com vinte jovens nascidos em 2000 e 2001. O treino técnico é feito muitas vezes com recurso à fotografia aérea, pelo que uma das necessidades mais prementes é a execução de mapas. Os cooperantes voluntários cartógrafos são benvindos – a Escola suporta os custos da estadia e alojamento -, na certeza duma experiência que não será facilmente esquecida.

Mas não só de cartógrafos precisa a Orientação em Moçambique para que possa crescer e desenvolver-se. Este é um projeto que deve, por si só, “falar ao coração” de todos e de cada um que ama a Orientação. Imagine-se o quão maravilhoso seria ver as Federações que têm mais tradições e recursos “adoptarem” uma Escola moçambicana ou de outro país africano, de forma séria, comprometida. Neste momento encontra-se em fase de preparação um projeto que procurará atrair orientistas de todo o mundo, oferecendo-lhes excelentes condições de alojamento na Paia de Bilene a troco, tão somente, da partilha de conhecimentos. Este insere-se num projeto mais amplo e designado “Orienteering Africa”, cujos pressupostos serão muito em breve apresentados na página que está a ser criada para o efeito em www.orienteeringAfrika.com. E que bonito seria ver “jovens orientistas” de cabelos brancos de todo o mundo a ensinarem os alunos das Escolas moçambicanas. Poderá haver propósitos mais nobres do que aqueles que se afirmam pelo quebrar de barreiras e pelo esbater de diferenças?


Mais trabalho, melhor trabalho

O programa para 2014 já se encontra devidamente estruturado e passa pela seleção, já em Março, dos jovens que estarão presentes no Silva O-Camp, na República Checa e nalgumas provas em Espanha durante os meses de Julho e Agosto. Este intercâmbio ocorre ao abrigo dum protocolo visando a integração através da Orientação, coordenado pela Fundação Moçambique Sul e pela Federação Espanhola de Orientação e envolvendo também os Centros Educativos de Espanha. Por outro lado, e numa altura em que Moçambique desenvolve esforços no sentido de se associar à ISF – Federação Internacional do Desporto Escolar - prossegue o trabalho de observação e de seleção visando a formação duma equipa de quatro jovens atletas que representarão o país nos Campeonatos do Mundo de Orientação de Desporto Escolar WSCO 2015, que terão lugar na Turquia.

As últimas palavras são de José Samper, o “pai” da Orientação em Moçambique, respigadas da carta escrita ao Padre José Maria, Diretor da Casa do Gaiato de Moçambique, no rescaldo dos Campeonatos do Mundo de Desporto Escolar ISF 2013. Palavras que servem de balanço do trabalho realizado, que são o espelho dum tempo presente e lançam um olhar de esperança no futuro. “Impossível não me sentir feliz e orgulhoso quando, depois de quatro horas de competição na montanha, encontrei uma das crianças já próximo da meta, esgotada, bebendo água num riacho, mas disposta a chegar à meta a todo o custo; impossível não me sentir contente e grato quando os via ensaiar, no final de cada dia, a dança do festival; impossível não me sentir contente com o aplauso e carinho de todas as nações, dos portugueses, à sua passagem no desfile inaugural e à entrada no estádio, eu sendo um moçambicano mais; impossível não me sentir feliz com o carinho dispensado pelos meus meninos e meninas espanhóis aos meus meninos de Moçambique. Este foi e será o estímulo para o trabalho diário de muitos Gaiatos. Os sonhos podem tornar-se reais!”

Joaquim Margarido

[Leia a versão original do artigo em http://www.orienteering.org/edocker/inside-orienteering/2013-6/InsideOrient%206_13.pdf. Publicação devidamente autorizada por Federação Internacional de Orientação]

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