terça-feira, 31 de dezembro de 2013

BRUNO NAZÁRIO: 2014, A ÉPOCA DA MUDANÇA! (PARTE II)



(continuação)

Deixando o plano internacional e analisando a temporada no plano interno, que avaliação faz?

B. N. - Em País algum a Orientação vive das Elites, mas sim das pessoas no seu todo. Assim, a grande reflexão que deve ser feita – não apenas por mim, mas por todos os agentes da modalidade – é sobre o que se passa, porque é que as nossas provas têm cada vez menos pessoas a participar. Mais do que analisar quem ganhou ou quem perdeu o ranking, essa é que deve ser a grande preocupação, porque é que temos cada vez menos pessoas nas provas.

E porquê, Bruno?

B. N. - Bem, eu já por duas vezes expressei a minha opinião acerca deste assunto no local próprio, que é a Assembleia Geral da Federação Portuguesa de Orientação. Na minha opinião, há um excesso de provas de âmbito nacional. Uma família portuguesa tipo, casal com um ou dois filhos, não tem capacidade financeira para fazer o número necessário de provas para completar o ranking. É quase incomportável, a não ser que tenha por detrás um clube que suporte a maior parte dessas despesas. Por isso, a minha perspetiva é a de que a orientação se deveria apoiar cada vez mais nas provas de âmbito local e regional, minimizando assim os custos dum fim de semana longe de casa, com a viagem, o alojamento, a alimentação e ainda as inscrições nas provas a pesarem fortemente no orçamento familiar. Se queremos evoluir, temos de ter muita gente a praticar orientação em Portugal. Veja-se o que se passa com uma modalidade que nos é próxima e que é o Trail running, com provas a nascer todos os dias “como cogumelos” e dando possibilidade às pessoas de, se não nesta semana, na próxima, participarem e fazerem aquilo que gostam sem a preocupação duma grande deslocação. Acho que está aí um bom exemplo de como se cativam praticantes. É uma questão de percebermos, afinal, aquilo que queremos. Mas volto a frisar que esta é uma reflexão que deve ser feita não só pela Direção da Federação mas também por todos os agentes da modalidade.

A quebra no número de participantes está à cabeça das suas preocupações e é a grande conclusão que retira da análise à temporada que agora termina. E em termos competitivos, também houve retrocesso?

B. N. - Sim. O facto de não termos em todas as provas os melhores atletas faz com que o nível competitivo seja menor. Seria de esperar que os dois primeiros classificados do ranking estivessem nos Campeonatos do Mundo e nenhum deles esteve. Houve um grande número de atletas que viu a sua participação em inúmeras provas condicionada por compromissos profissionais e académicos. Veja-se o caso do Tiago Aires, o nosso atleta mais valioso e que, à partida, está impossibilitado de participar num grande número de provas por se disputarem em mapas que ele próprio desenhou. Mas penso que com um número de provas mais reduzido a competitividade aumentaria e os resultados finais do ranking traduziriam de forma mais fiel a realidade da nossa orientação.

Ou seja, ter os atletas mais focalizados nas grandes provas, nos grandes momentos, para a obtenção de grandes resultados.

B. N. - É precisamente isso que nós queremos. Da forma como o calendário da Taça de Portugal está construído, de Janeiro a Novembro, um atleta para vencer o ranking não pode focar o seu pico de forma num Campeonato do Mundo, que é aquilo que se pretende em relação aos nossos melhores atletas. Pessoalmente, eu prefiro que os atletas da seleção treinem para estar em pico de forma no Campeonato do Mundo, do que ter um atleta que está sempre bem, pontua muito nas provas da Taça de Portugal e até acaba por ser o vencedor, mas que depois não consegue aquele pico para estar em altíssimo nível nos Mundiais.

Homens versus Damas. Este ano não tivemos atletas femininas nos Campeonatos do Mundo e eu perguntava-lhe se estamos a desinvestir no setor feminino.

B. N. - Eu diria que não é uma questão de desinvestimento. Infelizmente, a Federação não tem dinheiro para levar duas equipas completas aos Campeonatos do Mundo, como eu desejaria, e o problema passa desde logo por aí. Também podíamos fazer como fizeram os nossos colegas espanhóis, prescindir duma semana de adaptação e treino na Finlândia antes dos Campeonatos e levar mais atletas. Mas penso que, em termos de resultados, isso não iria ser proveitoso. Foi uma opção minha, baseada na análise que fui fazendo ao longo da época. Não vejo isto como um desinvestimento, é mesmo a tal questão da falta de recursos para levar toda a gente que pretendemos.

Sem recursos, estamos condenados a não conseguir inverter esta situação tão rapidamente quanto o desejável?

B. N. - Não sei. A minha esperança é que a próxima época seja a época da mudança. Vamos ter os Campeonatos da Europa em Portugal e, finalmente, não teremos limitações em termos de atletas, podendo apresentar equipas completas tanto no setor masculino como no feminino. Da mesma forma, apesar de não sabermos ainda com que orçamento vamos poder contar, existirá um investimento no sentido de levar atletas femininas aos Campeonatos do Mundo em Itália. É um esforço e uma aposta na tentativa de melhorar o campo feminino e eu acho que há margem e motivação para que tal aconteça.

Esta nova “fornada” de atletas, os nossos juniores, os nossos juvenis... o que é que vem aí?

B. N. - Vêm aí atletas que terão pela frente muitos anos de experiência nos escalões jovens, algo que é fundamental para que depois consigam dar o salto para a Elite. São sobretudo atletas do escalão H16 – o João Bernardino, o António Ferreira, o João Novo, o Ricardo Esteves, o Daniel Catarino... -, mas que vão ter de trabalhar muito até atingirem esse patamar.

Curiosamente não mencionou nenhuma atleta feminina...

B. N. - Não, não mencionei. Mas como deve ter reparado, nenhum destes atletas deu ainda o salto para a Elite, enquanto que nas raparigas a situação é diferente. A ideia de formar um grupo de meninas e de mulheres para o EOC, leva-nos a pensar em nomes como a Beatriz Moreira, a Joana Fernandes e a Carolina Delgado, todas elas pertencentes aos escalões jovens, e também a Vera Alvarez, com idade ainda de junior, para integrarem os trabalhos da seleção sénior. Algumas delas, possivelmente, estarão em Palmela, naquilo que constitui uma aposta de futuro e também lhes dará a possibilidade de fazerem a transição para a Elite da forma mais tranquila possível.

Pegando no assunto dos Europeus, que Campeonatos vão ser estes? De que forma é que o fator casa poderá jogar a nosso favor?
B. N. - Não sei, as coisas ainda não estão completamente definidas na minha cabeça. Em relação às provas de Sprint e às finais, está tudo já bastante bem estruturado face ao tipo de terrenos que vamos ter, mas tenho ainda bastantes dúvidas no que diz respeito às restantes qualificatórias. Julgo que irá ser um Campeonato com um elevado nível organizativo, na linha daquilo que Portugal já deu mostras de ser capaz. Não sei se a escolha de terrenos terá sido a mais adequada, tendo em conta aquilo que são as características dos nossos atletas, mas cá estaremos para dar o nosso melhor e para dignificar o País.

Face à ligação muito grande que tem com orientistas do Mundo inteiro, consegue perceber neste momento o interesse que o evento está a despertar? Há muitas pessoas a contactá-lo no sentido de saberem exactamente aquilo que poderão esperar?

B. N. - No início houve algumas pessoas a nível internacional a questionarem-me sobre o tipo de terrenos e nota-se agora algumas seleções e alguns atletas, a título individual, a procurarem os terrenos mais adequados para virem preparar o Campeonato da Europa. No entanto, não vejo o interesse pelo Campeonato da Europa como se de um Campeonato do Mundo se tratasse. O Campeonato do Mundo continua e continuará sempre a ser a prova mais importante da época para todos os atletas a nível internacional.

Dentro de dias, os melhores atletas do Mundo vão começar a instalar-se em força no nosso País preparando a nova época. Este ano, contudo, percebe-se que há uma enorme concorrência por parte da Espanha, da Itália e mesmo da Turquia. Como é que avalia uma situação que, em última análise, pode resultar na perda duma certa hegemonia verificada nos últimos anos em Portugal, em termos de Campos de Treino e de provas de elevado nível na chamada temporada de Inverno?

B. N. - A concorrência a nível mundial faz parte do processo de globalização e nós não podemos impedir que os outros organizem. A perspetiva portuguesa deve ser sempre a de manter um padrão elevado de qualidade das nossas organizações, porque é nelas que muitos atletas internacionais confiam. Entendo que, se continuarmos a fazer bem o nosso trabalho, os atletas continuarão a visitar-nos. Agora, temos de ser realistas e perceber que não vamos fidelizar as pessoas para sempre, que Portugal é e será eternamente o único destino de Inverno. Qualquer um de nós gosta de variar no local escolhido para passar férias e os atletas, sobretudo os atletas de Elite, buscam também terrenos e desafios diferentes para, ano após ano, terem experiências novas e que enriqueçam mais a sua capacidade de navegação.

Agora que caminhamos para o final da nossa Entrevista, três questões muito rápidas, para três respostas rápidas também: “WOC in the Future”?

B. N. - Não sei se vou conseguir dar-lhe três respostas rápidas (risos). Tive a oportunidade de intervir este ano na Conferência de Presidentes da IOF, onde me manifestei contra o novo formato do Campeonato do Mundo de Séniores. Como é sabido, o escalonamento dos países em três divisões limita o número de atletas presentes nas finais de Distância Longa e de Distância Média e esta é a grande machadada na modalidade dada pela própria Federação Internacional. Aquilo que se está a fazer é dizer a muitos atletas de muitos países que podem deixar de treinar tendo em vista os Campeonatos do Mundo porque nunca conseguirão lá chegar. Isto irá conduzir, fatalmente, a um decréscimo do nível competitivo nos países em questão. Como é que se motiva um grupo de dez ou quinze atletas a treinar época após época se todos eles sabem que apenas um irá estar presente nos Campeonatos do Mundo?

Mediatização?

B. N. - Em termos de mediatização, aquilo que eu gostaria de ver a Federação Internacional fazer era dar um apoio efetivo às organizações. Se tomarmos como exemplo o Campeonato do Mundo deste ano, teremos de reconhecer que dificilmente se fez tanto no campo da mediatização. A produção e difusão de conteúdos foi extraordinariamente bem desenvolvida e a preocupação da Federação Internacional deveria ir no sentido de garantir este nível de mediatização duma forma consistente, investindo por exemplo em todas as provas da Taça do Mundo e na sua difusão regular pelas grandes canais televisivos ligados ao desporto. Mas aquilo que eu vejo é o deixar as coisas correrem um pouco ao sabor dos interesses das organizações, aparentemente sem uma estratégia concertada. E as coisas não funcionam desta forma.

Ambas as respostas anteriores levam em certa medida à terceira questão: países ricos versus países pobres”?

B. N. - Essa é a verdadeira questão. Basta ver as inscrições para a Taça do Mundo, na Turquia. Salvo erro estão inscritos atletas de treze países e alguns desses países têm apenas um ou dois atletas inscritos e que, muito provavelmente, irão a expensas próprias. Resultado: o nível dos ricos é cada vez maior, enquanto os pobres têm cada vez mais dificuldades em chegar lá acima. As possibilidades de uns e de outros não tem comparação e, com medidas da Federação Internacional como estas, é a própria justiça desportiva que é colocada em causa.

Do seu ponto de vista, qual é o momento alto da temporada?

B. N. - Para mim, o momento mais alto da temporada é, obviamente, a despedida da Simone Niggli. Trata-se duma atleta que deu muito à Orientação – e estou certo que continuará a dar -, uma atleta que marca toda uma era e aquela despedida na Final da Taça do Mundo, no Post Finance, na Suiça, é realmente fenomenal. Ainda para mais, sair pela porta grande com uma vitória foi ouro sobre azul. Para mim é o momento maior da Orientação a nível internacional nesta temporada.

Para terminar, uma questão que parte duma hipótese, a de estarmos aqui a conversar dentro de um ano, fazendo o balanço de mais uma temporada. Nessa altura, o que espera ter para me contar?

B. N. - Muito sinceramente, espero poder contar que o meu novo bebé – que ainda não sei se vai ser menino ou menina – nasceu na hora certa, correu tudo bem e se está a desenvolver normalmente. Para mim isso é o mais importante, é a nossa vida pessoal, é isso que eu devo à minha família e é isso que eu pretendo para 2014. Deixo ainda um voto para a comunidade orientista em geral, de que tudo corra pelo melhor com as organizações, que as pessoas se motivem para desenvolvermos a Orientação em Portugal e, sobretudo, que consigamos cativar mais pessoas para a prática do nosso desporto.


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

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