segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

BRUNO NAZÁRIO: 2014, A ÉPOCA DA MUDANÇA! (PARTE I)



Bruno Nazário, selecionador nacional de Orientação Pedestre, vem hoje ao palco do Orientovar fazer o balanço de mais uma temporada. Tempo para recordar alguns dos momentos que marcaram a época que agora termina, tempo de apontar rumos para 2014, “a época da mudança”.


Há um ano atrás, sensivelmente por esta altura, acabávamos de ver o seu traçado de percurso de Distância Média do 3º dia do Portugal O' Meeting vencer o concurso “Course of the Year 2012” promovido pelo World of O. Já este ano, foi possível saborearmos com o Tiago Romão a vitória na presente edição do mesmo concurso. Que significado têm estas duas distinções para a orientação portuguesa?

Bruno Nazário (B. N.) - Bem, estes concursos valem o que valem. Não é uma votação feita por um painel de especialistas, é uma votação feita pela comunidade orientista, mas não deixa de ser a prova da qualidade e do nível organizativo que o Portugal O' Meeting tem no panorama internacional. É a nossa prova rainha, aquela que nos dá visibilidade.

É curioso ter usado a expressão “estes concursos valem o que valem”, precisamente a mesma que o Tiago usou na altura em que o entrevistei a propósito da sua vitória. Este relativizar das coisas leva-me a perguntar-lhe se, em 2013, este percurso foi mesmo o melhor do ano para si ou se, na sua ótica de especialista, a escolha recairia noutro percurso.

B. N. - É uma questão complicada. Quase me atreveria a dizer que, centrando-me apenas no Portugal O' Meeting – e isto sem qualquer desprimor para com as outras organizações -, para mim o traçado do percurso de Distância Média WRE está muito bem conseguido e, em termos exclusivamente de traçado, tem mais méritos do que o percurso de Sprint que acabou por ganhar. No entanto, estas votações também têm em conta outros fatores e aqui o fator terreno acabou por ser determinante, isto numa aldeia genuína e num cenário deslumbrante, ao qual ninguém consegue ficar indiferente.

Em termos pessoais, quais os reflexos deste tipo de reconhecimento?

B. N. - São sempre momentos agradáveis, momentos em que sentimos que o nosso trabalho é reconhecido, é apreciado e tem qualidade. São momentos especiais e que nos dão, de certa forma, algum alento para continuarmos a fazer aquilo que gostamos. Mas não mais do que isto.

Há um ano atrás a crise económica instalava-se de forma particularmente intensa no nosso país, os cortes generalizavam-se, a ofensiva brutal aos trabalhadores seguia o seu rumo imparável e os professores eram – e são! - particularmente penalizados pelas políticas cegas dos nossos governantes. Tendo presente que o Bruno é Professor [esta Entrevista foi gravada num dia particularmente agitado para os professores, 18 de Dezembro, dia da malfadada prova de avaliação de conhecimentos e competências], com que estado de espírito é que, no meio de tanta incerteza e de tanta revolta, se fundamenta o trabalho de preparação de toda uma temporada? Onde é que se vai buscar a motivação?

B. N. - Devo dizer-lhe que esta pergunta é excecional, é uma pergunta que vai ao encontro das frustrações que alguém que está no meu cargo sente. Alguém que, sobretudo, sabe que podia fazer-se muito mais com apenas um bocadinho a mais. Motivação é algo que, frequentemente, acaba por me escapar por entre os dedos, sendo obrigado a focar-me nas pequenas vitórias que os atletas, com o seu esforço e com a sua dedicação, vão conseguindo. Não deixando de valorizar o trabalho da Federação, quem me dá a motivação para continuar são os atletas. Ano após ano temos vindo a dar pequeninos passos, temos conseguido fazer sempre um bocadinho mais, mas conscientes de que as nossas capacidades nos permitiriam fazer muito mais e muito melhor se tivéssemos um pouco mais de condições. E isto é verdadeiramente frustrante.

Mas acha que esta é uma questão essencialmente conjuntural ou que há uma gestão dos dinheiros por parte da Federação que acaba por não ser a mais adequada? Esse “bocadinho a mais” que referiu existe e não é aplicado ou não há nada a fazer porque, pura e simplesmente, o bocadinho não existe?

B. N. - Essa é uma questão que deveria ser colocada à Direção da Federação porque, na realidade, são eles que fazem a gestão dos dinheiros. Mas o Orçamento é público e cada um de nós pode verificar em que rúbricas são aplicados os dinheiros. A verdade é que o orçamento para as seleções é irreal! Estágios, deslocações ao estrangeiro, equipamentos, técnicos, tudo... Se eu abordar este assunto com alguém e referir o orçamento que temos, as pessoas até se riem. Na conceção de qualquer treinador internacional, é impossível perceber aquilo que nós conseguimos fazer com tão pouco dinheiro. Mesmo os nossos colegas espanhóis têm um orçamento para a Pedestre pelo menos duas vezes superior ao nosso. A não ser alguém que o faça a título pessoal, que tenha a necessária disponibilidade financeira - o que, nos tempos que correm, não é fácil -, as nossas possibilidades de participação em grandes competições internacionais resumem-se aos Campeonatos do Mundo e, excecionalmente, aos Campeonatos da Europa que, no próximo ano, terão lugar no nosso País. O nosso orçamento é de tal maneira baixo que, muito provavelmente, não teremos sequer capacidade financeira para participarmos nas etapas da Taça do Mundo que terão lugar aqui ao lado, em Espanha.

Apesar de todas estas restrições, foi possível “fazer omeletes sem ovos” nos recentes Campeonatos do Mundo. Tivemos, pela primeira vez na nossa história, atletas presentes em todas as finais A, o que só por si constitui um facto digno de nota.

B. N. - A expressão é precisamente essa, “fazer omeletes sem ovos”. Mas é igualmente importante que a comunidade orientista perceba que o nível de resultados obtidos está claramente acima do nível da Orientação em Portugal. Não é qualquer país que consegue estar presente num Campeonato do Mundo com apenas quatro atletas – e, dos quais, um teve o azar de contrair uma gastroenterite dois dias antes do início dos Mundiais – e que consegue chegar a quatro finais A num conjunto de sete qualificatórias. Falhámos um pouco os nossos objetivos na Estafeta mas, no restante, aquilo que conseguimos é verdadeiramente fabuloso. Para mim é fabuloso! Não serão resultados como os alcançados pela Ucrânia, por exemplo, que conseguiu uma extraordinária medalha de bronze na Estafeta, mas em que todos os seus atletas vivem e treinam na Suécia. Os nossos atletas não têm nada disso. Tirando o Tiago Aires, que passou alguns dias na Suécia com o seu clube, todos os restantes atletas trabalharam nos clubes em Portugal, reuniram-se um par de vezes nos estágios da seleção e foram a Vuokatti conseguir o que conseguiram.

Há essa grande capacidade de superação nos grandes momentos...

B. N. - Não sei se lhe chamaria assim. Eu acho que nós temos talento... Há um enorme mérito no trabalho que os atletas desenvolvem, o mérito é deles e não do selecionador. A minha posição no meio disto tudo é um pouco a de “manager”, a pessoa que consegue gerir os talentos, que consegue gerir um orçamento reduzido e fazer “das tripas coração” para estarmos uma semana antes do Campeonato do Mundo em Vuokatti, encontrar uma casa por um preço baixíssimo – as pessoas nem imaginam onde ficámos alojados – e com isso podermos ter tido connosco também o Rafael Miguel, que nos ajudou muito no trabalho de recuperação física dia após dia. São pequenos ganhos, pequenos pormenores colocados ao serviço dos atletas e que acabam por funcionar muito bem, permitindo-lhes pôr em prática o seu enorme talento. Eu acho que é este talento que faz a diferença.

No conjunto de resultados alcançados pelos nossos atletas nos Mundiais há algum em particular que mereça ser realçado?

B. N. - Gostaria realmente de realçar o trabalho que foi feito no seu conjunto, embora nem tudo tivesse sido perfeito. Por exemplo, na final de Distância Longa, se combinarmos as melhores pernadas do Diogo Miguel e as melhores pernadas do Tiago Aires, verificamos que facilmente conseguiriamos alcançar um resultado no top 30, algo que nunca conseguimos antes e que era o nossos grande objetivo. Mas naquele dia houve coisas que correram menos bem, o Tiago sofreu muito durante a prova com cãibras – e foi pena, esta era uma prova muito à sua medida -, o Diogo também falhou nalguns pontos mas, no cômputo geral, tivemos mesmo aqui a prova de que o nível dos portugueses é suficientemente elevado para um top 30 na Longa. O João Mega, no seu primeiro ano de sénior e na primeira vez num Campeonato do Mundo, fez um resultado muito bom num Sprint muito complicado, num percurso muito traiçoeiro, com muitas opções. Esteve realmente muito bem e as portas ficam abertas a grandes vôos já no próximo ano.

Não perca amanhã a segunda parte da Entrevista, aqui, no seu Orientovar.


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

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