quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

ANTÓNIO HERNANDEZ: A ORIENTAÇÃO DE PRECISÃO É FIXE!



A Orientação de Precisão em Espanha procura retomar um caminho iniciado por Roberto Munilla há sensivelmente três anos. Novo timoneiro desta ainda frágil nau, António Hernandez leva-nos numa corrente de sonhos ao encontro de novos destinos.


Pedia-lhe que, de forma sucinta, me falasse da sua relação com a Orientação.

António Hernandez (A. H.) - Por uma questão quase de tradição familiar, sempre senti uma atração especial pelo campo e pela montanha. Para além disso, desde muito novo que fazia Atletismo. No dia em que descobri que podia “meter os dois proveitos no mesmo saco”, nem queria acreditar. Estávamos em Julho de 1989 e… até hoje!

Ao receber a proposta, no passado mês de Setembro, para assumir os destinos da Orientação de Precisão em Espanha, o que o levou a aceitar o desafio?

A. H. - Em primeiro lugar, gosto desta disciplina. Atrai-me o desafio técnico que encerra. Por outro lado, ao longo destes quase vinte e cinco anos, fiz de tudo na Orientação: competi, tracei percursos, cartografei, treinei, organizei e assumi funções, tanto em clubes como em federações. Depois de, em 2012, abandonar a presidência do Clube Alcon (Léon), que eu próprio fundei, fiquei sem qualquer tipo de encargo na minha agenda. Foi então que José Samper, Diretor Técnico da Federação Espanhola de Orientação (FEDO), me pediu ajuda nesta matéria. E porque não? Encaro-o como um desafio particularmente motivador do ponto de vista pessoal.

Que levantamento fez da disciplina e qual o ponto da situação neste momento?

A. H. - Sem pretender retirar o mérito ao trabalho dos anteriores responsáveis, diria que se encontra praticamente tudo por fazer. Eles iniciaram um caminho que eu procuro seguir agora. Roberto Munilla organizou o primeiro Campeonato de Espanha de Orientação de Precisão em 2012, mas devido a problemas laborais viu-se impedido de o fazer em 2013. O meu objectivo passa por, não apenas fazer com que se volte a organizar em 2014, mas também nos anos seguintes. Esta será, talvez, a face mais visível do trabalho que tenho pela frente. Mas na Federação o projecto envolve muito mais do que isto: actividades de formação, cartógrafos, captação de atletas paralímpicos, etc. Outra situação que temos de enfrentar tem a ver com a necessidade de desmistificar a ideia generalizada entre a comunidade orientista e que é a de que a Orientação de Precisão é – e que ninguém me leve a mal aquilo que vou dizer – para avozinhos e deficientes. Porquê? A Orientação de Precisão é fixe!

Sente, então, que a comunidade orientista em Espanha não está consciente da importância da Orientação de Precisão, no mínimo enquanto modalidade inclusiva por excelência?

A. H. - De facto não está. É que nem sequer se trata de colocar a Orientação de Precisão num plano secundário. É mesmo algo que é visto como fácil e sem quaisquer objectivos. E depois, o pessoal da Pedestre chega eventualmente às provas cheio de ideias preconcebidas, uma vez que são “orientistas” e estão naturalmente acima do exigido a um paralímpico. Puro engano, aliás factualmente demonstrado pelo grande número de falhas que cometem e pelos resultados geralmente muito aquém do esperado. Já quanto ao carácter inclusivo por excelência, isso nem sequer é questionável. Está implícito na responsabilidade social da Federação e dos próprios orientistas e tem sido uma preocupação desde sempre.

Os seus primeiros atos no cargo tiveram a ver com a participação, em Palmela, na última etapa da Taça de Portugal de Orientação 2013 e com as participações nos Clinics Internacionais promovidos pela Federação portuguesa, primeiro, e depois pela Federação espanhola, em Alicante, no início de Novembro. Quer falar-me dessas experiências?

A. H. - A nossa disciplina é nova e somos muito poucos. Logo, não podemos desperdiçar toda e qualquer oportunidade que surja para nos reunirmos, aprendermos e colocarmos questões. O Clinic de Palmela, como parcela do labor organizativo do Campeonato da Europa de Orientação de Precisão ETOC 2014, foi uma oportunidade que nós, espanhóis, não poderíamos desaproveitar. Knut Ovesen soube transmitir-nos uma parte muito importante da sua longa experiência. Por outro lado, como competidor, não podia perder uma das poucas competições levadas a cabo na Península Ibérica. Também em Alicante, pela primeira vez no historial da FEDO e da Escola Espanhola de Técnicos de Orientação, foi incluída a Orientação de Precisão no mais importante Clinic organizado anualmente em Espanha. Foi mais um passo!

Que estratégias se propõe desenvolver no sentido de promover e dinamizar as actividades de Orientação de Precisão em Espanha?

A. H. - É necessário romper com essa dinâmica de que a Orientação de Precisão não é divertida, que é um “desatino”. Os orientistas não paralímpicos, envolvidos com a modalidade, têm de ser os embaixadores da Orientação de Precisão nas zonas de influência dos seus clubes, organizando competições e cursos de iniciação para todos: Paralímpicos e não só. A Federação não pode – não deve! - fazer tudo. Deve ser, isso sim, o pólo aglutinador, aquele que coordena as mais diversas atividades. Nesse sentido, Roberto Munilla e qualquer outro com vontade de ajudar será muito benvindo. Já faço Orientação há tempo suficiente para saber que, trabalhando em equipa, se chega mais longe, tanto no espaço como no tempo. A experiência diz-me igualmente que não devo iludir-me, visto sermos poucos aqueles dispostos a colaborar e a trabalhar. Seria estupido poder pensar que sou um todo-poderoso. Sou aquele que coordena, não o mais nem o menos importante, apenas mais um, porventura o mais visível.

Que equipa espanhola vamos poder ver em Portugal no próximo ano a disputar o Campeonato da Europa de Orientação de Precisão?

A. H. - Pelo menos eu, a Ana Belén e o José António Tamarit, que já nos conheces. Temos um novo membro na equipa e espero que possa estar disponível nessa altura. Quanto aos atletas paralímpicos, estamos a procurar mas não vai ser fácil.

A Federação Espanhola vai assumir a organização do II Campeonato Ibérico de Orientação de Precisão?

A. H. - Vou dar uma novidade. Se tudo correr normalmente, nos 5 Dias Internacionais de Espanha, evento que decorrerá em Palencia no mês de Agosto (www.o5dias.com), terá lugar uma competição de Orientação de Precisão que iremos fazer com que seja Campeonato Ibérico. É uma pena que não possa ser em Soria em Abril, coincidindo com o Campeonato Ibérico de Orientação Pedestre. Mas devo ser sincero, teria de ser eu a organizá-lo e não tenho tempo. Participar no ETOC e organizar o campeonato de Espanha, ambos os eventos no mês de Abril, é de todo impossível. Não obstante, para os atletas da Pedestre, recomendo que não percam Soria e o mapa de Valonsadero, onde tiveram lugar as Estafetas do EYOC 2010. No futuro teremos Orientação de Precisão neste mapa; o terreno é espetacular e possui condições para o desenho dos percursos tendo em atenção as especificidades desta disciplina.

Foi um dos mentores do projecto que levou à criação de um Grupo no Facebook chamado “Iberia O-Prec”. Qual a importância deste projecto? É apenas uma partilha isolada de experiências ou é sobretudo um exemplo de como podemos e devemos - portugueses e espanhóis – caminhar de mãos dadas?

A. H. - Sou Leonês... para mim Portugal é muito especial e querido, trabalhar em conjunto é algo que, pessoalmente, me emociona. Por outro lado, que o projeto de desenvolva nas redes sociais é o mais lógico nos dias que correm. Primeiro, é o futuro; e depois somos poucos. Necessitamos de estar próximos uns dos outros.

O que espera retirar desta experiência à frente dos destinos da Orientação de Precisão em Espanha?

A. H. - Faço parte duma Junta Diretiva que terminará o seu mandato em 2015 e não posso prever o que se irá passar depois. Até essa data, o meu objetivo é que a Orientação de Precisão em espanha siga crescendo e, mais importante do que tudo, que não estagne quando eu sair. Se isto acontecesse, seria um fracasso. Devemos orientar as nossas atitudes no sentido de criar as bases necessárias sobre as quais assente o futuro da disciplina. Se me é permitido sonhar, estando eu ou outra pessoa à frente dos destinos da Orientação de Precisão em Espanha, posso dizer que descobri já uma zona que dava para um Campeonato do Mundo: Zona de floresta com micro-relevo, acessível de acordo com os requisitos da disciplina, já cartografado com uma equidistância de 2,5 m e muitos quilómetros de mapa.

Agora que nos preparamos para virar a página de mais um ano, pedia-lhe que exprimisse um desejo para 2014.

A. H. - Não posso limitar os votos ao desporto, uma vez que há coisas mais importantes na vida. Para 2014 desejo com todas as minhas forças que tanto em Espanha como em Portugal todas as pessoas que estão desempregadas encontrem um trabalho digno desse nome.


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

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