terça-feira, 24 de dezembro de 2013

ANTÓNIO AMADOR E O MOMENTO ATUAL DA ORIENTAÇÃO PORTUGUESA



António Amador, Diretor Executivo da Federação Portuguesa de Orientação, vem hoje ao Orientovar fazer o balanço de 2013 e perspetivar a temporada que se avizinha. Com os Campeonatos da Europa de Orientação Pedestre e de Orientação de Precisão no centro das atenções, uma entrevista que coloca a tónica na análise ao atual momento da nossa Orientação.


O ano encerra com essa grata notícia do percurso de Sprint do Portugal O' Meeting 2013, em Monsanto, desenhado por Tiago Romão, ter sido considerado “Percurso do Ano” pelo prestigiado site World of O. Como é que viu essa distinção?

António Amador (A. A.) - É mais uma prova da nossa qualidade organizativa e uma nota de prestígio, não apenas para a pessoa que traçou o percurso, como também para o próprio evento. O facto de estar mais uma vez integrado no Portugal O' Meeting vem comprovar a enorme qualidade organizativa deste evento e a forma como atrai todos os melhores atletas mundiais. Só assim consegue afirmar-se, entrando nestas votações e vencendo pelo segundo ano consecutivo.

É verdade que, como refere, é a segunda vez que vencemos - o ano passado com um traçado de percurso do Bruno Nazário e num evento que teve o António Amador, curiosamente, como um dos Diretores do Evento. Esta repetição surpreende-o?

A. A. - O percurso era muito bom e logo na altura recebeu elogios de todos os participantes. Depois é o facto de estar integrado no Portugal O' Meeting e de, logicamente, “correr esse risco” de poder vir a ser considerado o Percurso do Ano. O mesmo percurso, numa prova sem a expressão do Portugal O' Meeting, provavelmente passaria despercebido. É o conjugar de vários fatores, do trabalho técnico do cartógrafo e do traçador de percursos a um evento com esta dimensão.

Centrando-nos naquilo que foi a temporada que agora termina, que balanço faz do ponto de vista competitivo?

A. A. - Temos muitos dos nossos melhores atletas numa fase de transição do seu percurso académico e este foi um ano um bocadinho atípico. Mas não nos podemos esquecer que tivemos das melhores participações de sempre em termos internacionais, com atletas presentes em todas as finais A do Campeonato do Mundo Pedestre. Quanto aos nossos jovens, realmente os resultados no EYOC ficaram abaixo das expectativas, sobretudo porque a competição teve lugar em Portugal e face à forma como eles se prepararam. Mas são ciclos... podemos não ter neste momento um conjunto de atletas com grandes resultados na faixa etária dos 18 aos 20 anos, mas temos uma “fornada” muito interessante a despontar, jovens com muita capacidade e que acreditamos possam vir a alcançar, dentro de um ou dois anos, resultados muito bons em termos internacionais.

E do ponto de vista organizativo e da participação nas provas?

A. A. - O balanço na Pedestre é positivo. Quanto aos eventos, continuamos a ter uma grande qualidade organizativa, continuamos a ter clubes a querer organizar eventos, sobretudo nas vertentes da Pedestre e da BTT, inclusivamente com os calendários de 2015 já completamente fechados. Em termos de participação, conseguimos manter de certa forma estável o número de presenças nas provas, uma vez que ainda há clubes com capacidade para suportar os custos de participação dos seus atletas. Já o balanço na BTT acaba por ser menos positivo, tendo-se verificado uma efetiva quebra nos índices de participação, julgo eu que relacionada com os custos elevados e uma logística mais pesada, aliás em linha de conta com aquilo que tinha já acontecido na temporada anterior. Esta é uma situação que nos preocupa, particularmente numa altura em que Portugal viu ser-lhe atribuída a organização do Campeonato da Europa em 2015 e do Campeonato do Mundo no ano seguinte.

De que forma é que se inverte a situação?

A. A. - São várias as medidas a tomar. A partir da próxima temporada, a Federação Portuguesa de Orientação passará a assumir os custos de participação dos atletas até aos 20 anos nas provas de Orientação em BTT. Também prolongámos a oferta por mais um ano do sistema de gestão de provas, quer para a Orientação em BTT quer para as Corridas de Aventura. São medidas tendentes a reduzir os custos de oganização e a garantir mais algum retorno nestas vertentes. Na Pedestre, a grande alteração tem a ver com a decisão de pôr um ponto final nas provas de Nível 2. Estávamos a perceber que as provas de Nível 1 vinham a ser de certa forma prejudicadas em termos participativos, enquanto as de Nível 2 tinham um labor organizativo e logístico equivalente às de Nível 1 e depois eram prejudicadas pelo facto de serem de Nível 2 e de pontuarem menos para o ranking. Assim, decidimo-nos por esta medida, esperando ir de encontro aos interesses da modalidade e podermos inverter esta tendência de decréscimo de participação nas nossas provas.

É sabido que os recursos da Federação são limitados. Como é que se consegue ir dando “pão a tantas bocas”?

A. A. - Apesar dos cortes sofridos, não fomos das Federações mais penalizadas a este nível. Por outro lado, conforme consta do Relatório e Contas recentemente aprovado, conseguimos um conjunto de receitas próprias que nos permitem ir colmatando esses cortes que vamos tendo. Desde que esta Direção tomou posse, nunca tivemos a necessidade de cortar nas verbas atribuídas às seleções e, pelo contrário, até temos subido alguns montantes.

O segredo das receitas próprias está nessa aposta na organização de competições internacionais?

A. A. - Não tenho números – é uma área na Federação que não me diz tanto respeito – mas julgo que sim. A nossa dependência do IPDJ em 2013 rondou os 30%, sendo o resto receitas próprias. Mas esta aposta nas organizações de âmbito internacional tem outro sentido, para nós igualmente fundamental e que é o de dar a conhecer melhor a modalidade em Portugal. Por outro lado, estas organizações fazem com que haja uma bolsa de voluntários muito valiosa, criando entre si laços que perduram e que são extraordinariamente úteis para a modalidade. Também leva à criação de mapas novos, por vezes em zonas onde a modalidade não tinha chegado ainda, o que constitui igualmente uma significativa mais valia. Mas sim, é verdade que o cunho financeiro destes eventos é um dos aspetos mais relevantes para conseguirmos algum retorno e reinvestirmos esse valor na modalidade.

Falou num melhor conhecimento da modalidade por parte do grande público. É essa a sua convicção?

A. A. - Nós conseguimos ver a modalidade mais presente nos órgãos de comunicação social, não sei se com resultados relevantes ou não. É muito difícil divulgar a Orientação. Enviado aos orgãos de comunicação social um press-release referente a um Campeonato do Mundo, as probabilidades de ser publicado são escassas. Felizmente conseguimos que muitos e bons artigos fossem publicados graças aos parceiros que tivemos nos grandes eventos e acredito que muito mais gente tenha ouvido falar de Orientação. Quanto ao retorno que isso traz para a modalidade, sinceramente é difícil de medir, mas compete-nos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para divulgar os nossos eventos. Tratando-se de eventos de cariz internacional, é mais fácil conseguir a desejada recetividade por parte dos órgãos de comunicação social e, portanto, aí não podemos falhar.

Os eventos vão-se espalhando um pouco por todo o país, há uma multiplicação de esforços no sentido de levar as provas a locais onde os terrenos garantam a necessária qualidade técnica, mas depois continuamos a ver as pessoas, as escolas, as autarquias, de costas voltadas para os próprios eventos e para a Orientação dum modo geral. O trabalho de proximidade parece existir apenas em função do evento e não da modalidade. Isto não o preocupa? Não sei se me fiz compreender...

A. A. - Percebi a pergunta, não sei é o que hei-de responder. Infelizmente, não se tem conseguido fazer avanços significativos nesse capítulo. A propósito do EYOC, nós assinámos protocolos com três autarquias que até se envolveram na organização do evento, mas a verdade é que, praticamente, não tivemos participantes das zonas onde o evento foi organizado. Mas se isto já é mau, pior do que isso é não conseguirmos deixar alguém nos locais – um clube, uma associação – com capacidade para poder divulgar a modalidade e fazer um trabalho posteriormente. Esta devia ser uma das maiores preocupações das organizações quando abraçam um evento fora do seu raio de ação, deixar a semente, deixar lá alguém que prossiga o caminho acabado de começar a ser feito. Mesmo que consigamos trazer a população para o evento, se não houver lá um trabalho de continuidade as coisas acabam por se perder.

Admito que a resistência por parte das escolas, dos professores, em envolverem-se com a modalidade é real mas nós, talvez, também não saibamos “bater à porta” da melhor forma ou com a insistência devida...

A. A. - Eu julgo que é um bocadinho das duas coisas. Há modalidades muito mais fáceis de pôr em prática no Desporto Escolar do que a Orientação. Nós, basicamente, só conseguimos penetrar nas Escolas onde temos professores que praticam a modalidade, e mesmo nesses há, por vezes, uma grande saturação. É muito mais fácil trabalhar com os alunos em pavilhão do que na floresta. Por outro lado, também há clubes que não fazem qualquer tipo de trabalho junto das escolas das zonas onde se inserem. Haver um professor numa escola que decida agarrar o desafio da Orientação é fundamental para que a modalidade se imponha. A minha experiência num clube como o Ori-Estarreja diz-me isso mesmo. Fizemos inúmeras ações junto das escolas da região e sempre sem grandes resultados. Só quando conseguimos ter a Professora Eugénia ou o Professor Paulo Pinto a divulgarem e a pegarem na modalidade dentro das próprias escolas é que os resultados apareceram.

Começando a projetar a próxima temporada, admito que à cabeça das suas preocupações estarão os Campeonatos da Europa, em Abril. Mas antes disso vamos ter pela frente o ciclo de provas WRE, pontuáveis para o ranking mundial, com o ponto alto a centrar-se novamente no Portugal O' Meeting. De que forma antevê este ciclo?

A. A. - A ronda inaugural da Taça do Mundo, na Turquia, e o Portugal O' Meeting são coincidentes em termos de datas. Penso que ao nível da participação de atletas estrangeiros de topo poderemos ser algo prejudicados, mas tenho a certeza que alguns dos melhores atletas do mundo não deixarão de vir a Portugal. Embora sejam estes atletas que dão nome ao evento, é às faixas etárias de maior idade que o Portugal O' Meeting vai buscar o maior volume de participantes e esses vão continuar a vir. Daí que, globalmente, estou confiante que o impacto não seja muito significativo. Quanto aos Campeonatos do Mediterrâneo, penso que aqui o número de participantes será superior ao verificado no primeiro WRE do ano passado, sobretudo pela sua posição mais favorável no calendário, ainda no mês de Fevereiro.

E pouco mais de um mês depois temos aí os Campeonatos da Europa. Que Campeonatos serão estes?

A. A. - Sabemos que estarão cá os melhores atletas do Mundo e vamos criar todas as condições para que o Campeonato da Europa seja um evento à altura daquilo que está em causa. Toda a vertente técnica está a ser acautelada para que possamos ir ao encontro daquilo que os atletas desejam e que é um evento de qualidade superior em termos técnicos; toda a logística está também a ser tratada para que consigamos dar a melhor resposta em termos da envergadura do evento, enfim, estou em crer que iremos organizar um evento muito bom, ao nível das nossas organizações anteriores em termos internacionais. Entretanto, paralelamente, criámos também um evento aberto a todos, o EOC Tour, com a expectativa de podermos ter uma grande participação de atletas estrangeiros. Mas aqui tenho mais dúvidas e, sinceramente, não sei muito bem o que vamos poder esperar em termos de participação nesse evento.

Simultaneamente, teremos a realização do Campeonato da Europa de Orientação de Precisão ETOC 2014. Para o evento, no seu todo, que mais-valias advém desta sobreposição de eventos?

A. A. - Não creio que seja uma mais-valia. Se a organização dum evento desta natureza, só por si, já é complicada, muito mais complicado se torna organizar os dois eventos em simultâneo. São competições diferentes, são publicos-alvo diferentes e, muito sinceramente, penso que a vertente de Precisão só teria a ganhar com o facto de os dois eventos serem disputados em separado. Ainda assim, penso que vamos ter um volume de participações superior àquilo que temos visto nas grandes competições internacionais disputadas até ao momento. A margem de progressão desta disciplina é muito grande e o interesse crescente que a Orientação de Precisão suscita leva-me a acreditar que o número de participantes em competições como os Campeonatos do Mundo ou os Campeonatos da Europa irá crescer exponencialmente nos próximos anos.

Se, por hipótese, viermos a ter duzentos atletas a competir no ETOC - no fundo o dobro dos atletas que estiveram presentes nos últimos Campeonatos da Europa e Campeonatos do Mundo –, isso assusta-o?

A. A. - Não me assusta. Todo o trabalho técnico terá de ser feito de igual forma, quer seja para um atleta, quer seja para duzentos. Naturalmente que o prolongar do tempo de execução de cada uma das provas vai penalizar a organização em termos do cansaço físico. Isto será mais evidente na competição de TempO e nos Pontos Cronometrados, onde há um grande número de pessoas envolvidas e com tarefas muito repetitivas. Não é indiferente estarem ali três horas ou estarem cinco ou seis. Seguramente é mais complicado termos duzentos atletas do que termos cem, mas que venham esses duzentos que nós estaremos à altura para os receber e para lhes proporcionar a qualidade exigida a uma competição deste nível, independentemente do número de participantes.

Que equipa é esta que, liderada por si, irá organizar o ETOC?

A. A. - Começaria por realçar o trabalho que tem sido desenvolvido até ao momento pelo Ricardo Chumbinho. Eu estive envolvido até há bem pouco tempo no Campeonato da Europa de Jovens de Orientação Pedestre e tem sido ele que tem assumido essa coordenação e esse esforço de gestão da equipa. Ele tem tido um trabalho relevante na criação de toda a infra-estrutura para a organização do ETOC. Temos a felicidade do acompanhamento de dois supervisores nomeados pela Federação Internacional de Orientação – o Knut Ovesen e o Ola Wiksell – que perceberam as nossas dificuldades em termos organizativos e têm dado um contributo muito válido e apoiado em todos os aspetos. A sua experiência e conhecimento técnico dão-nos mais garantias para que consigamos organizar um evento de qualidade. Estamos a criar a equipa, os lugares-chave estão definidos, estamos a tentar dar alguma experiência às pessoas e penso que conseguiremos responder de acordo com as necessidades duma organização deste tipo.

Em termos organizativos teremos então um 2014 preenchido pelas provas WRE e pelos Campeonatos da Europa de Pedestre e de Precisão, enquanto na vertente participativa as nossas seleções marcarão presença nas grandes competições internacionais. E em termos pessoais? Como é que vira a página dum ano tão importante e se prepara para abraçar outro, não menos importante?

A. A. - Estas coisas vão deixando as marcas. Este fechar do ano 2013, com a organização do Europeu de Jovens, foi muito cansativo. Somos voluntários nisto, mas temos a nossa atividade profissional e a nossa vida familiar a quem devemos dar prioridade. A verdade é que há situações na Orientação que não se coadunam muito com o “ir fazendo” e estes compromissos assumidos pela Federação são para fazer, não para ir fazendo. Chego ao final de 2013 cansado, sinceramente, e daí estar a tentar recuperar um bocadinho para poder agarrar o ETOC como já deveria ter agarrado. Mas estou em crer que, virando o ano, as forças estarão recuperadas e vamos conseguir levar até ao fim este compromisso dos Europeus.


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

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