domingo, 29 de setembro de 2013

NUNO PIRES: "NESTE MOMENTO DA VIDA A PRESSÃO DE SER PAI FALA MAIS ALTO"



Nuno Pires é um valor seguro da Orientação de Precisão em Portugal. Líder da Taça de Portugal de Orientação de Precisão 2013 e responsável pelo desenho dos percursos do I Campeonato Nacional de Orientação de Precisão (Praia da Tocha, 25 de maio), o atleta do Clube de Orientação de Estarreja acaba de juntar ao seu currículo a vitória no I Troféu Nacional de TempO, disputado no Parque da Prelada, no Porto. No rescaldo de mais um importante feito, são dele as palavras de balanço duma prova e duma vitória com um significado muito especial.


Orientovar – Para uma primeira experiência, surpreendido com o TempO ou já esperava algo assim?

Nuno Pires (N. P.) - Apesar de ser a primeira prova de TempO realizada em Portugal e a primeira onde participei, não foi propriamente uma surpresa este formato, já que tem como base o conceito de ponto cronometrado da Orientação de Precisão. Claro que a mecânica da prova é diferente e a forma de abordar cada ponto de decisão ou estação, neste caso com quatro pontos, criou um aliciante simultaneamente agradável e desafiante ao longo das seis estações.

Orientovar – Ao nível da abordagem a cada ponto, que tradução teve esse desafio de que fala?

N. P. - Ao ler a informação técnica da prova e ao saber que seria num parque, tentei mentalmente imaginar o terreno e a prova, e na verdade não senti nervoso miudinho na sua execução. Apenas percebi que o nível de concentração tem no TempO um peso enorme e o sucesso começa pela capacidade de focar todo os nossos recursos na leitura e interpretação do mapa e terreno, sem hesitar. Percebi também que, apesar duma prova destas caraterísticas não exigir tanto tempo de preparação ou de planificação como uma prova convencional de Precisão, exige um conjunto alargado de pessoas para a levar a bom termo no dia de prova, todas inteiradas da sua tarefa. Dou os parabéns aos voluntários do DAHP que revelaram ter a lição bem estudada. Há um ou outro pormenor a melhorar, que foi identificado, mas eu se tivesse de planificar uma prova de TempO, teria toda a confiança na equipa do DAHP para realizar as cronometragens, o controlo e o fluxo dos atletas.

Orientovar – Que significado tem esta vitória no I Troféu Nacional de TempO?

N. P. - É uma vitória com um enorme significado, mas por razões pessoais. Dedico-a inteiramente à minha esposa, a recuperar do parto. Consegui afastar a pressão da prova, da presença dos outros colegas, porque neste momento da vida a pressão de ser pai fala mais alto. Apesar das noites mal dormidas, consegui atingir um nível de relaxamento entre estações e concentração nos momentos da verdade que não pensava ser possível, e a confiança permitiu-me ser, em simultâneo, rápido a decidir e não falhar demasiado.

Orientovar – Em termos futuros, que valor retira da experiência?

N. P. - Não fui a esta prova para competir, mas para treinar, para me colocar numa posição de aprendizagem. Pretendi ser, apenas e só, o adversário de mim mesmo. Sei que daqui a alguns meses há um Campeonato da Europa de Orientação de Precisão e de TempO em Portugal e desde há algum tempo que coloquei como objetivo a participação nessa competição. Esta oportunidade de fazer TempO a três dimensões, sem ser na Internet e com base em fotos, é totalmente diferente. Desta forma, tenho apostado em ganhar a experiência possível e necessária para eventualmente ser um dos convocados a representar Portugal no ano que vem em Palmela. Tenho conseguido, com esforço, gerir a minha vida para me posicionar na linha da frente da Orientação de Precisão e os resultados dessa aposta vêm surtindo frutos, quer ao nível da Taça de Portugal quer também no Circuito “Todos Diferentes, Todos Iguais”, onde não participei tão assiduamente.

Orientovar – Que “pernas para andar” tem o TempO?

N. P. - Creio que o seu futuro e crescimento deverá ser abordado com cautela. Acho que tem o seu lugar, mas para já nunca de forma autónoma, tal como acontece com boa parte da calendarização da Orientação de Precisão. Crescer não passa unicamente por organizar mais provas, porque já é sabido que há poucos clubes e pessoas que atualmente se dedicam a esta causa. Simultaneamente, há que juntar o TempO às provas de Pedestre, por forma a cativar mais pessoas a participar. Não deixa de ser uma vertente técnica, mas consegue-o disfarçar bem e isso ajuda a desmistificar a participação dos atletas sem handicap. Fazer a asneira de calendarizar uma prova de Orientação de Precisão no mesmo dia de outra Pedestre, ou em data exclusiva, é um risco que desmotiva quem investe tantas horas a preparar um evento destas caraterísticas e convém que o TempO não se exponha a tal situação. Como atrás referi, acredito que seja mais simples, ou melhor, menos trabalhoso planificar e montar um TempO do que uma prova de Precisão. Apesar dos recursos humanos necessários, a cartografia duma prova de TempO poderá sobreviver a um mapa menos conseguido, o que aumenta o leque de aproveitamento dos existentes em espaços como parques e áreas florestais.


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

Sem comentários: