sexta-feira, 10 de maio de 2013

À CONVERSA COM... MÁRIO DUARTE E LÍDIA SANTANA, PRIMEIROS CAMPEÕES NACIONAIS DE SPRINT



Mário Duarte e Lídia Santana são os primeiros convidados duma nova rubrica no Orientovar. "À conversa com..." aqui trará, periodicamente, visões pessoais sobre este nosso mundo da Orientação. Hoje o pretexto é o Campeonato Nacional de Sprint, disputado no passado fim de semana em Buarcos e foi sobre Sprint que falámos. Ou não fossem eles, o Mário e a Lídia, os "históricos" Campeões Nacionais de Sprint 1998/1999, na primeira temporada em que a prova teve lugar no nosso país.


Que memórias guarda do I Campeonato Nacional de Sprint e dessa vitória histórica?

Mário Duarte (M. D.) - Apesar de já terem passado alguns anos, é um facto que me lembro desse Campeonato que decorreu na zona histórica de Évora. Andámos ali junto ao Templo de Diana, nessas ruas intrincadas que existem no centro histórico e recordo a presença de alguns curiosos a ver-nos. Mas não posso dizer que as populações tivessem aderido na altura, tal como hoje não aderem. Gostam de ver, perguntam-se o que é que se passa com estas pessoas a correr no meio de ruas tão estreitas. Mas aderir, no sentido de poder vir a participar, não. Se calhar também porque a divulgação feita pelas organizações continua a não ser aquilo que deveria ser. E como isto não é só correr, trata-se de correr com um mapa na mão, torna-se difícil sensibilizar as pessoas para participarem, mesmo que as coisas se passem mesmo junto às casas delas.

E a Lídia ainda se lembra também dessa prova em Évora. Como é que foi?

Lídia Santana (L. S.) - Na altura achava muita piada ao conceito, desde logo porque implicava um menor esforço físico. Eram provas muito mais curtas, mas cheias duma grande adrenalina devido às distâncias pequenas e à proximidade entre os pontos. E depois havia a assistência permanente, que é uma coisa que não se tem nas provas de floresta. É sempre divertido ver as pessoas com aquele ar estranho a olhar para umas pessoas estranhas que andam para ali a correr feitos uns tontos... e depois também alguns piropos que vão saindo (risos).

Valeu a pena apostar nesta disciplina?

M. D. - A minha primeira experiência em provas de Park foi na Suécia, em 1995, quando fomos lá participar no O-Ringen juntamente com a Taça do Mundo. Levaram-nos na altura a uma povoação chamada Laxa, participámos numa prova e estivémos a ver mais tarde uma prova do Park World Tour. Logo na altura achei que esta era uma vertente extraordinária e na qual nós, em Portugal, tinhamos muitas chances de ter êxito. Passados uns anos, quando começámos a disputar as provas de Park em Portugal, percebi – como se viria mais tarde a verificar – que seria nesta vertente que teríamos algumas hipóteses no embate com a elite mundial. E porquê? Porque é uma vertente onde o peso da história, da floresta, não se faz sentir tanto e temos 365 dias no ano em que podemos praticá-la. A verdade é que alguns dos melhores resultados internacionais acabaram por se registar precisamente no Sprint e a Federação Internacional de Orientação aposta cada vez mais no Sprint pela vertente do espetáculo. Apesar dos detratores, daqueles que a nível nacional continuam a pensar que o Sprint é a vertente mal-amada, continuam a achar que isto não é Orientação, esta é uma disciplina que deve ser incrementada porque é aquela que chega ao pé das pessoas. Como a Lídia disse, na floresta andamos sozinhos e ninguém nos vê. Aqui não, aqui as pessoas vêem-nos e, com o incremento que é necessário dar às provas de Sprint, mais poderão chegar-se à modalidade.

De 1999 até aos nossos dias, quais as diferenças mais evidentes?

L. S. - Bem, a nível individual diminuiu o estímulo competitivo. Tenho reparado que nos últimos tempos se tem acrescentado aos dois dias normais dum evento de fim de semana, uma prova de Sprint. Devo confessar que, tendo perdido a capacidade física de fazer muitas provas, acabo sempre por não fazer esse percurso porque sinto que não conseguiria recuperar. Mas concordo que esta é uma boa maneira de trazer a Orientação para perto das pessoas e uma forma de divulgar mais a modalidade e captar novos interessados. Mais facilmente se põem as pessoas a ver a Orientação dentro da cidade do que levá-las a um monte, às vezes a chover e com muita lama. O Sprint acaba por ser a montra de divulgação da Orientação.

A malha urbana desordenada de muitas das nossas cidades, vilas e aldeias, acaba por se adequar a este tipo de provas. Dentre as muitas provas que o Mário tem no seu currículo, consegue eleger aquela que mais o marcou até hoje?

M.D. - A primeira que me marcou foi realmente essa da Suécia, por ter sido a primeira e a primeira fica sempre na memória. Depois tenho essa mágoa de não ter podido fazer a prova de Sprint do POM 2013 em Monsanto, organizada por nós. Apesar de conseguirmos ter uma variedade de povoações que são todas elas diferentes e extraordinárias, para mim, talvez os percursos que mais me marcaram tenham sido os de Alfama, pela diversidade de escadarias, pela complexidade que aqueles becos e ruelas têm, é uma coisa que obriga a uma concentração permanente. Elegeria, pois, Alfama como o sítio mais difícil e mais desafiante para esta vertente.

Em 2014, os Campeonatos do Mundo terão pela primeira vez uma prova de Estafeta Mista, precisamente baseada em percursos de Sprint. É um bom modelo para apostarmos também em Portugal?

L. S. - Penso que sim. Tudo o que seja liberalizar e descompartimentar é muito bom porque permite que muitos clubes pequenos, que só têm masculinos, ou só têm femininos, ou só têm este ou aquele escalão, possam participar, possam pôr mais pessoas a fazer uma Estafeta e, sobretudo, duma forma descomprometida, que é a de mais livremente participarem, sem estarem apenas focados na competição.

Estamos a dois meses dos Campeonatos do Mundo. É no Sprint que reside a nossa maior esperança?
M. D. - Penso que sim. Mas não nos podemos esquecer que estamos uns anos atrás da elite mundial, como é lógico. Isto tem a ver com o facto de estarmos num canto da Europa e afastados geograficamente das grandes competições internacionais e da esperiência que daí advém. Mas acredito que, graças ao extraordinário espírito atlético que os nossos melhores atletas de Elite têm, as suas características coadunam-se mais com esta variante. Falo dum Miguel Silva, dum Diogo Miguel, até dum João Mega Figueiredo. Acredito realmente que será possível metermos dois ou três atletas nas finais A de Sprint.

Regressando às nossas organizações, que conselho deixaria para que as coisas pudessem melhorar ainda mais nesta variante de Sprint?

L. S. - Ao longo destes anos todos em que tenho andado por aqui, confesso que as questões organizativas me têm passado sempre ao lado. Mas se calhar deveríamos encontrar uma forma de contornar esta questão da quarentena, porque é sempre uma questão muito chata, que nos abriga a chegar muito tempo antes e a ficarmos depois retidos lá dentro, e quando as pessoas têm miúdos mais pequenos isto é sempre muito complicado. Por outro lado, e voltando em certa medida à questão das provas de Sprint que são “enfiadas” na tarde de sábado, isso é muito aborrecido porque as provas começam demasiado cedo, obrigando as pessoas a levantarem-se de madrugada ou a irem de véspera. Isso acontece à revelia do que tinha sido acordado há uns tempos atrás, de que as provas começariam ao final da manhã ou início da tarde. E acontece porque é necessário recuar as provas para se meter a prova de Sprint. É necessário pensar nisto e percebermos aquilo que realmente queremos!


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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