segunda-feira, 8 de abril de 2013

VIOLETA FELICIANO: "TIVE A FELICIDADE DE CRESCER NUM CLUBE DE ONDE SAÍRAM GRANDES ORIENTISTAS"




Violeta Feliciano foi a grande surpresa dos Campeonatos de Espanha de Orientação Pedestre CEO 2013. Na sua primeira temporada na categoria Elite, a atleta alicantina alcançou dois títulos nacionais individuais e foi segunda classificada na Estafeta. Resultados esses que servem de pretexto para uma conversa particularmente interessante e da qual se dá conta aqui e agora.


No final dos recentes Campeonatos de Espanha, regressou a casa com duas medalhas de ouro e uma de prata ao peito. Estava à espera disto?

Violeta Feliciano (V. F.) - Foi uma grande surpresa. Não esperava voltar a casa com tão bons resultados, sendo este o meu primeiro ano na categoria de Elite. E ainda menos nas provas de Sprint e de Distância Média, que eram as distâncias nas quais menos confiança tinha. Na realidade, o meu objetivo principal era a prova de Distância Longa porque esta foi, desde sempre, a minha distância favorita. Mas cometi um erro muito grande num ponto e acabei fora do pódio. Apesar de ter ficado um pouco desmotivada depois desta primeira prova, tinha a noção que estava bem fisicamente e que se me concentrasse e partisse mais tranquila podia conseguir fazer muito melhor e, inclusivamente, ficar num dos três primeiros lugares. Acabei por não me dar nada mal com essa mudança de mentalidade... (risos)

Onde reside o segredo destes resultados?

V. F. - Suponho que, como em qualquer outro desporto, o segredo está no esforço de treinar a cada dia e na vontade de melhorar. Não fiquei nada contente com os meus resultados nas duas últimas temporadas de Junior e este ano decidi alterar a minha forma de encarar a Orientação, traçando objetivos menos exigentes. Queria fugir da pressão, não ter de me preparar para uma competição em particular, apenas correr e desfrutar. Foi o que fiz. Comecei a ter mais cuidado com a minha alimentação e a sentir-me melhor com o treino. Naturalmente, tenho também de agradecer ao meu treinador, Jesús Gil, que foi quem me preparou e me ajudou a alcançar tão bons resultados.

Foi particularmente emocionante assistir ao final da Estafeta dos Campeonatos de Espanha e não passou despercebida a ninguém a forma como, no final, foi confortar Alicia [Gil], que acabava de perder ao sprint para Anna Serralonga. Quer contar-me o que realmente sentiu naquele momento?

V. F. - Sabia que este ano não seria fácil ganhar, porque as minhas colegas de equipa, Alicia e Esther Gil, por uma razão ou outra, não tinham podido treinar o suficiente e não se encontravam muito bem fisicamente. Mas ainda assim tínhamos uma enorme vontade de fazer uma boa prova e também de ganhar. Quando vi que a Alicia e a Anna picavam o 200 quase ao mesmo tempo, lembrei-me da minha primeira Estafeta em Elite, em 2010, onde a Catalunha também nos ganhou por muito poucos segundos. Esta é uma das coisas que torna este desporto tão emocionante. Tudo pode acontecer e nada está decidido mesmo até ao final. Embora gostasse de ter ganho, estou muito contente com o esforço das minhas companheiras de equipa e fico feliz pelas catalãs Berta, Annabel e Anna.

Agora que dá os primeiros passos na Elite, quer dizer-me como tudo começou?

V. F. - Comecei muito cedo a fazer Orientação, creio que com oito anos, na Escola. No princípio praticava também outros desportos, nomeadamente Atletismo, Basquetebol ou Futebol, mas aos poucos comecei a interessar-me mais pela Orientação. Faz agora precisamente dez anos que participei no meu primeiro Campeonato de Espanha e lembro-me de ter apostado com o meu pai que, se ganhasse, ele me ofereceria uma consola de videojogos. Não sei se foi pela vontade de ganhar a aposta, a verdade é que ganhei nos dois dias e quando regressei a casa o meu pai teve mesmo de me dar a consola. Desde esse dia que nunca mais voltou a apostar comigo (risos).

O que encontras nesta modalidade que a torna tão especial?

V. F. - Para mim, a Orientação é uma modalidade incrível, na qual corpo e mente seguem unidos. Não basta estar em boa forma física, é necessário ter uma boa técnica com o mapa. Isto faz com que a Orientação seja tão emocionante, porque perder apenas alguns segundos numa opção pode fazer toda a diferença.

Qual o melhor momento da sua carreira até hoje? E qual o pior?

V. F. - Confesso que guardo recordações belíssimas de todos estes anos que levo da prática da Orientação, mas em termos de momento de forma devo admitir que é agora que me encontro no ponto mais alto de sempre. O pior, em termos de forma, diria que foram os meus dois últimos anos de Júnior.

Como consegue ter tempo para os estudos e ainda para estar neste momento em tão boa forma?

V. F. - Estudo Tradução e Interpretação de Alemão na Universidade e estou no segundo ano do Curso. É um curso que requer muito tempo e trabalho porque tem uma aplicação iminentemente prática, o que acaba por não me deixar muito tempo livre para o treino. Além disso, as aulas são sempre da parte da tarde e apenas me resta a manhã para estudar e treinar. Nos últimos dois anos tenho treinado sozinha porque o grupo de treino do meu clube treina de tarde e não há ninguém que tenha disponibilidade para treinar de manhã. É um pouco duro sair sozinha de manhã, sobretudo no Inverno com este frio, mas se há vontade e motivação as coisas não custam tanto. Passa-se o mesmo com a gestão do tempo, se queremos atingir objetivos acabamos sempre por arranjar tempo onde quer que seja.

Quando olha à sua volta e vê a Anna e o Marc Serralonga, o Biel, o Pol e a Ona Rafols, o Antonio Martinez, o Andreu Blanes, a Annabel, a Esther, o Roger Casal e tantos outros, o que sente por pertencer já a esta Elite?

V. F. - Devo dizer que este ano, por coincidência, alguns dos nossos orientistas de Elite participaram nesta altura em provas no estrangeiro e outros, por qualquer razão, não se encontram na sua melhor forma. Penso que isto se repercutiu no nível dos Campeonatos de Espanha e, em particular, no caso Feminino, que infelizmente se apresenta sempre em menor número. Mas estou muito feliz por me encontrar a competir ao mais alto nível com os melhores de Espanha, uma vez que sempre foram uma referência para mim e agora são os meus rivais.

Há algum ou alguma atleta que siga como um exemplo, de quem seja particularmente fã?

V. F. - Tive a felicidade de crescer num clube de onde sairam grandes orientistas como Esther Gil, Roger Casal ou Antonio e Andreu, os 'Niños Bomba', que sempre foram as minhas referências e com os quais aprendi muito. Estou convicta que tanto eles, como muitos outros orientistas em Espanha, apesar dos poucos recursos de que dispomos, chegaram onde chegaram graças ao seu esforço e à vontade de melhorar. Isso tem um enorme mérito e creio que todos eles são o melhor exemplo de como se atinge um nível elevado neste desporto.

Por causa dos estudos vai falhar aquele que seria provavelmente o seu primeiro Campeonato do Mundo de Elite. O que sente em relação a isto?

V. F. - O facto de desistir do WOC foi algo que estabeleci desde logo, no início da temporada. Este ano os estudos e a aprendizagem da língua alemã eram prioritários pois tenho a convicção que serão algo muito importante para o meu futuro. Tenho um contrato de trabalho na Áustria, no início do mês de Junho e, desta forma, era impossível assumir compromissos com as datas dos Campeonatos do Mundo. Lamento sinceramente não poder ir, sobretudo agora que me sinto tão bem fisicamente e era uma excelente oportunidade. Mas, enfim, este é o meu primeiro ano de Elite e ainda me restam muitos mais para poder estar num Campeonato do Mundo.

Não resisto a perguntar-lhe o seguinte, já que dentro de um par de dias Portugal recebe a primeira etapa do Campeonato Ibérico e não conseguimos perceber entre os inscritos, na categoria Elite, a esmagadora maioria dos grandes atletas de Espanha, nomeadamente a Violeta: Quando as duas Federações acordaram em levar por diante o novo modelo, pondo um ponto final nas Seleções, o que fizeram ao Ibérico?

V. F. - Sinceramente, gostava mais do modelo do Campeonato Ibérico que tinhamos anteriormente, uma vez que tornava a competição muito mais empolgante. É uma pena que agora as Federação não possam permitir-se convocar as Seleções Nacionais, porque retiraram emoção à prova. Apesar de que este novo modelo também tem vantagens, nomeadamente o facto do Campeonato se poder decidir em dois terrenos diferentes e de se oferecer a todos os participantes a possibilidade de serem Campeões Ibéricos. O principal problema deste modelo é que, agora, as pessoas vêem o Campeonato Ibérico como uma prova mais da Liga Nacional e, portanto, pensa-se duas vezes se são grandes as distâncias a vencer. É o meu caso, por exemplo, que vivo em Alicante e tenho de ponderar bem as coisas, uma vez que na semana seguinte ao Ibérico temos uma nova prova da Liga Espanhola e, também ela, bastante distante de casa.

Com o Campeonato de Espanha ultrapassado e sem o objetivo WOC na mira, como vai ser o resto da temporada?

V. F. - O meu objetivo principal da temporada era o Campeonato de Espanha, embora dentro de dois meses também tenhamos o Campeonato de Espanha Universitário onde o nível é igualmente muito elevado e onde gostaria de voltar a alcançar bons resultados. Restam as provas da Liga Nacional e depois, no Verão, sigo para a Áustria e mais tarde, em Setembro, para Munique, fazer um semestre de Erasmus. Portanto, a partir de agora tenho de começar a procurar um clube alemão para continuar a competir aí.

Todos os orientistas acalentam um sonho. Quer partilhar connosco o seu?

V. F. - Bom, de momento não tenho objetivos estabelecidos pois, como referi, este ano os estudos são a minha prioridade. No próximo ano, quando regressar a Espanha, espero poder continuar a competir na Elite e começar a pensar nos Campeonatos do Mundo.

[Foto gentilmente cedida por Germán Giménez]


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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