segunda-feira, 1 de abril de 2013

DAVIDE MACHADO: ATLETA DO MÊS DA FEDERAÇÃO INTERNACIONAL DE ORIENTAÇÃO



O nosso atleta de Abril, Davide Machado, é uma das estrelas em ascensão da atual Orientação em BTT. Ele integra o Grupo de Alto Rendimento, um restrito lote de atletas de elite de várias modalidades, subsidiados pelo Governo Português para melhorarem as suas performances e continuarem a garantir resultados de excelência. Saiba mais acerca do treino de Davide Machado e sobre os objetivos que se propõe alcançar no ano presente.


Nome: Davide Machado
País: Portugal
Disciplina: Orientação em BTT
Momentos relevantes da carreira: Campeonato do Mundo – Distância Longa 5º (2011 e 2012), Distância Média 11º (2012), Sprint 6º (2011), Estafeta 8º (2012); Campeonato da Europa – Distância Longa 29º (2011), Distância Média 34º (2011), Sprint 45º (2011), Estafeta 13º (2011).
Posição no Ranking da IOF: 11º


Foi no Campeonato Nacional de Distância Média e de Estafetas 2009 que Davide Machado percebeu que a sua disciplina para o futuro, aquela que poderia vir a consagrá-lo, a assistir à materialização dos seus sonhos, era a Orientação em BTT. Porquê? Sobretudo pelos resultados alcançados nessa competição e que o colocaram no lote de atletas seleccionados para os Campeonatos do Mundo. Ao estímulo de poder enfrentar, olhos nos olhos, os melhores do mundo e de se vir a bater com eles, juntava-se o facto de os Campeonatos se desenrolarem em Portugal. Davide Machado soube agarrar a oportunidade com mãos ambas, disposto a provar àqueles que nele apostaram que não se enganaram.

Descobrir em si as características físicas adequadas à prática da Orientação em BTT e aliar a isso os bons resultados, eis a receita que fez de Davide Machado aquilo que é hoje: um dos maiores expoentes a nível mundial desta tão exigente quanto espetacular disciplina.


Quando determino objetivos, gosto de alcançá-los”

Davide Machado nasceu na Póvoa de Lanhoso, uma localidade do Distrito de Braga, no Norte de Portugal. Como qualquer criança, também ele tinha uma bicicleta e incluía-a nas suas brincadeiras, mas nada de muito sério. Nunca foi aquele miúdo que pegava na bicicleta de manhã e aparecia com ela só à noite, muito menos alguém que se imaginasse um dia na mais alta roda competitiva por intermédio, precisamente, da bicicleta.

A ligação à Orientação começou a ganhar forma aos 12 anos, por via do Desporto Escolar. Os primeiros resultados, bastante animadores por sinal, foram alcançados na Pedestre. O gosto pela modalidade aumentava de prova para prova e teve um dos seus grandes momentos em 2004, quando representou Portugal no Campeonato do Mundo de Orientação de Desporto Escolar ISF (Bütgenbach, Bélgica). “Um ponto alto que marcou definitivamente a integração total nesta modalidade até aos dias de hoje”, afirma.

Até onde poderia ter chegado Davide Machado na Orientação Pedestre, é algo que nunca se saberá. Duma coisa o atleta tem a certeza: “Quando determino objetivos, gosto de alcançá-los”. Daí que a sua convicção é a de que poderia ter vindo a conseguir alguns bons resultados na Pedestre, até porque, como afirma, “com esforço tudo se consegue.”


[Erik Skovgaard Knudsen] “um atleta completo, fenomenal”

A Orientação em BTT surge na sua vida no final de 2006 e Davide Machado viu nela uma grande oportunidade. A partir daí o entusiasmo por esta disciplina cresceu na ordem inversa do interesse pela Orientação Pedestre. “Na verdade, hoje em dia faço muito pouca Pedestre, aliás penso que não farei nenhuma prova este ano.” Mas os motivos têm igualmente a ver com questões de saúde, já que uma lesão no Tendão de Aquiles fez com que os médicos o aconselhassem a evitar as corridas, sobretudo em Montanha, sob pena de ter de vir a ser operado. Por outro lado, explica, “embora sejam conciliáveis, não é muito aconselhável misturar o treino intenso de corrida com o treino intenso de ciclismo, daí que um especialista de BTT deva concentrar a sua atenção sobretudo na bicicleta.”

Falando da Orientação em BTT e dos seus gostos, a distância que mais aprecia é a Longa. A razão, como explica, “tem a ver com o facto de ser uma prova com uma componente mais física e que se adequa ao facto de eu ser um atleta sobretudo físico”. Confessando gostar de Sprint, “principalmente de Sprint urbano”, Machado reconhece serem estas “provas mais rápidas, mais técnicas e eu ainda estou a aprender a parte técnica”. Mas não se pense que haja défice técnico da sua parte. A verdade é que “tudo faz parte do processo de aprendizagem e de crescimento do atleta.”

Olhando para si, para aquilo que o define como grande atleta que é e vendo o que se passa à sua volta, Davide Machado não foge à regra e, também ele admite que tem um atleta como modelo. Trata-se do dinamarquês Erik Skovgaard Knudsen, “um atleta completo, fenomenal”. O atleta conta que “cheguei a acompanhá-lo em dois pontos nos Campeonatos da Europa, na Rússia, e é realmente incrível a sua capacidade física e técnica, conseguindo fazer uma leitura do mapa sem erros com um domínio da bicicleta excecional.”


"Não há tempo para mais nada"

No final de 2010, na sequência do 7º lugar alcançado na final de Distância Longa dos Campeonatos do Mundo de Montalegre, Davide Machado passa a integrar o Grupo de Alto Rendimento, um restrito lote de atletas de elite de várias modalidades, subsidiados pelo Governo Português para melhorarem as suas performances e continuarem a garantir resultados de excelência. Davide Machado muda-se então para o Centro de Alto Rendimento da Cruz Quebrada, próximo de Lisboa, onde passa a viver. Para o atleta, “a mudança foi muito positiva, permitindo-me ter outras condições, tanto ao nível do treino e da recuperação, como do acompanhamento médico e nutricional, por exemplo.”

As manhãs são passadas na Faculdade, onde segue os estudos de Gestão Empresarial. De resto, o tempo é repartido entre os estudos e o treino. "Não há tempo para mais nada", reconhece. E nem será difícil perceber porquê, num atleta que, só em 2012, cumpriu um total aproximado de 17.000 km repartidos por cerca de 600 horas de treino e competição.


Gosto mais da Polónia”

A temporada 2013 de Orientação em BTT já começou, as provas vão-se sucedendo, mas as atenções estão viradas mais lá para o Verão, quando na Polónia se desenrolarem os Campeonatos da Europa e a Estónia receber os Campeonatos do Mundo. E aí o objetivo é claro e igual para ambas as competições: Renovar o estatuto de Alto Rendimento, ou seja, na prática, conseguir um lugar entre os oito primeiros classificados em pelo menos uma das oito provas que terá pela frente. Mas quanto mais cedo alcançar esse objetivo, melhor: "Quero fazê-lo já no Campeonato da Europa, retirando essa pressão acrescida sobre o Campeonato do Mundo. O ano passado isso só foi alcançado na última prova do Campeonato do Mundo e quero evitar a todo o custo passar de novo por essa situação."

E se a ambição de ficar entre os oito primeiros classificados tem um propósito claro, deve reconhecer-se que uma medalha não está fora das cogitações do atleta. A sua modéstia leva-o a dizer: "Não é que não queira, aliás quero mesmo muito. Estou a trabalhar para isso, mas sei que, tal como eu, também há muitos atletas que lutam por transformar esse sonho em realidade, que trabalham igualmente no duro para lá chegar; é, portanto, algo que não depende apenas da minha própria vontade."

Campeonato da Europa ou campeonato do Mundo? Polónia ou Estónia? “Pessoalmente gosto mais da Polónia”, diz Machado e explica porquê: “Penso que na Estónia os terrenos são mais planos, mais técnicos, ao passo que na Polónia é mais físico, serão etapas mais duras e daí que a minha aposta maior seja na Polónia. Alcançado o grande objetivo de ficar entre os oito primeiros, aí sim, tentarei fazer melhor ainda nos Campeonatos do Mundo.” Duma coisa, porém, não tem dúvida: “Em termos competitivos serão dois eventos muito idênticos e, tanto do ponto de vista técnico como organizativo, a qualidade será altíssima, em dois países com provas dadas neste capítulo.”


Entre os dez melhores do mundo”

É justamente das anteriores edições dos Campeonatos do Mundo que o atleta guarda as melhores recordações da sua carreira, elegendo o 5º lugar na Distância Longa dos Mundiais de 2011 como o momento que mais o marcou: “Quando terminei estava em 3º lugar e depois foi aquela euforia da espera pelos três atletas ainda em prova, desejando que eles falhassem”. Ficar nas medalhas ou não ficar, eis a questão. Foram momentos de enorme emoção, os mais marcantes da sua carreira até hoje, saldando-se por aquilo que considera, afinal, “um resultado muito bom mesmo”.

E porque tanto os Campeonatos da Europa como os Campeonatos do Mundo pontuam para a Taça do Mundo, cuja ronda final terá lugar em Portugal, é inevitável terminar com a questão: “Que Taça do Mundo em Portugal, no próximo mês de outubro?” Davide Machado não esconde as suas ambições: “Vou guardar todas as minhas forças para aquele que será, para mim, o momento alto da temporada. Quero exceder as expectativas e dar a Portugal e aos portugueses uma grande alegria.” As chaves dum grande resultado podem estar “no tipo de terrenos onde a competição se irá realizar e que eu adoro e na nosso cartografia, algo com o qual estou já familiarizado e gosto muito.” Isto para além, naturalmente, “do fator-casa, sempre importante em termos de motivação.”

Terminada a Taça do Mundo, terminada a temporada, Davide Machado olhará para trás e lembrar-se-á que concluiu a última época no 11º lugar, a escassos três pontos do top-10. Depois de ter chegado a ocupar o 7º lugar do Ranking da Federação Internacional de Orientação, a verdade é que as coisas não correram bem na parte final, precisamente na ronda final, na Estónia. Mas este ano tudo será diferente: “Espero realmente fazer uma boa campanha e alcançar esse objetivo de chegar ao fim da temporada entre os dez melhores do mundo.”


Os atletas e as questões

Pergunta de Stanimir Belomazhev, Atleta do Mês de Março: - Tem alguma paixão por outro desporto além da Orientação em BTT?

Davide Machado: “Para além da Orientação em BTT, gosto muito de fazer BTT na versão Cross-Country. Comecei a praticá-la como uma forma de complemento ao treino de Orientação em BTT mas de momento, ainda que num plano secundário, levo esta modalidade bastante a sério. Em termos nacionais, consegui alguns bons resultados em 2012, nomeadamente o terceiro lugar no Campeonato Nacional e espero que no ano em curso as coisas possam correr ainda melhor. A BTT Cross-Country é uma disciplina que cresceu extraordinariamente nos últimos anos, sobretudo em termos do número de atletas que a praticam, e sendo modalidade olímpica cria um impacto maior na Sociedade o que torna mais fácil encontrarmos um apoio, um patrocinador, especialmente no tocante a materiais.”

E a pergunta de Davide Machado ao Atleta do Mês de Maio, o Oientista de Precisão Paralímpico Evaldas Butrimas, da Lituânia:

- Como vê o futuro da Orientação de Precisão? Quais os seus objetivos nesta disciplina?


[Leia a Reportagem na versão original inglesa em http://orienteering.org/when-i-set-my-goals-i-like-to-achieve-them/. Publicação devidamente autorizada pela Federação Internacional de Orientação]


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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