sábado, 30 de março de 2013

GILMAR STEFFLER: "É DENTRO DA '40' QUE EU CONSIGO SENTIR-ME EM CASA"



Tri-campeão brasileiro de Orientação Pedestre e tri-Campeão Sul-Americano. Falamos de Gilmar Steffler, um dos “notáveis” que estiveram recentemente entre nós e que não quis deixar os seus créditos por mãos alheias, levando de vencida o Norte Alentejano O' Meeting e o Portugal O' Meeting na categoria H40. O Orientovar foi conhecer melhor o atleta e a pessoa.


Como foram os seus primeiros passos na Orientação?

Gilmar Steffler (G. S.) – Eu apareci na Orientação por volta de 1997, numa altura em que já se falava na criação da Confederação Brasileira de Orientação. Existiam alguns Campeonatos Regionais, nomeadamente no meu Estado, que é o Rio Grande do Sul, mas cogitava-se sobre a necessidade de criar uma estrutura que aglutinasse tudo aquilo que estava já a ser feito. Depois, em 1999, surgiu a Confederação, no ano seguinte comecei a competir na Elite e mantive-me na Elite até ao ano passado. São, portanto, passos que se misturam e confundem com a própria história da Orientação no Brasil.

Esses primeiros tempos eram muito diferentes daquilo que temos hoje no Brasil?

G. S. - Muito diferentes, realmente. É verdade que hoje ainda temos dificuldades nalgumas áreas, mas notou-se uma evolução muito grande. Nos mapas, por exemplo, é onde se nota uma maior evolução. Sobretudo de 2006 para cá, com os Campeonatos Militares, há um aperfeiçoamento e uma progressão constantes no trabalho dos cartógrafos e na qualidade desses mesmos trabalhos. A verdade é que o Brasil é muito grande, tem uma enorme variedade de terrenos e nalguns desses terrenos os nossos cartógrafos não estão ainda tão à vontade.

E onde é que essa evolução não é tão grande quanto o desejável?

G. S. - Há uma coisa, sim, que temos de melhorar. Falta-nos conseguir incrementar a Orientação dentro das Escolas. Há algum trabalho já feito nesse sentido, mas vemos que são muitos os locais no Brasil onde não há uma Escola, não há um estudante que conheça a Orientação. Isto põe em causa o crescimento da própria modalidade e aquilo que eu vejo é que somos praticamente os mesmos desde há algum tempo. Eu estou já com 40 anos e ainda consigo acompanhar muitos atletas de Elite, no Brasil. Não direi os primeiros, mas ali à volta do 7º ou do 10º lugar eu ainda consigo acompanhar.

Falou das crianças e dos mais jovens. Num país onde o Futebol é Rei, como é que a Orientação se faz notar para atrair essas mesmas crianças e jovens?

G. S. - Essa é outra parte onde ainda estamos muito abaixo do desejável. Infelizmente, no Brasil, a Comunicação Social só tem tempo para o Futebol, para o Voleibol e para a Natação. É tudo em função da quantidade de praticantes e os 13 ou 14 mil confederados que temos na nossa modalidade, sendo muito bom, é muito pouco tendo em atenção a dimensão do país. Concerteza que estes números irão aumentar, mas neste momento a divulgação ainda é feita muito de boca a boca. Termos a Comunicação Social do nosso lado seria fundamental para que pudéssemos mostrar a Orientação como um todo.

Andando um bocadinho com a nossa conversa para trás e voltando a si, disse-me que entretanto deixou a Elite e foi possível vê-lo este ano em Portugal a correr na categoria H40. E com grandes resultados...

G. S. - Sim, é verdade. O pessoal lá no Brasil, quando soube que eu viria, incentivou-me a competir ainda na Elite. Mas penso que não, a minha categoria é a H40 e é aí que eu julgo alcançar os resultados que espero de mim mesmo. Realmente, hoje em dia a Elite está um patamar acima do meu nível e é dentro da “40” que eu consigo sentir-me em casa.

Foi a primeira vez que competiu em Portugal?

G. S. - Não, já aqui tinha estado em 2001 aquando da realização do Campeonato Mundial Militar. Guardo excelentes memórias dessa vinda a Portugal e por vezes comentava com a minha esposa que teria de voltar um dia. A verdade é que as minhas saídas ao estrangeiro têm sido sempre com a equipa militar e eu estava a dever uma viagem com a família. Foi uma questão de juntar o útil ao agradável.

Além dessa experiência há 12 anos atrás, houve mais alguma razão que o levou a optar por Portugal?

G. S. - Bem, na verdade eu falo um bocadinho o alemão, mas o meu inglês é praticamente zero. Como em Portugal sabia de antemão que a língua não constituiria uma barreira, para poder contactar e conhecer era o ideal. Na altura em que estive cá, em 2001, senti-me como que em casa. E é precisamente assim que eu me voltei a sentir.

Teve a oportunidade de competir em todas as etapas dos três eventos internacionais de Fevereiro, em Portugal. Estava à espera de ver o que viu?

G. S. - Desde 2009 que acompanho aquilo que se vai fazendo em Portugal e em particular estas provas de Inverno. Ultimamente tem havido um investimento grande na preparação da Seleção Militar Brasileira e sempre que os nossos atletas regressavam ao Brasil falavam muito – e muito bem! - das provas em Portugal. Via os mapas, ouvia os elogios e ia dizendo comigo mesmo que um dia teria de vir cá e participar também. Na verdade eles não disseram mentira nenhuma, eu só tenho elogios para as provas onde tive oportunidade de participar e posso mesmo dizer que excederam as minhas expectativas.

O que é que mais o impressionou?

G. S. - Desde logo a variedade dos terrenos. Em Nisa, o terreno tinha muita pedra mas o relevo era suave. No Portugal O' Meeting era pedra, pedra e muito inclinado. E na terceira competição, em Pombal, não encontrei uma pedra. Mas para mim aquilo que mais me impressionou foi mesmo a qualidade dos mapas. Os mapas falam por si, tudo o que é essencial está lá e é apenas uma questão de saber lê-lo e interpretá-lo.

Admito que esteja igualmente contente com as suas prestações, mesmo apesar daquele “mp” na última etapa do Meeting de Orientação do Centro a roubar-lhe a possibilidade de fazer um pleno vitorioso nos três eventos. Consegue eleger algum momento verdadeiramente especial neste conjunto de provas que fez entre nós?

G. S. - Realmente estou surpreendido com os meus resultados e posso dizer que não há uma prova que destaque das restantes. Para mim, foram todas especiais. Cada prova é um novo desafio e, sempre que eu consigo terminar uma prova, e terminar bem, sentindo-me bem comigo mesmo e com aquilo que fiz, eu fico feliz. Como eu me senti feliz em todas as provas que fiz em Portugal, não vou escolher uma. Foram todas especiais.

No seu regresso ao Brasil, há algum aspeto que leva daqui e que irá procurar implementar lá?

G. S. - Sim. Na verdade, quando tiver a incumbência de participar na organização duma prova, eu não vou esquecer de montar um “baby-sitting” com uma escolinha de orientação. Eu trouxe o meu filho e ele gostou muito. Sei que, do ponto de vista logístico, tem algum trabalho e envolve algumas pessoas mas é um trabalho simples e as crianças gostam muito. É um trabalho básico, com o recurso a fitas, mas que pode representar muito para as crianças e para o gosto que possam vir a desenvolver pelo nosso desporto.

Embora estejamos ainda a uma distância significativa do evento, é quase sacramental colocar-lhe esta questão: Como é que vai ser nos Mundiais de Veteranos que terão lugar no seu País, em 2014?

G. S. - Os Mundiais de Veteranos terão lugar no Sul do Brasil, em terrenos com algum desnível. Não sei exatamente onde irão ser e há uma grande variedade de terrenos naquela região, mas posso garantir que não vão ter a pedra que teve este Portugal O' Meeting nem a areia que teve o Meeting de Orientação do Centro. Quanto à minha prestação, ainda é muito cedo para definir o que quer que seja em termos de objetivos. Um ano de cada vez e, mais lá para o final do ano, começar então a pensar nisso.

Mas estas suas excelentes prestações em Portugal, no despique direto com alguns dos seus potenciais adversários em 2014, dão já algumas indicações...

G. S. - Sim, os resultados são motivadores. Sobretudo porque não treinei em Dezembro e só em Janeiro é que fiz alguns treinos. A minha vinda aqui era para ser mais em jeito de treino que de competição e daí eu estar bastante satisfeito e surpreendido.

Uma última palavra, uma mensagem, algo?

G. S. - Uma palavra de agradecimento a todos os portugueses que, de alguma forma, nos ajudaram. A vida não está fácil, o dinheiro tem de ser todo contadinho e as respostas que tivemos aos contactos feitos antes de sairmos do Brasil acabaram sendo muito positivas e foram fundamentais para viabilizar a nossa vinda. Obrigado a todos quantos colaboraram para que nos sentíssimos muito felizes, para que nos sentíssimos em casa.


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO
  

1 comentário:

Anónimo disse...

ótima entrevista!