sábado, 16 de março de 2013

ENTREVISTA: O POM EM ANÁLISE (VERSÃO INTEGRAL)




Evento emblemático da época de Inverno da Orientação, o Portugal O' Meeting soube, ao longo dos seus dezoito anos de existência, conquistar um lugar de referência entre orientistas do mundo inteiro. Mas tal apenas foi possível graças à aposta dos clubes numa organização de excelência, assente nos melhores mapas e terrenos, na diversificação da oferta competitiva, em arenas de qualidade e, porque não dizê-lo, no bem receber das nossas gentes. Para falar disto e muito mais, fomos ao encontro de António Amador, Mário Duarte e Luís Santos, diretores do POM em 2012, 2013 e 2014. Passado, presente e futuro do Portugal O' Meeting em análise.


O Portugal O' Meeting está numa encruzilhada?

Mário Duarte (M. D.) - Sim, estamos numa encruzilhada. O Portugal O' Meeting tem o seu espaço, um espaço reconhecido numa época do ano extraordinária para a prática da Orientação no nosso país, mas a verdade é que começam a surgir outros países, outras organizações, a quererem ocupar esse espaço. Felizmente, nos últimos anos, temos organizado muito bem e a fasquia está colocada muito alto. Aliás, gostaria de dizer que se o CPOC [Clube Português de Orientação e Corrida], no próximo ano, tiver mais atletas do que eu tive, sentir-me-ei realizado. É sinal que o Portugal O' Meeting deste ano correu muito bem e constituiu um bom cartão de visita. O Portugal O' Meeting tem de constituir uma opção anual para aqueles que nos procuram. E nós só temos é que ir ao encontro das suas expectativas.

António Amador (A. A.) - Felizmente os clubes têm pensado nesta prova como sendo uma prova da modalidade e não uma prova do clube e isso é fundamental para todo o envolvimento que se cria. Ainda este ano, a ADFA [Associação dos Deficientes das Forças Armadas] teve esta preocupação. Se não tinha elementos que garantissem a excelência em determinadas áreas, foi à procura deles fora do clube. O ano passado aconteceu o mesmo connosco, ao socorrermo-nos do COV [Clube de Orientação de Viseu – Natura]. E isto é fundamental para continuarmos com o nível desta prova.

Luís Santos (L. S.) - Talvez não devesse revelar isto em primeira mão, até porque os contactos estão ainda numa fase muito preliminar, mas o COV poderá vir a ser uma ajuda importante também na organização do POM 2014. É o clube geograficamente mais próximo de Gouveia, é um clube muito forte e muito dinâmico e pode ser realmente uma grande ajuda. Não nos podemos esquecer que vamos organizar o Portugal O' Meeting a 350 quilómetros de nossa casa e essa proximidade do COV pode ser uma mais valia clara. E não só em relação ao COV, mas também em relação a pessoas específicas em determinadas áreas, áreas onde o CPOC reconhece não ter tanta qualidade, podendo ir buscar a outros clubes essas pessoas-chave para fazer o trabalho necessário com vista a mantermos o patamar de excelência que o POM já alcançou.


O que representa o Portugal O' Meeting para um clube? É o desafogo financeiro, um balão de oxigénio durante dois ou três anos ou é mais do que isso?

A. A. - Fundamentalmente é uma dor de cabeça para duas ou três pessoas durante dois ou três anos (risos). A preocupação está em garantir um bom evento, não é se iremos ter desafogo financeiro depois.

M. D. - Até porque, por mais previsões que possamos fazer, as contas saem sempre furadas. É lógico que o Portugal O' Meeting, pelos números que envolve, é um balão de oxigénio para os clubes. Todavia, o peso logístico dum evento desta natureza também é muito grande, sobretudo para quem organiza longe de casa, como geralmente sempre acontece. Mas estamos a falar duma modalidade fechada, duma modalidade onde as receitas que geramos com as nossas provas servem para pagar as despesas nas provas que os outros organizam. Ou seja, o dinheiro fica na modalidade.

L. S. - Sem querer andar aqui em círculos com a conversa, a nossa preocupação reside em descobrir terrenos que nos dêem a garantia duma excelente prova e que nos satisfaçam acima de tudo, independentemente da distância a que eles se situam. Veja-se o caso de Gouveia e do POM 2014 que é, afinal, o culminar de todo um projeto que começou há dois anos e cujo objetivo é fazer com que Gouveia se fixe como um dos grandes centros da Orientação em Portugal. Mas o projeto só será válido se tivermos bons terrenos, que felizmente Gouveia tem. Agora, alguém nos diz, “olha, temos um apoio forte, vamos fazer ali uma prova”. Essa não é a preocupação. A preocupação é a excelência dos terrenos e, portanto, vamos apostar na dinamização deste pressuposto e esperar que a Orientação, de alguma forma, saia a ganhar com isto e, naturalmente, também o clube e as pessoas que estão envolvidas.


E as regiões? Que partido é que as regiões tiram disto? Lança-se uma semente e vemos, com alguma mágoa, que ela não germina... Mora, por exemplo...

L. S. - Isso não é inteiramente verdade. Temos hoje um clube – o COAC – que só nasceu por causa das provas de Mora. Por vezes parece que nada fica, mas há sempre algo que se ganha em ir a determinado local e em puxar pelas gentes dessas regiões. De facto, gostaria que tivessem acontecido muitas mais coisas em Mora e não aconteceram. Mas o que estamos a fazer em Gouveia é o resultado duma aprendizagem baseada precisamente naquilo que falhou em Mora. E sentimo-nos gratificados pelo facto de a autarquia valorizar as nossas indicações e estar muito centrada nas questões que têm a ver com os Campos de Treino, com os Percursos Permanentes, com tudo o que de alguma forma fique para dar continuidade àquilo que é o projeto de Gouveia. As coisas não se podem esgotar no Portugal O' Meeting – por maior que seja a sua dimensão -, mas terá de ficar muito mais do que isso para a região.

M. D. - Pegando nas palavras do Luís ainda em relação à questão anterior, quando trabalhamos com as autarquias temos de ter uma grande honestidade, pedindo apenas aquilo que elas nos podem dar, sob pena de virmos a esgotar os apoios em ocasiões futuras. Por outro lado, é lógico que também pode haver outros Municípios a procurar-nos, mas a resposta tem de ser dada em função da qualidade dos terrenos. E cito o caso do Município de Arronches, um Município que tem vontade...

L. S. - Também temos um caso desses com Alcácer do Sal; também tentámos mas não havia qualidade nos terrenos...

M. D. - Pois, é isso. O problema é que em Arronches os terrenos são pobres. Por mais boa vontade que tenhamos, torna-se difícil responder às propostas do Município. Tem de ficar sempre algo na região, a região tem de sentir que somos uma mais-valia e felizmente temos sentido isso no Município de Idanha-a-Nova. Caso contrário, os projetos esgotam-se, o que é mau para nós, para a modalidade em si e mesmo para futuras organizações noutros Municípios.

A. A. - Ainda relativamente a esta questão, é fundamental a envolvência de alguém que esteja implantado localmente. Não só o Município, mas é necessário alguém local que garanta a continuidade, algo que os clubes que organizam a grandes distâncias não conseguem fazer. Quando organizámos o POM em 2007, em S. Pedro do Sul, não envolvemos o COV e isso, em termos de implantação da modalidade, teve como resultado praticamente zero. Com o envolvimento do COV na organização do POM 2012, isso permitiu-lhes avançar com as suas próprias atividades e agora Viseu irá ter Orientação por muitos e bons anos, independentemente de ter lá ou não o Ori-Estarreja. Se em Idanha-a-Nova, por exemplo, não se conseguir isso, não será a ADFA que, a duzentos quilómetros de distância, conseguirá corresponder às solicitações várias, ao pedido duma formação numa escola, por exemplo.


Mas ainda em relação às autarquias, há um aspeto que me parece estranho. Eu não tenho ideia de ver com frequência pessoas da autarquia que vai realizar o POM no ano seguinte a acompanhar o evento e a tentar perceber como é que as coisas se processam. É assim tão difícil tirar as pessoas dos gabinetes?

L. S. - Esse nosso esforço já começou há dois anos e nunca conseguimos levar ao POM o “staff” da Câmara de Gouveia. Aquilo que eu sinto é que, “se não vai Maomé à montanha, terá se ser a montanha a vir a Maomé”. E foi isso que fizemos em Gouveia. Quando há dois anos organizámos lá o Meeting, tivemos um prejuízo tremendo, mas porque queríamos lançar a semente nesses terrenos. Aquilo que realmente sentimos é que as equipas municipais são muito curtas, têm muitos projetos e torna-se difícil fazê-los viver o projeto em continuidade.

M. D. - Esta questão da continuidade é realmente importante. Não estamos a falar da situação do CPOC em Gouveia, até porque em Idanha-a-Nova já organizámos imensos eventos. Mas vamos continuar a organizar e cito o exemplo do Nacional de Orientação em BTT. Ora, toda a gente sabe o que representa hoje em dia organizar um Campeonato de Orientação em BTT para pouco mais de cem atletas, a mais de duzentos quilómetros de casa. Mas insistimos. E insistimos porque as pessoas ligadas à Câmara têm de se inteirar, cada vez mais, de toda esta dinâmica ligada à Orientação. Idanha-a-Nova já sabe, já conhece. Com Gouveia é tudo muito mais difícil porque eles não fazem ideia do que isto é.


De que forma o papel da Comunicação Social pode ser fundamental neste dar a ver o que é o Portugal O' Meeting? Ou, dito de outra forma, que avaliação se pode fazer da Comunicação no Portugal O' Meeting?

L. S. - Acho que o World of O é a prova evidente de que todas as atenções estão centradas nesta altura no Portugal O' Meeting. Todos os atletas vão lá escrever, principalmente sobre Portugal e, nalguns casos, sobre o Portugal O' Meeting. Mas isto é um aspeto da comunicação voltada para dentro da modalidade e que destoa claramente daquilo que se poderia fazer para fora, nomeadamente a nível nacional. Mas aí é mais um problema da modalidade em si e do desconhecimento que ainda existe daquilo que é a Orientação.

A. A. - Ao nível da Comunicação, o POM tem melhorado muito, mas tem melhorado duma forma externa às próprias organizações. O problema é que há duas ou três pessoas muito envolvidas com a organização e que seriam as pessoas ideais também para a parte da Comunicação, mas que não têm disponibilidade para o fazer. A prioridade é a parte técnica e organizativa e não sobra tempo para mais nada. Meter alguém na parte da Comunicação que não está por dentro das coisas, que não sabe, não acrescenta nada. Portanto, se não for alguém como o Orientovar ou agora o Orievents, alguém que já conhece por dentro a modalidade e que já é quase independente para ir à procura da informação que realmente conta, continuaríamos como há cinco ou dez anos atrás. Se a parte da Comunicação tivesse o mesmo peso da parte técnica duma prova, claramente arranjávamos tempo e as coisas evoluiriam muito mais e mais depressa. Mas a Comunicação continua a ser vista como um apêndice de todo o trabalho organizativo.

M. D. - Como tive a preocupação de ir buscar gente de fora para garantir o melhor desempenho ao nível da cartografia, do speaker ou da alimentação neste POM, também tive essa preocupação ao nível da Comunicação. Ou seja, tentei, a um ano de distância, pôr em marcha um projeto de Comunicação que pudesse garantir a necessária continuidade e não obtive resposta. Eu não tenho que me imiscuir nas quintas alheias, porque cada um tem a sua. Mas acho estranho que uma prova que é a menos participada das três provas WRE, seja aquela que tem mais publicidade, mas três vezes mais. Se estamos perante um conflito de interesses, claramente é a Federação Portuguesa de Orientação que terá de agarrar nesta área ou então dizer quem o deverá fazer. Se nos aspetos técnicos e logísticos os clubes que organizam o POM ainda vão tendo valências, no aspeto da Comunicação os Clubes, há exceção do Quatro Caminhos, não têm essas valências. Logo, deve ser o setor de Comunicação da FPO a garantir que as coisas se façam com a dimensão que o Portugal O' Meeting merece e exige. Não é a imagem do clube que passa, é a imagem da modalidade, da região, do País.

A. A. - Não quero contrariar essa opinião, mas também tenho a minha. O NAOM foi a prova que teve mais publicidade, mas também porque teve alguém na organização responsável por isso. Hoje há no Orievents aquilo que não há em mais lado nenhum, há um trabalho contínuo que tem sido feito e hoje há conhecimentos e há contactos que são o fruto desse trabalho. Para ter visibilidade em termos de Comunicação, uma organização ou se socorre do Orientovar e do Orievents ou terá de investir em recursos próprios e começar a fazer também um trabalho de longo prazo.

L. S. - Hoje vemos muito mais coisas do que víamos há quatro, cinco, seis anos atrás. O que se fez foi, seguramente, muito mais do que se fazia nessa altura. Mas os patamares de exigência agora são outros e a nossa tendência é a de colocar a bitola cada vez mais alta. Se calhar o POM e a quantidade de estrangeiros que atrai até nós está a mascarar um bocadinho aquilo que são as dificuldades a nível nacional.


A Federação Portuguesa de Orientação ensaiou este ano, pela primeira vez, um Quadro Competitivo Nacional em que alinha as três provas WRE em três fins de semana consecutivos. Esta situação representa uma mais-valia para o próprio POM e, dum modo mais lato, para a Orientação portuguesa?

L. S. - Eu penso que sim, sobretudo para a Orientação portuguesa no Inverno. Como sabemos, no próximo ano teremos a primeira ronda da Taça do Mundo a colidir com o Portugal O' Meeting em termos de datas. Mas não colide, nem com o WRE antes do POM, nem com o WRE depois do POM. Ou seja, há um leque de ofertas, tanto em Campos de Treino como em eventos, que faz com que estejamos a lutar pela promoção da Orientação portuguesa no Inverno. É isso que está em causa e não o Portugal O' Meeting. E é este leque de ofertas que nos poderá dar alguma força para conseguirmos conquistar o “coração” dos orientistas de outros países para virem a Portugal, em vez de irem à Turquia ou em vez de irem a Espanha. Eu sei que a Taça do Mundo na Turquia vai roubar praticantes ao Portugal O' Meeting. Mas se a nossa oferta for boa, vamos ter muitos mais atletas do top-100 mundial em Portugal do que irão estar na Taça do Mundo na Turquia. E o evento deste ano na Nova Zelândia serviu de alerta para vermos qual o grau de importância que os atletas atribuem à Taça do Mundo. E aquilo que tivemos na Nova Zelândia, sendo muito, resume-se a quatro grandes seleções e são essas quatro seleções que poderão estar mais “tremidas” para termos cá entre nós em 2014. Ou seja, preocupamo-nos com aquilo que a prova da Turquia pode retirar em termos de participações ao Portugal O' Meeting e à Orientação no próximo ano, mas estamos convictos que a quebra não será grande, ou seja, há umas pessoas que escolhem a semana antes, há outras que escolhem a semana depois, temos oferta e depois cabe às pessoas escolherem.

A. A. - Eu pego nas palavras do Luís e reforço aqui a ideia da oferta. Quando tínhamos apenas duas provas WRE, resumia-se tudo a pouco mais de uma semana e isso, em muitos casos, poderia não ser
tão apelativo. E depois havia a questão do terceiro WRE que andava a saltar, umas vezes era no Inverno, outras era no Verão ou juntava-se ao Campeonato Ibérico, ou seja, era completamente perdido. Se analisarmos apenas os números, vemos que esta foi já uma aposta ganha.

M. D. - Não posso considerar que o WRE de Arronches, no ano passado, tenha sido completamente perdido. Tivemos o Thierry Gueorgiou, tivemos o Philippe Adamski, ou seja, estas coisas nunca são completamente perdidas. Agora, estatisticamente falando, se atentarmos nos números do POM deste ano e do WRE na semana a seguir, vemos que é equivalente ao que se verificou nos últimos anos. Mas já o NAOM teve realmente uma expressão que o terceiro WRE até aqui não tinha. Na prática, o que nos apraz registar é que este modelo conseguiu trazer mais atletas a Portugal. E no futuro? Vamos ter de perceber de que forma os calendários dos países emergentes podem vir a penalizar-nos. Eles já perceberem que a “galinha dos ovos de ouro” está nesta época do ano e vão começar a aproveitar-se disso.

L. S. - Gostaria só de dar uma achega. Esta situação só é exclusiva de Portugal porque ganhámos essa batalha a Espanha. E ganhámos precisamente pela quantidade e qualidade da nossa oferta, o que levou a Espanha a ajustar-se aos nossos “timings”. Ou seja, eles puseram o calendário deles a funcionar em Março e essa foi a forma de “colmatar o prejuízo”.

M. D. - É precisamente isso. E se nós conseguirmos continuar a mostrar qualidade, a qualidade vende sempre. Quando o Thierry Gueorgiou diz o que diz de Portugal, não o diz porque alguém lhe está a pagar para o dizer. Aquilo é sincero. Nós já atingimos níveis de excelência ao nível das nossas organizações e são estes níveis de excelência que podem fazer com que os estrangeiros nos continuem a procurar.


Como é que encarariam a possibilidade de vir a ser a própria Federação a organizar o Portugal O' Meeting?

M. D. - Penso que, enquanto os números do Portugal O' Meeting se mantiverem em torno dos dois mil, dois mil e quinhentos participantes, ainda temos clubes em Portugal com capacidade para organizarem o Portugal O' Meeting. Mesmo que esses clubes se tenham de socorrer de algumas pessoas externas ao clube, em determinadas áreas. A partir de determinado número de participantes, o número de pessoas implicadas na organização será de tal maneira elevado que a capacidade dos clubes deixa de existir. Mas não nos podemos esquecer que este modelo tem uma vantagem. É que nós, nos nossos clubes, conhecemos as pessoas, sabemos em que posições é que elas encaixam melhor. Quando começa a haver muitas parcerias, perde-se essa interligação, deixa de ser reconhecer as mais-valias de cada um e as coisas poderão não correr tão bem.

A. A. - A Federação organizar um evento como realizou os Mundiais de Veteranos é uma coisa. Foi quase uma causa nacional, os clubes vestiram todos a mesma camisola e realmente as coisas funcionaram muito bem. Mas se fosse algo do género no caso do POM, não funcionava. A Federação teria sempre de se apoiar num clube para ter as pessoas-chave, uma vez que a Federação não as tem, e ao ter as pessoas-chave desse clube, elas iriam socorrer-se dos elementos do seu próprio clube e o modelo acabaria por derivar no mesmo. Poderemos vir a ter de recorrer a um modelo em que a Federação privilegia as candidaturas conjuntas em detrimento das candidaturas de um só clube. Mas mais do que isso não estou a ver.


O POM consegue atrair um número muito elevado de participantes, mas só é praticamente falado ao nível das “minorias”, dos atletas de Elite. O POM está a tornar-se demasiado elitista?

A. A. - Salvaguardando as devidas proporções, passa-se na Orientação aquilo que se passa no Futebol, por exemplo. Quem vende é o Ronaldo e o Messi, quem vende é a Simone Niggli e o Thierry Gueorgiou. É o número 1 do Mundo que está cá, é isso que as pessoas querem ouvir. Não há grande volta a dar. Mas a terceira idade, embora noutros segmentos de Comunicação, também vende. Fazer passar a mensagem de que este POM teve mais de cem atletas acima dos 75 anos, para uma franja da nossa população é mais importante do que saberem que estiveram cá nove dos dez melhores do mundo, por exemplo. Dar um peso excessivo às elites pode ser mesmo contraproducente e afastar participantes. Para os menos familiarizados com a Orientação, uma coisa é saber que esta é uma modalidade para todos e outra é ouvir dizer que estão ali os melhores do mundo, logo isto não é para eles.

L. S. - Aliás, passa-se o mesmo com os Campeonatos Nacionais. As pessoas vêem que se trata dum Campeonato Nacional, logo isto não é para elas. O esforço de comunicação é importante, não podemos deixar ninguém de fora mas é muito importante que se fale das Elites. O meu filho tem nove anos e está sempre a perguntar-me se esta ou aquela prova é a prova em que teremos cá o Thierry. Ou seja, ele revê-se nisto, revê-se nos grandes nomes da Orientação e isto tem de ser acautelado e valorizado.

M. D. - O facto de termos cá o Thierry, a Simone, o Olav ou o Matthias é um chamariz, ou seja, é uma oportunidade única de os ver e o pessoal do pelotão vem também por isso. Ou seja, eu diria que o POM é, felizmente, elitista. E digo “felizmente” porque, nesta altura do ano, termos 330 atletas de Elite entre nós, como o POM teve, é muito bom. Por ser a altura do ano em que é, por atrair os atletas que atrai, o POM terá sempre um caráter elitista.


Se atentarmos num evento-modelo como é o O-Ringen, vemos que tem havido um esforço no sentido de ajustar a oferta a todos os públicos. Entre nós o POM tem, desde 2010, Orientação de Precisão e agora só falta a Orientação em BTT. É possível equacionar um cenário destes no futuro?

A. A. - Isto, claramente, não era uma mais-valia para o Portugal O' Meeting. A preocupação, já aqui o dissemos, é termos terrenos de qualidade e um POM em simultâneo de Pedestre e BTT é uma situação pouco compatível com as duas disciplinas num espaço relativamente próximo. Nunca tinha pensado nisso, mas atendendo à nossa realidade não consigo encontrar méritos na ideia.

L. S. - E o número de pessoas implicado na organização teria de ser muitíssimo mais elevado. O O-Ringen chega a ter seiscentos, setecentos colaboradores e nós trabalhamos com menos de cem.


O Portugal O' Meeting 2014 será em Gouveia e o Luís Santos tem o encargo de gerir o evento. Que conselhos é que têm para lhe dar?

A. A. - O Luís Santos não precisa de conselhos. Além de ter organizado há relativamente pouco tempo, o ano passado foi supervisor do POM e sabe, melhor que ninguém, como estas coisas são. Mas apesar da maior ou menor experiência que possamos ter, o problema é que nem sempre temos condições para fazer o que tem de ser feito. Num POM há sempre situações que escapam ao nosso controlo – este ano houve, o ano passado se calhar houve mais mas não transpareceram como este ano – e, independentemente de termos planos A, B ou C, quando os problemas surgem temos sempre de improvisar. Daí que o conselho vá no sentido de guardar reservas para esses quatro dias, ter algum “back-up”, porque são quatro dias duma intensidade enorme.

M. D. - Eu só acrescentaria um aspeto, que foi onde este ano senti alguma dificuldade. É fundamental levar para Gouveia toda a equipa o mais cedo possível. Se as pessoas só chegam na véspera, em cima do acontecimento, é muito complicado.

A. A. - E é importante que a informação esteja difundida pelo maior número de pessoas possível. Não concentrar apenas numa pessoa uma tarefa-chave da organização. Qualquer pessoa pode ser uma ajuda importante num determinado momento. Mas só o pode ser se tiver conhecimento daquilo que há a fazer, como é que as coisas estão a funcionar. Eu senti isso o ano passado, tinha duas ou três pessoas capazes de fazer qualquer coisa, mas se estivessem ocupadas eu não tinha ninguém para acudir a uma coisa qualquer, por muito simples que fosse.

M. D. - Só para acabar, um último conselho. Quando planeamos o trabalho, quando planeamos as equipas e distribuímos tarefas, devemos incutir em todos uma noção: Num POM não há equipas estanques, não há “quintinhas”. Só há uma quinta e é a camisola da “quinta” que todos têm de vestir. Não podem estar a assobiar para o lado se virem a “quintinha” do vizinho a arder. O grupo perceber que é um só é fundamental para que depois não haja uma coisa que são as quezílias e os “quiproquos”.

L. S. - Acho que um dos grandes problemas reside no facto de nós, responsáveis da prova, não sermos profissionais da Orientação. Todos temos as nossas vidas para gerir enquanto estamos a dirigir um Portugal O' Meeting e de repente passa a ser o Portugal O' Meeting a gerir a nossa vida, é verdade (risos). Por outro lado, a questão das distâncias é um problema e termos em Gouveia o maior número de pessoas o mais cedo possível é crucial. De alguma forma em 2009 conseguimos isso, mas entretanto o CPOC mudou bastante. Tivemos em Mora oitenta e tal pessoas e provavelmente não irei conseguir ter em Gouveia sessenta. Condicionantes de ordem ávria, saídas, entradas, fazem com que o grupo seja diferente nesta fase. Vamos ter em Abril o Campeonato Ibérico, será já um grande teste à nossa capacidade organizativa atual e veremos como resulta.


[Uma versão resumida desta Entrevista pode ser lida em http://content.yudu.com/Library/A23g9p/OrientacaoemRevistaE/resources/index.htm]


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

Sem comentários: