terça-feira, 5 de março de 2013

ANNIKA BILLSTAM E THIERRY GUEORGIOU: EU, TU... NÓS!




Um momento, duas pessoas muito especiais, três capítulos duma historia breve... Uma Entrevista com Thierry Gueorgiou e Annika Billstam, um punhado de ideias acerca dos dois, a forma como viram o Portugal O' Meeting e de como se sentem em Portugal.


Deixem-me começar esta Entrevista perguntando-vos em que língua vamos falar. Lembro-me do Thierry me ter dito, em tempos, que viu na Suécia um filme com a Annika, ela gostou muito, ele também, mas... não apanhou uma palavra que fosse. E agora, já consegue falar Sueco?

Thierry Gueorgiou (T. G.) - (risos) Penso que o meu Sueco não é ainda muito bom – na verdade é muito mau -, mas o Francês da Annika é bastante bom. Bem, a nossa língua comum é o Inglês, vamos falar em Inglês.

O Thierry diz que o seu Francês é bastante bom. Viaja até França com frequência?

Annika Billstam (A. B.) - No ano passado estive em França muitas vezes, mas este Inverno não. Tudo isto depende essencialmente na nossa agenda, o WOC será na Finlândia, as melhores regiões para treinar nesta altura do ano encontram-se no Sul, em Portugal. Portanto, a França não é uma prioridade.

Vocês fazem por escolher as mesmas competições, os mesmos Campos de Treino e viajam juntos ou vai cada um para o seu lado?

A. B. - Viajamos com as nossas equipas e nem sempre a Suécia e a França têm os mesmos planos. Mas aqui, em Portugal, as coisas correram bem.

Como é que se conheceram?

T. G. - Como muitos casais de orientistas, conhecemo-nos nas competições internacionais. Foi assim que começámos a conhecer-nos um pouco melhor. Foi em 2011, numa altura em que um grande número de equipas esteve em França a preparar-se para os Mundiais. Na altura prestei algum apoio à equipa da Suécia e foi nessa altura que nos conhecemos.

Como é que vê a Annika?

T. G. - Conheci-a ainda antes de ter alcançado a projeção que os bons resultados lhe deram. Mas a forma como a vejo tem pouco ou nada a ver com os resultados dela.

E o Thierry, é uma pessoa impecável?

A. B. - (risos) Sim. É muito correto, tem sido realmente uma boa ajuda e é um desportista muito profissional.

Vocês levam a Orientação para dentro de casa ou fica à porta?

A. B. - Quando fazemos da orientação a nossa profissão, somos obrigados a trazê-la para dentro das paredes da nossa casa. Tem de ser assim, julgo eu, quando amamos este desporto.

T. G. - Ambos temos os mesmos objetivos. Se queremos ser os melhores, temos de pensar na Orientação para lá dos treinos. Temos de pensar nele a tempo inteiro. É claro que procuramos ter alguns momentos de maior descontração, há mais vida para lá da Orientação, mas a Orientação engloba uma parte enorme das nossas vidas.

Discutem os métodos de treino de cada um?

T. G. - Discutimos métodos, partilhamos algumas ideias... Temos formas diferentes de treinar mas, digamos, 25% dos nossos treinos são feitos em conjunto. Preocupamo-nos muito com a forma como gerimos o treino e como preparamos as competições. Mas este é um desporto individual, passamos muito tempo na floresta entregues a nós próprios e, por isso, nunca seremos bem sucedidos se não conseguirmos traçar os nossos próprios planos.

Como orientista, o que mais admira no Thierry?

A. B. - Seguramente as suas qualidades técnicas, mas também a sua força mental. Devo admitir que também tenho a minha própria força mental mas sinto dificuldades em recorrer a ela de forma plena em todas as competições, e penso que o Thierry tem isso com ele.

E o Thierry, o que mais admira na Annika enquanto orientista?

T. G. - Ela é capaz de descontrair muito mais no intervalo entre as competições, consegue manter a boa disposição ao longo de toda a temporada. Isto é algo que eu admito muito nela, porque para mim é o desastre total se não ganho uma prova. Annika consegue encarar as coisas com muito maior naturalidade e é excelente não ir aos extremos. Se procuramos um ponto de equilíbrio entre os dois, penso que a Annika é muito boa nessa parte.

Digamos que têm três horas para fazer algo que gostam muito para além da Orientação. O que fariam?

T. G. - Depende de onde nos encontramos porque, na Suécia, evidentemente, é preferível ficar em casa se está a nevar lá for a. Mas se está bom tempo, gosto de colher mirtilos ou cogumelos. Mas infelizmente não temos com frequência tanto tempo assim.

A. B. - Apesar de passarmos a vida ao ar livre, gosto de patinar no gêlo, que é algo que temos na Suécia com excelentes condições. Mas se fico em casa, também gosto de cozinhar, fazer sumos frescos de fruta. Gosto muito de cozinhar, definitivamente.

E o Thierry gosta daquilo que cozinha?

A. B. - Não... (risos) Trocamos ideias, apesar das grandes diferenças entre as cozinhas Francesa e Sueca. . Mas acho que ele é um bom cozinheiro.

Vamos mudar de assunto. Como viu este ano o Portugal O' Meeting?

A. B. - Tão bom como no ano passado. Quase me arrependo de ter descoberto tão tarde o Portugal O' Meeting porque é uma bela competição. Consigo ver aqui imensa gente de todo o lado, nomeadamente da Suécia. Eles também adoram e estou certa que, no futuro, virei cá com frequência.

Quer falar-me dos seus quatro dias de provas?

A. B. - No primeiro dia, a prova de Distância Longa, devo confessar que estive demasiado tempo sem correr provas de floresta – estive na Nova Zelândia, mas não fiz muita Orientação – e cometi alguns erros. Achei o terreno, nalguns sítios, bastante difícil. Fiquei muito para trás na classificação logo no primeiro dia, mas consegui fazer duas provas muito boas nos segundo e terceiro dias. Aliás, devo dizer que o segundo dia foi o meu melhor dia. No final, penso que o segundo lugar é bastante bom, mesmo tendo perdido mais algum tempo para a Simone [Niggli] no último dia. Perder tempo é sempre frustrante, nesta altura do ano nunca estou suficientemente rápida mas, tal como anteriormente, espero melhorar a minha velocidade nos próximos meses.

Gosta do sistema “Chasing Start”?

A. B. - Sim, gosto muito. É uma competição “ombro-a-ombro”, é excelente. Não senti muito a pressão, até porque tinha mais de dois minutos de vantagem sobre a Amélie [Chataing] e pude ir com calma no início, fazer uma prova segura, mesmo tendo cometido um grande erro no penúltimo ponto. Estou contente com o resultado, mas a diferença de tempo para o primeiro lugar é demasiada, penso eu.

E o Thierry, que conclusões retira deste Portugal O' Meeting?

T. G. - Como já tenho dito, o Portugal O' Meeting é sempre um evento de elevada qualidade. É um excelente evento para os orientistas de Elite porque sabem que vêem aqui e nunca saem defraudados nas suas expectativas. Pessoalmente, o Portugal O' Meeting é também uma forma de avaliar a forma como está a decorrer a temporada de Inverno, uma vez que quebra o Inverno em duas partes. Tenho treinado muito bem até aqui – penso que acontecerá o mesmo daqui para a frente – e gosto de vir aqui em “modo de competição”. Uma vez mais, o Portugal O' Meeting correspondeu por inteiro a todas as minhas expectativas em termos de qualidade.

Ao longo dos quatro dias de competição, há algum momento de que tenha gostado particularmente?

T. G. - Sim, é sempre o mesmo. É quando chegamos à Arena, não conhecemos assim tão bem o terreno, não sabemos o que esperar, e então olhamos para estas fantásticas montanhas e já sabemos que temos pela frente um dia fantástico de orientação. Senti isso aqui, senti o mesmo em Monsanto, quando olhei para a aldeiazinha e o seu castelo bem lá no alto, soube logo que aquele iria ser um momento deveras especial. Quando se tem esta paixão, quando se gosta realmente deste tipo de desafios, podemos ver logo que o dia só pode correr bem. E em Portugal é sempre assim; chega-se à Arena, estaciona-se o carro, olha-se em volta e já se sabe que o dia vai ser especial.

E quanto ao último dia? Gosta do sistema de “Chasing Start”?

T. G. - Sim, claro. É bom acabar desta forma, torna a competição deveras interessante. Obriga-nos a manter padrões de competição elevados ao longo dos quatro dias. Aquilo que acaba por ser um pouco frustrante – mas eu consigo entender isso, é normal – é que hºa muitos atletas aqui que estão em Campos de Treino, não se empregam a fundo todos os dias e, no final, os resultados acabam por ser um pouco estranhos. Mas nesta altura da época temos de respeitar isso, cada atleta tem os seus próprios planos.

Deixemos agora a Orientação e vamos falar de Portugal. Gosta de Portugal?

A. B. - Sim, muito. Gostava de poder explorar um pouco mais algumas cidades, como Lisboa, que sei que é Cidade Património Mundial. De resto, gosto de tudo aquilo que vejo, das paisagens, dos alojamentos, da atmosfera amigável...

E quanto à nossa cozinha?

A. B. - Gosto especialmente do café (risos). É verdade, adoro o vosso café.

E o Thierry, o que significa Portugal para si?

T. G. - Para mim, Portugal é um dos melhores países da Europa. É pelo menos aquele que visito mais vezes e é sempre um grande, grande prazer voltar aqui. As pessoas são incríveis, tem sido fantástico conhecer novas pessoas e tenho aqui amigos em todo o lado. Penso que os Portugueses são pessoas realmente muito amáveis e isso é algo que aprecio acima de tudo.

Annika diz que gosta do nosso café. E o Thierry, há algo que aprecie em particular na nossa gastronomia?

T. G. - Sim, acho a comida realmente muito boa de cada vez que vou a um restaurante. Gosto especialmente de bacalhau, claro, e de pastéis de nata.

Para terminar a nossa Entrevista, tenho aqui uma coisa para os dois. Aviso já que não é de comer. É o último disco da Ana Moura e é Fado, que é também Património Mundial. Gostam de Fado?

A. B. - Nunca ouvi Fado, peço desculpa... (risos)

T. G. - Eu também não. Mas prometo que vamos ouvir.

Se gostam de Portugal, tenho a certeza que também irão gostar de Fado!


[Seis dias mais tarde, Thierry Gueorgiou enviou-me uma mensagem com os seguintes dizeres: “Joaquim, demorei bastante tempo a enviar-te esta mensagem, mas queria realmente agradecer-te a tua gentileza para com a Annika e para comigo. Não te enganaste, gostámos imenso do CD. Muito obrigado por nos teres mostrado um pouco mais da cultura portuguesa.”]


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

4 comentários:

Mário Duarte disse...

"MARAVILHOSO", excelente entrevista com dois grandes atletas, e onde podemos constatar que Portugal ainda vale a pena.

Rui Antunes disse...

Estou de acordo com o Mário. Excelente entrevista com excelentes protagonistas sobre um excelente desporto, mas não só o que a torna ainda mais interessante.
Muitos parabéns
Abço
Rui

José Grada disse...

O Thierry para além de ser o maior orientista da atualidade, portanto admirado por todos em geral,é particularmente querido dos portugueses. Ele não se cansa de elogiar tudo o que é nosso desde as organizações, os mapas, os terrenos, o clima, as pessoas.
Mas destaco a habilidade na entrevista muito bem conduzida, abordando temas interessantes.

Filipe Marques disse...

Joaquim.

Mais uma vez... Grande entrevista. Sim Senhor. Foi interessante conhecer a outra parte competitiva destes dois atletas.

Bem haja.