sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

VIII CONGRESSO DE ORIENTAÇÃO: "CARTOGRAFIA PEDESTRE E TRAÇADO DE PERCURSOS", ENTREVISTA COM TIAGO AIRES




Cartografia Pedestre e Traçado de Percursos” foi o tema apresentado por Tiago Aires no VIII Congresso Nacional de Orientação. Um assunto que colheu o interesse e A atenção de elevado número de participantes no Congresso e sobre o qual se lança um olhar em forma de Entrevista.


Baseando-se na Cartografia pedestre e traçado de percursos, a sua apresentação começou pela constatação do facto de serem precisamente os percursos o “elo mais fraco” da nossa Orientação. E no entanto, como foi sobejamente noticiado, o percurso do ano a nível mundial tem a assinatura dum português sobre um mapa seu, o do Senhor dos Caminhos. Quer explicar-nos esta aparente contradição?

Tiago Aires (T. A.) - Essa é uma excelente questão, mas o traçado de percursos é muito mais do que apenas o escalão Elite e além disso o que temos constatado é que há um enorme fosso entre a qualidade dos percursos das provas WRE e as outras provas da Taça de Portugal. Sem dúvida que devemos aproveitar a publicidade que traz aos nossos eventos o primeiro lugar alcançado pelo 3º dia do POM 2012, mas não é por isso que devemos considerar que está tudo bem, porque basta pensar no Regulamento Técnico/Pedagógico para os escalões de Formação, ou nos tempos previstos para os vencedores (consoante a distância) para percebermos que estamos longe de ter provas regularmente sustentadas pelos regulamentos.

Quais os principais aspetos que, no seu ponto de vista, não estão a ser salvaguardados no traçado de percursos?

T. A. - Eu tento, ao máximo, que as minhas comunicações não tenham um caráter de opinião pessoal, mas sim baseadas nos regulamentos IOF. Há um grande desconhecimento generalizado dos regulamentos, das tendências do traçado internacional e dos princípios e objetivos do traçado tendo em conta a distância em causa.

No seu formato ideal, de que maneira se deverá processar a articulação entre cartógrafo e traçador?

T. A. - Apesar deste cenário negativo, penso que a FPO está a fazer um bom trabalho de atualização dos traçadores de percursos com as reciclagens que tem vido a programar, com a introdução de dois níveis de traçadores e com a obrigatoriedade de ter os cursos para poder traçar percursos nas provas da Taça de Portugal. Quanto à questão, nas provas de Sprint é onde a conjugação de esforços entre o traçador e cartógrafo é mais importante, mas também nas outras distâncias. Fundamentalmente, o que penso ser importante é haver uma relação ativa entre traçador, cartógrafo e supervisor e compreendermos todos que, para se organizar um bom evento, é normal o cartógrafo ter de fazer alterações no mapa, depois deste estar “pronto”. Na parte final existe ainda outro elemento muito importante que é quem imprime os mapas.

Falando do trabalho de cartografia, o excesso de elementos parece estar na origem daquele que será o maior problema dos nossos mapas: a sua legibilidade. E no entanto, quando confrontados com um mapa “simplificado”, muitos dos nossos praticantes com mais experiência afirmam que “não os conseguem ler”. O que é que se passa, afinal?

T. A. - Primeiro teríamos de definir o que é um atleta com experiência. E reforço aqui que, nada do que apresento nas formações é uma opinião pessoal, mas sim baseado no que está estipulado nos regulamentos internacionais e em particular no ISOM que é a nossa “bíblia”. Já tivemos campeonatos do mundo em vários países e em terrenos com muito detalhe e os regulamentos têm sido sempre cumpridos.

É curioso mencionar esse aspeto porque a questão da legibilidade dos mapas, realmente, não é um problema apenas nosso e traz-me à memória a discussão em torno do mapa da Distância Longa dos Mundiais de França 2011. A IOF não abdicou da realização da prova à escala de 1:15.000 e a prova fez-se e ninguém se queixou. Como é que os cartógrafos franceses “desataram o nó desta meada”?

T. A. - A questão aqui não foi com os cartógrafos franceses mas sim, com um cartógrafo romeno. Mas penso que a resposta está na própria pergunta, os mapas utilizados foram na escala correta e com as dimensões corretas. Antes de criticarmos seria bom pensarmos que a IOF tem mais de 40 anos de experiência na regulamentação da cartografia onde estão a trabalhar os principais intervenientes da modalidade de todo o mundo. Mas deixo um exemplo de como é impossível utilizar na distância longa, mapas a escalas maiores que 1:15.000. Não podem haver mapas maiores que A3 pois tornaria difícil o seu manuseamento e impressão. Está estipulado pela IOF que na longa devem haver pernadas longas com 4-5 km. Imagine-se como seria analisar uma opção destas num mapa 1:10.000 onde daria 50 cm de papel para escolher a opção, além da abrangência lateral que as opções possibilitam.

O que quer dizer quando afirma, como o fez na sua apresentação, que “continuamos a jogar vólei com bolas de básquete”?

É que, ao não cumprirmos os regulamentos, estamos a praticar a modalidade em muitos eventos com mapas e percursos desadequados. Isto torna-se particularmente grave quando queremos apostar nas seleções e percebemos que os nossos atletas, por melhor que estejam preparados fisicamente, quando chegam aos grandes palcos internacionais, se deparam com um grande número de rotinas que não estão trabalhadas. Ao nível da cartografia basta pensar nos símbolos reduzidos, escalas desadequadas e mapas demasiado carregados de informação e com deficiências de legibilidade. Ao nível do traçado, podemos lembrar provas com tempos para os vencedores desadequadas, por exemplo: sprint para 20-25 minutos, percursos sem terem as características indicadas (por exemplo: Distância Longa sem escolhas de itinerário), percursos que permitam arenas de qualidade (por exemplo: com ponto de espetadores.

Quando falamos em erros que se cometem frequentemente na representação do terreno, de que erros estamos a falar?

T. A. - Fundamentalmente na legibilidade do mapa, pois nunca a leitura do mapa pode ser prejudicada para tentar marcar elementos no mapa. Por isso é que é uma vantagem cartografar diretamente no terreno com computador, pois permite fazer essa triagem no local. Existem muitos exemplos de falta de legibilidade do mapa e algumas deles têm apenas a ver com o pouco cuidado que existe no desenho do mesmo.

A questão da cartografia e a importância duma uniformização de procedimentos esbarra na aceitação dos cartógrafos daquilo que é defendido por si como uma necessidade. Há abertura nesse sentido?

T. A. - A maioria dos problemas que cometemos têm a ver com o não cumprimento dos regulamentos. Por exemplo: pedras marcadas com menos de 1 metro ou falésias com menos de 0,6 mm de largura, verdes mais estreitos que 0,25mm ou amarelos para áreas inferiores a 225 m2. A abertura que refere tem que ver com o critério que o cartógrafo adota em cada terreno, mas antes disso temos de cumprir os regulamentos e é aí que reside o problema.

Tomando como exemplo a sua experiência pessoal, há mapas que fez no passado que, se fosse hoje, não os faria da mesma maneira?

T. A. - Foi das experiencias mais enriquecedoras que tive, poder redesenhar mapas que já tinham sido feitos por mim. Nós em Portugal aprendemos a fazer mapas com a escola russa, mas temos de cortar com o passado e perceber que assim estamos a prejudicar os nossos atletas e a modalidade.


Quer deixar um voto em relação ao futuro da cartografia e do traçado de percursos em Portugal?

T. A. - Portugal é a capital mundial da Orientação de janeiro até março, muito graças à qualidade dos nossos eventos e dos campos de treino, mas fundamentalmente pelo excelente clima que temos. Não devemos ficar satisfeitos apenas porque quem nos visita diz bem dos eventos, pois sabemos que as regras da boa educação mandam que se diga bem quando estamos noutra casa, ainda mais quando na nossa casa (deles) está um clima que nem nos permite correr na rua. Estou bastante otimista quanto ao futuro dos traçados pois tenho visto muito interesse nas formações. Agora é normal que tenhamos de ter uma fase de implementação. Quanto à cartografia já não estou tão otimista pois não se vêm cartógrafos novos a aparecer e os que existem são poucos. Apesar de sermos os únicos profissionais ou semi-profissionais, tem havido uma enorme dificuldade em debater estes temas.



Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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