segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

MAREK POSPISEK: "A ORIENTAÇÃO EM BTT TEM DE SER EXPERIMENTADA, É AÍ QUE RESIDE A SUA FORÇA"



Marek Pospisek foi uma das grandes revelações dos últimos Campeonatos do Mundo de Orientação em BTT, perdendo por dois segundos o duelo travado com o austríaco Tobias Breitschädel pela medalha de ouro na final de Sprint. Mas esse é apenas um dos temas da longa conversa com ele mantida, onde se fala ainda da Comissão de Atletas, do momento atual da Orientação em BTT e do futuro. Um futuro que pode passar pela primeira medalha de ouro da história da República Checa nos Mundiais de Séniores e, mais lá para o Outono, por uma vitória na Taça do Mundo... em Portugal.


Começaria por lhe pedir que falasse um pouco de si. Quem é Marek Pospisek?

Marek Pospisek (M. P.) - Nasci no dia 8 de Abril de 1989 e vico em Brno, a segunda maior cidade da República Checa. Estudei Economia e agora sou Empresário e co-fundador da WeLoveMail (welovemail.com), interessada em questões de marketing e no desenvolvimento de negócios. Gosto de inovação e alta tecnologia. Procuro ir ao encontro daquelas pessoas que conseguem pensar ''fora do contexto''. I gosto realmente muito de comida, cerveja, vinho e café.

Como teve início essa paixão pela Orientação em BTT?

M. P. - No início fazia apenas Orientação Pedestre, mas depois ouvi falar da Orientação em BTT como uma ''cena marada''. Em 2003 corri a minha primeira prova de Ori-BTT e gostei muito. E, claro, ganhei no meu escalão :-D

O que vê nesta disciplina que a torna tão especial?

M. P. - As pessoas, a velocidade, tomadas de decisão rápidas, uma verdadeira ligação com a natureza, sabor de liberdade (pelo menos na família dos desportos de Orientação), festas (na Taça da República Checa).

Quer falar-nos da sua rotina diária?

M. P. - Rotina diária? Isso é coisa que não tenho. Sou um tipo realmente preguiçoso :-D. No Inverno, faço Esqui Todo-o-Terreno, corrida, ginásio e Spinning. Também faço umas descidas em Esqui e no próximo Inverno quero experimentar Esqui Alpino. Ultimamente tenho apreciado as corridas longas com técnica clássica. Corri mesmo a Maratona de Tartu, na Estónia. No Verão, metade do meu tempo de treino é passado a pedalar em cima duma bicicleta de estrada. Faço-o, quer para treino técnico como de mapa. No período final, treino velocidade.

Como é ser orientista em BTT na República Checa?

M. P. - A República Checa é, muito provavelmente, o melhor sítio para fazer Orientação em BTT. Gostaria de explicar, muito sucintamente, porquê: Cada etapa pontuável para a Taça da república Checa conta com aproximadamente 300 participantes. A Taça é constituída por 18 etapas individuais em cada temporada. Temos, claro, provas de Estafeta e há uma classificação por Clubes. Isto perfaz cerca de dez fins-de-semana por ano. Os participantes em provas de score de Distância Longa são aos milhares. Os terrenos são muito variáveis na República Checa – desde o plano aos grandes declives, dos trilhos muito estreitos às intrincadas redes de caminhos. Penso que existe uma enorme quantidade de mapas de Orientação Pedestre que não foram ainda usados na Orientação em BTT. Não há profissionais de Orientação em BTT na República Checa. As pessoas trabalham ou estudam. Um orientista em BTT só consegue ter um patrocinador se também fizer provas de estrada. Mas os patrocínios são apenas em termos de materiais ou equipamentos. Já com a seleção as coisas passam-se de maneira diferente. A Federação recebe dinheiro através de vários fundos governamentais. Desta forma, temos os meios suficientes para participar nas provas da Taça do Mundo e nos Campeonatos do Mundo sem termos de dispender dinheiro do próprio bolso.

De todos os momentos vividos na Orientação em BTT, quais aqueles que guarda com maior emoção?

M. P. - O primeiro momento foi na Dinamarca, num Campeonato do Mundo de Juniores, onde estive toda a noite anterior à prova de Distância Média com diarreia e febre, naquela que era a minha grande aposta da temporada. De manhã sentia-me péssimo. Mas disse a mim próprio que tinha de ''ir a jogo''. Felizmente as minhas pernas não estavam totalmente arruinadas e consegui encontrar os meios de me concentrar exclusivamente na prova. Mesmo sem estar nos meus melhores dias, esse esforço de concentração valeu o primeiro lugar. O segundo momento terá sido, provavelmente, dois meses depois, nos Campeonatos do Mundo de Israel. Aí eu estava super-motivado e fiz disparates atrás de disparates desde o início. No percurso para o quarto ponto de controlo não vi uma rocha com um metro e meio de altura e saltei por cima dela – bem, falhei o salto. Isso danificou o quadro da bicicleta, mas só dei conta disso no dia anterior à prova de Estafetas. E durante a Estafeta a coisa deu para o torto. Eu fazia o último percurso e, dois pontos de controlo após o Ponto de Espectadores, seguia na frente. Infelizmente, uma viragem abrupta e o quadro partiu. Felizmente, atrás de mim vinha o Lubos [Lubomir] Tomecek, da equipa nº 2 da República Checa e cobseguimos a medalha de prata no final. Eu acabei a prova a correr com a bicicleta à mão no 8º lugar.

Pedindo-lhe que recue as suas memórias ao dia 21 de Agosto de 2012, na Hungria, o que se sentiu ao perceber que, por dois segundos apenas, acabara de perder a oportunidade de conquistar a primeira medalha de ouro da história da Orientação em BTT da República Checa num Mundial de Elite?

M. P. - São coisas que acontecem :-D Perdi a medalha de ouro mas conquistei a minha primeira medalha individual no escalão de Elite. Era esse o meu objetivo. Felizmente, ninguém da equipa fez melhor na Hungria e eu consegui ser o primeiro :-D

Acaba de ser nomeado para a Comissão de Atletas da IOF de Orientação em BTT. Como viu o convite e quais os motivos que o levaram a aceitar o cargo?

M. P. - Quando a Michi [Michaela Gigon] me ofereceu esta oportunidade, disse-me que ficaria muito satisfeita se visse alguém da República Checa na Comissão. De início comecei por recusar a oferta, mas depois pensei melhor e acabei por ver nisso uma grande oportunidade de intervenção e de criação de algo.

Ser ainda tão jovem, num cargo destes, é uma vantagem ou uma desvantagem?

M. P. - Penso que é uma vantagem. E é uma vantagem para toda a Comissão, porque ninguém do grupo fez o percurso completo nas grandes competições ao nível dos escalões jovens e juniores. Consigo ter pontos de vista diferentes e isso pode ser muito importante para o trabalho na Comissão.

Se tivesse o poder de tomar decisões, o que mudaria na Orientação em BTT?

M. P. - Não aprecio particularmente o esforço de tornar a Orientação em BTT – e a Orientação, dum modo geral – mais televisionável. Pura e simplesmente, não somos um desporto atrativo do ponto de vista do espectador. A Orientação em BTT tem de ser experimentada, é aí que reside a sua força. É por isso que eu gosto de insistir na oferta da Orientação, nas suas mais variadas formas, como uma atividade. Não através dos meios de comunicação social. A seu tempo, os meios de comunicação social descobrirão a Orientação. E se as condições necessárias para virmos a integrar a lista das modalidades olímpicas passar pela desvirtuação da Orientação, então eu sou frontalmente contra a ideia de ver qualquer uma das suas disciplinas nos Jogos Olímpicos.

Neste início de temporada, para onde apontam os seus grandes objetivos competitivos? É desta que iremos ver o Marek no lugar mais alto do pódio?

M. P. - Como referi antes, a primeira medalha de ouro da República Checa ainda pode vir a ser minha :-) Veremos de que forma serei capaz de combinar o treino com o meu trabalho, mas as coisas irão provavelmente mudar bastante durante o mês de Março. Portanto, logo veremos.

Vai concerteza regressar a Portugal, em Outubro, para a ronda final da Taça do Mundo. O que espera que aconteça? Vencer aqui a Taça do Mundo?

M. P. - Gostaria, sem dúvida, de voltar a Portugal para correr a ronda final da Taça do Mundo. Talvez mesmo vencê-la. Guardo recordações muito boas de 2010. Provas muito bem desenhadas. Terreno duro, bons mapas e percursos. E gostei muito de Portugal, como país e pela sua cultura. Infelizmente, o acidente sofrido pela Hanka Dolezalova é outra recordação muito forte que conservo ainda na memória. Mas é algo que pode ocorrer em qualquer parte do mundo. Portanto, uma força muito grande aos organizadores portugueses pelo seu trabalho e espero que as provas do próximo Outono venham a ser tão boas como foram as do campeonato do Mundo.

Oito anos depois de Nove Mesto na Morave, a República Checa volta a receber os Campeonatos do Mundo, em 2015. Apesar de estarmos ainda a uma enorme distância do evento, pedia-lhe que nos fizesse uma antevisão daquilo que vamos poder esperar.

M. P. - Podemos esperar terrenos muito bonitos e interessantes nos arredores da cidade de Liberec. As provas irão ser duras e desafiantes e do lado da organização as coisas irão decorrer sem quaisquer problemas. E, finalmente, todos terão a oportunidade de apreciar a melhor cerveja do mundo :-)


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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