domingo, 13 de janeiro de 2013

VIII CONGRESSO DE ORIENTAÇÃO: "ORIENTAÇÃO DE PRECISÃO - DESAFIOS", POR JOAQUIM MARGARIDO




[As coisas vulgares que há na vida não deixam saudade...]

Foi há seis anos que conheci a Orientação. Desses primeiros tempos, guardo com enorme apreço uma conversa, pelo que ela encerra de significado e ensinamentos. O meu interlocutor, a páginas tantas, quase que se retratava naquilo que parecia ser uma vida de autêntico “sacerdócio” - o termo é dele - e que constituia a tarefa – essencial, diga-se – de espelhar a mensagem da Orientação, de “evangelizar”. Eu fui um dos “evangelizados” e penso que bem.

De evangelizado a evangelizador foi um pequeno salto, por obra e graça dum instrumento que todos conhecemos e que dá pelo nome de Orientovar. Foi ali que, ao completar-se um ano sobre o nascimento do blogue, lancei o desafio de criarmos o Dia Nacional da Orientação. E porque é que este dia é tão importante? Porque ele marca, de forma indelével, o relançamento da Orientação de Precisão em Portugal.


DESAFIO 1 – O DESAFIO DA COMUNICAÇÃO

Relançar a Orientação de Precisão em Portugal encerrou, desde logo, um grande desafio. O da Comunicação, traduzido na capacidade de angariar participantes para a atividade. Foi aqui que, investido pela primeira vez do papel de evangelizador, percebi que, como li algures, o grande problema da fé não está na fé em si mesma, mas em transmitirmos a nossa fé aos outros. Como é que isso se faz? Em termos práticos, quando nos perguntam “Orientação de Precisão, o que é isso?”, o que respondemos?

Responder a isto é um sarilho. Temos o mapa... o terreno... fazer corresponder o mapa com o terreno... há balizas espalhadas, de uma até cinco... contam-se da esquerda para a direita... cada ponto é uma questão de resposta múltipla... Mas depois vem essa “bóia de salvação”, essa coisa do Desporto Adaptado. Alto! Cadeiras de rodas!

Foi esse o ponto de ataque. Para mim nem foi difícil, as cadeiras de rodas fazem parte do meu mundo, estou no meio delas o tempo todo. Traumatismos Vértebro-Medulares, Acidentes Vasculares Cerebrais, dependência para as atividades de vida diária rimam com fisioterapia, recuperação funcional, canadianas e andarilhos. E cadeiras de rodas. São o meu pequeno mundo. Que muito prezo. Foi aí que investi.

O trato era simples. O pessoal do Grupo Desportivo dos Quatro Caminhos preparava o campo, eu “dava” os jogadores. Eram doze, os jogadores. Que logo passaram para nove, depois para oito, sete, cinco, quatro... No final foram três. Não foi fácil “engolir” esta “contagem decrescente” e isso só veio comprovar aquilo que eu já sabia, aquilo que todos sabemos: a nossa Sociedade não está preparada para assimilar a diferença, seja ela de género, de côr, de oportunidades. E muitas pessoas, nas suas insuficiências ou deficiências, têm consciência disso. Torna-se mais fácil – e se calhar mais cómodo – aceitar tacitamente que a diferença existe. A pessoa esconde-se e, ao esconder-se, está a desinvestir naquilo a que eu chamaria “os seus direitos”, os direitos inalienáveis que a Constituição da Republica nos confere – a todos! - e que, no seu Artigo 13º, no que ao
Princípio da igualdade diz respeito, declara: “1. Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei.”

Bom, foram três os atletas que tiveram a coragem de ousar serem iguais na oportunidade do acesso à prática desportiva. Três atletas que foram, eles mesmos, porta-vozes duma mensagem de igualdade, solidariedade, partilha e inclusão. Três atletas que, com o seu testemunho, fizeram com que, um mês depois, o número duplicasse em nova atividade do género, para no dia 19 de Abril, no Carriçal, esse número ser já de 17. E de 27, no dia 25 de Agosto, no Centro de Medicina de Reabilitação da Região Centro – Rovisco Pais, na Tocha.

Se atentarmos nos números, aquilo que tivemos no ano de relançamento da Orientação de Precisão em Portugal foi um conjunto de 10 provas, do Porto a Alijó, de Coruche a Baião. Dez provas que constituem, em si mesmas, um sinal do empenho e do crer numa atividade que eleva ao expoente máximo a ideia da Orientação como um desporto para todos. O número de provas manteve-se estável nos dois anos seguintes. Às portas de 2013 a nossa perspetiva é a de virmos a ter 15 provas de Orientação de Precisão, entre o Circuito de Orientação de Precisão “Todos Diferentes, Todos Iguais”, a Taça de Portugal (incluindo a possibilidade de virmos a ter o primeiro Campeonato Ibérico) e o Campeonato do Mundo. Um crescimento de aproximadamente 50% em relação aos anos anteriores e que se pretende manter ou mesmo alargar em 2014, ano em que caberá a Portugal a tarefa de organizar o Campeonato da Europa de Orientação de Precisão, em Palmela.


DESAFIO 2 – O DESAFIO TÉCNICO

No princípio era o verbo. E o verbo fazia-se de parques e jardins, e de balizas nas árvores, nos candeeiros, nos bancos. As referências eram evidentes e o grande desafio residia, na maior parte das vezes, em saber usar convenientemente a bússola e orientar o mapa. Um elemento característico novo fazia toda a diferença e quase que, por si só, permitia aferir o nível qualitativo do percurso. Ainda assim fomos avançando. Foi com entusiasmo que o Ori-Estarreja ofereceu ao Hospital Rovisco Pais o mapa daquele espaço e no qual, durante o Portugal O' Summer 2009, meia centena de pessoas com mobilidade reduzida conheceram a Orientação de Precisão. Os Campeonatos Nacionais de Desporto Escolar, em Águeda, proporcionou aos cerca de 150 jovens atletas a possibilidade de experimentar a Orientação de Precisão. No final de 2010, a assinalar o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, o Circuito de Orientação de Precisão “Todos Diferentes, Todos Iguais” arrancava em Baião. Antes disso, o POM 2010, conseguia atrair ao Parque de Campismo da Figueira da Foz cerca de 80 participantes, números que se mantiveram no POM 2011, em Alter do Chão, e este ano, no Parque do Fontelo, em Viseu.

Esta prova do Fontelo marca, também ela, a própria história da Orientação de Precisão, ao constituir-se na primeira etapa da primeira Taça de Portugal de Orientação de Precisão levada a cabo no nosso país. Isto serviu de rampa de lançamento para o momento mais alto de sempre da Orientação de Precisão portuguesa até aos nossos dias: a primeira participação de Portugal num Campeonato do Mundo de Orientação de Precisão, de 05 a 10 de Junho, na Escócia. A aprendizagem, as vivências e a partilha de experiências resultantes desta participação internacional, permitiu lançar a época 2013 em moldes mais consistentes, tecnicamente mais exigentes e mais ambiciosa do ponto de vista organizativo.


DESAFIO 3 – O DESAFIO ORGANIZATIVO

Como organizar uma prova de Orientação de Precisão? Como lidar com as especificidades duma disciplina tão especial? Que recursos precisamos de mobilizar, de envolver? E as cadeiras de rodas, qualquer terreno é adequado?

Há uma dimensão logística inusitada numa prova desta natureza, uma dimensão logística que apenas encontra paralelo na dimensão social e humana duma prova de Orientação de Precisão. Friso, aqui e agora, aquilo que constitui a grande virtude desta disciplina: ao falarmos de desportos de natureza e ar livre, não há modalidade desportiva mais inclusiva do que a Orientação de Precisão!

É justo louvar a atitude do Grupo Desportivo dos Quatro Caminhos pela forma como todos os seus elementos acolheram a Orientação de Precisão e foram decisivos neste processo de relançamento. Eles perceberam esta dimensão social, humana, inclusiva e solidária inerente à modalidade. O Circuito de Orientação de Precisão “Todos Diferentes, Todos Iguais” é bem a prova disso.

O envolvimento do Grupo Desportivo dos Quatro Caminhos e do Núcleo de Desporto Adaptado do Hospital da Prelada alargou-se a outros clubes. Há um claro interesse em saber mais sobre a disciplina. Há uma nítida vontade de organizar, e de organizar bem. Há projetos que se abrem com esta interação e que poderão vir a dar saborosos e suculentos frutos, traduzindo-se no acréscimo de praticantes e no maior valor qualitativo dos eventos.

A Orientação de Precisão tem agora uma Comissão Técnica especializada e que trabalha em estreita proximidade com os clubes na organização das suas provas. No passado dia 03 de novembro, realizou o primeiro Curso de Organização e Traçado de Percursos de Orientação de Precisão. É ela que, nesta fase de transição, assume o apoio às organizações de provas, tem o papel da Supervisão das mesmas e tem colaborado, com um papel consultivo junto da estrutura federativa, na organização do Campeonato da Europa de Orientação de Precisão ETOC Palmela 2014. Louve-se a coragem da Federação Portuguesa de Orientação em assumir esta candidatura. Ela trará a Portugal a fina flor da Orientação de Precisão mundial mas ela trar-nos-á, sobretudo, o conhecimento organizativo em todas as suas vertentes e que tão necessário nos é.


DESAFIO 4 – O DESAFIO SOCIAL

Por último temos o maior desafio de todos, o desafio social, aquele que se apresenta muitas vezes camuflado, sob a forma das boas consciências, mas profundamente contaminado por uma série de reservas mentais absolutamente injustificadas nos dias que correm.

Se é de todos sabido que a organização da prática desportiva se revela um instrumento privilegiado de intervenção com portadores de deficiência, gostaria de perguntar quantas Federações Nacionais contemplam estatutariamente - e integram, de facto, nas suas estruturas - a vertente do Desporto Adaptado?

São poucas, muito poucas mesmo. E a Federação Portuguesa de Orientação é uma delas. Devemos dizer com orgulho que somos das poucas Federações Nacionais que contemplam, no seu quadro regular de atividades competitivas, uma disciplina que não deixa de fora ninguém. Mas mesmo ninguém. Até a Deficiência Intelectual é colocada em pé de igualdade no que ao acesso à prática da Orientação diz respeito, através da Orientação Adaptada, essa fonte de sorrisos por excelência e na qual o nosso país é pioneiro a nível mundial.

Então porquê? Porque é que uma Federação Portuguesa de Futebol, por exemplo, não integra o Futebol para Cegos? Ou uma Federação Portuguesa de Basquetebol não contempla o Basquete em cadeira de rodas? Porque é que as modalidades adaptadas estão sistematicamente agregadas à ANDDI, à ANDEMOT, à ACAPO ou à Federação Portuguesa do Desporto para a Deficiência, entre outras? A resposta é simples: porque o Desporto Adaptado é visto como um meio de dispersão de recursos. Financeiros e humanos!

Lançando um olhar sobre nós próprios, quantos de nós, orientistas que pugnamos pela Orientação como o melhor e mais completo desporto do mundo, não olhamos de lado a Orientação de Precisão? Quantos de nós, com papéis da maior responsabilidade em clubes e associações, se recusam a aceitar a Orientação de Precisão como uma disciplina de pleno direito no quadro das disciplinas incluídas no seio da própria Federação? Quantos de nós, ao perceber que o Plano de Atividades e Orçamento atribui uma verba à Orientação de Precisão, consideram isto um desperdício? E quantos de nós ainda pensam que a Orientação de Precisão é só para pessoas em cadeira de rodas?

Este sim, é o grande desafio. Vai ao cerne do problema e o problema está dentro de nós. Nós que olhamos para o símbolo da Orientação de Precisão e só conseguimos ver lá a pessoa em cadeira de rodas. E nem conseguimos perceber que, naquele logotipo, há também uma outra figura. A de uma pessoa de pé, de mapa na mão. Uma pessoa igual a mim, uma pessoa que pode ser qualquer um de nós. Disposta a aceitar todos os desafios. A esbater diferenças e a quebrar barreiras. Disposta a fazê-lo por intermédio deste maravilhoso desporto chamado Orientação de Precisão. Todos Diferentes, Todos Iguais!



Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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