terça-feira, 15 de janeiro de 2013

VIII CONGRESSO DE ORIENTAÇÃO: "DESPORTO ESCOLAR - CAMINHO DO FUTURO", POR RICARDO CHUMBINHO



Em Portugal temos um sistema desportivo que, na verdade, não o é uma vez que compreende ele próprio diversos subsistemas desportivos que na realidade também não o são (associativo, escolar, militar, universitário, etc…), já que não se tratam de verdadeiros elementos em interação dinâmica com vista a um objetivo comum. Esta situação gravosa leva-nos a afirmar que não existe uma política desportiva em Portugal. Assistimos, isso sim, a diversas políticas em função do contexto em que nos situamos e, não raro, em função dos próprios dirigentes que pontualmente encabeçam estes contextos. Na ausência de uma verdadeira política desportiva nacional que oriente a forma como os “subsistemas” se devem relacionar entre si, resta às Federações assumirem ou não esta relação.

Dada a legítima posição do Desporto Escolar, segundo a qual não é relevante a modalidade praticada pelos alunos desde que exista prática - e sendo a Federação Portuguesa de Oientação (FPO) a genuína responsável pela direção da modalidade em Portugal -, considerando ainda a importância do Desporto Escolar para a Orientação, conforme procuraremos demonstrar mais adiante, torna-se óbvia a conclusão de que compete à Federação tomar as opções que melhor sirvam a relação entre o desporto escolar e o desporto associativo com vista ao desenvolvimento da Orientação no território nacional e à otimização desta relação.


A Importância do Desporto Escolar Para a Orientação

Atente-se agora no quadro com dados estatísticos relativos ao Desporto Escolar no ano letivo 2011/2012:

Grupos/Equipa de DE
77

74
Clubes filiados FPO (quotas em dia)
Total de alunos DE
2190

773
Filiados FPO até H/D 20
Alunos registados nos rankings Norte e Lisboa e Vale do Tejo
916

202
Atletas registados nos rankings FPO até H/D 20

A análise destes dados permite-nos concluir que a Orientação no Desporto Escolar tem maior expressão do que aquilo que se verifica no domínio dos Clubes e Federação em número de “clubes” inscritos, número de jovens praticantes registados e taxa de participação em actividades (% dos atletas inscritos que constam nos rankings). Contudo esta diferença alavanca-se para números francamente mais significativos quando passamos a considerar a modalidade Multiactividade de Ar Livre, já que o total de escolas passaria para 235 (contra os mesmos 77 FPO) e o de alunos para 6207 (para os 773 FPO).

Ciente desta realidade, ainda que eventualmente não assente em dados estatísticos como os apresentados, de há anos a esta parte a FPO e alguns clubes têm vindo a sublinhar e reconhecer a importância do DE para o desenvolvimento da modalidade, colocando-o no centro das suas prioridades. Fruto desta opção estratégica, a FPO assinou em 2007 com a então DGIDC um protocolo de cooperação que, na altura, mais não foi do que o formalizar de uma prática de cooperação já existente e que se estende até aos nossos dias em áreas como o apetrechamento, formação, apoio às organizações, vantagens financeiras, condições especiais de filiação e, muito importante embora nem sempre assim considerado, possibilidade de participação de atletas não federados em provas FPO.

Apesar de ser, no seio da modalidade, quase unanimemente considerada uma relação frutuosa, é possível quantificar estes frutos através de alguns indicadores que, por sua vez, ajudam a suportar ainda melhor a afirmação inicial quanto à importância do Desporto Escolar para a Orientação.

Considerando uma normal pirâmide de praticantes e agentes desportivos, o anterior quadro permite-nos dizer que o Desporto Escolar trouxe à base desta pirâmide em 2011/12, mais de 6000 jovens praticantes e cerca de 230 técnicos sem quaisquer custos para a FPO. Sendo difícil quantificar dados quanto à zona central da pirâmide, chegados ao topo encontramos, oriundos do Desporto Escolar, 10 atletas no top-10 dos rankings Elite 2012, 17 em 23 jovens e 7 em 15 seniores selecionados pela Comissão Técnica de Orientação Pedestre para o estágio de Dezembro de 2012, diversas finais A de Campeonatos do Mundo e alguns lugares de honra em Campeonatos do Mundo de Orientação em BTT.


Que Caminhos de Futuro?

Apesar daqueles indicadores, pensamos poder afirmar-se que existe ainda uma larga margem de progressão no que à relação com o Desporto Escolar diz respeito, já que temos dúvidas quanto à efetividade das relações locais entre escolas e clubes e, por outro lado, áreas como a Formação e a Organização da modalidade no âmbito escolar podem ser bastante melhoradas.


Formação

Ao nível da formação de professores, no passado recente e para além da produção, publicação e disponibilização de ferramentas como o manual e alguns textos/cadernos didáticos, a situação tem-se caracterizado pelo seguinte:
  • Divulgação junto do Desporto Escolar dos cursos FPO, sem que tal venha tendo qualquer resultado prática digno de menção;
  • Ministração de ações de formação/sensibilização de curta duração a pedido de escolas quando a FPO dispunha de um Diretor Técnico Nacional a tempo inteiro, algo que atualmente não se verifica, deixando assim a modalidade sem estrutura capaz de dar resposta efetiva a este tipo de solicitação;
  • Ministração de cursos creditados de 25 horas da responsabilidade de centros de formação e sem qualquer possibilidade de validação, por parte da FPO, da qualificação e qualidade do currículo e/ou dos formadores.
Significa isto que os mais de 200 professores que trabalharam regularmente na modalidade o ano passado, acrescidos das centenas que abordaram a modalidade na Educação Física curricular, o fizeram sem qualquer apoio da FPO relativamente à sua formação, sendo que muitas outras centenas que não fizeram uma coisa nem outra eventualmente o poderiam ter feito se houvesse mais e melhor formação.

Neste âmbito e perante este panorama, defendemos as seguintes medidas:
  • Definição, por parte da FPO, de um currículo-tipo de ação de sensibilização/formação de curta duração – meio dia ou um dia, a ser ministrada localmente por técnicos dos clubes a solicitação das escolas da região ou, em alternativa, propostas pelos próprios clubes assumindo assim a iniciativa de promover pontes locais com o sistema educativo. Desta forma não só a FPO proporciona aos clubes menos apetrechados do ponto de vista dos recursos humanos uma ferramenta de fácil utilização como, tendencialmente, garante uma formação una de âmbito nacional e de acordo com princípios de desenvolvimento adequados.
  • Estabelecimento de protocolo com uma instituição de ensino superior, nos termos do qual esta garanta institucionalmente formação creditada (cursos de 25 horas e oficinas de 50 horas para públicos-alvo com objetivos e bases diferentes) de acordo com currículos e formadores propostos ou validados pela FPO.
  • Definição de um sistema ambicioso de equivalência destes cursos e oficinas a graus FPO em diversas áreas, bem como um sistema de incentivos aos clubes mais dinâmicos em termos de formação a nível local.

Reorganização da Orientação no Desporto Escolar

Neste domínio consideramos que há um longo - mas nem por isso necessariamente lento - caminho a percorrer pelo Desporto Escolar, competindo inequivocamente à FPO a responsabilidade de apontar esse caminho.

Propomos que as Multiactividades de Livre e Orientação deixem de existir, sendo substituídas por uma modalidade Orientação mais abrangente considerando três disciplinas: Orientação Pedestre (anterior orientação), Corridas de Aventura (anterior multiactividades de ar livre) e Orientação de Precisão (nova disciplina no âmbito do DE, dando resposta à crescente preocupação do DE com o fator inclusivo e alunos com Necessidades Educativas Especiais), podendo as escolas criar grupos/equipa em qualquer das disciplinas. Com esta aparentemente simples alteração, não apenas o Desporto Escolar se moderniza e adequa aos tempos atuais da modalidade a nível nacional e internacional, como a própria modalidade ganha outra dimensão a diversos níveis no âmbito do Desporto Escolar.


Relação Escola-Clube

Considerando que a escola é um espaço especialmente vocacionado e organizado para a formação, constitui uma alargadíssima base de recrutamento e dispõe de um vasto conjunto de potenciais técnicos pedagogicamente muito habilitados e suportados pelo Ministério da Educação, faz todo o sentido que o clube, mais vocacionado para a competição, com recursos materiais específicos e técnicos mais habilitados do ponto de vista especifico da modalidade, procure naquele espaço uma dimensão que complemente ou até, neste caso, inicie, a sua ação de desenvolvimento da modalidade.

Parecendo querer dar razão a esta ideia está o facto de ser fácil encontrar, no nosso panorama presente e no passado recente, um pequeno conjunto de casos de muito e comprovado sucesso na relação complementar entre escola e clube. Deste tipo de sinergia já resultaram muitos atletas para o “pelotão” dos clubes, mas também para as suas equipas jovens e para as suas elites.

O que não há – nem poderia haver – é um modelo de relacionamento extensível a todo o país, já que as realidades se apresentam bastante divergentes. Mas estas diferenças não devem, por si só, poder justificar aquilo que nos parece ser um caso de alargada (face ao potencial) falta de iniciativa ou eficácia na relação complementar local entre escola e clube.


Conclusões

Tomando como referência os anteriores considerandos quanto à política desportiva nacional, à importância do Desporto Escolar para a Orientação e aos caminhos a trilhar no futuro imediato para uma otimização da relação entre FPO e Desporto Escolar, concluímos com aquelas que nos parecem ser as linhas de força das ideias desenvolvidas:


  • 1. Necessidade de incrementar e generalizar a relação local entre clubes e escolas, partindo da iniciativa daqueles e de acordo com os objetivos e condições contextuais, numa perspetiva de complementaridade, desenvolvimento e enriquecimento mútuo;

  • 2. Necessidade de conceber internamente um modelo integrado de desenvolvimento da Orientação no DE a apresentar ao Ministério da Educação, assente em dois vetores:


  • a. Formação - modelo de formação com diversos níveis, mais gratificante e edificante para os formandos, orientado para as escolas mas centrado na FPO e operacionalizado por diferentes agentes;


  • b. Redefinição da organização da modalidade – inclusão das disciplinas Orientação Pedestre, Corridas de Aventura e Orientação de Precisão na modalidade Orientação.




  • Saudações orientistas.

    JOAQUIM MARGARIDO

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