quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

VIII CONGRESSO DE ORIENTAÇÃO: "AVALIAÇÃO DE PROVAS", POR MANUEL DIAS




[Embora haja avaliação também nas provas de Orientação em BTT, esta análise restringe-se às provas pedestres e as opiniões ou sugestões emitidas refletem, no essencial, o entendimento dos restantes elementos da Comissão de Avaliação de Provas Pedestres]


A avaliação de provas começou em 2003-2004, com uma grelha que João Oliveira (COC), na altura na Direção da FPO, enviava, depois de cada prova, a um grupo de cerca de 20 atletas que atribuíam notas de 1 a 5 em 23 campos de pontuação. Em 2004/2005, constituiu-se a primeira CAP, coordenada por Albano João e já com a configuração que basicamente ainda mantém: 6 elementos, sendo na altura 3 do Norte e 3 do Sul, porque havia um Ranking Regional Norte e um Ranking Regional Sul. A grelha dessa temporada introduziu a votação de 1 a 20 e eram considerados 21 campos de análise agrupados em 5 áreas de pontuação.

Em 2005-2006, foi adotada uma grelha com 12 campos de pontuação obrigatória (“aspetos primários”), mais 17 de preenchimento facultativo (“aspetos secundários”) e, ainda, três de bonificação ou penalização extraordinária, mais duas hipóteses de penalização por falhas de ordem técnica e uma bonificação em caso de cobertura O-TV. O Terreno contava a dobrar e a Cartografia e Percursos a triplicar. Em 2006-2007, com António Amador agora na coordenação da CAP, onde permaneceu até 2010, a grelha manteve a mesma estrutura mas sofreu alguns arranjos no sentido de a tornar mais operacional.

A crescente consolidação das boas práticas organizativas na maior parte dos campos até então avaliados separadamente, levou a CAP a privilegiar, em 2008-2009, a análise de quatro áreas fundamentais - terreno, percursos, arena, cartografia -, reunindo todos os demais itens dentro de um quinto campo de pontuação. Curiosamente, e porque se considerou que a Cartografia melhorara bastante nos últimos dois anos, esse item perdeu o estatuto de dupla votação, trocando com a Arena, que passou assim a emparceirar com os Percursos e Mapas na linha dos aspetos preponderantes para o estabelecimento da nota final. Esta grelha vigorou de 2008 a 2010.


CAP integra Juniores

Em Maio do ano passado, após a “crise diretiva” na Federação, constituiu-se a mais jovem CAP de sempre, com dois juniores, dois seniores e dois veteranos. O primeiro trabalho desta CAP foi redigir um corpo de regras, a que chamou “Critérios de Avaliação 2011”. Não se descobriu a pólvora, evidentemente. Mas deu-se uma nova arrumação aos parâmetros que já eram utilizados para análise e foram introduzidas duas ou três miras novas para aumentar a pontaria das conclusões.

A atual grelha de avaliação é basicamente a que vinha de 2008-2009. Apenas foi conferida nova hierarquia aos cinco campos de votação, elegendo como cavalo-de-batalha a área dos Percursos, única que agora conta a dobrar. E, no cabeçalho, além dos nomes do clube organizador e supervisor, passaram a figurar também os do cartógrafo e traçador de percursos.


Acesso aos mapas de todos os percursos

Já foi dito que os Percursos são o único item que conta a dobrar. E, dado que constituíram a grande aposta deste ano e meio, conseguiu-se, pela primeira vez desde que há CAP, que, por indicação federativa, cada organização facultasse um jogo de mapas de todos os percursos. Na maior parte dos casos, as organizações tiveram a gentileza de disponibilizar esses mapas imediatamente após a partida do último atleta, o que, nos eventos de dois dias, tem permitido que, ainda no local e na noite de sábado, seja feita uma primeira análise aos percursos a tempo de suscitar uma troca de impressões antes da entrega de prémios no domingo.

Temos de ser realistas: a profundidade e celeridade da análise também estão condicionadas à nossa disponibilidade de tempo e à concentração de provas que às vezes se verifica, com especial destaque para os três eventos WRE. Neste ano de 2012 “resolvemos” o problema deixando, com a compreensão da Federação, arrastar as avaliações por tempo excessivo. Sem falsa modéstia, temos a sensação de ter feito algum bom trabalho, mas não dispensamos a autocrítica: para que as avaliações produzam efeito têm de chegar aos destinatários antes que se apaguem os ecos das suas organizações. Vamos certamente melhorar este aspeto, apontando para duas semanas como tempo máximo para entrega de cada relatório.


Aspetos mais marcantes em 2012

Eis alguns apontamentos sobre aspetos marcantes em cada um dos cinco campos de avaliação, tomando como referência sobretudo provas do calendário 2012. Para o fim fica o item Percursos sobre o qual incide um pouco mais de atenção.

1. Terreno

O Terreno foi o campo que mereceu a nota média mais elevada nas avaliações feitas este ano. Não é de estranhar num país onde, apesar da reduzida área geográfica, temos a felicidade de dispor de uma enorme variedade de terrenos, como amiúde sublinham praticantes de Elite estrangeiros que nos visitam.

O destaque mais positivo vai para o terreno do Senhor dos Caminhos, em Sátão. O percurso WRE, aí corrido no 3º dia do POM, foi recentemente eleito o melhor percurso do ano a nível mundial. Pela negativa, revelaram-se inadequados à disciplina os dois terrenos de floresta escolhidos para sprint (2 junho e 20 outubro). Também se regista como menos positiva a utilização do mesmo mapa para duas provas da Taça de Portugal – Nível 2, com menos de cinco meses de intervalo (17 junho e 4 novembro).


2. Cartografia

Passando à Cartografia, forçoso se torna reconhecer que, relativamente às provas de floresta, este é o campo mais difícil de avaliar no âmbito da CAP, porque o confronto mapa/terreno é apenas testado durante a prova de cada um dos seis elementos da Comissão. Ainda assim, é possível detetar situações duvidosas que, após discussão e nalguns casos recolha de opiniões exteriores, acabam por revelar-se, com elevado grau de probabilidade, desacertos na cartografia.

Os problemas mais persistentes e, portanto, mais graves dos nossos mapas têm a ver, na maior parte dos casos, com a falta de rigor nos elementos de vegetação que representam tipos de vegetação de reduzida velocidade de progressão. De vez em quando, também houve caminhos a mais ou a menos, ou com classificação menos apropriada, mapas em que apareceram reduzidos os símbolos pontuais (pequena depressão, buraco, cota, poço, árvore especial, etc.) e mapas de legibilidade difícil na escala 1:15000 devido ao excesso de elementos representados.

Fica ainda o registo de que foram detetadas incorreções a nível de altimetria, houve mapas sem meridianos ou com eles a distância irregular, e outros sem indicação das curvas de nível mestras ou com elas indicadas de modo impercetível em corrida. Por fim, assinala-se, nos mapas de sprint, um frequente incumprimento de algumas normas do ISSOM, não faltando exemplos de mapas que usam especificações desse regulamento em simultâneo com outras do ISOM.


3. Arena

A escolha do local é meio caminho andado para uma boa Arena. Tivemos este ano alguns espaços extraordinários e, normalmente, os serviços de secretariado, baby-sitting, informática e bar funcionaram bem, mas nem sempre de forma articulada. Quanto à locução, este é um dos fatores que mais distingue as Arenas, desde que no mais estejam assegurados os “serviços mínimos”. Depois do espetáculo de Sátão (POM/WRE), quase logo no início da temporada, todas as outras locuções souberam a pouco. Mas houve, mesmo assim, algumas prestações bastante razoáveis ao longo da época.


4. Impressão Geral e aspetos secundários

Os itens compreendidos nos “aspetos secundários” foram, de um modo geral, cumpridos satisfatoriamente, apesar de aqui e ali ter havido falhas graves. Quanto às falhas, começamos por registar duas ocorrências particularmente negativas, a primeira das quais relativa às Cerimónias de Entrega de Prémios (confusão num apuramento de resultados e consequente entrega indevida de medalhas e adiamento de uma entrega de prémios). O segundo tipo de ocorrência negativa foi o atraso nas partidas e verificou-se em duas provas da Taça de Portugal – Nível 1.

O facto, todavia, que marcou mais negativamente esta época foi, sem margem para qualquer dúvida, a anulação da final masculina do Campeonato Nacional Absoluto (CNA). Partindo de aspetos menos comentados desta experiência, parece oportuno deixar três reflexões à especial atenção dos futuros organizadores do CNA, tanto mais que não temos conhecimento de alterações, na proposta de Regulamento de Competições (RC) para 2013, sobre definições desta competição.

1. Embora o RC em vigor diga que a qualificatória é “uma prova de Distância Média”, parece ser de toda a conveniência que o traçador tente planear um percurso para um tempo de vitória na ordem dos 25 minutos. Os últimos apurados este ano fizeram 60 minutos na qualificatória masculina e 75 na feminina. E entre os que não foram à final houve quem gastasse mais de duas horas para cumprir o percurso de sábado.

2. Outra exigência do CNA é que os percursos de sábado têm de ser “semelhantes”. Este termo usado no RC cria uma nociva margem de tolerância, que não pode ser muito alargada, sob pena de subverter a especificidade do CNA – a única prova em que todos os escalões de competição correm o “mesmo” percurso. Uma atitude protecionista em relação aos escalões mais fracos, oferecendo-lhes no sábado percursos visivelmente mais acessíveis, é duplamente censurável: além de desvirtuar o sentido do campeonato “Absoluto”, corre o risco de proporcionar o apuramento de praticantes que não estão preparados para as exigências da prova de domingo. É, nessa perspetiva, um presente envenenado.

3. Para a final do CNA, o RC prevê duas hipóteses: Distância Média “incrementada” ou Distância Longa “reduzida”. Qualquer que seja a opção, há um preceito que não deve ser esquecido: se a prova está teoricamente ao alcance de praticantes que militam em escalões abaixo de H/D18 e acima de H/D40, então a escala do mapa nunca deverá ser inferior a 1:10.000. Talvez por isso, também, fosse preferível apostar em Distância Média em vez de Longa.


Percursos

Houve, nos Percursos, falhas de diferente natureza: pernadas difíceis em percursos supostamente fáceis e pernadas sem interesse de navegação em percursos exigentes; e houve pontos “escondidos”, estacas sem prisma, escala inadequada em determinados escalões, agrupamentos incorretos (por exemplo H20/H21B), pontos em linha, pontos repetidos nos dois dias, um primeiro ponto de HE igual ao primeiro ponto de H/D12, erros de sinalética, triângulos de partida a darem vantagem a quem lá não fosse, falta de fiscalização no atravessamento de zonas interditas, etc.

Mas centremo-nos num aspeto que foi uma nossa preocupação constante e que tem a ver com o ajustamento em termos de tempo. Para dar uma ideia global do nível de ajustamento nas provas de Distância Longa e Média avaliadas este ano pela CAP, preparámos um quadro com os desvios por defeito e por excesso, ou seja, quantos minutos é que o vencedor de cada escalão fez abaixo do limite inferior ou acima do limite superior do intervalo recomendado. A soma desses dois desvios dá-nos a medida do desacerto em relação ao tempo ideal.


Olhando então para este quadro, temos que, em provas de nível 1 (Distância Longa e Média), o ajustamento mais conseguido verificou-se numa prova de Distância Média em que, para o conjunto dos 32 escalões da análise mais abrangente, o erro foi de 48 minutos (22 por defeito, 26 por excesso), ou seja, em média 1,5 minutos por escalão. Pela negativa, destacam-se três provas cujo desajustamento ultrapassou os 700 minutos nos 32 escalões. Numa delas esse desacerto foi de 849 minutos (todos por excesso), o que representa uma média de 26,5 minutos a mais por escalão.

Contudo, se compararmos o quadro global com um quadro restrito de 19 escalões (no qual excluímos os escalões de formação, os H/D14, H/D21A e H/D21B e ainda os escalões D60, H65 e H70), é fácil perceber a persistência de um vício antigo que ainda não foi completamente debelado. Trata-se da tendência para investir sobretudo no planeamento dos escalões “nobres”. Uma consulta mesmo superficial aos resultados da maioria das provas permite concluir que os desacertos em H/DE e, de uma forma mais geral, nos escalões do miolo competitivo é muito inferior à média dos desacertos nos escalões “periféricos”. No caso que melhor ilustra essa discrepância, cai-se de um desvio de 789 minutos para 214, respetivamente nos 32 e nos 19 escalões do miolo competitivo. Ou seja, baixa-se de um desvio médio de 24,7 minutos para 11,3 minutos por escalão, com a particularidade de se poderem considerar (quase) inteiramente ajustados os escalões “nobres” por excelência: HE, DE, H18, H20, H35, H40, H45.

Temos estado a olhar para a tabela no sentido vertical. Analisada na horizontal, dá-nos a frequência do desvio por escalão. E aí a primeira evidência é que, em todas as faixas etárias, o desacerto é sempre maior no escalão feminino do que no masculino. Com exceção da Elite, todos os escalões femininos a partir de D18 foram duramente castigados. Estamos a falar em desvios médios que no geral ultrapassam em mais de 20 minutos o limite máximo do intervalo recomendado.

Algumas das falhas mais apontadas nos nossos relatórios parecem resultar do facto de os percursos não terem sido suficientemente testados. Esse exercício começa por ser fundamental para detetar eventuais imperfeições da cartografia na zona do ponto de controlo ou nas áreas de passagem das melhores opções de itinerário. E é também imprescindível para aferir o ajustamento dos percursos aos escalões a que se destinam. Por maior que seja a experiência do traçador e o seu conhecimento da “velocidade” em determinado terreno, não há maneira mais segura de prever o tempo do vencedor do que pôr um “atleta adequado” a testar cada percurso.

Termino com uma nota de apreço. Apesar de todas as limitações que aqui foram apontadas e de muitas outras falhas menores de que seria impossível fazer uma enumeração exaustiva, o balanço da época 2012, não obstante o trambolhão final, é francamente positivo. A distinção para o melhor percurso do ano, a nível mundial, não surge por acaso. Portugal continua a marcar pontos no calendário das competições de inverno. Mas, atenção, é preciso manter vigilância e reforçar o controlo de qualidade na origem. Um edifício que demorou anos a levantar pode vir abaixo com uma atuação desastrosa. Longe vá o agoiro!

Manuel Dias

[Artigo extraído da Orientação em Revista – Edição Especial, em http://content.yudu.com/Library/A20rjr/OrientacaoemRevistaE/resources/index.htm?referrerUrl=http%3A%2F%2Fwww.fpo.pt]


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

2 comentários:

Rui Antunes disse...

Bom Dia;

Começo por dar os parabéns ao amigo Manuel Dias, pessoa que considero completamente idónia e desinteressada e com uma experiência impar o que lhe confere credibilidade a todos os níveis.
Claro que concordo em alguns pontos com a forma como e por quem a avaliação é feita e também discordo em muitos outros pontos.
Sería maçudo e provavelmente mal aceite por alguns, estar aqui a enumerar todos esses pontos, por isso refiro apenas algumas situações.Concordo plenamente que o mapa(cartografia)e percursos deveriam continuar a ter a máxima importancia e a arena, para mim, nunca deveria ser mais relevante que qualquer destes dois itens, quando muito poderia estar no nível imediatamente inferior ou no máximo no mesmo patamar.Para justificar esta minha ideia, basta reler a referência que o Manel faz no final dos seus comentários em relação aos percursos e á dificuldade em mantermo-nos no topo.
Concordo que na comissão de avalição estejam elementos da Elite e Veteranos, já coloco algumas reticências com a introdução de elementos de escalões jovens nessa comissão. Todos nós já fomos jovens, tanto em idade como no nosso desporto e decerto todos nos lembramos do queficiente de ponderação com que reagíamos a determinadas situações, nomeadamente a quente. Considero por isso, que a experiência, muita experiência, é fundamental para este tipo de avaliações.Também (para mim)discordo da existência de elementos com particular interesse em organização de eventos com alguma dimensão,que pode levá-los a eles próprios até inconscientemente a utilizarem critérios (pessoais de avaliação) diferentes, de caso para caso.
Reforço que as minhas referencias são opiniões pessoais e no sentido de servirem se quizerem, pelo menos para quem de direito e que as leia,pensar no assunto.

Abraço e boas provas todas elas em Fevereiro e também durante toda a próxima época que agora se inicia.

Rui Antunes

Rafael da Silva Miguel disse...

Boa noite senhor Antunes.

Gostava apenas de dizer que os jovens presentes, eu (Rafael Miguel) e a Mariana Moreira temos:
Rafael: 4 EYOC's; 1 WSOC; vários ibéricos, provas nos estrangeiro (como WOC's tour, etc,...)
Mariana: 6 EYOC's; 2/3 WSOC; and so on...

Não estou a dizer que o que disse está certo ou errado, apenas estou a acrescentar informação! Somos jovens mas diria que bem adultos para esta tarefa... Temos experiência, sabemos as regras, somos responsáveis,... Logo não vejo nenhuma razão para não pertencer-mos à CAP.

Outra coisa, não sei se o Antunes não percebeu ou se fui eu que não percebi, mas deixo aqui o peso dos pontos a avaliar pela CAP:
- Terreno 1/6
- Cartografia 1/6
- Percursos 2/6
- Arena 1/6
- Impressão Geral e aspetos secundários 1/6
O critério foi: Num terreno menos bom, mesmo com uma cartografia sem ser perfeita, é possível fazer percursos de nível decente. Assim como um grande terreno/cartografia, é possível estragar tudo com maus percursos.

Uma abraço e até amanhã!
Rafael Miguel - Ori-Estarreja