quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

THIERRY GUEORGIOU: "PODEMOS SEMPRE APRENDER ALGO, SEJA COM QUEM FOR"




Thierry Gueorgiou está em Portugal a preparar a temporada que se avizinha e o Orientovar foi ao seu encontro. Depois duma época frustrante, o atleta francês aposta em “dar a volta por cima” e aponta os grandes objetivos para 2012.


Os primeiros dias do ano são passados em Portugal. Como é que as coisas estão a correr?

Thierry Gueorgiou (T. G.) - Desde o final de 2012 que estou a treinar em Portugal e vou permanecer aqui 20 dias. O meu “mapa” abrange várias regiões, desde os terrenos do litoral junto a Figueira da Foz, aos terrenos do Portugal O' Meeting 2012 em Viseu e também alguns dias em terrenos do Alto Alentejo. Até ao momento está tudo a correr muito bem e, pela primeira vez após a minha fratura de fadiga, estou a conseguir treinar regularmente com uma carga de 30 horas por semana.

Nesta fase da temporada, como é que gere o seu treino? É mais técnico ou dedica-se sobretudo à parte física?

T. G. - Sempre considerei que, enquanto orientista, o meu objetivo principal deveria residir no aperfeiçoamento da minha técnica e é essa a minha prioridade no dia a dia. Senti-me um pouco frustrado por ver tanta neve na Suécia e, por conseguinte, tomei a direção do Sul da Europa para poder continuar a trabalhar a minha técnica. Inicialmente, tinha previsto estadias de uma semana por mês no Sul, mas finalmente acabarei por ficar três semanas por mês, pelo menos em Janeiro e Fevereiro, para fugir à neve.

Foi muito interessante vê-lo na foto do Miguel Reis e Silva [ver AQUI], depois dum treino noturno. Quer falar-me deste treino e dos seus companheiros ocasionais?

T. G. - Fizemos juntos um percurso noturno e uma estafeta de duas pessoas. Foi realmente um prazer treinar com eles e os meus treinos são sempre abertos a todos os entusiastas da Orientação. Há um mês treinei em Alicante com o Chris Terkelsen, o Andreu Blanes, o António Martinez e outros. Isto é particularmente enriquecedor uma vez que eu gosto de ver de que forma se preparam as pessoas com quem treino, como fazem o aquecimento, como se concentram. Ainda que a Orientação e os métodos de treino possam estar demasiado estandardizados hoje em dia, notam-se ainda algumas interessantes diferenças regionais e culturais. E podemos sempre aprender algo, seja com quem for.

Se andarmos um ano para trás, vêmos um Thierry Gueorgiou pleno de força e confiança, a preparar uma época a prometer os maiores sucessos. 2012 foi um ano para esquecer ou é um ano para lembrar?

T. G. - A minha temporada de Inverno, no ano passado, foi muito boa, talvez uma das melhores de sempre. Ao nível dos resultados, o início da época mostrou-se igualmente deveras promissor, mas tudo começou a desmoronar-se alguns dias antes da Tiomila quando comecei a sentir uma dor na tíbia. Infelizmente, nesta altura do ano, é sempre muito difícil abrandar o ritmo com a perspetiva das provas importantes que se avizinham. O resto da época foi muito frustrante, tinha a impressão de combater sem as minhas armas. Uma época sem um título de Campeão do Mundo sempre foi vista por mim como um época fracassada, mas sempre encontrei nela, igualmente, uma formidável fonte de energia para a época seguinte. Partilho inteiramente da ideia de que “a derrota é inovadora, a vitória é conservadora”. Veremos se será esse o caso na presente temporada.

Falando dos atletas que marcaram 2012, podemos ver Simone Niggli e Matthias Kyburz, claro, mas também nomes como os de Edgars Bertuks e dos jovens Matt Ogden e Emily Kemp. Como é que vê esta “mini-revolução” dos países mais pequenos?

T. G. - É algo de verdadeiramente positivo para a modalidade. A Orientação deve crescer, globalizar-se e é entusiasmante podermos ver novos bandeiras no pódio. Isto vale por dizer, mais uma vez, que o desejo de alcançar algo e a atitude são bem mais importantes que tudo o resto, nomeadamente o local onde se vive.

Na linha dum exercício curioso feito pelo Jiri Danek, vou atrever-me a perguntar-lhe quem seria para si a entidade (indivíduo, clube) merecedora do “The Achievement of the Year 2012” se alargássemos o concurso a todo o universo da Orientação e não apenas aos atletas?

T. G. - Não sei ao certo a quem atribuiria o galardão, uma vez que são muitos aqueles que certamente o mereceriam. Jan Prochazka, no último percurso da Estafeta checa que conquistou o título mundial, talvez seja um dos que mais o mereceriam visto que, naquele momento, ele foi além dos seus próprios limites, transcendeu-se em absoluto na altura que realmente contava. Mas, finalmente, atribuo-o a todos os cartógrafos do mundo inteiro que, a sós no meio da floresta, constroem as obras de arte que nos proporcionam o maior dos prazeres em praticar o nosso desporto.

Vai interromper esta estadia em Portugal mas sei que estará de regresso para o Portugal O' Meeting. Que significado tem esta competição para si e o que espera deste POM?

T. G. - O Portugal O' Meeting será a minha primeira competição do ano e isto é algo de muito especial. Talvez no ano passado eu estivesse já em grande forma por esta altura, demasiado cedo. Este ano procurarei ser um pouco mais paciente e alicerçar melhor a minha temporada. Mas o Portugal O' Meeting é uma das minhas provas favoritas e estou crente que os terrenos este ano serão muito interessantes, pelo que procurarei fazer boas performances.

Quais os grandes objetivos da temporada que agora começa? Esta será a sua última temporada?

T. G. - Os meus objetivos centram-se na Distância Média dos Campeonatos do Mundo e no O-Ringen. Mas há igualmente outras provas onde procurarei dar o meu melhor. Não sei ainda se esta será a minha última temporada. Gosto muito desta forma de vida e sei que parar vai ser muito duro. Vamos a ver!


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

1 comentário:

Rui Antunes disse...

Boa Noite;
Como sempre uma excelente entrevista com um SENHOR da orientação em todos os aspetos.
Fico muito honrado por pertencer á classe realçada pelo Thierry Georgiou.É sempre motivador saber que qualquer orientista dá valor aos nossos trabalhos, mas sentir o respeito dum Supercampeão é-o ainda mais.
Eu ainda sou do tempo em que nos finais das grandes competições internacionais e antes da cerimónia de entrega de prémios, o ou os cartógrafos daquele evento eram chamados ao palco e depois de apresentados recebiam uma salva de palmas do público presente.Em Portugal o mais relevante que consegui ver foi a maldicência e o achincalhamento de quem não tem a mínima noção doque é este tipo de trabalho (cartografia).
Mas como disse, é o ler este tipo de comentários desse grande campeão que nos motiva ainda mais.
Cumprimentos;
Rui Antunes