quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

MARCO GIOVANNINI: ORIENTAÇÃO DE PRECISÃO COM CABEÇA... E CORAÇÃO


Poderá não ter a projeção ou a atenção mediática de muitos atletas de topo na cena internacional da Orientação mas é, à sua medida, uma personalidade distinta dentro do pequeno mundo da Orientação de Precisão. Dedicado atleta e blogger apaixonado, Marco Giovannini é um dos nomes maiores no que à promoção e divulgação desta disciplina diz respeito. E é ele o nosso convidado hoje.


Hesitei entre chamá-lo a si ou ao seu blogue para a primeira questão desta nossa conversa. Mas vamos deixar a «criatura» para mais tarde e falemos do «criador». Quem é o Marco Giovannini?

Marco Giovannini (M. G.) - Joaquim, as primeiras palavras são para si: os seus convidados são geralmente grandes figuras do mundo da Orientação, ao passo que eu sou apenas uma entre as muitas pessoas que vivem a Orientação como uma forma de entretenimento. Nasci há 45 anos atrás, em Trento (entre as montanhas) e vivo em Milão desde 1990 (entre os prédios). Descobri a Orientação em 1990 e durante este tempo tenho viajado imenso por toda a Europa, ao encontro das mais variadas competições (O-Ringen, 5 Dias de França, WMOC em Portugal,...).

Como é que nasceu a sua paixão pela Orientação de Precisão?

M. G. - Em 2008, durante um evento de vários dias em Asiago, participei numa prova de Orientação de Precisão (TrailO para os amigos); fiquei imediatamente «apanhado» porque o meu cérebro precisa frequentemente de novos desafios. Para mim, a Orientação de Precisão é uma disciplina perfeita porque me permite caminhar na floresta a sós com os meus pensamentos, ouvindo a música dos pássaros e sentindo os aromas da natureza. O resultado dessa minha primeira prova foi DISQ [desqualificação] porque não estive para esperar pela minha vez nos pontos cronometrados (lembro-me da longa fila de espera a meio da prova).

Já alguma vez organizou uma prova?

M. G. - Sim, aqui - http://www.trailo.it/Gare.asp?ID_MANIFESTAZIONE=20 - pode encontrar todas as novidades. Recordo que, um ano antes da prova, me desloquei ao terreno na mesma semana do ano para estudar a vegetação, as condições de luz natural e, julgava eu, a colocação das balizas; fui o último a utilizar quatro diferentes colocações para cada ponto! Expliquei isso mesmo num documento em separado sobre a maneira de resolver cada ponto de controlo; isto acabou por não ser muito apreciado e, após essa experiência, acabei por perder a minha paixão graças a pessoas não competentes. Por vezes não consigo encontrar a mesma diligência noutras competições e isto acaba por criar algum descontentamento entre todos. Este ano irei ajudar o meu clube a organizar o evento de Orientação de Precisão incluído na OOCup (Eslovénia); posso adiantar que o terreno é bastante adequado para o meu estilo de planificador e traçador de percursos e os meus amigos estão à espera de ver como irão resolver os meus problemas.

E quanto a resultados?

M. G. - Só esta época comecei a treinar as minhas competências em Orientação de Precisão; nos anos anteriores participei nas provas como forma de adquirir experiência. Apesar disso, consegui algumas vezes chegar ao pódio; fui medalha de bronze nos Campeonatos de Itália em 2010 (em 2012 fiquei no 4º lugar mas foi extra-competição pelo facto de alinhar num clube esloveno) e por algumas vezes consegui vencer etapas da Taça de Itália... mas os resultados não são tudo! Depois da prova, e antes mesmo de ver os resultados, a pergunta que coloco a mim mesmo é: “Estás feliz? Deste o teu melhor?” A minha filosofia tem a ver com a distração depois duma semana de trabalho, desafiar os problemas do traçador, encontrar novos estímulos, estar com os meus amigos. Espero que alguns dos leitores do Orientovar, depois de verem esta entrevista, se disponham a usar um pouco do seu tempo para virem experimentar a Orientação de Precisão.

Afinal o que há de tão apelativo na Orientação de Precisão?

M. G. - Penso que se comete um erro crasso ao pensarmos que os orientistas da pedestre ou da BTT se sentem atraídos pela Orientação de Precisão. Um orientista, em geral, gosta da fadiga, do suor, treina o corpo para correr mais e mais depressa. A Orientação de Precisão é uma disciplina para pessoas que gostam de usar o cérebro, pôr à prova os seus limites mentais, ganhar um jogo sem recorrer às capacidades físicas; comparo isto ao xadrez, às cartas ou aos puzzles. Quando fico duas horas num parque ou numa floresta, venho para casa muito contente, relaxado, até que olho para as soluções; nesse momento, as minhas respostas conhecem a decisão oficial e, por vezes, não estou muito de acordo com elas.

Em Março de 2010 criou o “trailo.it”, um blogue que se assumiu desde logo como “um ponto de encontro para todos aqueles que se revêem nesta disciplina”. Quer falar-me desta aventura?

M. G. - Em 2007 criei um blogue (http://mary-marco.blogspot.it) onde escrevia sobre as minhas aventuras depois de cada prova; acabei com o blogue quando o meu cão Rusky morreu (Rusky é também a minha alcunha). Quando comecei a praticar Orientação de Precisão, fui à procura de notícias, regulamentos, testemunhos, mas o material encontrava-se muito disperso na internet. Foi então que pensei em criar um website onde pudesse condensar toda essa informação. Infelizmente, tal como acontece nas pequenas famílias, alguém em Itália não gostou porque viu o site como uma espécie de competidor e não como um veículo útil de difusão desta disciplina.

Quer fazer-nos uma visita guiada pelo seu blogue?

M. G. - Antes de explicar como funciona, gostava de dizer que o próximo objetivo é refazer algumas páginas do www.trailo.it. E entretanto aproveito para agradecer a dois amigos meus, o webmaster e meu professor, Giuseppe Russo, e o homem das entrevistas, Stefano Galletti. O site nasceu para servir de auxílio aos recém-chegados ao mundo da Orientação de Precisão. Após estes anos, devo admitir que os meus leitores são mais gente de fora do que propriamente italianos; assim, desde o ano passado, decidi começar a escrever sobretudo em inglês. Tenho uma página de “Notícias” onde coloco informação sobre as provas ou outros importantes eventos; “Regras” é a página dedicada às regras sobre o ISSOM, regulamentos, fórmulas para cálculo de rankings, símbolos. “Competição” é uma página onde coloco os resultados das provas em Itália (em 2012 deixei de o fazer porque não era muito apreciado); “Ranking” é algo similar à página anterior mas os resultados baseiam-se no ranking italiano ou na classificação da Taça de Itália. “Histórias” explica aos principiantes, em italiano, o que é uma prova de Orientação de Precisão; do lado direito podemos encontrar entrevistas com alguns nomes sonantes do panorama europeu. A última página contém alguns links para outros blogues ou websites dedicados à Orientação de Precisão. Depois da renovação que pretendo levar a cabo, penso inserir uma página com o “TempO Game” e uma base de dados sobre as competições internacionais (Campeonatos do Mundo, Campeonatos da Europa).

Falou em 'TempO Game'. De que trata, exatamente?

M. G. - Ao longo dos anos, a paixão pelo meu site tem vindo a decair, sobretudo devido ao facto do meu esforço não ser apreciado. O “TempO Game” foi uma ideia que surgiu para ocupar algum do meu tempo livre, estudar linguagem de computador e criar um jogo para os meus amigos. Lembro-me da página do Libor (http://www.yq.cz/trail-o/TempO/): o problema estava em encontrar verdadeiros desafios, mapas, provas. Decidi então criar novos jogos. Se encontro um bom sítio, utilizo-o para construir um novo desafio... Desenho um mapa com base na fotografia tirada, mas não o faço à escala porque a foto é demasiado pequena para um mapa à escala. O tempO é uma disciplina onde a rapidez de raciocínio é a principal qualidade; por este motivo, por vezes exorbito os objetos visíveis na foto. Os desafios são um misto de situações características da Orientação de Precisão: não é necessário criar problemas demasiado difíceis porque o stress causado pelo cronómetro (que se encontra junto à imagem) só por si é suficiente para levar a pessoa a cometer erros. Quando criei o jogo, não fazia ideia de quantas pessoas poderiam vir a jogá-lo ou qual o seu grau de conhecimento de TempO. O passo inicial foi criar apenas quatro situações para testar a ideia; entretanto a minha paixão cresceu e já se encontram na página 20 jogos diferentes. Convido as pessoas a experimentarem o jogo – em http://www.trailo.it/Presentazione.asp - e a partilharem comigo as suas opiniões. Após esta “versão beta”, trabalharei então na versão final. A minha ideia é poder vir a organizar competições on-line. Mas perguntava-me “de que trata, exactamente”: trata de resolver os problemas, o mais rapidamente possível e sem erros... e depois comparar o resultado com os resultados dos melhores orientistas de precisão! Sinto-me muito contente pelo facto da Federação Norueguesa ter colocado na sua página um link para o jogo: mais de 300 noruegueses experimentaram o “TempO Game” na primeira semana deste novo ano!

Tenho de lhe perguntar, com base na sua experiência pessoal: TempO ou TrailO?

M. G. - Quase posso utilizar os pressupostos da Orientação Pedestre para ilustrar a minha resposta: O TempO é como o Sprint, o TrailO é como a Distância Longa. Gosto da Orientação de Precisão (TrailO) porque, depois duma semana de trabalho no escritório, preciso de caminhar e de relaxar ao encontro da natureza. O TrailO oferece uma miríade de ideias, soluções, hipóteses: o cérebro tem de encontrar a resposta correcta a partir do espaço envolvente, da sua geometria. Gosto do TempO porque se trata de intuição, adrenalina, treino mental para decidir rapidamente; é o contrário do TrailO! TempO é a verdadeira disciplina onde todos (elite, paralímpicos) estão em igualdade de circunstâncias. Na minha opinião, os orientistas de precisão mais novos gostam do TempO porque gostam de jogos excitantes e o seu cérebro parece mais formatado para isso. A limitação do TrailO está no nivelamento dos competidores: muitas vezes, o resultado final decide-se nos pontos cronometrados.

Como vê o actual momento da Orientação de Precisão?

M. G. - Penso que a Orientação de Precisão é uma disciplina muito nova e que continuará a sofrer mutações de ano para ano. Começou por ser algo destinado à Classe Paralímpica mas, ano após ano, a Classe Aberta tem vindo a crescer em número de atletas; há alguns anos atrás, o movimento da Orientação de Precisão era praticamente uma família grande. Actualmente, há novos países a descobrir esta disciplina e as regras antigas tornaram-se obsoletas devido aos terrenos. Diferentes tipos de planificações vieram dar lugar a situações novas. Espero que a nova geração de orientistas de precisão (Marit, Lauri, Anti, Martin, etc...) seja capaz de trazer novas ideias para atrair outros jovens atletas. Sei que a Comissão está a trabalhar nos regulamentos técnicos: este trabalho é muito importante porque é necessário clarificar alguns aspetos que não se aplicam a uma mesma situação (por exemplo, eu nunca compreendi porque é que as curvas de nível omitem algumas formas na própria reentrância ou esporão). Por outro lado, não é fácil envolver novos praticantes no escalão paralímpico. Em Itália, apenas temos três atletas paralímpicos. Falei com algumas pessoas portadoras de mobilidade reduzida que me fizeram perceber que a equação “Deficiente = Orientação de Precisão” está errada! Essas pessoas pensam da mesma forma que qualquer uma outra e convenhamos que não é fácil encontrar alguém que se queira deslocar para ir fazer Orientação de Precisão...

Itália, Croácia e Eslovénia formam um bloco regional dinâmico e particularmente interessante. Estamos perante a tentativa de criação de uma alternativa à hegemonia nórdica?

M. G. - Penso que esta cooperação nasceu espontâneamente, na medida em que as regiões do Nordeste de Itália, a Eslovénia e a Croácia estão próximas geograficamente. Em vez de criarem três micro-calendários, estes países resolveram organizar um interessante Troféu. Ultimamente, tenho viajado com frequência para a Eslovénia e o meu clube agora é o OK Trzin. Mas atenção: por detrás dos nomes “Eslovénia” e “Croácia” não encontramos um largo movimento, apenas alguns poucos clubes pequenos. O número de eventos não é ainda adequado a que possamos criar uma atividade interessante. Fico à espera das competições de vários dias. No verão passado estive na República Checa durante cinco dias e depois mais três dias na Eslovénia. Após estas competições, senti uma evolução na minha prática.

Em 2014, a Itália irá receber o Campeonato do Mundo de Orientação de Precisão mas, antes disso, teremos em Portugal os Campeonatos da Europa. Para rematar a nossa entrevista, pedia-lhe uma antevisão dos dois eventos.

M. G. - Na aprovação dos participantes reside, com frequência, a chave do sucesso; por este motivo, é muito importante escolher os traçadores certos e desenhar bons mapas. Em 2008, estive em Portugal, como disse, para participar no Mundial de Veteranos; foi uma boa experiência correr em florestas tão belas e visitar o País. Penso que Portugal e a Federação Portuguesa de Orientação têm todas as condições para mostrar a sua real qualidade. Em Itália, não tenho conhecimento de quem serão os traçadores e tão pouco sei onde se desenrolará a competição. Acredito que o movimento da Orientação de Precisão em Itália conta com grandes individualidades para termos um bom WTOC mas, por vezes, interesses políticos arruinam as boas oportunidades. O meu traçador favorito é Guido Michelotti mas não sei se será ele o traçador; designo alguns dos seus pontos como de “nível superior” porque ninguém é capaz de ensinar este tipo de pontos.

[Foto gentilmente cedida por Marco Giovannini]


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

1 comentário:

Rui Antunes disse...

Bom dia;

Mais um trabalho muito útil e também de qualidade superior.
É por ler comentários como estes que o meu instinto fica cada vêz mais desperto para esta vertente da orientação.Por acréscimo, a minha coriosidade fica também mais aguçada.
O tempo tem sido escasso, mas vou procurar experimentar o quanto antes, até pelos motivos óbvios.

Parabéns aos dois
Rui Antunes