segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

JIŘÍ DANĚK: "ESTAR SOZINHO NO MAIS RECÔNDITO DA FLORESTA? EU ADORO ISSO!"




Por detrás duma prova - da sua qualidade organizativa, do nível de competição ou da perfomance dos atletas – vamos encontrar a figura ímpar, incontornável, do cartógrafo. Poderá não ser dele o primeiro passo, mas a ele assiste o direito de reclamar para si o facto de ser a mais importante peça dum imenso e excitante puzzle. O Orientovar viaja até à República Checa, ao encontro de Jiří Daněk, dando a conhecer um cartógrafo multifacetado e com muito para contar.


Na última entrevista que fiz, aproveitei uma mensagem sua no Facebook e coloquei a questão a Thierry Gueorgiou: Qual seria a entidade (individual, clube) merecedora do prémio "The Achievement of the Year 2012" se estendêssemos o concurso ao universo da Orientação e não apenas aos atletas? A resposta foi: ''Os cartógrafos do mundo inteiro''. A resposta surpreende-o?

Jiří Daněk (J. D.) – É um grato prazer ouvir isso. Foi uma resposta inteligente de uma pessoa bem orientada :-) Nem todas as pessoas percebem realmente o esforço que os cartógrafos colocam nos seus projetos. Ninguém está à espera de subir ao pódio – apenas o reconhecimento de que a orientação não são só os atletas de Elite.

Porque motivo abraçou a profissão de cartógrafo?

J. D. - Em 1991 vi um programa OCAD a correr num PC 286 pela primeira vez. Nessa altura eu era um jovem orientista entusiasta. Os mapas despertaram desde logo a minha atenção e, pura e simplesmente, decidi que este era o trabalho que eu queria fazer. Durante os primeiros anos trabalhei como empregado da editora cartográfica "SHOCart", que se especializou na altura em mapas de Orientação. Trabalhando ao lado de experientes criadores de mapas, fui capaz de aprender imenso. No entanto, a empresa começou a concentrar as atenções em mapas turísticos e acabei por estabelecer o meu próprio negócio em 1996.

Ser cartógrafo é um trabalho particularmente solitário. Isso é bom ou é mau?

J. D. - Estar sozinho no mais recôndito da floresta? Eu adoro isso! É bom sentirmo-nos parte integrante da natureza e desfrutar de todos os detalhes da sua infinita beleza. Procuro ir para a floresta de manhã, o mais cedo possível, numa altura em que se podem apreciar imensas coisas. Gosto de todos os ruídos da floresta. É claro que quando não nos sentimos muito bem, não estamos completamente aptos ou após algumas semanas de trabalho intensivo, tudo isto pode ser muito difícil, especialmente se estamos a centenas de quilómetros de casa e alguém da família está doente. por exemplo. Pode ser muito difícil, de facto.

Alguma vez teve uma experiência desagradável na floresta que pusesse em risco a sua vida?

J. D. - Uma vez na Suíça, cometi um erro tremendo. Durante uma pequena pausa, estava sentado numa pilha de madeira a comer a minha sandes ou algo assim... Quando me levantei, a pilha desmoronou-se e a minha perna ficou presa. Não podia mexer-me e os telemóveis não eram algo particularmente comum nessa época. Pode acreditar que esta era tudo menos uma situação da qual gostasse. Muito resumidamente: tive sorte. Dois jovens ciclistas encontraram-me e conseguiram libertar-me a perna. Mais tarde, quando voltei para o acampamento, estava em choque. Ainda estou muito grato a esses dois camaradas e ao meu anjo da guarda...

De todos os trabalhos que fez, consegue escolher aquele que guarda com maior apreço e o que preferia esquecer mas não consegue?

J. D. - Sabe, eu não penso dessa forma. Eu trabalho sempre com o mesmo cuidado e atenção – e não importa se se trata de um mapa para um evento local ou para uma prova WRE. Mas se realmente tivesse que escolher um projeto, provavelmente seria o mapa de "Västanåberget Västra". Passei três meses incríveis nos desafiantes terrenos suecos. No lado oposto: não tenho nada que gostasse de esquecer ou apagar da minha vida.

Nos últimos vinte anos – afinal o tempo que leva de profissão – consegue identificar os acontecimentos mais relevantes e que vieram revolucionar por completo a Cartografia?

J. D. - Do meu ponto de vista, foi o software para a cartografia; mas que tem, contudo, mais do que os vinte anos mencionados. Para outros poderá ser a cartografia com GPS. Certamente, devemos considerar o ISOM 2000, ISSOM 2007, sendo capaz de usar dados de Airborne Laser Scanning (LIDAR na América) para a elaboração de mapas-base, os dispositivos móveis de cartografia no próprio terreno (usando PDA, tablets, DGPS, medição de distâncias a laser com conexão via bluetooth para hardware).

Como vê o presente momento da cartografia a nível mundial? O ISOM mantém-se actual ou há alterações que se impõem?

J. D. - Antes de mais: Tenho um grande respeito pelo trabalho de Thomas Gloor, que é o autor do ISOM 2000 e o responsável pela revisão do novo ISOM. É definitivamente uma tarefa difícil. A minha opinião subjetiva é esta: o ISOM e o ISSOM devem aproximar-se, algumas dimensões dos símbolos do ponto devem ser menores (buracos, cavernas, pequenas depressões, pequenas torres, pedras, cruzamentos, etc,), as linhas devem ser mais finas,... o símbolo para a vegetação rasteira poderia ser melhorado e também há discussões sobre outro símbolo para limite de vegetação. As novas regras de cartografia também poderiam ser mais criativas se alargássemos a paleta de cores. É definitivamente um tópico para uma longa discussão.

Considera que os cartógrafos têm o reconhecimento que merecem?

J. D. - Pessoalmente, não me posso queixar. Tenho uma relçaão muito positiva com os meus clientes e é frequente pedirem-me que volte a trabalhar para eles de novo. Mas, é claro, isto é a minha experiência pessoal. É verdade que também tenho contactos com potenciais clientes que não fazem a menor ideia do tempo que é necessário para levar a cabo um determinado trabalho, e que há algumas medidas que devem ser tomadas antes do cartógrafo poder dar início ao trabalho de campo. O planeamento é uma etapa crucial, e não apenas no caso dos cartógrafos profissionais. De um modo geral, todos nos devemos sentir felizes por cada novo mapa de orientação que sirva para ajudar e apoiar o nosso grande desporto.

Um dos seus próximos trabalhos será a cartografia das áreas onde decorrerá a ronda inaugural da Taça do Mundo 2014, na Turquia. Quer partilhar connosco as suas impressões iniciais?

J. D. - Nunca estive antes em Antalya mas fui por duas vezes à Capadócia, em 2010 e 2011. Confesso que fiquei impressionado! Terrenos incríveis, hospitalidade franca e pessoas amigáveis - esta é a minha impressão.

Qual o mapa que viu até hoje e que desejou tivesse sido desenhado por si?

J. D. - Uau, essa é muito difícil. Não faço a mínima ideia. Mas permita-me que fale sobre outro desejo. Tal como mencionou acima, o trabalho de cartografia é muito solitário e eu tenho uma enorme vontade de cooperar com colegas de outros países. Cooperação internacional, bem sucedida, é aquilo que realmente gostaria; tenho um sentimento muito positivo acerca disto. Assim, todos aqueles que estão interessados em colaborar em projetos conjuntos, são desde logo bem-vindos!

Até quando vamos vê-lo a cartografar?

J. D. - Neste caso a resposta é muito mais fácil: enquanto os clubes de orientação, as regiões ou as Federações mantiverem o interesse nos meus serviços; enquanto ainda tiver saúde o suficiente para sobreviver numa floresta; enquanto ainda houver consenso na minha família em aceitar que eu esteja longe do lar doce lar de vez em quando; ...

[Foto gentilmente cedida por Jiří Daněk. Para saber mais sobre Jiří Daněk, consulte www.orienteeringmaps.eu e www.facebook.com/orienteeringmaps.eu]


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

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