sábado, 15 de dezembro de 2012

SUSANA PONTES: "DOIS SEGUNDOS QUE MUDARAM O MEU ESTADO DE ESPÍRITO"




Pela décima vez consecutiva, Susana Pontes foi a grande vencedora do ranking da Taça de Portugal de Orientação em BTT, no escalão Elite Feminina. Numa época recheada de sucessos, a atleta conquistou a terceira posição na prova de Sprint dos Campeonatos do Mundo de Veteranos, alcançando a primeira medalha da história da Orientação em BTT portuguesa. Mas ela foi também a vencedora do ranking da Taça de Portugal de Orientação Pedestre no escalão D35. Três momentos altos duma entrevista que dá a conhecer um pouco melhor a atleta e a pessoa.


Orientovar - Ao virar os quarenta anos, continua a resistir à “curva descendente” e os resultados estão aí a demonstrá-lo. Como vê o seu décimo triunfo consecutivo na Taça de Portugal de Orientação em BTT, no escalão de Elite?

Susana Pontes - O gosto pelo treino é uma resposta! A Orientação tem a grande particularidade de ser como a vida, só com vários anos de experiência podemos usufruir de alguma qualidade, sem esquecer o treino e o sacrifício! Desta forma, e como comecei a praticar tarde, o resultado da aprendizagem aparece mais tarde… Relativamente à regularidade nas Provas de Orientação em BTT, foi sempre uma luta constante ao longo dos anos. Foram aparecendo várias adversárias que me foram colocando à prova, eu fui lutando e para mim não é fácil entrar em provas de uma forma descontraída… O décimo triunfo, quem sabe não é o que tem o melhor “sabor”... Qualquer dos anteriores foi importante, começando por ter colegas de clube a somá-los e a numerá-los, até dizerem já chega, eh!eh! Este foi diferente, comecei por entrar esta época um pouco (muito) descontraída, lembro-me bem até de me meter com colegas de outros escalões durante as primeiras provas, mas não era esta postura que me fazia gostar das provas… Achava que já chegava de competição! Depois chegava a casa e tinha o Rui Botão que me dizia: “Quem ganha nove, ganha dez!”, “... foste para lá brincar!”, que constantemente me empurrava. Bem! Pensei eu… Vamos lá treinar e encarar as provas de outra forma… Acho que fiz isto mais pelas pessoas que tinha à minha volta do que por mim mesma…

Orientovar - Uma vezes ganhou, outras perdeu, mas foram mais as vezes que ganhou do que as que perdeu...

Susana Pontes - É estranho! Fui atrás do prejuízo, com algumas provas perdidas, mas nunca é tarde para tentar, e se não ganhasse não importava, pois sentia que nada tinha a provar a ninguém! Mas reconheço que ainda bem que me esforcei, trabalhei e encarei as provas de outra maneira. Pela primeira vez (acho eu!) cheguei à última prova a ter de ganhar, e mais uma vez a Orientação me ensinou uma lição, senti que tinha um grupo “silencioso” a apoiar-me, nada diziam, mas as minhas necessidades (durante o fim de semana) eram satisfeitas… Respeitaram sempre a minha “cara feia e pouca conversa” antes da competição, a todos eles um grande obrigado.


Como nos filmes”

Orientovar - De que forma é que isso foi determinante nos momentos decisivos?

Susana Pontes - Na modalidade de Orientação em BTT existem pessoas que já me conhecem melhor do que eu mesma! Ouvi palavras de incentivo e confiança, mesmo antes da realização da competição, a que eu dizia ser impossível de acontecer e aconteceu. À chegada da Final do Campeonato Nacional Absoluto, e após descarregar o chip e ouvir que tinha todos os controlos, então sim, foi “como nos filmes”, tiraram-me a bicicleta e caíram-me em cima aos abraços e festejos, e a emoção patente na cara das pessoas foi indescritível. Gostaria de transmitir e ensinar a outros o modo como estive, durante esse fim-de-semana, concentrada e focada, pois só esta postura pode tornar uma prova vencedora, apesar de algumas dificuldades extra prova a pressionarem e que nada tinham a ver com a competição. Esta época foi sempre uma luta, pois até Agosto falhei sempre o primeiro dia de Provas, quer na Pedestre quer na BTT. Mas a persistência, aceitar a falha ou o erro como aprendizagem, e o fato de fazer das “dificuldades forças”, acho que são a minha “arma”. Mais uma vez obrigado a todos os que acreditaram!

Orientovar - Ao longo da temporada portuguesa de Orientação em BTT quais os momentos que mais a marcaram?

Susana Pontes -Vi muitas vezes apenas os erros e as dificuldades que foram surgindo… Não ajudava, mas agora e olhando para trás, foram importantes por certo, pois estiveram na origem de mais uma vitória na Taça de Portugal de Orientação em BTT e de um 3º lugar numa Prova de Sprint e um 4º lugar na Distância Média de Orientação em BTT no Campeonato do Mundo de Veteranos 2012. Isto atesta bem a importância dos erros… Quando uma época acaba com bons resultados, por vezes achamos que já nada há a melhorar, mas não tem sido assim. De ano para ano sem treinar especificamente para determinado objetico, sem obsessão, tenho conquistado algo diferente que muitas vezes considerava que não era possível… Não “baixo os braços”, treino… Tenho um lema: manter-me num estado de forma geral que me permita participar em diferentes eventos do meu agrado. Não deixo contudo de dizer que esta época, e a partir de determinado momento, o 10º título foi objetivo, eh!eh! E muito saboroso!


Cheguei furiosa com a minha prova”

Orientovar - O 23 de Agosto vai ficar para a história da Orientação em BTT portuguesa como o dia em que alcançámos a primeira medalha de sempre num Campeonato do Mundo. Que recordações guarda dessa final de Sprint do escalão W40?

Susana Pontes - Quando cheguei… aliás, desde o momento da partida até sentir que este 3º lugar era bom, foi tudo muito rápido… Fica o sentimento, o que escrevi após a Prova, um sentimento estranho ou de como dois segundos podem mudar o estado de espírito de uma pessoa. Cometi alguns erros, quer na tomada de decisão, quer no percurso para o 2º ponto, mas desta vez tive a estrelinha da sorte comigo, e por 2 segundos - sim 2 segundos! - ganhos no sprint final (é verdade!!), fiquei em 3º lugar. Dois segundos que mudaram o meu estado de espírito… Como é possível!!! Cheguei furiosa com a minha prova, ainda por cima quando o Rui Botão me dizia que mesmo assim tinha ficado em 4º lugar... Depois, ouvimos que tinha sido 3ª, com dois segundos de diferença para a 4ª... não fiquei totalmente satisfeita... Mas depois, tudo foi mudando devagar e pensei: É isto a Orientação... os outros também falham e eu, para o terceiro lugar... falhei um pouco menos. Estou contente! Depois com o espírito sempre animado e positivo, da Tânia Covas, tudo começou a parecer grandioso e importante. Obrigado!!

Orientovar - Correr o Mundial de Veteranos, quando poderia ter corrido o Mundial de Elite foi opção sua? Foi uma decisão acertada?

Susana Pontes - Sim, foi uma opção minha. Poderia ter participado no Mundial de Seniores, mas teria de ser a expensas próprias. Durante vários anos, treinei durante as minhas férias e sujeitei quem está comigo aos meus “quereres” e, mais uma vez, estava a fazê-lo… Eu queria participar na Hungria, pois já tinha conhecimento anterior do terreno (poderia ajudar a uma boa prestação!)… Mais uma vez estava de férias e queria que o Rui Botão fosse comigo (apesar de saber que ele preferiria estar numa prova pedestre!), precisamos de estar com quem nos quer bem usufruindo ambos dos bons e maus momentos… Ao participar no Mundial de Veteranos, poderia estar mais à vontade, poderíamos ambos participar e todos os horários seriam semelhantes. Ainda uma inscrição sénior, permite duas em veteranos. Já no ano anterior tinha estado no Mundial de Veteranos na Suécia com o Rui e penso que é a junção de vários fatores que traz o resultado alcançado. Existem análises de resultados e fatores que escapam aos atletas mas que outros conseguem ver… Só quem nos conhece é que consegue aturar e perceber aqueles momentos calados, “carrancudos”, por vezes antipáticos, que são ingratos para quem nos está próximo… E que, mesmo assim, nos consegue dizer a palavra acertada no momento certo e empurrar-nos no bom sentido…


Para mim, Orientação é Pedestre”

Orientovar - A sua carreira competitiva passa muito pela Orientação Pedestre onde, apesar duma concorrência mais jovem em muitos casos, continua a dar cartas no escalão D35, onde soma já quatro vitórias consecutivas no ranking da Taça de Portugal. Não resisto a perguntar-lhe para que lado pendem as suas preferências, se para a Pedestre ou se para a BTT?

Susana Pontes - O fator desafio, descoberta e conhecimento, está na Orientação Pedestre. Para mim, Orientação é Pedestre, eh!eh! Contrariamente ao que muitos pensam… Quando comecei na Ori-BTT, já tinha algum conhecimento teórico e Provas Pedestre realizadas, permitindo-me evoluir um pouco mais rápido no que à Ori-BTT diz respeito. Na Orientação em BTT, os pontos encontram-se maioritariamente em trilhos ou caminhos (estando agora a mudar), o que é menos desafiante no que à Orientação diz respeito. No entanto, temos outros desafios e aprendizagens: a mecânica e o saber memorizar em cima de uma bicicleta, podem ter a certeza de que não é fácil!! Quando os percursos são desenhados num mapa com muitas opções e caminhos e se conseguem grandes velocidades aliadas a uma boa orientação e tomada de decisão, então a Orientação em BTT é bem especial, podem ter a certeza!

Orientovar - Assistimos com apreensão à cada vez menor participação de atletas nas provas do calendário da Federação Portuguesa de Orientação. Para onde caminha a nossa Orientação?

Susana Pontes - Na evolução das organizações, e tal como aprendi na Faculdade, tudo tem a sua fase de crescimento, evolução e estagnação/decréscimo… Temos de saber esperar, alterar e acho que muito passará pela divulgação das nossas provas. Temos a sorte de poder proporcionar fins-de-semana agradáveis e fora da realidade “trabalho”, logo se conseguirmos fazer chegar a mensagem à população poderemos ter algum sucesso.


Já não dou tanto valor às vitórias”

Orientovar - Temos pela frente alguns desafios organizativos muito interessantes, nomeadamente os Mundiais de Veteranos de Orientação em BTT, dentro de sensivelmente um ano, na Costa Alentejana. É aí que a vamos ver de ouro ao peito?

Susana Pontes - Como disse anteriormente, treinar vou fazê-lo com certeza e sem obsessão, pois o emprego não permite nunca planos rigorosos. Espero, contudo, poder participar nos Mundiais de Veteranos em Portugal 2013, no dia de 6ª feira logo se verá… Se o primeiro lugar vier, será muito bem vindo, no entanto e se conseguir participar dedicarei a minha presença a todos os amantes da Orientação e amigos. Em boa verdade já não dou tanto valor às vitórias e penso muito mais em divertir-me. Na nossa sociedade temos tendência para valorizar o supérfluo e esquecer o essencial. Verdadeiros campeões são aqueles que têm de lutar todos os dias contra as variadas “surpresas” da vida... Para muitos não pode existir a desculpa da chuva, do frio, do cansaço, etc. Todos os dias são dias de luta e na maioria das vezes, mesmo lutando, as “vitórias” ou não acontecem ou são vividas sem o reconhecimento que merecem. Ao longo do tempo, estes têm-se tornado os meus ídolos e exemplos a seguir. Quando as forças me começam a faltar é a estes heróis que recorro para me reanimar, estando estes muito mais próximos do que eu esperaria…

Orientovar - Até quando vamos vê-la a fazer Orientação?

Susana Pontes - Enquanto me divertir e sentir que tenho um grande grupo de amigos na Orientação, enquanto a minha Tia vibrar com as minhas participações e desempenho, enquanto quem está comigo me empurrar e apoiar, enquanto o grupo de Ori-BTT for um grupo de pessoas simpáticas e acolhedoras… Umh! Provavelmente durante muito tempo… Ainda não queria deixar de agradecer, à Loja das Bicicletas, o apoio que me tem prestado nestes últimos anos, pois sem exigências e barreiras me apoiam e colocam a minha bicicleta sempre pronta para a próxima prova. Obrigada!


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

Sem comentários: