sábado, 8 de dezembro de 2012

RONALDO ALMEIDA: "NÃO HÁ EXEMPLOS DE SUCESSO NOUTRAS MODALIDADES QUANDO ESTAS ESTÃO DEPENDENTES DUM ÚNICO SEGMENTO"




Ronaldo Almeida é o atleta brasileiro com maior participação em Mundiais, tendo estado em Trondheim como Técnico, em Le Revard como Chefe de Equipa e em Lausanne como Atleta. Professor de Educação Física,
Presidente do ELITE Clube de Orientação, Cartógrafo, Supervisor e Técnico de Orientação, este homem dos “sete instrumentos” é o convidado de honra neste regresso do “Espaço Brasil” ao convívio com os leitores do Orientovar.


Orientovar - Como foi o seu primeiro contacto com a Orientação e que recordações guarda das primeiras provas?

Ronaldo Almeida -
Conheci a Orientação na Universidade. Foi uma experiência assustadora nos primeiros dias mas, ao mesmo tempo, fascinante. Foi muito difícil completar o primeiro e o segundo percursos, pois eram de nível muito acima da iniciação.


Orientovar - Como avalia a sua evolução, desde o início até ao momento presente?


Ronaldo Almeida -
Durante quatro anos não treinei, muito menos em termos técnicos. Os treinos eram as próprias competições. Somente no quinto ano, quando ingressei na Elite, percebi o quanto não sabia ler um mapa. Foi então que me preocupei em estudar o assunto e foi ao mesmo tempo que iniciei um trabalho com crianças. Nesse momento comecei realmente a evoluir. A leitura do mapa tornava tudo mais fácil, não era somente correr na direção do ponto.



Foi assustador sair das provas no Brasil para um O-Ringen”

Orientovar - Que espaço ocupa a Orientação na sua vida?


Ronaldo Almeida -
Hoje sou militar na Marinha do Brasil. Sou assistente num programa de estruturação da modalidade nesta força. Fora da Marinha sou Presidente de um pequeno clube de Orientação no Rio de Janeiro e os meus tempos livres são exclusivamente dedicados a fazer Orientação, seja cartografando, organizando pequenas provas e treinos. Além disso também sou atleta e corro na Elite desde 2005. Tive a minha primeira experiência fora do Brasil em 2009, na Suécia. Foi aí que o meu horizonte se expandiu, mas foi assustador sair das provas no Brasil para um O-Ringen.


Orientovar - Quer falar-nos um bocadinho do seu clube e dos apoios que tem?


Ronaldo Almeida -
No meu clube tento fazer coisas diferentes da maioria. Quando organizamos as provas temos sempre um objetivo além do simples concluir um percurso e que é o de procurar que as pessoas se divirtam. Organizamos provas noturnas, com labirinto e sprints desafiantes. Na maioria das vezes contamos com algum apoio de parceiros que nos ajudam na aquisição de materiais para o clube ou para dar suporte aos eventos, mas é só. Infelizmente não temos uma figura que trabalhe exclusivamente neste processo de captação de recursos.



Um SI Card com memória para 50 registos não foi suficiente”

Orientovar - Ao longo da sua carreira de orientista, há algum episódio caricato que o tenha marcado e que ainda hoje o faça rir às gargalhadas?


Ronaldo Almeida -
Sem dúvidas e quem esteve na prova do Istambul 5 Days, em 2009, vai gargalhar ao recordar. Numa prova de micro-sprint, no famoso Grande Bazar, eu estava bastante animado e com toda vontade de vencer aquele que era o dia onde eu mais me sentia a vontade de orientar e correr. E como corri! Antes da prova eu sabia tudo! Como correr mais rápido, ler o mapa, cada corredor. Começou a prova e meu primeiro ponto foi o 28, depois 29, 30, 31 até que parei para entender o que eu estava fazendo. O mais interessante é que a cada ponto minha mente achava uma desculpa para considerar que eu estava certo quando na verdade não tinha a menor lógica no que eu estava fazendo. Percebi meus erros e recomecei para concluir a prova. No meio do percurso, já orientando corretamente, encontrei um amigo brasileiro e começamos a aumentar o ritmo de corrida. Para quê? Estava tudo indo tão bem...

Assim que entrámos no labirinto (sport labirint) eu não sabia o que fazer, nunca havia corrido aquilo e esqueci tudo o que sabia antes da prova. Apenas gritei ao amigo ”marca todos”, e o amigo não disse nenhuma palavra, achei estranho e analisei melhor. Gritei novamente “marca do menor para o maior”, meu “amigo” já tinha compreendido e continuou seu percurso me “abandonando” diante dos espectadores. Nesse momento percebi que o labirinto estava numa outra escala, com percurso totalmente marcado na ordem que deveríamos passar nos pontos, mas já era tarde. Quando iniciei a ordem correta percebi que a memória do meu SI Card tinha-se esgotado. Sem saber o que fazer de novo na mesma prova, escondi-me atrás de uma tenda para fugir dos olhares curiosos dos espectadores e decidi correr pelo labirinto direto ao último ponto de controle e finalizar meu percurso. Como se isto já não bastasse, passei direto no apuramento em direção a saída quando um fiscal me chamou para ler o SI Card. Mesmo sem querer fiz a leitura e o apurador nem soube o que dizer depois de ver que, numa prova de 30 controles, um SI Card com memória para 50 registos não foi suficiente. Nada disso é invenção, foi tudo verdade!


Treinar, comer e descansar”

Orientovar - Por diversas vezes teve oportunidade de competir na Europa e de ter por adversários alguns dos melhores orientistas do Mundo. Dessas experiências, que recordações guarda em particular?


Ronaldo Almeida -
Sou professor de Educação Física e preparei-me ao longo do curso para trabalhar com atletas ao melhor nível, mas com o passar dos anos acabamos esquecendo algumas coisas. A convivência com esses atletas fez-me recordar tudo o que eu havia estudado. Para um atleta ser um dos melhores tem que pensar, querer e fazer absolutamente tudo em prol do desempenho. As suas vidas são exclusivamente treinar, comer e descansar. Pouco tempo livre sobra para ficar com a família e se divertir. Este é um preço que se paga por uma medalha num campeonato mundial.


Orientovar - Que especial emoção sentiu em competir no Portugal O' Meeting 2012 e no WRE da Marinha Grande?


Ronaldo Almeida -
Foram eventos bastante comentados no Brasil e já esperava algo muito bom. Neste ano de 2012 tive a oportunidade de treinar 45 dias na região de Marinha Grande e, tal como nos países nórdicos, a proximidade e qualidade das áreas para treino impressionaram-me.



Devemos ser parceiros das Forças Armadas mas não dependentes”

Orientovar - Como avalia o atual momento da Orientação no Brasil?


Ronaldo Almeida -
Está em franco crescimento, porém ainda faltam profissionais que acreditem que a Orientação pode ser grande. Outro fator é a dificuldade dos profissionais de Educação Física conseguirem trabalhar exclusivamente com a modalidade. Duma forma geral, a nossa Confederação a cada ano consegue um apoio maior nas provas nacionais, mesmo que este não seja ainda o ideal. No Brasil é muito comum o apoio das unidades militares, o que é muito importante, mas enquanto um clube for dependente de apoio militar para organizar grandes eventos a Orientação não será grande como pode. 


Orientovar – Considera então que uma “desmilitarização” da Orientação no Brasil não seria mais vantajosa em termos da popularidade do nosso desporto?


Ronaldo Almeida -
Tenho a certeza disso. Não há exemplos de sucesso noutras modalidades quando estas estão dependentes dum único segmento. Acho que devemos ser parceiros das Forças Armadas mas não dependentes.



O meu grande sonho é que a Orientação possa vir a fazer parte do curriculum escolar no nosso país”

Orientovar - Agora que estamos no final de mais uma época, quais os seus grandes objectivos para 2013?


Ronaldo Almeida -
No meu trabalho, o nosso objetivo é sermos campeões das Forças Armadas por equipas. Seria o coroar do imenso trabalho de alguns atletas ao longo de muitos anos. Sinceramente, não é fácil planear outro objetivo mais importante que este de momento, mas também estamos trabalhando para colocar o primeiro brasileiro(a) numa final A dos Campeonatos do Mundo de Orientação, seja em 2013 ou em 2014.


Orientovar - A terminar, pedia-lhe que partilhasse connosco o seu maior desejo, no que à Orientação diz respeito.


Ronaldo Almeida -
O meu grande sonho é que a Orientação possa vir a fazer parte do curriculum escolar no nosso país. Acho que desta forma o crescimento da modalidade seria realmente exponencial.


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

1 comentário:

BMX - Mountain - Bike disse...

Parabéns, pela entrevista!!!!

Um forte abraço!!