domingo, 16 de dezembro de 2012

"ORIENTAÇÃO DE PRECISÃO NA PRAIA DA TOCHA - AS MINHAS IMPRESSÕES", POR NUNO PIRES




No final da prova de Orientação de Precisão realizada no passado dia 8 de Dezembro, na Praia da Tocha, troquei algumas palavras com o Joaquim Margarido que me desafiou a dar as minhas impressões sobre a prova e a minha visão atual da modalidade em Portugal.


Convém dizer que não sou um participante assíduo desta vertente da Orientação, mas tenho acompanhado à distância e continuo a achá-la extremamente desafiante do ponto de vista técnico, apesar de continuar erradamente conotada com o Desporto Adaptado.

Foi uma boa ideia rebatizar o Trail-O por Orientação de Precisão, porque esta é uma atividade para todos, com handicap ou não, e a forma de ganhar relevância passa por cativar os atletas da Pedestre a apurar os seus conhecimentos técnicos de leitura de mapa, terreno e sinalética. Paralelamente há que mobilizar os clubes a promover percursos desta natureza, desde de que as organizações tenham dimensão suficiente do ponto de vista logístico e pessoal com capacidade específica nesta vertente.

Tenho a opinião formada que o aumento recente de provas em circuitos, quer de Sprint, quer de Precisão, pode contribuir para a divulgação da Orientação, mas não contribui significativamente para motivar a presença dos participantes que constituem o ‘core’ da modalidade.

Este núcleo, cada vez mais, está concentrado unicamente nas provas da Taça de Portugal Pedestre e, devido à conjuntura, ao excesso de oferta de provas em datas não coincidentes, à maior definição de planos desportivos de época - nacionais ou no estrageiro por parte dos melhores atletas -, faz com que muitos eventos locais fiquem prejudicados no número de participantes. São precisamente os circuitos que pagam por esta filtragem de calendário e seletividade de interesses. Basta olhar para os números de 2012 e ver.

Por isso, penso que o desenvolvimento da Orientação de Precisão passa inevitavelmente pela “montanha ir a Maomé”, ou seja, tem de estar onde a Taça de Portugal Pedestre estiver, para que alguns atletas que efetuam gestão de esforço abraçem de bom grado uma participação em Classe Aberta, que conte para uma Taça de Portugal de Orientação de Precisão e se reflita num ranking a sério.

Acho bem mais motivador ter quarenta ou cinquenta participantes em classe Aberta do que dez, principalmente se entre eles figurarem atletas da Pedestre com créditos reconhecidos e com conhecimentos técnicos que elevem o nível das provas e ‘obriguem’ as organizações a fazer o seu melhor.

Na mesma linha de pensamento, a modalidade Orientação deve ir ao encontro dos participantes. Logo, acho que se houver um interesse claro em promover a classe Paralímpica, ter-se-á de procurar instituições que promovam atividades de Desporto Adaptado e estejam sensibilizadas para essa causa. Promover sessões de apresentação da modalidade junto dessas instituições e avaliar o interesse em comparecer nas provas de circuito, pode criar condições a um calendário viável, sustentado e participado, em datas não coincidentes com as das provas Pedestres, que tenha efetivamente mais Paralímpicos que pessoas envolvidas na organização.

Em jeito de provocação, desafio os clubes com dimensão a tomar a iniciativa de se aproximarem a uma ou mais instituições que tenham Desporto Adaptado e ‘patrocinem’ alguma formação teórica de Orientação de Precisão. Ou, quem sabe, até mapear a instituição e montar uma prova interna com o intuito de espalhar a semente e mostrar a modalidade aos vários intervenientes do processo, quer desportivo, quer decisor.

Da mesma forma que existem modalidades onde os clubes ostentam a designação “Clube/Patrocinador”, porque não haver a designação “Instituição/Clube” na Orientação Adaptada, almejando mesmo a possibilidade de se disputar no futuro um título coletivo na Taça de Portugal de Orientação de Precisão.

Relativamente à prova da Praia da Tocha, achei fantástico o fato do mapa não ser 100% urbano, tendo pontos na malha urbana, dunas e floresta, o que permitiu diversificar o tipo de problemas com que os participantes foram confrontados. As anteriores participações em Orientação de Precisão onde estive tinham sido em mapas de parque, logo algo limitados neste aspeto.

O percurso era desafiante e agradou-me o fato dos pontos ‘não terem balizas a mais’, ou seja, o traçador seguiu os princípios de dar um sentido real às balizas que colocou no terreno e não promoveu a escolha da baliza certa muito baseada na exclusão das erradas. Quis induzir no atleta o raciocínio no sentido de efetivamente procurar a que corresponde à sinalética e mapa. Assim não havia só escolhas de A-E, havia A-D, A-C, mesmo a clássica A, a decisão do tudo ou nada.

Tecnicamente os desafios colocados nos pontos conseguiram abordar um leque abrangente de problemas de Orientação de Precisão, desde a avaliação de relevo, à sinalética pura e dura, à identificação de elementos à distância ou relacionamento posicional entre eles. Adicionalmente, o uso da solução Z em diversos pontos elevou a fasquia da dificuldade do percurso. Parabéns ao traçador.

Se tiver oportunidade, tentarei nos próximos tempos participar em algumas provas de Orientação de Precisão, nomeadamente já na do POM 2013. A modalidade está em evolução e precisa de mais participantes. Eu conto ajudar nesse aspeto.

Relativamente à minha prestação em concreto, acho que em dois pontos que errei, fiquei com dúvidas quanto à solução, e gostaria de partilhar essa análise, doa a quem doer, o que faz com que a partir deste momento o risco de dar um tiro no pé seja maior do que se estivesse ‘quieto e calado’.

No ponto 2 e no 3, considero que tenho bons argumentos para sustentar a minha opinião, que obviamente não foi a mesma do traçador. No ponto 10, conto a lição que aprendi, tendo em conta o que me aconteceu e espero bem não repetir este erro no futuro.

Ponto 2 – O Elemento não Mapeado

A sinalética deste ponto indica lado sul de árvore distinta, seja isolada ou especial. Na prática, a baliza da solução (B) estava no lado sul duma árvore de pequeno porte, que não estava mapeada.
Na altura, escolhi responder (C), e nem consigo explicar o porquê, já que a frio faço outra análise que nunca inclui a decisão que tomei em prova. No critério do cartógrafo, não se justificou sequer o uso do símbolo 419 (árvore pequena ou arbusto) para colocar a árvore no mapa. Estou perfeitamente de acordo com esta opção, tendo em conta que este símbolo foi usado quer na palmeira ao lado, bem mais proeminente, quer repetidamente nas árvores junto às vivendas, todas de porte médio. O centro do ponto aponta o local da árvore pequena, não mapeada, entre as duas árvores que claramente se identificam visualmente e no mapa, e que também tinham balizas do lado sul. Concluo simplesmente que o ponto não está em nenhuma árvore isolada ou especial e que a resposta certa deverá ser a (Z). Será que tenho razão, mesmo tendo em conta que há a possibilidade de usar elementos que pela sua dimensão não sejam mapeados?

Ponto 3 – Balizas leva-as o vento

As balizas A e B devem ter sido mal colocadas no terreno, o que induziu a minha resposta dada (B), quando a solução indica (A). Pela sinalética, a baliza certa estava na parte superior da escada, o que eliminava a (C) à partida. Sem sair do ponto de observação, era notório que a baliza B estava praticamente alinhada com os postes de iluminação, não mapeados, e ligeiramente à esquerda do topo da pequena escada que se encontra por trás. Adicionalmente é percetível que está numa parte ligeiramente convexa do degrau superior da escada, o que corresponde no mapa a tudo o que descrevi nesta frase, inclusivamente à sua localização do centro do ponto. Simplesmente a baliza A foi colocada muito mais próxima do muro, próximo da zona côncava, pese embora a sinalética corresponda à descrita. Desta forma, não está de forma alguma no centro do ponto. Penso que resposta que dei estava correta para o posicionamento das balizas no terreno, logo seria a (B). A solução dá a entender que a A deveria estar no lugar da B, e esta um pouco mais à direita do sítio onde estava.

Ponto 10 – Lição de Geometria

Sei que a solução deste ponto é a (C), e que a forma de sustentar esta resposta passava por efetuar um afastamento ao ponto de observação e verificar que a baliza certa está alinhada entre a primeira árvore à esquerda da linha de água com outra à direita do grupo de balizas, bem no final da rua. Desta forma, é inegável que a resposta está correta. Este é um problema típico: colocar o ponto de controlo ao longo duma linha perfeitamente definida por dois elementos singulares, passando por um terceiro. Neste caso, o elemento alvo é linear e calha ser a vedação. Eu fiz o mesmo tipo de raciocínio, só que usei o ponto de observação e a árvore mais distante das que se encontram à esquerda da linha de água. Reparei visualmente que a baliza A estava na linha entre mim e a dita árvore, logo as outras duas balizas estão à sua direita. No mapa, com ajuda da bússola, tracei uma linha entre o meio da ponte, onde estava, e dita árvore. Esta linha aparentemente também passa pelo meio do ponto, o que me fez decidir por a baliza A sem pensar mais opções. Claramente o que falhou foi ter aplicado a lei do menor esforço. Confesso que na prova não tinha visto o melhor alinhamento, logo nem equacionei deslocar-me até à árvore da esquerda. Do ponto de observação, as balizas aparecem bastante juntas, o que faz com que a ‘minha linha’ traçada no mapa coloque todas as balizas juntas ao centro do ponto e com grande propensão a erro na decisão. Se me tivesse deslocado até ao enfiamento das árvores, observaria as balizas lado a lado, bem espaçadas à minha frente, com a C em cima desta e as outras duas à esquerda, não deixando margem para dúvidas sobre qual das balizas estava simultaneamente na linha visual e na do mapa. Daqui retiro a lição: nunca aplicar a lei do menor esforço na Orientação de Precisão em detrimento da Geometria, essa ciência exata.

Nuno Pires

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