terça-feira, 11 de dezembro de 2012

ORIENTAÇÃO ADAPTADA NA PRAIA DA TOCHA: PELOS OLHOS DE NUNO PIRES




Com pouco mais de um ano de existência, a Orientação Adaptada continua a dar passos certos e seguros no sentido da sua afirmação como modalidade inclusiva e de referência no panorama do Desporto Adaptado em Portugal. Uma vez mais foi possível perceber o quanto o “jogo” pode ser aliciante, num testemunho vivido e sentido de forma intensa por Nuno Pires, que aqui nos deixa as suas impressões.


Foi com alguma surpresa na altura e agora satisfação que fiz parte da organização do percurso de Orientação Adaptada, integrado na 2ª Etapa do III Circuito de Orientação de Precisão, realizada a 8 de dezembro na Praia da Tocha e levada a cabo pelo meu clube, o Ori-Estarreja.

Escrevo surpresa porque, à chegada à Praia da Tocha, o meu presidente indigitou-me como coordenador da atividade. Seguiu-se um breve briefing dado pelo Joaquim Margarido, onde rapidamente me inteirei das particularidades desta variante da modalidade e assumi a responsabilidade do meu papel.

Daqui ao início da prova foram duas horas de trabalho árduo sobre o qual agradeço a ajuda de todos os envolvidos. Tudo estava previamante pronto e só faltava avançar para o terreno, que seria a zona das vivendas junto ao mercado. A distribuição de tarefas de montagem de estacas, balizas, sequências de cores, cavaletes e picotadores por diversas pessoas deixou-me unicamente concentrado no acompanhamento da montagem e verificação final, antes de dar o aval para o início do percurso.

Convenhamos que um ponto mal colocado numa prova convencional, se ficar a meia dúzia de metros do local certo, ainda é admissível, mas um erro num identificador ou uma sequência de cor num ponto de um percurso de Orientação Adaptada poderá ter uma dimensão muito visível numa prova com estas características. Por isso, eu e a Margarida, filha do Joaquim, fizémos duas rondas adicionais ao percurso para confirmar que tudo estava correto, nos sítios certos e que o pouco vento que se fazia sentir não nos iria estragar a montagem do material específico do percurso, e segurar tudo muito bem com um rolo extra de fita autocolante.

Para quem não conhece a Orientação Adaptada, aqui vai um resumo: realiza-se num formato de percurso formal, preferencialmente em mapa de parque ou urbano, havendo o cuidado dos pontos serem colocados próximo uns dos outros, idealmente em linha de vista. A progressão não deve ter opções e seguir referências lineares claras. Em cada ponto, há um local de observação identificado com o número de ordem do ponto e com um picotador. Próximo deste local, está materializado um grupo de balizas no terreno, exatamente no círculo assinalado no mapa. Cada uma das balizas do grupo contém uma sequência de três cores distintas e um símbolo.

Para cada ponto há um desafio que é colocado ao participante: identificar e confirmar o número de ordem do ponto, memorizar a sequência desse ponto na tabela de sinalética do mapa, olhar para as quatro balizas no terreno, identificar qual a sequência igual à da tabela, associar a sequência ao símbolo e finalmente picotar o cartão de controlo na quadrícula correta, quer no número do ponto, quer no símbolo associado à sequência correta.

Os participantes iniciam o seu percurso a partir do triângulo e são normalmente acompanhados ao longo do mesmo, sendo ajudados, quando necessário, duma forma pedagógica e tendo em conta o objetivo da atividade.

A satisfação que ainda sinto foi a de presenciar e recordar a participação empenhada dos elementos da APPACDM de Montemor-o-Velho e da alegria demonstrada no decurso da prova.

Até esta prova da Praia da Tocha, nenhum dos participantes tinha tido contato com Orientação Adaptada, pelo que a opção foi começar em grupo e utilizar o primeiro ponto como referência para os restantes.

No primeiro ponto, tentei perceber quais as dificuldades que cada um destes desafios coloca, tendo em conta o seu grau de Deficiência Intelectual. Naturalmente houve a necessidade de explicar a mecânica do jogo ao grupo e a prática deste funcionou como exemplo do que seria encontrado em cada um dos pontos seguintes.

Assim que todos realizaram o desafio do primeiro ponto, o grupo avançou para o segundo, ainda de forma guiada. Naturalmente, pensei que a Orientação em si e a navegação com recurso ao mapa iria ser relegada para plano secundário. Fiquei com vontade que assim não fosse e resolvi esperar um pouco.

Chegados ao segundo ponto, o desafio repetiu-se, mas agora cada participante já fez o raciocínio de forma mais independente. Aqui reparei que um dos elementos do grupo tinha conseguido responder mais depressa e de forma correta. O seu à-vontade com a atividade estava ganho, a motivação era muita e a vontade de prosseguir ainda era maior. Dava para ver. Faltava-lhe algo que era a parte da Orientação. Embora não o tenha verbalizado, notei que queria a resposta à pergunta: "Para onde é que eu vou agora?". Por isso, resolvi chamá-lo à parte do grupo e perguntar-lhe se queria aprender umas dicas de campeão, às quais não se fez rogado. Com calma, ensinei-lhe a regra do polegar, porque ambos sabíamos que estávamos no ponto 2 e era ali que o dedo tinha que apontar no mapa: o polegar tinha de estar sempre no sitio certo, onde nós estivessemos. E ensinei-lhe a olhar para o terreno, a descrever onde estava e a identificar a estrada no mapa, bem como a apontar algumas casas em volta. A seguir, mostrei-lhe que tínhamos que rodar o mapa de forma a orientá-lo e que 'naquela posição' tudo bateu certo, quer no mapa, quer no terreno. Facilmente o Micael descobriu pelo percurso do mapa que o ponto 3 estava à sua frente e à esquerda, por isso, lá foi ele andando a orientar-se sozinho.

Repetimos o processo de orientação do mapa nos pontos 3 e 4 e no quinto esperámos pelo grupo. Nesse local, desafiei-o a ensinar o que eu lhe tinha transmitido ao Ricardo, que pese embora demorasse mais a responder aos desafios dos pontos, não demorou a orientar devidamente o mapa e não hesitou em indicar a direção do ponto 6 com certeza, como se já tivesse feito muita Orientação antes.

Daqui para a frente acompanhei o Micael até ao final do percurso, que o fez quase em perfeita autonomia. Nem sempre o processo de orientar o mapa foi o ideal, foram surgindo algumas dúvidas e hesitações, que fui esclarecendo, repetindo-se o processo de identificação dos elementos à vista e no mapa, procurando que o procedimento se tornasse mais mecânico e intuitivo para ele. Sei de outras experiências com pessoas com as necessidades especiais como o Micael, que à parte do tempo de decisão, são extremamente capazes de interiorizar processos mecânicos simples e realizá-los com graus de sucesso enormes. Orientar o mapa foi uma experiência ganha.

Senti-me agradecido por ter partilhado esta experiência com ele, e por ele ter partilhado o seu ponto de vista, já que lhe pedi sempre para pensar em voz alta para que assim eu percebesse o que ele estava a interpretar do meio circundante. Fiquei com a sensação que a Orientação Adaptada, consoante o grau de Deficiência de cada participante, pode ser sempre um desafio, onde o enquadramento da Orientação é a base que serve para alavancar um meio de se atingir um fim. No entanto, a introdução de conceitos da modalidade desportiva Orientação, na devida proporção, pode e deve ser utilizada como ferramenta de inclusão, de raciocínio lógico e espacial numa perspectiva de aventura, desde que a dificuldade dos percursos se mantenha dentro de limites sensatos para este universo de participantes.

Ao Micael e aos amigos da APPACDM de Montemor-o-Velho, um grande bem-haja por estes momentos bem passados.

Nuno Pires

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