sábado, 22 de dezembro de 2012

MULHERES E DESPORTO: "QUEM SOMOS?"




Secretário de Estado, Comité Olímpico, diretora disto e daquilo, profes, profas, seis horas de discursos, o peso institucional. Uma grande xaropada, pensei eu na véspera.” É desta forma que começa o texto de análise de Manuel Dias e onde se reflete sobre a Orientação portuguesa no feminino. Para ler com atenção!


Secretário de Estado, Comité Olímpico, diretora disto e daquilo, profes, profas, seis horas de discursos, o peso institucional. Uma grande xaropada, pensei eu na véspera.

Havia, pelo menos, um aliciante: ia ter oportunidade de, pela segunda vez na vida, trocar uma palavrinha ao vivo com Susana Feitor. Lembro-me de termos estado, a Rosário e eu, à conversa com a nossa marchadora olímpica nas bancadas do Estádio de Turku, poucas horas depois de Carlos Calado ter feito aquele salto de ouro que lhe deu o título europeu de sub-23. Ainda guardo a foto do ecrã, na cerimónia protocolar, com a marca dos 8,32 e, ao lado, a bandeira portuguesa no lugar mais alto do pódio. Foi em 1997, íamos nós a caminho da Suécia e do O-Ringen, depois de termos participado nos primeiros dois dias do Fin5.

Quinze anos depois, a Susana Feitor mantém a “atitude” e “convicção” (palavras suas) de uma triunfadora. Foi muito bom vê-la e ver como os olhos se lhe iluminaram ao som da palavra Turku.
Mas estou a começar pelo fim. Ainda não disse o quê, quando e onde: Seminário “Mulheres e Desporto”, 29 de Novembro 2012, Museu Nacional do Desporto, Palácio Foz, Lisboa. E vou ser franco: não foi a xaropada que eu temia.

Sem querer resumir as intervenções de dezena e meia de oradoras e mais quatro oradores – e a questão do género não é aqui despicienda, porque foi o leitmotiv de toda a jornada –,respigarei das minhas notas uns quantos números e ideias que nos façam pensar.

Antes, porém, fica o registo de que, durante a sessão inaugural, se procedeu à subscrição eletrónica da Declaração de Brighton sobre Mulheres e Desporto por parte do secretário de Estado Alexandre Mestre e dirigentes do IPDJ e Federação Equestre. Aprovada em 1994, esta convenção fora até agora ratificada apenas por três entidades portuguesas, incluindo o COI.


Retrato de família

Durante as seis horas que durou o seminário fui bombardeado com tantos números que senti a incomodidade de não ter elementos para comparar com o que se passa na Orientação. O remédio foi informar-me para deixar aqui o retrato da nossa família no que toca a géneros.

Em 2012, estão inscritos na FPO 1805 homens e 843 mulheres, pelo que estas representam 31,8% do universo total de praticantes. Segundo o que ouvi no Palácio Foz, é um número bastante acima da média.

Mas a vantagem esbate-se quando analisamos determinadas funções fundamentais para a organização de provas. Entre traçadores de percursos (Pedestre, BTT e Corridas de Aventura), supervisores, treinadores e aplicadores de sistema SI, estão habilitados com cursos da FPO 494 homens e 62 mulheres. Ou seja, elas representam apenas 11,2% desse pelotão técnico.

Um pouco mais animador é o panorama nas direções associativas. Considerando a participação nos três órgãos estatutários (direção, mesa da assembleia e conselho fiscal), as mulheres representam cerca de 22,5% dos responsáveis pelos nossos clubes. Este número foi obtido em resultado de uma consulta que eu próprio empreendi junto de três dezenas de clubes de orientação e acho que é uma amostra fidedigna.

Tinha prometido não divulgar o nome das entidades envolvidas nesta auscultação, mas, devidamente autorizado, sempre digo que o OriMarão é o clube onde mais mulheres tomam assento nos órgãos estatutários: 9 das 15 cadeiras. Em contrapartida, há 4 clubes sem representação feminina, o que de resto acontece também nos corpos gerentes da própria Federação. Só num dos outros dois órgãos sociais (Conselho Disciplinar) é que encontramos uma senhora. Não se trata, porém, de nenhum estigma da FPO. Se andarmos um pouco para trás, achamos gerências mais equilibradas neste aspeto, a começar pelos oito anos de exercício de Isilda Santos como secretária-geral (1994-2002).



Vicente Moura – “A fatia feminina da representação portuguesa nos Jogos Olímpicos de Londres ultrapassou a barreira dos 40%.”

Fátima Duarte – “No período 2005-2009, o número de mulheres federadas aumentou 33% enquanto o dos homens subiu apenas 7%.”

Alexandre Mestre – “As federações que mais apostarem no aumento da componente feminina verão majorada a contribuição que recebem do Estado.”

Paula Silva – “A participação das mulheres em 2009: 24,3% de federadas, 13,8% em órgãos estatutários; 20,1% na arbitragem; 15,4% de treinadoras.” E ainda uma frase retrógrada de Pierre de Coubertin: “O verdadeiro herói Olímpico, na minha opinião, é o indivíduo adulto masculino.” Talvez por isso, “a primeira maratona olímpica feminina só aconteceu em 1984.”

Paula Botelho Gomes – “As relações de género são relações de poder. Enquanto a dimensão do género não for matéria obrigatória de estudo na formação de professores e treinadores, não há maneira de se fazer um correto enquadramento da questão.”

Cristina Almeida – “A parcela feminina nos desportos com cobertura mediática representa apenas 5% e os patrocínios dados a mulheres só 0,5%.”

Isabel Cruz – “Os prémios do ténis no Estoril Open 2012 foram de 72 mil euros para homens e 37 mil para mulheres. E trata-se de uma competição com patrocínio oficial do Estado.”

Paula Gomes – “O corfebol, inventado na Holanda em 1902, é o paraíso da igualdade: joga-se com equipas de 8 elementos, sendo 4 homens e 4 mulheres.”

Daniela Gomes da Costa – “A taxa de feminização no ténis de mesa é de 23%, mas a nível de desporto escolar não ultrapassa os 12%.”

Mónica Jorge – A única mulher na Federação Portuguesa de Futebol acha que “a situação está a mudar para melhor.”

Susana Feitor – Duas marcas mundiais entre outras: ouro júnior em 1990 e bronze absoluto em 2005. Mas as medalhas não são tudo. É preciso, mesmo fora do treino, lutar por melhores condições. Por isso, encabeçou a Comissão de Atletas Olímpicos, única mulher entre nove homens. “Só falo daquilo que sei e só digo a verdade.”

Isaura Morais – Para a presidente da Câmara de Rio Maior, “o mérito, exigência e rigor não têm sexo.”

Quem tiver particular interesse nesta temática, pode, além da Secretaria de Estado do Desporto, buscar mais informação junto da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género e da Associação Portuguesa Mulheres e Desporto.



Manuel Dias

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