terça-feira, 4 de dezembro de 2012

ENTREVISTA: BRUNO NAZÁRIO E O "PERCURSO DO ANO 2012"




Reconhecidamente um dos técnicos mais credenciados no panorama da Orientação Portuguesa e responsável pela Direção Técnica Nacional de Orientação Pedestre, Bruno Nazário acaba de ver o seu traçado de percurso da prova pontuável para o ranking mundial do Portugal O' Meeting 2012 reconhecido internacionalmente com o galardão “Percurso do Ano 2012”. Fruto da aclamação pela Elite mundial como um percurso de excelência, esta distinção “premeia os quase vinte anos de dedicação à modalidade”, de acordo com as suas palavras.


Orientovar - E começamos precisamente por aí, pela distinção. Que valor atribui ao facto de ter traçado o Percurso do Ano 2012?

Bruno Nazário - Antes de mais, este prémio é o reconhecer internacional da qualidade organizativa do Portugal O' Meeting 2012. Por isso entendo que este prémio é de todos os voluntários do Clube de Orientação de Estarreja e do Clube de Orientação de Viseu - Natura que trabalharam em prol do sucesso deste evento. Quanto a mim, não escondo que é um motivo de orgulho. É uma distinção que premeia os quase vinte anos de dedicação à modalidade e uma prova para mim mesmo que consigo fazer coisas ao nível dos melhores do mundo. Ainda para mais quando a primeira pessoa a congratular-me via e-mail foi, nem mais nem menos que… Thierry Gueorgiou!


Orientovar - Recorda-se daqueles momentos finais do 3º dia do Portugal O' Meeting e dos comentários que lhe foram chegando?

Bruno Nazário - Sinceramente, ansiava por aquele dia há vários meses. Tudo estava preparado para ser um dia de grandes emoções – começando pelo terreno e pelo mapa, passando pelo percurso, pela hipótese que tínhamos de ter tempos intermédios da floresta e assistir à passagem dos atletas pela arena, pela lista de atletas à partida e até tivemos a ajuda do São Pedro que nos brindou com um belo dia de Sol – tudo se conjugou de forma perfeita. Mais ainda, fomos premiados por performances verdadeiramente extraordinárias por parte dos atletas o que nos permitiu assistir a um espetáculo verdadeiramente memorável. E é a emoção de ter estado a relatar esses acontecimentos que guardo na minha memória. Claro que depois disso vários foram os atletas a congratular-me pela prova. No meio deles retenho o comentário da Eva Jurenikova que logo me disse “you should have kept this for EOC214!”.


Penso que se justificava apresentar uma candidatura à IOF para que o POM passasse a integrar o calendário das provas da Taça do Mundo”

Orientovar - Nos méritos desta distinção, que quota parte atribui ao trabalho de cartografia e à organização do Portugal O' Meeting 2012?

Bruno Nazário - Penso que a maioria das pessoas que vota fá-lo sempre ponderando não só a qualidade do percurso, mas também o mapa e o terreno. Nesse sentido eu mais não fiz que fazer jus ao belíssimo trabalho de cartografia que o Tiago Aires realizou. E considero que o binómio qualidade da cartografia / qualidade do percurso era, à partida, suficiente para vencer o prémio de percurso do ano. No entanto, pela análise dos resultados, vemos que o percurso obteve quase o dobro dos votos do segundo classificado. E para mim isso deveu-se à qualidade organizativa patente no POM2012, onde tudo funcionou de forma perfeita. Mais uma vez digo, toda a equipa está de parabéns, pois este prémio é também resultado do trabalho individual de cada um, quer tenha sido no bar, colocação de pontos, secretariado, direção do evento, partidas, chegadas, arenas, até à sinalização! – um dos episódios que me lembro foi de ter uma conversa com o Mathias Niggli onde ele me disse que a sinalização das provas era exemplo para muitas organizações de Campeonatos do Mundo.

Orientovar - Que valor acrescentado é que este resultado acarreta para a Orientação portuguesa e, em particular, para um evento como o Portugal O' Meeting?

Bruno Nazário - É mais um reconhecer do nível que o POM atingiu! Neste momento somos sem dúvida a prova de abertura da época internacional. Até há uns anos era a Spring Cup na Dinamarca, hoje somos nós. Agora resta-nos sedimentar o nível organizativo, mantendo a prova sempre com padrões de qualidade elevados, para que ano após ano o número de atletas que nos visita continue a aumentar. Pessoalmente, e já o disse a algumas pessoas, penso que se justificava apresentar uma candidatura à IOF para que o POM passasse a integrar o calendário das provas da Taça do Mundo.


É inevitável que avancemos para um sistema onde seja a FPO a controlar mais ativamente o evento”

Orientovar - Não posso deixar de lhe perguntar se concorda com o modelo do Portugal O' Meeting ou se não deveríamos apostar num modelo do tipo O-Ringen, onde a Federação Portuguesa de Orientação, com o apoio dos clubes, assumisse todo o labor organizativo?

Bruno Nazário - Antes de avançarmos para a discussão do modelo organizativo do POM, temos de discutir o modelo de organização da modalidade em Portugal. Isto porque, de certa forma, considero que é inevitável que avancemos para um sistema onde seja a FPO a controlar mais ativamente o evento, tal como acontece com o O-Ringen. A questão que todos decerto colocam é – para quê? Organizamos tão bem, para quê mudar? Desde logo porque um sistema desses faria com que, à partida, existissem técnicos especializados contratados para desempenhar posições chaves no evento. Ora, por norma, em Portugal o único técnico contratado é o cartógrafo, mas lá fora existem contratos para diretores do evento – o diretor do O-Ringen 2012 é meu conhecido, já esteve várias vezes em Portugal e será, possivelmente, também contratado para diretor do WOC2016 a organizar na Suécia; traçadores de percursos – veja-se o caso da Eva Jurenikova no EOC2012; speakers – pagos a peso de ouro como é o caso do bem conhecido Per Fosberg; entre outras posições. Penso que isto seria uma mais-valia para o POM, pois garantia desde logo pessoas com disponibilidade e capacidade para desempenhar funções que não podem falhar para termos um POM de qualidade.

Mais importante do que isso, um modelo tipo O-Ringen traria para a FPO recursos financeiros que são essenciais para o desenvolvimento da modalidade. As análises efetuadas ao declínio do número de participantes nas provas de nível 1 apresentam sempre como conclusão que esse declínio se deve à crise que vivemos. Mesmo sendo isso verdade, a frieza dos números mostra que somos cada vez mais uma modalidade polarizada em 5/6 clubes, que representam sempre 60% ou mais dos inscritos nos eventos. Ora isto tem consequências gravíssimas no desenvolvimento da modalidade, uma vez que desta forma nunca teremos realmente expressão nacional, pois temos por um lado os clubes grandes que pela sua dimensão são os únicos a conseguir organizar os grandes eventos e, por tal, os únicos a ter recursos para continuar a sua atividade; e, por outro. os clubes pequenos, sem capacidade organizativa, sem recursos e muitas vezes inseridos em locais onde até existe interesse/potencial para o desenvolvimento da modalidade. E aqui urge uma intervenção para que estas assimetrias sejam amenizadas e consigamos potenciar o número de atletas a praticar Orientação em Portugal. Em última instância este modelo acabaria por ter influência ao nível do trabalho com as seleções, pois por um lado teríamos certamente mais recursos financeiros disponíveis mas, principalmente, com a expansão da modalidade pelo país, teríamos uma base de recrutamento maior.


Não esperava que a votação corresse a nosso favor”

Orientovar - Quem acompanhou este processo de votação, percebeu que, talvez pela primeira vez na nossa história, houve alguma mobilização dos orientistas, nomeadamente através das redes sociais. Como é que sentiu e viveu todo o processo?

Bruno Nazário - Não senti muito isso. Durante o Campeonato Nacional Absoluto lembro-me de estar à conversa com pessoal do meu clube e de falarmos no assunto. Na altura já me sentia satisfeito, pois não é todos os dias que dois dos melhores atletas do mundo consideram a prova como “percurso do ano”, mas não esperava que a votação corresse a nosso favor. No entanto, no passado domingo fui contactado pelo Jan Kocbach no sentido de me questionar se lhe concedia uma entrevista na quarta-feira, pois o percurso estava entre os primeiros e ele queria preparar-me para essa eventualidade. Só aí comecei a prestar mais atenção à mobilização que estava a ser feita juntos dos orientistas, aos quais agradeço o voto.

Orientovar - Sobre os restantes mapas a concurso, nomeadamente em relação aos três restantes mapas portugueses, há algum que lhe merece um particular comentário?

Bruno Nazário - Em relação aos mapas portugueses quero apenas dar os parabéns aos traçadores de percursos, em especial ao Rui Martins, por ser um jovem que fez a sua estreia nestas andanças. O facto de terem sido nomeados demonstra à partida a qualidade do traçado e coloca Portugal muito bem a nível internacional.


Primeiro trabalham-se os percursos do H/D10 e só depois viramos a nossa atenção para os escalões Elite”

Orientovar - Voltando ao traçado de percursos e a esta distinção, como é que se trabalha um traçado que acaba por ser o eleito da Elite mundial?

Bruno Nazário - Como disse ao World Of O, primeiro trabalham-se os percursos do H/D10 e só depois viramos a nossa atenção para os escalões elite. Depois é potenciar o mapa ao máximo, criando um percurso variado que apele a várias técnicas de navegação, que obrigue a variações de ritmo, que tenha mudanças de direção, que tenha situações de pressão sobre os atletas (como ponto de espectadores).

Orientovar - Do muito que tem visto, nomeadamente a nível internacional, quer partilhar connosco dois exemplos acabados de como um mau mapa foi "salvo" por um bom traçado de percursos e de como um bom mapa se viu "arruinado" por um traçado menos conseguido?

Bruno Nazário - É uma pergunta muito “mazinha”… Sinceramente não consigo encontrar exemplos assim tão flagrantes, pelo menos a nível internacional. No entanto, de uma forma educativa, saliento dois exemplos que refletem o que se pretende com a questão. O primeiro, o percurso da qualificatória de Sprint da etapa da Taça do Mundo deste ano, na Finlândia, onde através de um traçado de percursos bem conseguido e com a ajuda de vedações temporárias se conseguiu construir um bom percurso de Sprint, numa área que à partida não seria a mais adequada. O segundo exemplo refere-se à etapa da Taça do Mundo também este ano, na Suíça – primeiro dia do PostFinance Sprint. Este é um dos casos onde claramente o traçador não conseguia fazer mais, porque simplesmente o terreno não o permitia. Desta forma durante mais de metade do percurso, os atletas estão a seguir balizados ou em corredores na floresta limitados por fita. Um percurso nada indicado para uma Taça do Mundo.


É essencial existir diálogo entre o cartógrafo e o traçador”

Orientovar - A Federação Portuguesa de Orientação tem estado particularmente atenta à questão do traçado de percursos e os Cursos, nomeadamente de reciclagem, sucedem-se. Quais os principais erros que devem ser evitados a todo o custo, do ponto de vista do traçador?

Bruno Nazário - De facto tem-se assistido nos últimos anos uma preocupação por parte da FPO em apostar na qualidade dos traçados, tendo para efeito levado a cabo vários cursos de formação e reciclagem de traçadores de percursos. No entanto, para essa formação ser efetiva, é necessário que à partida todos os traçadores de percursos das provas da Taça de Portugal de nível 1 e nível 2 estejam presentes, o que por norma não tem acontecido. Poderia enumerar uma lista enorme de erros que acontecem mais e que deviam ser evitados a todo custo. Vou-me limitar a apenas três:
  • Seleção do terreno: este é o ponto básico e principal para um traçado de percursos com qualidade. Com um terreno bom, facilmente um traçador com experiência consegue criar um percurso desafiante.
  • Acompanhamento do trabalho de cartografia: é essencial existir diálogo entre o cartógrafo e o traçador, pois o percurso final será o reflexo da ponderação entre a boa cartografia e o bom traçado de percursos.
  • Cuidado redobrado em traçar os percursos para os escalões de formação: fruto desse trabalho na área da formação dos traçadores de percursos, penso que nesta altura todos já devem ter o documento onde se pode ler os vários níveis de dificuldade dos percursos e o tipo de técnicas que devemos exigir dos atletas em cada um deles. Assim, não existe desculpa para continuarmos a ter percursos demasiado exigentes para os escalões de formação (H/D 10 até H/D18).

Estou aberto a propostas que me possam chegar”

Orientovar - Em termos futuros, quais os grandes desafios que se colocam aos traçadores portugueses?

Bruno Nazário - O desafio não se coloca apenas aos traçadores de percursos. Coloca-se a todos os intervenientes na construção dos eventos. Há cerca de quatro anos, elaborei um documento sobre o desenvolvimento estratégico da modalidade, tendo em vista o desenvolvimento das seleções nacionais. Nesse documento estava o esquema acima, que considero ainda muito atual. O que ele refere é que, para conseguirmos ter atletas de alto nível, temos não só de ter treinadores que consigam desenvolver as capacidades dos atletas, potenciando as suas capacidades físicas e técnicas, mas também temos de ter competições de qualidade, onde esses atletas adquiram experiência competitiva. E nesse campo, como se pode verificar, estão incluídos os traçadores de percursos e os mapas (podemos ponderar este parâmetro entre a seleção do terreno e a cartografia). Portanto, continuo a achar que para existir um desenvolvimento da Orientação, estes intervenientes terão de continuar a evoluir, querendo provas de cada vez mais qualidade, que atraiam novos atletas e motivam os de sempre a continuar.

Orientovar - Espera que este reconhecimento lhe traga o convite para traçar mais percursos, nomeadamente no estrangeiro?

Bruno Nazário - É uma pergunta difícil de responder… O número de horas que dedicamos à elaboração de um percurso é muito grande e a minha disponibilidade temporal neste momento é cada vez menor… Mas certamente que estou aberto a propostas que me possam chegar e, na eventualidade delas ocorrerem, saberei ponderar se me interessam pessoalmente ou não.


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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