quinta-feira, 22 de novembro de 2012

EVA JURENIKOVA: "É MUITO BOM VER COMO A ORIENTAÇÃO SE DESENVOLVE EM PORTUGAL"




Eva Jurenikova esteve recentemente em Portugal e o Orientovar foi encontrá-la no Parque da Cidade do Porto, a fazer... Orientação de Precisão. Nesta Entrevista, ela descreve os últimos meses, fala nos novos desafios que se abrem no Halden SK e projeta a próxima temporada. E fala também de Portugal e de Orientação de Precisão.


Orientovar - Seis meses após os Campeonatos da Europa de Orientação Pedestre 2012, onde foi traçadora de percursos das provas de Distância Média e Distância Longa, quais as suas melhores recordações?

Eva Jurenikova - Aquilo que mais recordo é a cooperação entre várias pessoas, no momento em que preparávamos a produção televisiva do evento. Tom Hollowell, Jan Kocbach e alguns outros elementos trabalharam “no duro” para que as coisas pudessem correr da forma como correram. Colaborar com o Director televisivo Karel Jonak e perceber aquilo que é possível fazer em termos duma boa cobertura, sem com isso comprometer a parte da Orientação, foi deveras motivador. Mas a produção televisiva foi apenas uma parte do meu trabalho no EOC, uma vez que estive envolvida ou muitas outras coisas.

Orientovar - Como traçadora de percursos, isto foi um desafio extra para si? Teria sido mais fácil sem a televisão?

Eva Jurenikova - Até Fevereiro, não tínhamos a certeza se iríamos ter a televisão na prova de Distância Média. Eu tinha duas ou três alternativas preparadas, com ligeiríssimas diferenças entre elas, mas o conceito principal, aquilo que eu queria mesmo para a Distância Média, estava feito. Não tive de proceder a grandes alterações por causa da televisão. Eles usaram muitos quilómetros de cabos e tive apenas de ajustar alguns pontos depois de ter estado no terreno com Karel Jonak, no Outono de 2011.


Tenho uma enorme quantidade de sentimentos positivos em relação a este WOC”

Orientovar - Que importância teve, em termos pessoais, o seu envolvimento nesta grande competição?

Eva Jurenikova - Foi muito bom devido à experiência que se adquire. Talvez possa vir a ser importante no futuro, tanto no enfrentar de novos desafios como no desempenho de outras tarefas relacionadas com a Orientação. Mas à partida não eram esses os meus interesses. Eu conhecia demasiado bem o terreno para que pudesse competir neste EOC e acabei por aceitar o convite. Afinal, as coisas até poderiam ser bem divertidas “do outro lado da barricada”.

Orientovar - Um mês volvido e vamos encontrá-la em Lausanne, competindo nos Campeonatos do Mundo de Orientação Pedestre. Como viu o WOC este ano?

Eva Jurenikova - Sobretudo, tenho uma enorme quantidade de sentimentos positivos em relação a este WOC. Em Maio, já muito próximo do início dos Campeonatos, não estava sequer segura da minha participação, pois há muitos meses que não treinava decentemente. Fico muito satisfeita por ter conseguido estar presente e, inclusivamente, por me ter apresentado na melhor forma esta temporada. Sinto que, na final de Distância Longa, consegui dar o meu máximo.


Pude sentir as lágrimas nos olhos”

Orientovar - Isto significa que está contente com o seu resultado?

Eva Jurenikova - No ano passado tinha ficado no quarto lugar e fui a sexta classificada este ano, mas não nos podemos esquecer que muitas das minhas adversárias mais diretas falharam essa final de 2011. Comparando os resultados sem a devida ponderação… talvez eles não nos digam toda a verdade. Tecnicamente, a minha prestação foi melhor este ano que no ano passado. Estou muito contente por isso.

Orientovar - O que sentiu ao ver o Tomás [Dlabaja] e os dois Jan [Sedivy and Prochazka] conquistarem uma histórica medalha de ouro na prova de Estafeta?

Eva Jurenikova - Pude sentir as lágrimas nos olhos quando o Jan Prochazka se preparava para terminar a prova, foi uma imagem espectacular. Eles lutaram por esta vitória durante muito tempo.

Orientovar - Estava à espera deste resultado?

Eva Jurenikova - Esperar… (risos). Se virmos as provas de Estafeta, percebemos que as margens são mínimas. Penso que os rapazes acreditaram que era possível. Talvez nos anos anteriores houvesse certas alturas nas suas provas que foram excelentes e quase deram a entender que aquele poderia ser o momento, mas alguma coisa, por pequenina que fosse, acabava por não funcionar. Este ano, tudo funcionou na perfeição. Foi fixe!


Sinto-me preparada”

Orientovar - Dentro dum par de dias vai estar na Noruega, onde assumirá as funções de treinadora duma das melhores formações do mundo, o Halden SK. Que significado tem para si ser treinadora de tão importante clube?

Eva Jurenikova - Sei que se trata dum grande desafio e devo confessor que pensei muito nisso. Sinto-me preparada e, por isso, tomei esta decisão. Em Halden eles querem-me realmente para assumir estas funções, sinto isso. Não trabalharei no clube a tempo inteiro e, por isso, poderei continuar a ser uma atleta de Elite, pensar em ir aos Campeonatos do Mundo, preparar-me da maneira que quero e, ao mesmo tempo, ser treinadora. Penso que é importante, de vez em quando, mudarmos. Quero ir o mais longe possível nesta minha função de treinadora e esta possibilidade, no momento presente, é muito boa.

Orientovar - Pode partilhar connosco algumas ideias acerca das suas novas funções no Halden SK?

Eva Jurenikova - A minha grande tarefa centrar-se-á ao nível do treino técnico. Acredito que poderei preparar provas interessantes e organizar bons treinos. O Halden é um clube de sucesso, com um conjunto impressionante de vitórias na Tiomila, Jukola, etc., mas estou sobretudo focada naquilo que, em termos práticos, pode contribuir para que os atletas progridam mais um pouco.

Orientovar - É esse o desafio?...

Eva Jurenikova - Bem, o primeiro desafio, muito provavelmente, será o de garantir a confiança dos atletas. Se eles não confiarem em mim, não irão ouvir-me. Quero ouvir e perceber como é que o clube funciona e aquilo que os atletas pretendem.


Gosto de trabalhar com entusiastas e o Fernando é uma dessas pessoas”

Orientovar - Em Portugal, esteve com o Fernando Costa e o Orievents, ajudando na preparação dos Campos de Treino no Norte Alentejo. Ainda é de opinião que Portugal é o paraíso dos orientistas no Inverno?

Eva Jurenikova - Sim. É muito bom ver como a Orientação se desenvolve em Portugal, surgem cada vez mais mapas, o nível qualitativo das organizações é excelente, o tempo é bom e os terrenos também. É muito atrativo. Gosto de ver, gosto de trabalhar com entusiastas e o Fernando é uma dessas pessoas.

Orientovar - Quanto tempo pode um mapa suportar um treino?

Eva Jurenikova - Já treinei e competi nalgumas partes destes mapas cinco ou seis vezes e, ainda assim, consigo fazer aqui um bom treino. São mapas muito detalhados; não ficam a "conhecer-se" apenas com alguns treinos. Vocês estão constantemente à procura de novos terrenos. Eu sei, por exemplo, que o clube que irá organizar o Portugal O' Meeting no próximo ano vai fazê-lo em terrenosmuito afastados da sua base. Gosto da ideia de que vocês exploram o país em busca dos melhores terrenos e não se limitam àqueles que ficam mais próximos. Este modo de atuar não é comum na Escandinávia. E penso que ainda têm muitas áreas novas onde podem estabelecer bons maps, onde podem desenvolver ainda mais a Orientação.


Ainda sinto uma enorme motivação para me desafiar a mim mesma

Orientovar - No próximo ano os Mundiais de Orientação Pedestre jogam-se na Finlândia. Alguma expectativa especial?

Eva Jurenikova - O meu objetivo é chegar ao WOC numa boa forma física. Tenho grandes expectativas no tocante à qualidade das provas. Senti isso quando vi o que fizeram nas etapas da Taça do Mundo, este ano. Eles dão tudo para terem boas provas e isso constitui uma motivação extra para mim.

Orientovar - Em termos pessoais, quais os planos quanto ao futuro?

Eva Jurenikova - No próximo ano quero ainda dar o meu melhor como atleta. Depois do WOC, tomarei uma decisão quanto a 2014. Não sei. Estou quase com 34 anos mas ainda sinto uma enorme motivação para me desafiar a mim mesma. Ao mesmo tempo, sinto-me entusiasmada com o meu novo trabalho em Halden, para onde me mudarei no início de dezembro. Consigo ver-me a trabalhar como treinadora num futuro mais distante, mas não consigo dizer agora aquilo que me motivará nos próximos, digamos, dez anos.



Não trocaria a Orientação Pedestre pela Orientação de Precisão”

Orientovar - E aqui estamos nós, numa suave manhã de Outono, no Parque da Cidade do Porto, naquela que é a sua primeira experiência numa prova de Orientação de Precisão. Como é que se sentiu?

Eva Jurenikova - Penso que os princípios básicos, como as coisas funcionam, como olhamos para os detalhes, isso não é novo para mim. Eu coloco muitos pontos na floresta quando preparo os treinos e, por vezes, enfrento o mesmo tipo de desafios. Decidir se o ponto está bem aqui ou se deve estar cinco metros mais além, confirmar com a bússola, comparar as posições relativas dos elementos em volta, enfim, este é um processo que me é familiar. Mas ainda assim há outro tipo de desafios, é necessário estar focado naquilo que se está a fazer. Se não estamos concentrados, facilmente cometemos um erro. Eu cometi dois erros nesta prova devido a essa "má concentração".

Orientovar - A Orientação de Precisão pode ser uma boa forma de treino para os atletas de Orientação Pedestre? No Halden, por exemplo, ofereceria aos seus atletas treinos de Orientação de Precisão?

Eva Jurenikova - Penso que é bom para qualquer pessoa experimentar a Orientação de Precisão. Conseguimos sempre aprender algo, julgo eu. Mas não trocaria o treino de Orientação Pedestre pelo treino de Orientação de Precisão. Se um dia tiver a oportunidade de fazer Orientação de Precisão com os meus atletas, bem, porque não? Mas não tenho a certeza se organizaria um treino de Orientação de Precisão. Acredito que será muito mais trabalhoso do que preparar um treino de Orientação Pedestre.



Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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