quinta-feira, 1 de novembro de 2012

EMILY KEMP: "APROVEITO CADA OPORTUNIDADE QUE SURGE"




Pequena em estatura mas enorme no querer, Emily Kemp rumou a França em busca do sonho. Hoje ela é já uma certeza da Orientação mundial e o futuro abre-se à sua frente, vasto e promissor. De si e da sua carreira, falou com entusiasmo ao Orientovar. Et voilá!

Orientovar - Quando, em Março passado, entrevistei Thierry Gueorgiou, ele disse que “não há limites para o sonho”. E na sequência dessa afirmação dava como exemplo “essa pequena grande atleta do Canadá”, Emily Kemp. Emily, quer fazer o favor de se apresentar?

Emily Kemp – Yup!... Penso que sou conhecida como a pequena-grande atleta do Canadá ou, aqui em França, como “la petite Canadienne”. Estou a viver em França há dois anos, estudo Física e Química e treino com o melhor grupo do Mundo, o “Pôle France”. Todos os dias vivo o sonho de competir, treinar e viver como uma atleta de Elite e isso é mesmo “uma bomba”!

Orientovar - Deixou para trás a cidade de Ottawa onde nasceu e vive agora em Saint Étienne. Tudo isto por causa da Orientação?

Emily Kemp - Aos 18 anos foi um grande, enorme, verdadeiramente assustador passo, cruzar o oceano e deixar tudo para trás; lembro-me de dizer adeus à minha família, atravessar as portas de segurança apenas com um bilhete de ida para França e pensar “onde é que eu me estou a meter?” Felizmente, a França tornou-se na minha segunda casa e desde então não me arrependo da decisão que tomei. Não tenho certeza de quantas pessoas conhecem a história de como eu vim parar a Saint Étienne mas, de forma resumida, o Thierry [Gueorgiou] estava de férias na América do Norte e, numa altura em que eu procurava uma Universidade na Europa, ele convidou-me para treinar com “le Pôle”. Treino e estudo ao mesmo tempo, mas se tiver de escolher entre o treino e as aulas é sempre o treino que ganha ;)


O desafio do equilíbrio entre velocidade e navegação”

Orientovar - Mas afinal o que vê nesta modalidade que a torna tão especial?

Emily Kemp – Sempre vi a Orientação como o desafio do equilíbrio entre velocidade e navegação. Estou na Orientação praticamente há treze anos e fico sempre super animada perante a perspetiva de viajar para novos lugares e experimentar novos tipos de terreno. Se pensarmos na forma de adaptarmos a técnica e a velocidade a cada novo mapa que corremos, acho que temos um desporto realmente original. Nunca me vou cansar de procurar o ponto marginal onde tudo flui tão bem até ao momento em que um simples deslize em termos de concentração pode determinar o fim de uma corrida perfeita.

Orientovar - Já referiu que faz parte do grupo de treino de Thierry Gueorgiou e, seguramente, aprendeu “uma ou duas coisas” com ele. Quer dizer-me quem é e o que representa para si Thierry e qual a coisa mais importante que aprendeu com ele?

Emily Kemp – O Thierry é a razão pela qual, realmente, eu estou em França. Ele sempre esteve ali a olhar por mim, a tentar ajudar-me a encontrar o meu caminho num novo país e a procurar tornar-me numa atleta de elite. Dele recolhi informações valiosas sobre as técnicas de Orientação, mentalidade, nutrição, análise, coisas que nunca lhe poderei agradecer o suficiente. Mudar-me para um país diferente, com uma língua e uma cultura diferentes, representa o atravessar de um período de enormes alterações na minha vida e o Thierry esteve sempre lá para se certificar de que a minha disposição era boa e eu me encontrava no caminho certo, tanto no capítulo do treino como nos estudos. Acho que a coisa mais importante que aprendi com ele foi que, quando temos um objetivo, um sonho que pretendemos alcançar, cada decisão que tomamos desde o momento em que acordamos até a hora de irmos para a cama é a pensar no sucesso. Ele é um atleta impressionante e só espero que um dia possa estar tão envolvida com a Orientação quanto ele tem estado ao longo da sua carreira.


Sonhei sempre com uma subida ao pódio”

Orientovar - Um dos maiores momentos de sempre da Orientação canadiana tem a ver com a medalha de bronze conquistada em Kosice, na prova de Distância Longa do JWOC 2012. Estava à espera desta medalha ou esperava fazer ainda melhor?

Emily Kemp - Desde que corri o meu primeiro JWOC, na Suécia, em 2008, sonhei sempre com uma subida ao pódio. No entanto, a simples ideia de pensar no assunto fazia com que o meu coração disparasse como um foguetão, porque eu sabia que este não é o tipo de coisas que acontecem por acaso. A ideia de dar tudo o que tinha no meu último JWOC fez com que imprimisse uma maior rapidez à minha corrida nas pausas da competição e ganhasse a necessária motivação para enfrentar um segundo treino diário durante todo o inverno e na primavera. A parte mais difícil foi saber que todas as atletas à minha volta aspiravam pelo sucesso tanto quanto eu, fazendo com que a pressão aumentasse extraordinariamente nos momentos que antecedem as corridas. No entanto, na altura certa, percebi que faço Orientação porque adoro este desporto, porque adoro a sensação de correr a toda a velocidade mas com uma navegação isenta de erros, porque sei que apenas posso controlar a minha própria corrida e não a corrida dos outros. Ali, na linha de partida para a prova de Distância Longa, tinha o maior dos sorrisos estampado no rosto porque simplesmente não conseguia conter a minha emoção. Foi então que senti que aquilo ia ser apenas uma parte da caminhada, mas eu estava pronta.

Orientovar - Para além deste fantástico resultado, foi possível vê-la em excelente plano noutras provas, nomeadamente no Portugal O' Meeting 2012, com um 7º lugar no primeiro dia. Que memórias guarda desses momentos?

Emily Kemp – Os meus resultados no Portugal O' Meeting constituiram uma surpresa, já que eu tinha passado os últimos três meses de inverno a trabalhar a parte técnica e não tinha a certeza se tudo estaria no lugar devido, uma vez que adicionei à técnica um pouco de velocidade. Acho que aquilo que mais gostei foi estar a correr com atletas da Elite mundial e conseguir ver o quão forte tecnica e fisicamente teria de ser se quisesse estar ao nível delas. O terreno também foi absolutamente espetacular e o tempo esteve muito bonito, aliás como é costume! Fico sempre encantada quando penso que, há alguns anos atrás, no Canadá, já sonhava com Orientação em fevereiro, mas ainda tinha dois meses de espera pela frente!


Já sei o que é competir com as grandes atletas mundiais”

Orientovar - Na passagem do escalão Junior para a Elite o que é que vai mudar?

Emily Kemp - Correr com os séniores é, definitivamente, outra “praia”, mas eu tenho a sorte de já ter competido no meu primeiro WOC, em França, em 2011 e de ter corrido outras provas da Taça do Mundo na categoria de Elite. Para o melhor ou para o pior, já sei o que é competir com as grandes atletas mundiais e depois de ter corrido cinco edições do JWOC consecutivas estou pronta, em definitivo, para assumir o desafio.

Orientovar - Quais os seus objetivos para a próxima temporada?

Emily Kemp – Uma vez que estou a tentar concluir a minha licenciatura este ano, não tenho certeza se vou ser capaz de estar presente em muitas provas na primavera, mas estou realmente muito animada no que diz respeito aos Campeonatos do Mundo, na Finlândia. O que eu realmente gostava era de conseguir um bom período de treino no inverno e essencialmente sem lesões graves. Uma das partes mais difíceis de ser orientista em França é que estou sempre tão entusiasmada para treinar que eu aproveito cada oportunidade que surge. “Quatro horas de treino durante o dia e depois um treino noturno? Claro! Vamos!” E aí começo a pensar e dou-me conta que estive lesionada nos últimos dois anos... Pondo de parte os erros do passado que resultaram em lesões, acho que finalmente estou em sintonia com meu corpo e com aquilo que ele precisa para não cair aos bocados. Assim, os meus objetivos para a próxima temporada não têm a ver com uma dada classificação numa final do WOC, mas apenas com uma sólida preparação, isenta de lesões. E depois vamos ver o que acontece.


Espero passar o mês inteiro ao sol de Portugal”

Orientovar - Um regresso a Portugal e ao Portugal O' Meeting 2013 está nos seus planos?

Emily Kemp - Definitivamente! Fevereiro tornou-se um mês muito mais extraordinário agora que eu sei que a minha temporada começa com um impressionante período de treino em Portugal :) Olhando para o calendário, espero passar o mês inteiro ao sol de Portugal, mas tenho que ser seletiva quanto aos fins de semana em que irei ser capaz de competir. Por outras palavras, estou ainda a definir a minha própria agenda.

Orientovar - Quer deixar uma última ideia?

Emily Kemp – Sinto-me extremamente feliz por ter sido capaz de seguir o meu sonho, de me ter mudado para a Europa e por me encontrar a treinar a tempo inteiro. Sinto já uma enorme vontade de partilhar tudo aquilo que aprendi - e ainda estou aprendendo -, ao mesmo tempo que continuo a experimentar coisas novas e excitantes. Já temos um blog da seleção canadiana de Orientação, mas é com enorme orgulho que posso dizer que agora também existe um blogue Emily Kemp - http://la-petite-canadienne.blogspot.ca/. Devo agradecer ao meu irmão, Eric Kemp, o layout incrível e espero que, desta forma, possa ser capaz de partilhar o meu entusiasmo por este desporto que é uma autêntica loucura!


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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