sábado, 24 de novembro de 2012

DIOGO MIGUEL: "A ÚNICA MANEIRA DE CHEGARMOS AO NÍVEL DOS OUTROS É TERMOS NÍVEL EM PORTUGAL"




Chama-se Diogo Miguel e é, aos 23 anos, uma das referências da Orientação Pedestre portuguesa. Campeão Europeu de Jovens em 2007 e Campeão Nacional de Distância Longa em 2009 e 2011, Diogo Miguel reparte o tempo entre a modalidade do seu coração e as exigências do curso de Medicina que abraçou há seis anos. E foi precisamente por aí que a nossa conversa começou, uma conversa longa e onde passado, presente e futuro se misturam e confundem numa teia de opções, direções, desafios e decisões. Na Orientação como na Vida!


Orientovar - Como consegue compatibilizar a sua preparação enquanto atleta de Orientação com as exigências dum 6º ano do Curso de Medicina?

Diogo Miguel - O segredo reside, sobretudo, na motivação. Toda a gente consegue tirar um curso e fazer desporto e, inclusivamente, se gostar, consegue treinar todos os dias. Mas se estiver motivado o suficiente, consegue levantar-se cedo para correr às seis da manhã, estar na Faculdade às oito e meia, sair às quatro da tarde e ir treinar outra vez, estudar até às dez da noite e dormir, porque amanhã é outro dia. É preciso estar-se motivado para abraçar esta vida durante o ano inteiro.

Orientovar - Há quanto tempo é que as coisas são levadas assim?

Diogo Miguel - Comecei a fazer Orientação quando tinha oito anos, mas nos primeiros anos não tinha grandes preocupações com o treino. Durante os anos de Faculdade já treinava bastante a sério, mas foi há dois ou três anos, quando comecei a ser treinado pelo Professor Bruno Nazário, que aumentei a minha carga de treino para o bi-diário. A partir daí passei a ter o meu tempo totalmente ocupado. São os estágios, o tempo de deslocação para hospitais da periferia, uma tese para defender... Este ano será bastante mais exigente que os anteriores, se calhar não vou poder fazer treino bi-diário todos os dias como gostaria, mas ainda assim vou procurar treinar duma forma o mais séria possível e, se não puder fazê-lo na quantidade desejável, pelo menos na qualidade espero consegui-lo.


Dar a volta por cima”

Orientovar - Quando falamos em treinar em qualidade, falamos de quê?

Diogo Miguel - Falamos dum treinador que sabe da matéria e que, quando planeia a época, planeia-a a pensar tanto nos aspetos físicos como técnicos. Isso é o principal, ter um treinador que sabe o que faz e que consegue preparar a época o melhor possível. E depois há a parte mental, por vezes o mais difícil de gerir. Penso que a parte mental está muito ligada à parte técnica e à parte física. Se nos sentimos bem fisicamente, temos a motivação suficiente para nos mantermos com o máximo de atenção durante a prova toda e não cometermos erros. A verdade é que os erros aparecem – eu cometo erros em todas as provas! - mas o mais importante de tudo é atirar com esse erro para trás das costas e prosseguir como se nada se tivesse passado.

Orientovar - Alguma vez se sentiu afetado com um erro cometido a ponto de pensar em desistir?

Diogo Miguel - Já desisti por questões físicas, quando em 2010 parti a clavícula nos Nacionais de Distância Média. Mas aí não havia nada a fazer. Não me lembro de alguma ver ter desistido por razões de ordem psicológica, mas por vezes as pernadas começam a correr mal umas a seguir às outras e não é fácil manter a motivação para ir até ao fim. Há um estudo interessante que mostra que, a seguir a uma pernada má, ou vem outra pernada má ou vem uma pernada muito boa. O segredo está precisamente aí, em não se deixar afetar e conseguir dar a volta por cima.


Não há que ter medo”

Orientovar - Como é que se chamam mais pessoas para a Orientação?

Diogo Miguel - Esta é uma questão muito complexa e que passa, em primeiro lugar, por uma divulgação eficaz. Sem isso, as pessoas não sabem sequer que a modalidade existe. É muito importante fazer passar a mensagem para fora de que é fácil participar. Basta aparecer porque existem percursos para qualquer grau de dificuldade e as pessoas facilmente encontrarão um percurso à sua medida. Não há que ter medo. As próprias organizações facultam usualmente monitores que introduzem a modalidade às pessoas, acompanhando-as ao longo dum percurso. Acima de tudo, o facto duma pessoa experimentar a modalidade e ficar agarrado a ela depende desta primeira experiência. Se agradou, a pessoa voltará. É aí que é necessário investir, em criar condições para que as pessoas gostem e possam sentir a necessária motivação para voltar a experimentar, avançando progressivamente para percursos mais difíceis.

Orientovar - Falou das organizações disponibilizarem monitores para acompanhar os principiantes. Já alguma vez foi monitor? O que se retira desse tipo de experiência?

Diogo Miguel - Em provas organizadas pelo meu clube, já cheguei a acompanhar jovens e menos jovens nas suas primeiras pisadas na Orientação. Digamos que as pessoas não são todas iguais. Algumas são mais fáceis de lidar, apreendem facilmente os fundamentos da modalidade, gostam do contacto com a natureza e encontram aqui um bom elo de ligação entre a prática de exercício físico e os desportos de ar livre. Outras pessoas vêm um bocado por arrasto e é mais difícil entrarem no espírito da modalidade, como é óbvio. Mas são sempre experiências gratificantes, ensinar as pessoas, motivá-las e perceber que, ao fim de dois ou três pontos, já seguem entusiasmadas ao encontro do ponto seguinte sem necessitarem da ajuda de ninguém.


Guardo sobretudo as memórias e os amigos”

Orientovar - Em 2007 conquistou a primeira grande medalha da Orientação portuguesa ao sagrar-se Campeão da Europa de Jovens de Sprint, em Eger, na Hungria. Que memórias guarda dessa jornada, há cinco anos atrás?

Diogo Miguel - Guardo sobretudo as memórias e os amigos. Na altura pensámos que a visibilidade que este resultado poderia dar à Orientação catapultasse a modalidade e possibilitasse a obtenção de mais apoios, mas isso não se veio a verificar, pelo menos na medida daquilo que seria de esperar.

Orientovar - Esperava aquela medalha?

Diogo Miguel - Digamos que sim. No ano anterior já tinha sido o quarto classificado e então, com mais um ano de experiência no escalão e sendo dos mais velhos, tinha ambições que passariam sempre pelo pódio.


O desporto em Portugal é um espelho da Sociedade”

Orientovar - Quando olha hoje para os nossos jovens, que potencialidades vê neles para conseguirem chegar aos lugares cimeiros da orientação Europeia e Mundial?

Diogo Miguel - Temos alguns jovens de bastante valia, principalmente o Luís Silva. Trata-se dum atleta que tem um futuro brutal, acho que vai ser sem sombra de dúvidas o melhor atleta português dentro de muito pouco tempo. Olhando de forma mais aprofundada para estes atletas, é uma realidade que eles têm hoje melhores condições em relação àquilo que nós tínhamos na altura. Basta ver que os atletas já se deslocam com alguma frequência ao terreno antes das grandes competições, coisa que não havia até há muito pouco tempo atrás. E depois há os estágios de Seleção. Mas deve reconhecer-se que lhes falta o treino fora da competição. Acho que falta algum espírito de sacrifício no treino em casa, que é o mais importante.

Orientovar - Temos hoje o apoio que devíamos ou que merecíamos?

Diogo Miguel - Não! É bastante revoltante olhar para outros desportos, como é o caso do Futebol e termos um Presidente que termina o mandato à frente da Federação e que se sente orgulhoso por ter deixado um balanço positivo nas contas de muitos milhões de euros. Mas são estes, precisamente, que ainda assim continuam a receber milhões e milhões do Instituto Português do Desporto e Juventude, enquanto outras modalidades lutam pela sobrevivência. Acho que somos, claramente, sub-apoiados. O desporto em Portugal é um espelho da Sociedade. Há os muito ricos e há os muito pobres. Os ricos são cada vez mais ricos e os pobres são cada vez mais pobres. É a mesma coisa com o desporto.


Falta bastante cultura desportiva à sociedade portuguesa”

Orientovar - Esteve este ano nos Mundiais de Lausanne, conseguindo o 33º lugar na Final A de Distância Longa. Que valor atribui a este seu resultado?

Diogo Miguel - Atribuo-lhe um valor elevado, até porque foi a primeira vez em dez anos que um português foi a uma final A de Distância Longa. Cheguei ao fim com a certeza de ter feito o meu melhor e, se não tivesse quebrado fisicamente, teria feito melhor ainda. Ou seja, com outras condições de treino teria facilmente ficado entre os vinte e cinco primeiros. Mas falta bastante cultura desportiva à sociedade portuguesa em geral e se disser a alguém que não está familiarizado com a Orientação que terminei em 33º num Campeonato do Mundo, essa pessoa irá pensar “esquece, és mau, não prestas!” Mas quem sabe como estas coisas funcionam, sabe os sacrifícios que temos que fazer, sabe acima de tudo as condições que temos, consegue olhar para o resultado como sendo bastante meritório.

Orientovar - Consegue estabelecer algum paralelo entre este seu resultado e os resultados dos atletas em cujos países a Orientação está mais enraizada?

Diogo Miguel - Nascemos todos iguais e não somos piores do que eles. Aliás, é um exercício interessante de fazermos, se olharmos para os Europeus de Jovens, que são as primeiras provas internacionais em que participamos, vemos que o nosso nível não está assim tão longe do deles. Ou seja, partimos todos do mesmo ponto. Mas quando olhamos para os séniores, vemos que a diferença é muito maior, ou seja, temos de trabalhar é aqui neste intervalo. A diferença está no acompanhamento que é dado aos atletas, nas condições de treino e na motivação. É isso que lhes permite avançar como um todo. A única maneira de chegarmos ao nível dos outros é termos nível em Portugal.


A parte desportiva não se encontra num plano inferior relativamente à parte profissional”

Orientovar - Vimos este ano um atleta da Letónia sagrar-se Campeão do Mundo de séniores, vimos outro da Nova-Zelândia alcançar o título mundial de Juniores, também uma atleta do Canadá chegou ao pódio dos Mundiais de Juniores, em 2011 um atleta espanhol foi Vice-Campeão do Mundo de Júniores, enfim, o que podemos aprender com exemplos que nos são relativamente próximos?

Diogo Miguel - Estes atletas e estes resultados são, mais do que o exemplo, a certeza de que nós também podemos. Globalmente estaremos ligeiramente abaixo da Letónia, mas acima da Espanha, da Nova Zelândia e claramente acima do Canadá, para falar apenas naqueles que referiu. Isto deve servir para nos motivar a todos.

Orientovar - O Clube de Orientação de Estarreja é, desde sempre, o seu clube. Que significado tem para si este emblema e esta camisola que enverga?

Diogo Miguel - Comecei na Orientação aos 8 anos e a minha primeira experiência foi no Desporto Escolar, na minha terra, Canelas, uma pequena aldeia do Concelho de Estarreja. A essa primeira prova seguiu-se uma “Quinzena da Orientação”, no Verão, e nunca mais parei. Há quinze anos que estou ligado a este clube e ele faz parte de mim. Poderia dividir a minha vida em dois, por um lado a parte profissional, da Faculdade, e por outro a Orientação. Por estranho que possa parecer, a parte desportiva não se encontra num plano inferior relativamente à parte profissional. Ambas as partes se complementam. Portanto, a minha ligação a este clube é muito grande, são muitos anos, são muitas pessoas e ajudou-me a crescer.


Não se vem para a Orientação para se ser um Diogo Miguel”

Orientovar - Sente que é um ídolo para todas aquelas crianças que fazem parte das escolinhas do clube ou na Orientação não há ídolos?

Diogo Miguel - Há miúdos que vão para o Futebol para serem como o Cristiano Ronaldo, mas não se vem para a Orientação para se ser um Diogo Miguel ou quem quer que seja. Mas sinto que, para os atletas mais jovens que chegam a um clube grande e encontram atletas de topo no panorama nacional, eu acho que esses jovens acabam por partilhar também as alegrias e os sucessos prova após prova e vão sentindo orgulho em fazer parte dos respetivos clubes. Grande parte dos miúdos da Orientação olha para os atletas de topo com bastante orgulho, não pelo atleta em si mas por fazerem parte do mesmo clube, por vestirem a mesma camisola. Isso é muito importante e serve para os fixar.

Orientovar - Aos miúdos que começam agora, que conselhos daria?

Diogo Miguel - O conselho não o daria aos miúdos, se calhar dava-o antes aos pais. Tanto a escola como o desporto andam muito ligados. Se temos disciplina num, acabamos por ter disciplina no outro. Não é por acaso, se olharmos para os atletas de topo a nível nacional, todos eles são excelentes estudantes e têm um futuro profissional bastante promissor. Tudo parte de quem educa. Eu tenho a sorte de ter uns pais que sempre me educaram bem e que sempre me deram o apoio necessário para conseguir fazer as duas coisas. E deixaria ainda um conselho mais aos pais, o de virem fazer uma prova de Orientação com os seus filhos. Uma das grandes vantagens da Orientação é ser, para além do “desporto da floresta”, o “desporto da família”.


Os resultados acabaram por ser bem melhores do que estaria à espera”

Orientovar - Como vê o momento atual da Orientação a uma escala mais global?

Diogo Miguel - Penso que a Federação Internacional de Orientação está a cair num tremendo erro e que é o de, com o sentido de mediatizar a modalidade a todo o custo, procurar adaptar a modalidade à mediatização em vez de adaptar a mediatização à modalidade. Há exemplos anteriores de que é possível fazer uma transmissão com qualidade dum Campeonato do Mundo ou duma prova internacional sem que para isso se desvirtue a modalidade. É por aí que temos de ir, em vez de metermos três ou quatro provas de Sprint numa semana, só para olhar para as camaras. Penso que isso é um erro e espero bem que as coisas não evoluam a esse ponto.

Orientovar - Quase a chegar ao fim a nossa entrevista, considera que esta época correu de acordo com as suas expectativas?

Diogo Miguel - Na verdade, digamos que a época está quase à beira de começar. Depois do Campeonato do Mundo, tirei mais tempo do que seria normal para descansar e tenho estado a fazer praticamente só manutenção. A época teve alguns percalços, comecei a treinar na República Checa e, apesar de ter feito muito treino com mapa, devido às questões climatéricas e às poucas horas de luz, acabei por ter uma carga de treino aquém do desejável. Depois de regressar a Portugal estava a treinar bem mas tive um percalço e lesionei-me num pé, o que me obrigou a uma paragem de um mês. Isso fez-me perder muito da minha boa forma e acredito que, se não fosse isso, poderia ter chegado muito melhor ao Campeonato do Mundo e aí o resultado poderia ter sido outro. Apesar de tudo, os resultados acabaram por ser bem melhores do que estaria à espera.


O objetivo é estar lá para ganhar”

Orientovar - O objetivo a curto prazo passa pelo título nacional absoluto?

Diogo Miguel - Por acaso esse é um título que nunca alcancei. Tenho treinado a sério para chegar nas melhores condições ao Campeonato Nacional Absoluto e esse vai ser um bom teste. O objetivo é estar lá para ganhar. Quanto à próxima época, espero apresentar-me às provas em melhor forma do que este ano e que os bons resultados possam aparecer.


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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