sábado, 6 de outubro de 2012

ORIENTAÇÃO ADAPTADA: UM DESPORTO PARA A DEFICIÊNCIA INTELECTUAL




À entrada para o seu segundo ano de vida, a Orientação Adaptada prepara-se para dar um importante salto evolutivo com o estabelecimento, a título experimental, de percursos com caráter competitivo. Neste artigo, traçamos um balanço de sucesso deste primeiro ano de atividade e projetamos a temporada que está prestes a começar.


Foi no dia 14 de Outubro de 2011 que o Parque da Cidade do Porto assistiu a uma experiência pioneira a nível mundial. Precisamente nessa data, o Grupo Desportivo dos Quatro Caminhos e o Núcleo de Desporto Adaptado do Hospital da Prelada, com os apoios da Associação Nacional do Desporto para a Deficiência Intelectual e da Federação Portuguesa de Orientação, avançavam com um conjunto de pressupostos que, no seu todo, levariam à definição duma nova disciplina da Orientação, à qual se convencionou chamar Atividade de Orientação Adaptada.

Apesar das contingências, prevalece a consciência de que a vida é feita de constante aprendizagem. É da ousadia das atitudes de cada um que resulta o prazer de colher os frutos das suas acções e do seu esforço. Foi assim que onze outras iniciativas se seguiram, envolvendo até à data sete clubes da esfera da Orientação nacional, cerca de três dezenas de instituições ligadas à problemática da Deficiência Intelectual e muito perto de mil agentes, entre atletas, monitores e acompanhantes. Também além fronteiras a modalidade começa a despertar interesse, sobretudo na vizinha Espanha, com três atividades levadas a cabo em Saragoça, e ainda no Uruguai, com uma atividade de demonstração realizada no âmbito do último Campeonato Sul-Americano de Orientação.


O que é a Orientação Adaptada?

Originalmente desenvolvida a partir da Orientação de Precisão, a Orientação Adaptada pretende ser entendida como uma disciplina da Orientação, particularmente vocacionada para grupos específicos e onde se incluem a deficiência intelectual e as crianças em idade pré-escolar. O desenvolvimento da atividade leva em conta a experiência do participante e as suas capacidades intelectuais e físicas e divide-se em dois tipos, um puramente lúdico e outro que encerra uma vertente competitiva. O primeiro toma o nome de “Atividade de Orientação Adaptada”, enquanto o segundo se designa por “Competição de Orientação Adaptada” ou, simplesmente, “Orientação Adaptada”.

Um mapa, um percurso, um espaço natural de liberdade e uma mão cheia de desafios. É esta a essência do “jogo”, que se desenrola ao longo dum número variável de pontos assinalados num mapa e materializados no terreno por balizas que devem ser visitadas de forma sequencial. A escolha do itinerário entre cada ponto de controlo não é, em qualquer um dos casos, uma opção do participante. A cada participante pede-se, isso sim, que faça a correlação entre aquilo que se encontra assinalado no mapa e que está depois materializado no terreno, sob a forma de sequência de cores. As respostas são assinaladas por meio de picotador em cartão fornecido pela organização a cada participante antes de iniciar a sua prova.


Algumas considerações

Neste seu primeiro ano de vida, a Atividade de Orientação Adaptada permitiu comprovar o previsto: a perfeita adequabilidade desta disciplina à problemática da Deficiência Intelectual. A experimentação e a observação fizeram com que se retirassem algumas ilações importantes e se procedesse às necessárias alterações.

Entre estas, destaque para a obrigatoriedade da Atividade de Orientação Adaptada se desenrolar exclusivamente ao longo de caminhos, permitindo a participação a todos os indivíduos que, para além do grau de deficiência intelectual de que são portadores, apresentam também mobilidade reduzida, deslocando-se em cadeira de rodas ou com auxílio de apoios externos. Além do picotador, os participantes devem ter à sua disposição uma esferográfica como forma alternativa de assinalar a sua resposta. Esta destina-se apenas àqueles cuja mobilidade fina esteja particularmente diminuída ou mesmo ausente, de acordo com as indicações / informação do monitor. No sentido de obstar a que entidades clínicas adjuvantes, como por exemplo o daltonismo, possam colocar em desvantagem alguns participantes, poderá a organização fazer corresponder a cada cor uma imagem, por exemplo o morango em relação ao vermelho, o figo em relação ao verde e as uvas em relação ao azul.


Competição de Orientação Adaptada

Na Competição de Orientação Adaptada, o traçado dos percursos não está sujeito à obrigatoriedade de se desenrolar ao longo de caminhos, podendo estender-se a outros espaços. As respostas devem ser assinaladas no cartão com recurso exclusivamente a picotador. Finalmente, em relação ao cartão de controlo, a existência duma sexta quadrícula no cartão, onde se encontra assinalado um “x”, tem a ver com a possibilidade de nenhuma das sequências apresentadas corresponder à sequência pretendida. De notar que esta situação não se verifica na Atividade de Orientação Adaptada, onde a hipótese “x” não existe.

Os participantes na Competição de Orientação Adaptada fazem a prova a título individual, sendo registado no cartão de controlo a hora de partida e de chegada para apuramento do tempo gasto no percurso. No caso da Atividade de Orientação Adaptada, a prova desenrola-se em grupo, obrigatoriamente enquadrado por um monitor. Os grupos serão constituídos por um número máximo de seis pessoas. Em qualquer dos casos, os participantes podem “invadir” o espaço de jogo, devendo ser estimulados a observar atentamente cada uma das sequências e a compará-las com aquilo que surge indicado na sinalética do mapa que transportam consigo. Regressam então ao ponto de observação e, por meio de picotador, assinalam a resposta no respetivo cartão de controlo.


Primeiro Campeonato Nacional agendado para Junho de 2013

Com o intuito de incrementar o desenvolvimento desta disciplina, a Comissão Organizadora do III Circuito de Orientação de Precisão “Todos Diferentes, Todos Iguais”, composta por oito clubes, acordou entre si a inclusão dum percurso de Atividade de Orientação Adaptada em cada uma das onze provas calendarizadas. São elas o Troféu de Orientação do Porto – 9ª edição (Parque da Cidade do Porto, 17 de Novembro de 2012), Dia Internacional da Pessoa Portadora de Deficiência (Praia da Tocha, 01 de Dezembro de 2012), Ori-Precisão .Com Mapa (Parque do Bom Jesus – Braga, 02 de Março de 2013), Ori-Precisão TST (Parque da Rabada - Santo Tirso, 27 de Abril de 2013), Justlog Park Race (Monte da Sra. da Assunção - Santo Tirso, 11 de Maio de 2013), I Campeonato Nacional de Orientação de Precisão (Mira, 25 de Maio de 2013), I Troféu Ori-Precisão Rota da Bairrada (Águeda, 01 de Junho de 2013), Ori-Precisão Conquista do Castelo (Penedono, 29 de Junho de 2013), I Troféu Ori-Precisão Viana Cidade Saudável (Viana do Castelo, 13 de Julho de 2013) e I Troféu Ori-Precisão do Ginásio (Figueira da Foz, 27 de Julho de 2013).

No Troféu de Orientação do Porto – 9ª edição, Ori-Precisão TST e I Troféu Ori-Precisão Viana Cidade Saudável estão confirmadas provas de Competição de Orientação Adaptada, estando igualmente garantida a realização do I Campeonato Nacional de Orientação Adaptada no âmbito do III Open de Orientação de Precisão do Hospital da Prelada / I Troféu Nacional de Temp-O, que terá lugar no Parque da Prelada (Porto), no dia 22 de Junho de 2013


Orientação Adaptada, um desporto para a inclusão!

Não nos devemos esquecer, porém, que há uma ideia-chave que preside a este projecto: Orientação Adaptada, um desporto para a inclusão! Mais do que um fim em si mesma, a Orientação Adaptada, tanto na vertente lúdica como competitiva, deve constituir um meio para se atingir um fim primeiro, o da partilha dum mesmo espaço e dum mesmo tempo, a interacção da pessoa com os outros e com o ambiente que a rodeia, o desenvolvimento de aptidões e a aquisição de competências, por intermédio de regras simples que, no seu todo, fazem desta disciplina um jogo.

Mas como não podia deixar de ser, é toda uma série de conceitos que, no seu todo, configuram a Orientação enquanto modalidade desportiva, que aqui está em causa. Um mapa, um percurso, um espaço natural de liberdade e uma mão cheia de desafios são elementos que remetem, de forma inequívoca, para o desporto da floresta. Lá está o trilho em cujo final se adivinha o prazer da descoberta, lá está a salutar competição no respeito pelas regras e pelo outro, lá está a nossa consciência ambiental a lembrar-nos que são únicos os espaço que pisamos e cuja integridade temos o dever de preservar e defender. E lá estão os participantes, irmanados dum mesmo espírito, únicos na sua individualidade, a lembrar-nos que “todos diferentes, todos iguais”!


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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