terça-feira, 2 de outubro de 2012

JOSÉ SAMPER: "VAMOS TER DE CONTINUAR A LUTAR COM ESPADAS DE MADEIRA"




José Samper esteve em Portugal por ocasião do XX Campeonato Ibérico de Orientação Pedestre. Duma disponibilidade e afabilidade inexcedíveis, o Diretor Técnico da Federação Espanhola de Orientação deu uma Entrevista ao Orientovar. Aqui se deixam os apontamentos dessa conversa, onde a preocupação face a um futuro incerto é a nota dominante.


Como está de saúde a Orientação em Espanha?

José Samper - Em primeiro lugar, quero manifestar a minha gratidão por estar aqui em Portugal. É sempre um prazer estar convosco porque, para mim, é o mesmo que estar na minha Espanha. A saúde da Orientação em Espanha? Pois, é como tudo. Como está a saúde da economia mundial, de Espanha, de Portugal?... Precisamente esta semana que passou, tive uma reunião no Conselho Superior dos Desportos de Espanha e o apoio que iremos ter para os Campeonatos de Espanha de Desporto Escolar é zero. Não há nada, nem mesmo para o Desporto Universitário. Também o Ministério do Desporto de Espanha já nos comunicou que os cortes para 2013 serão de 50%, o que se irá repercutir também na Alta Competição. Infelizmente, as coisas são assim.

Isso significa que está em risco a participação nos Mundiais de Desporto Escolar ISF, que terão lugar no Algarve, no próximo ano?

José Samper - São grandes as dúvidas que se levantam quanto à nossa participação nos Mundiais de Desporto Escolar do Algarve. Demos a opção ao Conselho Superior dos Desportos no sentido de garantirem as inscrições, ao mesmo tempo que os atletas suportariam os custos relacionados com o transporte, alojamento e alimentação. Vamos aguardar.


Temos de dar prioridade às disciplinas de Orientação Pedestre e de Orientação em BTT”

Os projetos de desenvolvimento para a Orientação em Esqui e para a Orientação de Precisão estão igualmente comprometidos?

José Samper - Evidentemente, quisemos fazer uma aposta forte na ampliação das disciplinas que fazem parte da Orientação, nomeadamente na Orientação em Esqui e na Orientação de Precisão. Todavia, creio que iremos ter de interromper estes projetos por motivos de natureza económica, como se compreende. Não vamos afastá-las em definitivo, mas temos de dar prioridade às disciplinas de Orientação Pedestre e de Orientação em BTT, que são as mais consolidadas. Pretendemos estar nas competições mais importantes, nos Campeonatos do Mundo, no JWOC e também no EYOC, mas mesmo assim muitas pessoas terão de pagar as suas próprias participações.

Foi possível vermos este ano a Espanha em Lausanne, nos Campeonatos do Mundo, depois de ter abdicado por completo da sua presença nos Europeus de Dalarna, na Suécia. Porquê?

José Samper - Também pelas mesmas razões. Se, economicamente, não é viável a presença em ambas as competições, a nossa aposta incidirá sempre no Campeonato do Mundo. Quanto ao Campeonato da Europa, estaremos presentes no próximo porque é aqui, porque é em Portugal, porque é Portugal! Doutra forma... Não temos condições para mais.


Para fazer algo é necessário estar-se motivado”

Ao título de vice-campeão do mundo júnior de Andreu Blanés, em 2011, junta-se um conjunto de resultados de enorme valia alcançados entretanto pelos atletas espanhóis nas grandes competições internacionais. Qual o segredo do sucesso?

José Samper - Isto não é coisa de um dia. Há dez anos, apostámos num programa onde se encontravam a Ona Ráfols, a Anna Serralonga, o Andreu Blanés e tantas outras crianças. Tinham dez, onze, doze anos, mas começaram a trabalhar desde logo. Investiram muito em termos pessoais, os seus treinadores fizeram igualmente um enorme trabalho, os pais desempenharam um papel fundamental ao suportarem custos muito grandes e a Federação acrescentou uma pequenina coisa e que é, sobretudo, a motivação. Porque para fazer algo é necessário estar-se motivado. Se não houver motivação, é difícil as pessoas chegarem a algum lado. Aquilo que nos deixa desgostosos é quando chegamos junto das autoridades desportivas espanholas, lhes falamos dos resultados que conseguimos e com que meios, solicitando mais apoios, e a resposta é que andámos demasiado depressa. Concluímos que vamos ter de continuar a lutar com espadas de madeira. É uma luta desigual.

Os projetos vão manter-se para a Alta Competição?

José Samper - Sim, vamos fazer todos os possíveis para manter os projetos, na Alta Competição e não só. Mas vamos ter de cortar aqui e ali, claramente. Por exemplo, um Curso de Supervisores de quatro dias, vai ter de ser ministrado em dois dias apenas. Mas os projetos de planificação e outros, tentaremos levá-los por diante.


Temos de regressar ao verdadeiro Campeonato Ibérico”

Em Espanha, o calendário competitivo vive muito das organizações nas diferentes ligas autonómicas. Como avalia os resultados?

José Samper - A riqueza cultural de Espanha – penso que devemos ver as coisas desta forma – está na sua diversidade. Não sei muito bem por quanto tempo mais, mas somos capazes de estar unidos e este é um fator que deve ser visto duma forma muito positiva. As ligas autonómicas têm uma força muito grande e que continua a aumentar a cada dia. Temos de perceber de que forma é que a Federação Espanhola poderá acompanhar este processo, retirando daí o máximo benefício para todos. Embora de forma isolada, os problemas vão-se colocando mas temos de encontrar forma de os solucionar.

Falando do Campeonato Ibérico, parece-me que este modelo está ferido de morte. A ausência de atletas espanholas no escalão de Damas Elite veio colocar a nú as debilidades do Ibérico tal como se encontra projetado e Portugal acaba por ser um vencedor “por falta de comparência”. Partilha desta opinião?

José Samper - Sem dúvida alguma, a melhor fórmula para o Campeonato Ibérico era a anterior. Mas os tempos são outros e as realidades também. Portugal, por muito boa vontade que tenha, não encontra forma de alojar sessenta pessoas, trinta espanhóis e trinta portugueses. A Espanha tão pouco! A proposta partiu – creio que não estou errado – da própria Federação Portuguesa. Mas se não fosse assim, teríamos sido nós a propor a alteração ao modelo. Espero que esta seja uma solução transitória e, mal seja possível, temos de regressar ao verdadeiro Campeonato Ibérico. De qualquer forma, assim como estão, as coisas não estão bem.


Os próximos anos vão ser muito difíceis”

E não haveria a hipótese de estabelecer uma solução de compromisso entre as duas Federações no sentido de garantir um número mínimo de participantes por escalão de competição, por exemplo?

José Samper - Podemos fazer aquilo que fazíamos antes, mas os encargos com o alojamento e tudo o mais ficariam por conta de cada uma das Federações. É uma solução. Não traríamos os melhores a Portugal e Portugal não levaria os melhores a Espanha – os melhores normalmente dizem que “se não me pagam eu não vou”, estão no seu direito, naturalmente – mas há sempre aqueles que, só pelo facto de envergarem a camisola da seleção, de terem a responsabilidade e o orgulho de estar ali, se mostram disponíveis para fazê-lo, ainda que isso acarrete custos para eles. Creio que seria uma possibilidade.

A terminar, Portugal e Espanha de mãos dadas nesta cruzada dos mais fracos ante os mais fortes. Como encara o futuro da Orientação neste cantinho ibérico?

Creio que os próximos anos vão ser muito difíceis, mas é nestas alturas que temos de demonstrar a capacidade de nos superarmos. Temos de ser inventivos para ultrapassarmos as adversidades. Pessoalmente, a minha intenção era a de ter abandonado já as tarefas federativas, porque sinto que a idade começa a pesar muitíssimo. Mas, a menos que os orientistas espanhóis o não queiram, vou continuar por mais quatro anos para ver se saímos desta crise. Em qualquer dos casos, estes serão os meus últimos quatro anos à frente da Direção Técnica da Federação Espanhola de Orientação.


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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