sábado, 8 de setembro de 2012

NOS 50 ANOS DA IOF: SEIS PRESIDENTES REFLETEM




No passado sábado, o espaço do Orientovar foi preenchido com a Entrevista ao atual Presidente da IOF – Federação Internacional de Orientação, o escocês Brian Porteous. Tempo agora para um mergulho na história do organismo internacional que tutela a nossa modalidade, ao encontro dos seis anteriores presidentes.


Nos seus 50 anos de existência, o desafio de liderar os trabalhos da IOF esteve nas mãos de seis Presidentes. Cada um deles manteve-se no cargo por um período considerável de tempo, dando um contributo significativo para o desenvolvimento do organismo que tutela a nossa modalidade.

Desde a sua fundação que os Presidentes da IOF foram eleitos por períodos de dois anos, à exceção do período entre 1977 e 1980, onde se pretendeu acertar os Congressos com os anos pares. O primeiro presidente da IOF, o sueco Erik Tobé, foi aquele que mais tempo permaneceu no cargo, com sete mandatos entre 1961 e 1975. Lasse Heideman (Finlândia), Bengt Saltin (Suécia) e Heinz Tschudin (Suiça) exerceram o cargo durante três mandatos, Sue Harvey (Grã-Bretanha) foi Presidente durante cinco mandatos e Åke Jacobson (Suécia) concluiu no passado dia 19 de Julho o último dos seus quatro mandatos, cedendo o seu lugar ao escocês Brian Porteous.


Os primeiros quinze anos

Erik Tobé era o Presidente do NORD, a Confederação de Nações Nórdicas, aquando dos trabalhos que levaram à criação da IOF, em 1961. Particularmente versado nas várias matérias relacionadas com o desenvolvimento da modalidade, possuidor duma personalidade extrovertida e cativante, Tobé era claramente a pessoa certa para o lugar de Presidente do organismo acabado de criar. Mas as tarefas que o esperavam, sobretudo nos primeiros anos, revelaram-se tudo menos fáceis. “Em 1959, em Sandviken, quando foi discutida pela primeira vez a fundação da Federação Internacional, e depois mais tarde, no Congresso da fundação, em Copenhaga, não havia regulamentos de competição nem modelos de cartografia. Inclusivamente, a própria carta constituinte teve de ser criada”, recorda. O Conselho da IOF desde muito cedo reconheceu a necessidade da constituição de Comissões especializadas. Uma das primeiras, a Comissão Técnica, deparou-se com a difícil tarefa de moldar regras de competição consensuais e que todos os dez países fundadores pudessem vir a aprovar.


Modelos de cartografia, o maior sucesso

Erik Tobé olha para as normas que regulam a confeção de mapas como o maior sucesso do seu período presidencial. “Isto teve um significado decisivo no desenvolvimento da Orientação a nível internacional”, escreveu na altura. Todavia, em termos de expansão da modalidade, os seus vários mandatos foram, no mínimo, igualmente bem sucedidos: o número de países membros passou dos dez iniciais para vinte e três em 1975. Projetando o futuro, Erik Tobé deixa um conselho ao seu sucessor: “Assegure-se e tenha sempre presente que qualquer trabalho a nível internacional requer uma boa dose de paciência. Por vezes as coisas não têm um desenvolvimento tão rápido como teriam se estivéssemos nos nossos países. É necessário ter em consideração as tradições e o grau de desenvolvimento de cada nação. Com amizade, sinceridade e confiança, todavia, as coisas acabam por ser bem sucedidas.”


Final dos anos 70: Consolidação dos padrões

Lasse Heideman, Presidente da IOF entre 1975 e 1982, prosseguiu com sucesso a obra de Erik Tobé, não se desviando em demasia das linhas mestras definidas pelo seu antecessor. Enunciando uma agenda de trabalhos no seu primeiro Congresso, Heideman invocou três áreas-chave de atuação, por ordem de prioridades: Desenvolver a Orientação nos países-membros, levar a modalidade a novos países e obter o reconhecimento olímpico. Lasse estava interessado em ver crescer o número de nações de topo, de forma a que o predomínio dos países nórdicos pudesse vir a atenuar-se. No seu entender era mais importante a qualidade que a quantidade, ou seja, era preferível ter poucos países-membros mas fortes, do que ter muitos países-membros mas que não passassem “do papel”.

Afinar os regulamentos de competição, melhorar a qualidade dos mapas e os modelos reguladores das grandes competições internacionais, foram igualmente matérias que ocuparam um lugar prioritário na ambiciosa agenda de trabalho de Lasse. No seu período à frente dos destinos da IOF, tiveram lugar os primeiros Campeonatos do Mundo disputados em países como a Grã-Bretanha, a Noruega ou a Suiça. Imediatamente antes da eleição de Lasse Heideman para a Presidência da IOF, tivera lugar a primeira edição do Campeonato do Mundo de Esqui, disputada na Finlândia, e cujo Diretor de Evento foi, nem mais nem menos, que o próprio Lasse Heideman.

Numa altura em que a IOF celebrava o seu 20º aniversário, foi aprovado um projeto de longo prazo no decurso do segundo mandato de Lasse Heideman e cujos objetivos resistiram à voragem do tempo durante as presidências posteriores. Por ordem de importância: tornar as finanças da IOF menos dependentes das quotizações dos países membros, auxiliar as federações com menos capacidade a promover a modalidade e a elevar o seu nível nos respetivos países, aumentar o número de federações (a meta situava-se nas trinta e cinco a quarenta) e, ainda, ver a Orientação incluída no programa dos Jogos Olímpicos de Verão e de Inverno e nos programas de outros jogos multi-nacionais. “Só quando estes objetivos forem alcançados é que o nosso desporto poderá ser considerado entre os desportos estabelecidos mundialmente”, escreveu Lasse.


Enfrentar o dilema financeiro

As finanças da IOF estiveram, nos primeiros vinte e cinco anos, muito dependentes das grandes contribuições das nações mais estabelecidas na Orientação, nomeadamente do grupo nórdico. Nessa altura, havia uma enorme confiança no trabalho voluntário realizado pelos representantes do Comité e outros. O Secretário-Geral, por exemplo, trabalhava apenas em regime de “part-time”. E foi precisamente Lasse Heideman quem iniciou o processo de desenvolvimento que conduziu, alguns anos mais tarde, já durante a presidência de Bengt Saltin, a um acordo de patrocínio importante e ao estabelecimento dum Secretariado a tempo inteiro.

Apenas dois anos depois de ter sido eleito para o Conselho da IOF, Bengt Saltin assumiu a presidência em 1982, ali se mantendo nos seis anos seguintes. Os seus objetivos iniciais como Presidente foram marcados por três passos: assegurar uma melhor base económica para a IOF, estabelecer um Secretariado a tempo inteiro e elaborar um plano estratégico a longo prazo, concentrado na expansão de eventos da IOF, visando aumentar o número de países-membros e ainda abordar a questão Olímpica de forma realista. Os dois primeiros objetivos estavam naturalmente interligados e foram alcançados por volta de 1987, depois de muito trabalho e negociação. O próprio Bengt conta a história:

Os países-membros opuseram-se a qualquer aumento da taxa paga à IOF. Neste cenário, as alternativas passavam por criar uma taxa sobre eventos internacionais selecionados, como O-Ringen, e encontrar um patrocinador. Tivemos que esperar por 1987 até que estas questões fossem finalmente resolvidas. Curiosamente, muito pouco é mencionado nas atas das reuniões do Conselho da IOF. Havia apenas uma nota afirmando que Hans Gunnar Tillander (proprietário da SILVA) e Anders Lundin, o Secretário da Federação de Orientação Sueca, se juntaram à reunião. Numa reunião do Conselho, três meses depois, foram anunciados a localização da nova Secretaria, em Sollentuna, a norte de Estocolmo, e foi nomeado um Secretário-Geral a tempo inteiro. Foi aprovada uma nova taxa e encontrámos um patrocinador. Tinha-se verificado um salto na renda anual e nas despesas, que passou das 200.000 Coroas Suecas para mais de um milhão. As quotizações e os patrocínios estiveram na agenda da maioria das reuniões do Conselho e das reuniões abertas durante os Congressos, mas todas as negociações foram tratadas diretamente pelo Presidente”.


Rumo ao ano 2000

Quanto ao terceiro objectivo, Bengt afirma: “Tal como aconteceu com as outras tarefas que tive de resolver durante o meu mandato, foi necessário esperar pelo último ano e e pela minha última reunião do Conselho e do Congresso para o plano estratégico ser aceite e implementado. Provas de Seleção e finais B faziam parte da agenda, bem como o Sprint ou outros formatos no programa dos Campeonatos do Mundo, uma futura Taça do Mundo e, ainda e sempre, a ambição olímpica.

Recentemente, recordando as atas do Congresso, lembrei-me da votação caótica no Congresso que levou à aceitação da proposta do plano estratégico. A primeira votação foi contra a aceitação, por margem estreita, o que levou a uma pausa de 20 minutos, a enormes discussões sobre o sentido de voto e quanto ao resultado que viesse a ser apurado. Quando o Congresso foi retomado, ficou claro que eu tinha cometido um erro tremendo no processo de votação. A proposta original foi colocada novamente à votação e os votos que faltavam para ser alcançada uma maioria acabaram por aparecer. Fiquei naturalmente muito feliz por todo o trabalho por detrás do plano de longo prazo acabar por ser adotado. Olhando para trás, acho que a IOF saiu a ganhar”.

Heinz Tschudin teve a tarefa inicial de prosseguir com o plano de longo prazo, “a IOF no ano 2000”. “A minha ideia era motivar tanto quanto possível as federações e os orientistas para trabalharem em conjunto com a IOF, a fim de puderem ser definidos projetos de longo prazo. Para ser mais específico: vamos trabalhar na qualidade e no desenvolvimento sustentável quando quisermos atrair novos membros . Também queria dar uma atenção especial à Tecnologia da Informação e, nesse sentido, conferimos autonomia ao Grupo de Alta Tecnologia, até aí agregado à Comissão Técnica”, diz ele.


Novos eventos e mais membros

Questionado sobre os projetos mais bem sucedidos ou de maior alcance durante o seu mandato, Heinz responde: “O nosso desporto começou a encontrar uma solução adequada para uma nova categoria (Distância Curta) e tanto a Taça do Mundo como a Taça do Mundo de Veteranos foram introduzidas. O colapso da União Soviética e as mudanças políticas em alguns dos países satélites deu-nos a oportunidade de garantir a adesão de novos países membros, apesar de todos eles exigirem muito apoio no tocante ao seu desenvolvimento. Pessoalmente, esta foi a parte mais fascinante do meu mandato como Presidente. Algumas negociações com as autoridades começaram cedo, especialmente no tocante aos estados Bálticos”.

A nova estrutura financeira da IOF foi projetada para ser de baixo custo, incluindo a remoção (por essa altura) dos custos onerosos de tradução. Tinha chegado o momento de renunciar à língua alemã, mas não foi fácil ver a decisão aprovada pelo Congresso, em Filzbach, no ano de 1992. Outras realizações financeiras bem sucedidas tiveram por base os acordos de patrocínio levados a cabo na Suécia e nos Estados Unidos. E o agora estabelecido Secretário-Geral a tempo inteiro, Lennart Levin, foi uma grande ajuda para mim e para as Comissões. As nossas longas chamadas telefónicas de terça-feira de manhã eram sempre construtivas e constituíram o ponto de partida para muitas decisões que vieram a ser tomadas”.

Heinz identifica a ambição da IOF em entrar nos Jogos Olímpicos como o seu maior problema. “Representei a nossa Federação no Comité Olímpico Internacional durante todo o meu tempo no Conselho e acabei por me familiarizar com os procedimentos no seio daquele organismo. O assunto acabou por se revelar muito demorado mas, apesar de terem passado muitos anos desde o início dos meus mandatos como Presidente da IOF, acredito que devemos prosseguir com o trabalho nesse sentido.”


Elevar o perfil da Orientação

Em 1994 Sue Harvey foi eleita Presidente da IOF. Ela tinha trabalhado como Secretária-Geral a tempo parcial a partir da sua casa, na Escócia, de 1983 a 1987, tinha sido eleita para o Conselho da IOF em 1984 e assumira a Vice-Presidência em 1988.

Sue viu a necessidade, naquele momento, de aumentar a visibilidade do desporto se queríamos realmente progredir de forma significativa. “Como Vice-Presidente, eu representava a IOF na Assembleia-Geral da Federação Internacional de Desporto. Aí, para minha surpresa, descobri que a Orientação era em grande parte uma ilustre desconhecida. Resolvi que um dos principais objetivos da minha Presidência seria ajudar a Orientação a virar-se para o exterior e, assim, encontrar o seu lugar no palco dos desportos mundiais”.

Com este objetivo em mente, Sue Harvey teve algum sucesso: "Durante a minha gestão como Presidente, a Orientação foi aceite no programa dos Jogos Mundiais. Visto internacionalmente como um primeiro passo para a eventual inclusão futura no programa olímpico, foram talvez os Jogos Mundiais que impulsionaram os esforços para tornar a Orientação mais mediática. Acredito que esta visibilidade irá ser importante a longo prazo, visando o desenvolvimento futuro do nosso desporto”.


A ambição Olímpica – uma questão complicada

Sue partilha a opinião de Heinz de que a ambição olímpica foi a questão mais difícil de lidar: “Foi sempre uma questão controversa. Alguns eram a favor, outros contra a tentativa de entrar no programa Olímpico. No período anterior aos anos 90, a visão predominante era a de que o desporto muito pouco provavelmente seria admitido e que qualquer esforço seria uma perda de tempo e de energias. Por volta de 1994, tornou-se claro que ficar afastado do mais visível dos movimentos desportivos significaria que a Orientação teria perdido muito da sua credibilidade, mas também que todo o processo de aguardar pelo momento certo teria as suas próprias vantagens. Por isso, na tentativa de elevar o perfil do desporto, vir a integrar o programa olímpico acabou por se tornar parte da nossa política”.

Lennart Levin aposentou-se como Secretário-Geral em 1996. O resultado de um estudo das alternativas levado a cabo por Sue Harvey e pelo Conselho da IOF resultou na criação da presente Secretaria na Finlândia, com Barbro Rönnberg como Secretário-Geral.

O processo de expansão de eventos da IOF, com competições ao nível dos Campeonatos para todos os grupos etários, tinha começado em meados dos anos 80 e continuou em ritmo acelerado durante a presidência de Sue Harvey. É por esta altura que entram em cena duas novas disciplinas: a Orientação em BTT e a Orientação de Precisão.


Nova estrutura de governo

Em 1998 assitiu-se a uma mudança na estrutura de gestão da IOF: O Presidente assumiu a gestão de todas as relações externas, ficando o Vice-Presidente com a tarefa de liderar o trabalho interno do Conselho e as Comissões. Åke Jacobson era o Vice-Presidente na altura. “Tudo isto significou que, quando me tornei Presidente em 2004, tinha tido já um longo período para influenciar os destinos da IOF no tocante ao seu desenvolvimento e quanto à Orientação como um desporto verdadeiramente global. A nossa visão atual da IOF começara a surgir já em 1996 e, passo a passo, foi-se clarificando nos seus contornos durante os anos seguintes. Quando assumi a Presidência, decidimos tentar formular uma estratégia mais consistente para o futuro, a qual viria a configurar-se nas Estratégias Diretivas 2006-2012, aprovadas pela Assembleia-Geral em 2006”, diz ele.


Tornar visível o invisível

Uma das etapas mais importantes do desenvolvimento da Orientação na Presidência de Åke foi a sua visibilidade: “A Orientação sempre teve um elevado valor de atratividade para os seus participantes. O desafio era agora tornar o desporto igualmente interessante e atrativo para os espectadores. Ao longo dos últimos anos temos feito esforços consideráveis no sentido de alcançar esse objetivo. O primeiro passo e o mais importante consistiu em trazer os nossos eventos para perto das pessoas. Termos uma prova de Orientação no centro da cidade de Kaohsiung ou no Complexo Olímpico de Sydney era algo inimaginável há alguns anos - hoje é mais uma regra do que a exceção.

Passo a passo as ferramentas foram sendo desenvolvidas e progressivamente ligadas num conceito de apresentação - a criação duma base profissional -, o que torna possível mostrar ao vivo, na Arena ou na TV, o que está a acontecer na 'floresta'. Igualmente importante para tornar a Orientação mais atrativa para os espectadores tem sido o desenvolvimento de diferentes disciplinas. Tornar visível o invisível tem sido um dos mais importantes passos do desenvolvimento da Orientação nos últimos anos.”


Mais membros – maiores desafios

O número de países da IOF tem aumentado de forma constante ao longo dos anos e isso tem, em si mesmo, acarretado novos e maiores desafios: “A IOF conta agora com 73 países-membros, alguns dos quais praticam a modalidade há 100 anos, outros que apenas agora começam a dar os primeiros passos. A faixa de desenvolvimento é enorme. É um desafio constante para o Conselho da IOF encontrar um equilíbrio razoável, que atenda às expectativas das Federações já estabelecidas e àquelas que se encontram num grau mais baixo de desenvolvimento. Um exemplo típico é o de garantir a possibilidade a todos de competirem nos Campeonatos do Mundo e, ao mesmo tempo, ser capaz de assegurar que os melhores orientistas do mundo têm a oportunidade de lutar pelas medalhas. Sinto que conseguimos manter este equilíbrio até agora, apesar da necessidade de acrescentarmos qualidade aos eventos, tornando-os particularmente atrativos, especialmente quando transmitido ao vivo na televisão. É aqui que reside o verdadeiro desafio”.

Sentimos uma enorme necessidade de melhorar a qualidade e a qualidade custa dinheiro. Quem tem grandes ambições corre o risco de ver reduzido o número de federações que podem lidar com as exigências em termos de experiência e de recursos financeiros. Algumas federações podem satisfazer as nossas ambições, outras não podem. Mas todos temos de perceber e aceitar que esta é ainda a nossa realidade”, diz Åke.

O que nos irão revelar os próximos 50 anos? Não há dúvidas de que a IOF vai continuar a precisar do tipo de liderança e de visibilidade excecionais que estes primeiros seis presidentes trouxeram à sua governação. Tem agora a palavra Brian Porteous [ver Entrevista conduzida por Lenka Klimplova AQUI].


Texto baseado no artigo de Clive Allen “The First Fifty Years, Six Presidents Reflect”, em “Orienteering World 2011” pág. 06 a 11. Tradução de Ana Macedo e João Pedro Macedo.


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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