quinta-feira, 13 de setembro de 2012

MATT OGDEN: "EUFORIA!"




Quinta-feira, 12 de Julho de 2012. Na floresta de Izra, Matt Ogden dava à Nova Zelândia a sua primeira medalha de ouro num Campeonato do Mundo de Juniores de Orientação Pedestre. Dois meses volvidos, é ele o convidado de honra do Orientovar. A viver ainda em estado de euforia, aqui se dispõe a partilhar memórias, sonhos e projetos de forma simples, direta e que permitem conhecer melhor o atleta e a pessoa.


Orientovar – Com o primeiro lugar na final de Distância Média do JWOC 2012, alcançou um resultado histórico para a Orientação da Nova Zelândia. Esta medalha de ouro estava nos seus planos?

Matt Ogden - Sim, um resultado verdadeiramente histórico! Foi a primeira medalha de sempre da Nova Zelândia e mesmo a primeira medalha dum atleta masculino não-europeu no JWOC. Esses dois factos históricos convencem-me mais ainda de que a medalha de ouro era praticamente impossível. Eu tinha este sonho de ser Campeão do Mundo, embora bem enterrado no fundo dos meus mais íntimos desejos. Apenas o trazia levemente à superfície quando treinar se tornava mais difícil e era necessário encontrar uma fonte extra de motivação. Daí que, cruzar a linha de chegada naquela posição foi uma sensação absolutamente surreal.

Orientovar – Como é que aparece ligado à Orientação?

Matt Ogden – Conheci a Orientação ainda na Escola Primária, com 10 anos de idade. O meu companheiro e parceiro de treino, Gene Beveridge, perguntou-me se eu estaria interessado em experimentar a modalidade. Porque não? Fiz Orientação durante os estudos do Secundário e era o pai de Gene que nos levava, viajando por este vasto país duma ponta à outra para competir nas provas do Desporto Escolar. Nos meus primeiros Nacionais de Clubes alcancei o título de Distância Média e ganhei igualmente o título nacional de Desporto Escolar no meu último ano do Secundário. Foi este o pontapé de saída na minha carreira de orientista e quando competi pela primeia vez na Europa, em 2010, nunca mais parei.


Assegurei-me que estaria a 100% no JWOC

Orientovar – Regressando à Eslováquia e ao JWOC, como é que se prepara uma medalha de ouro?

Matt Ogden - A minha preparação teve o seu início há dois anos, quando competi no meu primeiro JWOC, na Dinamarca. Terminei no 70º lugar na prova de Sprint, fui o 84º na prova de Distância Longa e consegui a qualificação para a final de Distância Média, onde terminei na 46ª posição. Uma das minhas recordações mais fortes vem da Final, numa altura em que estava a ser ultrapassado pelo Gustav Bergmann. Foi aí que me apercebi, verdadeiramente, de qual a velocidade necessária para estar perto dum lugar de topo na Orientação. Depois de um período de formação sólida, regressei ao JWOC, que no ano passado teve lugar na Polónia. Penso que tive uma boa prestação na prova de Distância Média, onde consegui o 15º lugar (fui 30º na prova de Distância Longa e 21º no Sprint). Após o JWOC viajei um pouco e participei nos 5 Dias da Croácia e na OOCup. A OOCup acabou mesmo por ser o evento mais divertido em que alguma vez participei. A prova foi incrivelmente bem organizada e os terrenos eram do outro mundo!

A verdade é que a final de Distância Média deste ano, na Eslováquia, teve lugar num terreno bastante semelhante (talvez não fosse uma coincidência). Este ano assegurei-me que estaria a 100% no JWOC. Cheguei à Eslováquia três semanas antes da competição para que pudesse adaptar-me totalmente ao clima e aos terrenos, enquanto ao mesmo tempo ía recuperando do “jet lag”. Treinei imenso com dois colegas australianos, alimentei-me bem e preveni-me no tocante a lesões. Quando me coloquei nas partidas para a primeira prova, posso considerar que estava 100% preparado.


Sabia que tinha feito tudo para uma prova perfeita”

Orientovar – Quais as imagens mais fortes que guarda desse dia? Acordou de manhã e disse para si mesmo: “vamos ao ouro”?

Matt Ogden – Penso que não há nenhum orientista que acorde de manhã e diga “vamos ao ouro”. É aí que reside a beleza da Orientação. O vencedor é aquele que consegue esquecer o resultado e focar-se inteiramente na sua técnica. Eu tinha dormido bem nessa noite e sentia-me muito calmo e relaxado a caminho das partidas. Mantive, em cada prova do JWOC, uma rotina que voltei a executar uma vez mais antes da corrida. Uma emoção que eu não esperava sentir era uma certa tristeza. Esta iria ser a minha última corrida no JWOC a título individual, embora isso também me deixasse bastante animado pois sabia que esta era a minha última oportunidade de fazer algo de especial no escalão júnior. Todo o trabalho árduo, todo o sofrimento, todos os momentos de treino vieram à superfície pouco antes da prova começar. O habitual “dá cá mais cinco” com o meu treinador e lá ia eu a caminho das partidas.

A imagem mais forte do dia é, definitivamente, o apoio da claque neo-zelandesa vinda da Arena a meio e no final do percurso. Era um apoio que não tinha paralelo e acredito bem que fez a diferença, pelo menos na parte crucial do percurso. Foi o colapso ao transpor a linha de chegada, mas com ele a melhor sensação por saber que tinha dado tudo: fisicamente, tecnicamente e mentalmente. Sabia que tinha feito tudo para uma “prova perfeita”. E quando escutei o comentário "Matt Ogden assumiu a liderança!" só há uma palavra que pode descrever aquilo que senti: Euforia! E é nesse estado de euforia que me mantenho desde que ganhei a medalha de ouro.


Viver na Oceania não é necessariamente uma coisa má”

Orientovar – Em que medida este título pode ser importante para a Orientação na Nova Zelândia?

Matt Ogden – Penso que consegui provar a todos os atletas juniores da Nova Zelândia (e da Austrália) que viver na Oceania não é necessariamente uma coisa má. Temos terrenos fantásticos e, com a atitude certa e a necessária dedicação, tudo é possível. Espero que o meu sucesso possa inspirar uma nova geração de orientistas e os leve a “pegar o touro pelos cornos”. Tenho treinado imenso com os juniores da Nova Zelândia e posso afirmar, garantidamente, que alguns reais talentos estão aí a romper. Aquilo que mais me entristece ao nível do nosso desporto no meio país é a forma como é visto pelos órgãos de comunicação social e pelo público em geral. A Orientação é mais uma “atividade” onde realmente não é necessário ser hábil. Quero acreditar que esta minha vitória num Campeonato do Mundo irá fazer com que as pessoas comecem a perceber a verdadeira essência da Orientação e o quão difícil ela realmente é. Esperemos que, desta forma, a Orientação possa crescer, possa atingir outros patamares e possa tornar-se num desporto conhecido a nível nacional (um pouco de esperança nunca fez mal a ninguém).

Orientovar – Fale-me um pouco de si. Que tipo de pessoa é Matt Ogden?

Matt Ogden – Atualmente estudo Engenharia Mecânica na Universidade de Auckland. Vivo a cerca de 40 minutos da Universidade daí que acabe por dispender muito do meu tempo diário só na condução. Penso que se um dia vier a abandonar a Orientação darei um excelente condutor de limusina ou motorista de táxi. Eu adora comida, qualquer tipo de comida, desde que seja muita. Também gosto muito dos tempos de absoluto lazer, sentado no sofá a jogar a minha PS3, a ver um filme ou a rir com o Family Guy! Na verdade não são muitas as coisas que eu detesto, já que acredito que o mais importante é ter uma visão positiva sobre o máximo de coisas possível! No futuro espero mudar-me para a Suécia; bom, isso é cada vez mais uma realidade. Em 2013 terminarei os meus estudos e por isso espero ser um engenheiro mecânico qualificado, com 21 anos de idade, a viver o sonho europeu (é pelo menos isso que eu espero!).


É muito bom termos a Taça do Mundo na Nova Zelândia”

Orientovar – Tem algum ídolo na Orientação? O que é que ele (ou ela) tem que você não tem?

Matt Ogden – Admiro todos os orientistas de renome, como Gueorgiou, Hubmann ou Lundanes, mas na verdade não tenho um ídolo. Gostei muito do que o Edgars Bertuks disse [numa Entrevista ao Portuguese Orienteering Blog e ao Orientovar] acerca de ser o ídolo de si próprio. Penso que, em muitos aspetos, isso também é verdade no meu caso.

Orientovar – No próximo ano, a Taça do Mundo terá início no seu país. A jogar em casa, que hipóteses julga ter de alcançar um bom resultado?

Matt Ogden – É muito bom termos a Taça do Mundo na Nova Zelândia. Já é tempo de os atletas europeus sofrerem às mãos do “jet lag” e do cansaço da viagem! Esta será a minha primeira prova no escalão sénior e por isso não coloco grandes expectativas em termos de resultados. O meu enfoque, uma vez mais, recairá sobre o desempenho técnico e físico. Penso que os atletas com mais experiência irão conseguir grandes resultados, especialmente o Ross Morrison, que é praticamente imbatível nos seus próprios terrenos (o local da terceira e última prova da Taça do Mundo).


Os meus objetivos reais são algo que eu consigo controlar”

Orientovar – Falando acerca dos seus objetivos, Lizzie Ingham, atleta do mês de Setembro de 2012 da Federação Internacional de Orientação, pretende "ser o primeiro kiwi no pódio dum WOC". O Matt acha-se capaz de quebrar o sonho dela?

Matt Ogden – (risos) Na verdade não tenciono quebrar o sonho de ninguém. O meu sonho era ser Campeão do Mundo de Juniores e, de alguma forma, ele concretizou-se. Vai levar alguns meses até que esta euforia assente, para que eu possa voltar a concentrar-me e comece a pensar no maior sonho de todos. Mas imagino que possa ser, realmente, algo do género. Mas não será esse o meu objetivo na mesma medida em que o foi no JWOC. Os sonhos são apenas uma fonte de motivação para mim, os meus objetivos reais são algo que eu consigo controlar. O mais consistente objetivo que tive ao longo da minha carreira de orientista foi o de melhorar permanentemente a minha técnica e é nisso que continuarei focado nos próximos anos. Nunca participei num WOC e por isso não faço ideia daquilo que me poderá esperar. Mas sempre ouvi dizer que é um milhão de vezes mais difícil que qualquer JWOC.

Quanto a Lizzie, uma pessoa ou um grupo que poderá quebrar o sonho dela é a Federação Internacional de Orientação. Uma das razões pelas quais a Nova Zelândia tem crescido tanto nos últimos anos prende-se com o facto dos nossos atletas, após a sua participação num WOC, voltarem para casa e trazerem com eles o grande objetivo de melhorar o seu nível de competição. Se as alterações que se preconizam para o WOC no futuro forem avante, então teremos menos atletas a competir e isso será tremendamente prejudicial para a Orientação na Nova Zelândia. Na minha opinião, estão a olhar para o problema de forma errada. Em vez de pensarem em como mudar o WOC para o tornar mais mediático aos olhos do telespectador, deveriam realmente pensar em como mudar a televisão para fazer do WOC um evento-espetáculo.


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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