segunda-feira, 17 de setembro de 2012

EMILY BENHAM: "A PROVA CERTA, NO DIA CERTO"




Abriu a sua participação no Campeonato do Mundo de Orientação em BTT com um resultado histórico. Emily Benham, a nossa convidade de hoje, fala-nos desta modalidade tão especial, dos desafios que encerra, dos projetos de futuro. E também duma medalha de prata que, afinal, não representou mais do que “um trabalho bem feito”.


Orientovar - Sei que começou por fazer Orientação Pedestre aos 11 anos de idade e só mais tarde surgiu a Orientação em BTT. Como é que isso aconteceu?

Emily Benham - Comecei a praticar Orientação em BTT quando fiz 18 anos, e comecei porque durante o inverno de 2006/2007 tinha treinado e corrido demasiado. Senti que precisava de fazer uma pausa, que precisava de fazer algo diferente. Apanhei o comboio às 5 da manhã, fiz duas horas de viagem, fui de bicicleta para a prova, corri numa “chocalateira” com protetor de corrente e depois fui para casa. Fiquei em sexto lugar numa prova em que participaram Helen Winskill, Janine Inman, Karen Poole e Heather Monro. Devo ter ficado cerca de 10 minutos atrás delas, mas a verdade é que adorei. Adorei a velocidade de navegação e os diferentes desafios que esta disciplina apresenta. E tive a sorte de ser selecionada para ir a Itália logo na minha primeira prova.

Orientovar - O que é que vê de tão especial nesta modalidade?

Emily Benham – Sobretudo a combinação de competências mentais, físicas, técnicas e de... reparação de bicicletas! Na Orientação em BTT precisamos de ser rápidos e de ter a capacidade de dominar a máquina de acordo com as exigências – quer seja nas subidas ou descidas íngremes ou em terrenos repletos de raízes e pedras. Quando nos movimentamos demasiado rápido, os cruzamentos de caminhos surgem muito mais depressa e, por esse motivo, as tomadas de decisão têm que ser objetivas. Depois há o desafio de ter de ser capaz de reparar uma bicicleta no calor da prova, com a frequência cardíaca a rondar as 190 pulsações por minuto, à medida que vamos sendo tomados pelo pavor de sermos obrigados a desistir.


Não há segredo algum”

Orientovar - Este ano, em Veszprém, conquistou uma medalha histórica para si e para a Orientação em BTT na Grã-Bretanha. Como viveu esses momentos únicos?

Emily Benham - A primeira coisa que senti sobre mim foi essa carga enorme de ter terminado a prova com uma vantagem de dois minutos e, por isso, sabia que tinha feito uma boa prova. Segui a minha rotina pós-corrida, acalmei-me e esperei pelo resultado final. Depois voltei para o alojamento e comi. Não fiz nada de especial pois tinha outras provas em que para pensar. Sempre imaginei que ao ganhar uma medalha me iria sentir de forma diferente e mais especial. Mas, na realidade, a única sensação foi a dum trabalho bem feito e de dever cumprido.

Orientovar – Mas foi uma grande conquista, sobretudo após duas épocas de relativo “eclipse”. Qual o segredo de chegar, ver e (quase) vencer?

Emily Benham - Penso que os orientistas em Esqui lhe chamam “the love factor”! Confesso que não estava à espera de uma medalha, realmente isso não passava minimamente pela minha cabeça. Os dois meses antes do WOC foram muito agitados e movimentados. Passei um mês a viajar na Escandinávia e depois outro mês na Noruega a fazer mapas. Finalmente estive a treinar atletas de Orientação Pedestre na Escócia, durante duas semanas. Durante o Inverno / Primavera apenas “treinei” quando me apeteceu (quando não estava a chover, o que não era muito frequente!) e só comecei a fazer algum treino para o WOC no início de Junho. Logo, não há segredo algum. Foi a prova certa, no dia certo - embora eu ache que toda a Orientação Pedestre ajudou!


Sou uma sprinter de floresta”

Orientovar - Ganhou a medalha precisamente naquela que é uma distância mal amada por muitos. O Sprint é, realmente, a sua especialidade?

Emily Benham - Sempre gostei de provas de Sprint. Historicamente, sou uma “sprinter de floresta”. Encontro os pontos com muito mais facilidade e tenho uma perceção maior no tocante à natureza deste tipo de provas. Nunca tinha conseguido grandes resultados em sprints urbanos e por isso pensei que, na Hungria, as coisas só poderiam correr melhor. O Sprint é uma prova do “tudo-ou-nada”. Temos que nos comprometer a 110% em cada opção e ter a certeza da nossa navegação durante todo o percurso. Não há momentos de abrandamento, em que aquilo que nos é pedido é apenas pedalar rapidamente. Nunca podemos deixar de raciocinar. Estou certa que isso faz com que um simples erro represente a perda dum número significativo de posições, mas se fizermos as coisas como deve ser o Sprint recompensa-nos sempre.

Orientovar – E que apreciação faz, dum modo geral, destes Mundiais na Hungria?

Emily Benham – Bom, o Campeonato Mundial na Hungria terminou e normalmente, por esta altura, teríamos já um bom número de comentários sobre as áreas da organização, ou os mapas, ou os transportes. O WOC este ano passou sem qualquer reparo e consigo ver nisso um sinal de que os organizadores fizeram um trabalho fantástico, tornando este no melhor WOC a que me foi dado assistir até hoje. A “aldeia olímpica” funcionou bastante bem e a pizzaria do outro lado da estrada foi o ponto de encontro ideal para dar de comer aos atletas famintos! Os mapas eram excelentes e os percursos revelaram-se muito bem planeados. As áreas foram escolhidas com o intuito de dar aos atletas uma faixa de terreno para competir, o que acrescentou uma dimensão extra à semana de provas. Mesmo as zonas de quarentena foram de curta duração e bastante toleráveis. Os boletins foram publicados com a devida antecedência e até os procedimentos administrativos se revelaram simples. Esteve muito bem toda a equipa (quando pensam em organizar o próximo?!).


A direção que a Orientação em BTT está a seguir agrada-me”

Orientovar - Globalmente, como avalia a evolução da modalidade? O que achou das mais recentes alterações às regras, nomeadamente no que ao transitar fora dos trilhos diz respeito?

Emily Benham - Confesso que a direção que a Orientação em BTT está a seguir agrada-me. Gostaria de ver mais provas “frente-a-frente” em Distâncias Longas, mas isto implica uma organização muito apurada (o sistema húngaro de 2009/2010 funcionou muito bem). E também gostaria de ver mais provas de Estafetas de Sprint Mistas, à semelhança do que sucede com a Orientação em Esqui. A Orientação em BTT tem que se desenvolver no sentido de cativar mais espectadores e as corridas “frente-a-frente” ou as Estafetas de Sprint poderão representar um passo em frente nessse sentido. Respondendo à segunda parte da questão, gosto das provas onde há uma opção de atalho através da floresta. Os mapas têm que ser bem feitos, especialmente em áreas onde é possível atalhar. Não creio que possa funcionar em todas as áreas, mas na Hungria certamente funcionou como um desafio extra à navegação. Orientação em BTT feita a azimute, logo Orientação adequada para o ponto de controlo.

Gostaria no entanto de dizer que, do meu ponto de vista, o uso de dispositivos pessoais de GPS deverá ser permitido (até neste aspeto os húngaros estiveram bem ao permitirem dispositivos sem um mapa - finalmente um passo em frente). Toda a gente sabe que levaria muito mais tempo a programar um GPS para o ponto onde se pretendia seguir do que se usasse o cérebro para lá chegar. Aceito que o GPS deva ser declarado antes do início da prova, com a identificação da marca e modelo respetivo. Os organizadores poderiam efectuar controlos aleatórios (não no início) sobre aqueles que têm capacidade de mapa para verificar que não existem mapas de Orientação sobre o dispositivo, e a indicação “GPS” poderia ser escrita logo após o nome do atleta para identificar aqueles que fizeram a prova com o seu dispositivo . Eu uso o GPS para registar o meu ritmo cardíaco e os dados referentes à velocidade de progressão ao longo da prova, mas não disponho de informações sobre eventos importantes, o que seria interessante para fins de treino. Muitos atletas possuem agora os seus próprios GPS, mas não consigo imaginar que alguém pudesse ganhar muito tempo a fazer batota, uma vez que seria óbvio para os outros concorrentes. Um atleta pedalando e a olhar apenas para o relógio?... hum!


Não vou cometer os mesmos erros de anos anteriores”

Orientovar - Sei que está a viver na Suécia e este é um dos países que se começa agora a virar para a Orientação em BTT. Poderemos vir a ter uma Suécia tão forte na Orientação em BTT como o é na Orientação Pedestre?

Emily Benham - A equipa sueca já tem dois atletas muito fortes - a Cecilia Thomasson e o Linus Karlsson Mood -, ambos com potencial para obter grandes resultados. A Orientação em BTT na Suécia está a crescer, mas penso que vai demorar alguns anos até que atinja o nível da Orientação em BTT da Finlândia, por exemplo, em termos de atletas de elite. Já começam a surgir eventos todos os meses, principalmente nas proximidades de Estocolmo e até quatro horas de distância da capital, pelo que são muitas as oportunidades que se vão oferecendo àqueles que pretendem experimentar a modalidade. Mas vai levar algum tempo até que os resultados possam aparecer.

Orientovar - E agora? Já começou a trabalhar para o ouro em 2013?

Emily Benham - Por agora estou resolver a minha vida, aqui na Suécia. Aprendendo a conhecer novos trilhos, procurando amar raízes e pedras! Não vou cometer os mesmos erros de anos anteriores, aquilo que fiz este ano é suficiente para mim. Convenceram-me a ir à Estónia e estou ansiosa por experimentar os mapas e terrenos, visando já a preparação para o WOC do próximo ano. Quanto ao ouro em 2013 - vamos ter que aguardar para ver, mas nunca podemos esperar medalhas. De momento, o meu principal objetivo centra-se em não terminar em último lugar numa prova de Orientação em Esqui, neste inverno que se avizinha!!! :-)


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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