sábado, 1 de setembro de 2012

BRIAN PORTEOUS: "PRECISAMOS DE TRABALHAR A SÉRIO E TAMBÉM PRECISAMOS DE UM POUCO DE SORTE"




Chama-se Brian Porteous, é escocês e acaba de ser eleito para a Presidência da Federação Internacional de Orientação no próximo biénio. Lenka Klimplova entrevistou-o para a Revista da Federação Checa e disso deu nota o World of O, no passado dia 16 de Agosto, em artigo que pode ser lido em http://news.worldofo.com/2012/08/16/we-need-luck-–-and-hard-work/. E que, pelo seu interesse, com a devida vénia aqui se reproduz.


Como correu hoje a primeira reunião do Conselho da IOF sob a sua presidência?

Brian Porteous (B. P.) - Foi muito bom. Temos uma boa equipa, uma equipa muito boa mesmo. Discutimos apenas alguns aspetos gerais. Temos uma maneira um pouco diferente de abordar o trabalho. Todos os membros do Conselho têm que trabalhar muito a sério e assumir responsabilidades, daí que todos eles estejam numa fase de estudo acerca do que querem fazer. Só na próxima reunião em Itália, em Outubro, é que iremos juntar os planos de cada um e analisá-los.

Verdadeiramente, qual foi a sua motivação para se candidatar à Presidência da IOF?

B. P. - Boa pergunta (risos). Eu acho que, em primeiro lugar, a Orientação é o meu desporto. Estou envolvido desde 1968, o que perfaz um longo tempo. E tenho estado envolvido em muita coisa na Orientação, como todos nós aliás, nós que acabamos por fazer todos os trabalhos. Por exemplo, este ano supervisionei os Campeonatos de Sprint da Escócia. E também gostei muito do meu envolvimento na IOF, eu que sou absolutamente apaixonado pela difusão do nosso desporto em todo o mundo. Penso que temos agora uma boa oportunidade de dar um grande passo em frente – chama-se televisão e talvez eu não viva o tempo suficiente para ver a Orientação nos Jogos Olímpicos, mas gostaria de imenso de ver chegado esse dia.


A Federação Espanhola está a fazer um excelente trabalho em muitos países novos”

Tocou em muitos pontos os quais eu gostaria de detalhar. Em primeiro lugar, espalhar a Orientação. Em que outros países acha que a IOF pode espalhar a Orientação?

B. P. - Bem, vamos falar apenas dos Continentes. A América do Sul é uma área em grande crescimento. A Federação Espanhola está a fazer um excelente trabalho em muitos países novos e alguns desses países encontram-se precisamente aí. Assim, a América do Sul é uma grande oportunidade e o facto dos Jogos Mundiais se irem realizar na Colômbia, no próximo ano é, do meu ponto de vista, deveras importante. Depois temos a Ásia, todas as partes da Ásia. Temos membros que já estiveram envolvidos no passado - Singapura, Malásia e assim por diante, mas que não estão tão ativos agora. Precisamos de ter mais atividade nestes países. E por fim a Europa. Temos um ou dois países que não são membros ainda, casos da Albânia e talvez do Luxemburgo. O Luxemburgo tem algumas belas florestas. Mas poderia citar também o Vaticano, Andorra, o Mónaco (risos). Falando a sério, há países, mesmo na Europa, que podem ter Orientação - e o trabalho que o Grupo da Europa do Sudeste, liderado pela Sérvia, está a fazer, é um exemplo muito importante em termos de desenvolvimento regional. Esse tipo de ação - sub-grupos de trabalho regionais, naturalmente menores mas com novos países - é um modelo muito bom em termos de desenvolvimento pelo facto de não haver grandes distâncias envolvidas.

Outro tema: o Secretariado da IOF. A Secretaria está fixada em Helsínquia desde 1990. Está projetada alguma mudança?

B. P. - Não. Decidimos que a Secretaria se mantivesse fixada em Helsínquia nos próximos dois anos. Há algumas grandes vantagens em mantermo-nos ali porque a Confederação dos Desportos da Finlândia fornece uma enorme assistência, nomeadamente ao nível da acomodação, de forma que há algumas vantagens reais. Presentemente, o Conselho não planeia qualquer mudança a este propósito.


Um grande projeto que irei liderar nos próximos dois anos tem a ver com a televisão”

E sobre o projeto "WOC in the Future"? Na Assembleia Geral da IOF, a qual das propostas se mostrou favorável?

B. P. - Bem, o que tenho a dizer acerca disso é que tivemos uma boa discussão e ficou demonstrado como a democracia pode funcionar no seio da IOF. É muito simples – é tarefa do Conselho, agora, implementar aquilo que a Assembleia Geral ditou. Um grande projeto que irei liderar nos próximos dois anos tem a ver com a televisão. Precisamos desenvolver o produto televisivo e que o mesmo possa ser transmitido de forma mais ampla. Isso pode muito bem fazer-nos voltar de novo a algumas destas questões. Não tenho qualquer problema em relação à proposta nórdica (para a organização, alternadamente, dum WOC “de floresta” e dum WOC “urbano”), embora tema que uma mudança tão radical possa de certa forma condicionar esta tentativa de darmos um importante passo em frente no que toca à televisão. Seria melhor termos mudanças articuladas com a televisão, em vez de tentarmos vender um produto que poderá vir a mudar muito em breve.

Encara então a possibilidade de, no futuro, podermos vir a ter uma divisão dos Campeonatos em “urbano” e “de floresta”...

B. P. - Eu não disse isso. O que eu disse foi que isso pode acontecer, mas deveremos considerar igualmente outras mudanças. Eu não diria que temos este ou aquele caminho a percorrer mas acho que precisamos de ser muito mais sensíveis à importância do objetivo televisão. É assim que podemos deixar de ser uma modalidade quase em segredo para sermos algo que as pessoas conhecem, que é visto em todo o mundo.


O princípio fundamental é o de que todas as nações possam ter assento na final com pelo menos um atleta”

As séries qualificatórias de Distância Média e de Distância Longa deixarão de existir...

B. P. - ... Posso dar-lhe uma notícia escaldante (risos). Na reunião do Conselho, esta manhã, concordámos em avançar nesse sentido o mais prontamente possível. O programa para o WOC 2013, na Finlândia, está definido e por isso não haverá mudanças, até porque os acordos com a televisão finlandesa estão igualmente definidos. Mas quanto à Itália, em 2014 – depois de discutirmos esta situação com a Federação Italiana -, é provável que cancelemos as qualificatórias e possamos introduzir, com o consentimento da FISO, a Estafeta mista. Pedimos à Comissão de Orientação Pedestre para avançar com as primeiras sugestões sobre a forma como as qualificações poderão ser implementadas, para que possamos ir em frente com este projeto o mais rápido que pudermos. Alguns princípios sobre as qualificações foram aprovados na Assembleia Geral. O princípio fundamental é o de que todas as nações possam ter assento na final com pelo menos um atleta - o que é um grande passo em frente! Não iremos, pois, fazer uso do ranking mundial, o que tornaria as coisas muito difíceis para os países de fora da Europa. O passo seguinte será olhar para os desempenhos nos anteriores Campeonatos do Mundo, mas não abordámos a questão em detalhe e essa é agora uma das nossas prioridades. Temos que encontrar um sistema que não dificulte muito a vida aos países em fase de crescimento. Há uma enorme quantidade de trabalho já feito pelo grupo de trabalho do projeto "WOC in the Future" o qual irá ser comunicado à Comissão de Orientação Pedestre pelo que contamos, até ao final deste ano, termos definido um modelo que possa vir a funcionar já nos Mundiais de Itália e da Grã-Bretanha, em 2015.

Os Jogos Olímpicos estão prestes a começar. O que vai fazer durante os Jogos? Vai estar em Londres?

B. P. - Sim, irei lá estar por um curto período já que os Presidentes de todas as Federações Internacionais foram convidados. Um dos meus filhos tem bilhetes para a Final dos 200 metros Masculinos e vai levar com ele o seu velho pai, por isso vou lá estar para ver o Usain Bolt (risos). Também irei aproveitar para continuar a construir a minha rede de contactos no seio dos organismos mundiais ligados ao desporto, como é o caso do Comité Olímpico Internacional.


Não teremos pela frente um caminho fácil para chegarmos aos Jogos Olímpicos”

Que possibilidades reais tem a Orientação de vir a entrar no programa dos Jogos Olímpicos? Mas não gostaria de ouvir uma resposta política...

B. P. - (Risos) Eu já respondi a isso antes. Espero viver o suficiente para ver a Orientação nos Jogos Olímpicos. Sabemos formalmente que não será nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2014, em Sochi, uma vez que o programa já se encontra fechado. Esta é uma ambição a longo prazo, no entanto temos ouvido esta semana algumas palavrinhas sobre o programa dos Jogos Olímpicos de Inverno e agora temos como alvo os Jogos de 2022. Ainda não podemos estar muito otimistas, até porque o programa dos Jogos de Inverno é muito pequeno. A forma como as coisas funcionam fazem com que, quanto maior for o número de modalidades, menor seja a soma de dinheiro que cada uma delas encaixa. Portanto, não teremos pela frente um caminho fácil para chegarmos aos Jogos Olímpicos e esta é outra área de trabalho na qual nos devemos concentrar muito bem. Vai realizar-se em São Petersburgo, no próximo mês de Maio, um congresso da família olímpica chamado “Sport Accord” e que constitui um alvo para começarmos a construir uma campanha baseada na Orientação em Esqui com vista a futuros Jogos Olímpicos de Inverno. Já quanto à Orientação Pedestre, as coisas são bem mais difíceis. Sabemos que o Râguebi e o Golfe - grandes e bem financiados desportos – vão estrear-se no Rio de Janeiro em 2016. Devemos ter como finalidade última poder vir a integrar a lista de modalidades também do programa dos Jogos de Verão, mas para isso teremos de ser muito mais visíveis em todos os países à volta do mundo. Em Londres, as vinte e seis modalidades irão dividir entre si um bolo mínimo de 375 milhões de dólares. Pergunta-me se eu gostaria que algum desse dinheiro pudesse vir parar à Orientação? É claro que gostaria!

Agora algumas perguntas sobre a Taça do Mundo. Que sentido vê na Taça do Mundo? Está prevista alguma alteração na sua estrutura?

B. P. - De momento não. A estrutura de Taça do Mundo está definida e estamos claramente satisfeitos com o facto de podermos assistir, por exemplo, à Taça do Mundo fora da Europa, na Nova Zelândia, em Janeiro do próximo ano. Isso é bom. E voltamos ao assunto da televisão de que falámos antes e às alterações no programa dos Campeonatos do Mundo: podemos assistir a algumas alterações nos programas, mas elas irão depender do dinheiro que possuirmos para as pôr em prática. Em última análise, quero ver-nos com uma espécie de modelo técnico de televisão que possa ligar-se a qualquer prova da Taça do Mundo onde quer que ela se realize, em que os custos sejam reduzidos para as Federações de acolhimento e onde seja salvaguardada a qualidade da programação. Seria ótimo termos Taças do Mundo de inverno e de verão, em Orientação Pedestre e em Orientação em Esqui - a longo prazo também na Orientação em BTT -, tudo isto com cobertura televisiva. Mas isso é muito mais uma ambição a longo prazo. Acho que podemos chegar lá. Fundamental é atingirmos um patamar de transmissão com ampla cobertura televisiva como aquilo que se verificou na República Checa ou na Noruega. Precisamos de dar esse passo, mas precisamos de o fazer sem nunca perder de vista uma qualidade consistente.


As nossas equipas têm de ser muito mais prudentes na forma como planeiam os gastos”

E quanto à flexibilidade de escolha dos organizadores das provas da Taça do Mundo? Ouvi alguns rumores que, se uma federação quer organizar uma prova da Taça do Mundo daqui a dois anos, não é possível porque o programa está já configurado para uma série de anos à frente...

B. P. - Acho que, de momento, o problema reside apenas no facto de o programa ter de ser planeado com bastante antecedência. Qualquer mudança num curto espaço de tempo torna tudo muito complicado.

Se repararmos naquilo que se passa com as provas clássicas de Esqui, o planeamento das provas da Taça do Mundo é feito em Março para o ano seguinte. Por que é que não podemos ser mais flexíveis na Orientação?

B. P. - É fácil fazer isso no Esqui porque há muito dinheiro na modalidade e as Federações têm os recursos necessários por detrás das respetivas equipas. Nós não temos isso. As nossas equipas têm de ser muito mais prudentes na forma como planeiam os gastos com as provas da Taça do Mundo e dos Jogos Mundiais, e é por isso que precisamos de prever as coisas com maior antecedência. Uma vez mais, como disse, essa é uma realidade que poderá vir a alterar-se, mas essas mudanças terão de ser acompanhadas dum novo paradigma para a televisão e, por inerência, para os apoios de que dependemos.


Nunca fechamos as portas a boas sugestões”

Diz que é tudo uma questão de dinheiro - mas se um patrocinador está disposto a pagar os custos duma corrida extra da Taça do Mundo, por que motivo não poderia ser implementada?

B. P. - Bem, nós nunca fechamos as portas a boas sugestões, mas ainda assim mantenho que devemos ter um programa muito claro, estabelecido com a antecedência possível no momento.

E o que é para si a "antecedência possível"?

B. P. - Eu penso que devemos saber numa Taça do Mundo aquilo que a próxima Taça do Mundo nos reserva. Sabe, nós temos um ciclo de quatro anos para os Campeonatos do Mundo, o qual é necessário por causa do trabalho envolvido. Talvez pudesse imaginar uma estrutura muito diferente se tivéssemos uma plataforma consistente como a Eurosport, por exemplo, mas ainda estamos muito longe disso.


Precisamos de trabalhar a sério e também precisamos de um pouco de sorte”

Mencionou a TV por inúmeras vezes nesta entrevista. E a minha pergunta é que existem conselheiros IOF / supervisores nas várias áreas, mas não há nenhum supervisor que controle a qualidade da transmissão televisiva. Quais são os seus planos nesta área?

B. P. - Sim, estamos atentos a isso. Estamos a trabalhar informalmente com um grupo de países-chave como a República Checa, Noruega, Finlândia e Suécia, mas o Conselho já concordou em formalizar e definir um grupo de trabalho para podermos ter resultados dentro de um ano. Temos algum tempo agora, pois sabemos que no Campeonato Mundial do próximo ano haverá garantia de qualidade por parte da televisão da Finlândia. Não sabemos ainda se teremos televisão de qualidade, na forma como a queremos, por parte da Itália ou da Grã-Bretanha. Ambas as organizações estão dispostas a fazer o necessário, mas precisam da nossa ajuda. Assim, vamos arrancar em conjunto com esse projeto e temos de encontrar os meios de controlar a qualidade. Ainda não sabemos exatamente como fazê-lo - é esse o papel do grupo de trabalho. Temos ouvido com muita atenção os comentários do Karel [Karel Jonak é produtor e diretor da TV checa e uma das pessoas responsáveis pela condução das emissões televisivas de Orientação] -, ele chegou a falar com as Comissões da IOF e do Conselho em Janeiro. Este é agora um projeto urgente e importante.

E a última pergunta é sobre dinheiro. Acha que haverá uma diminuição das taxas impostas aos organizadores de competições da IOF no futuro próximo?

B. P. - Há duas maneiras de responder a essa pergunta - sim e não... ou talvez. Bem, na verdade três formas (risos). O meu objetivo é facilitar a vida aos países que pretendam sediar grandes eventos - então a resposta é, fundamentalmente, sim. Mas não podemos fazê-lo agora, visto ser esta a única fonte de rendimento da nossa modalidade. Acho que devemos tentar tornar mais barata a organização de grandes eventos, devemos tentar chegar ao ponto em que podemos trazer a televisão e toda a logística técnica ao encontro das Federações que os organizem. A Grã-Bretanha, por exemplo, colocou um orçamento significativo para a TV no caderno de encargos para o Campeonato do Mundo de 2015. Se pudéssemos centralizar essa questão, porque tínhamos um patrocinador central que nos permitisse fazê-lo, então seria um grande passo. Isto são coisas que estão ligadas umas às outras. Um grande número de cidades em todo o mundo estão disponíveis para acolher eventos desportivos e têm agora empresas promotoras para esse fim. Eu não gostaria de tornar as organizações mais baratas e, de seguida, ver gorar-se a oportunidade de os países obterem dinheiro das suas próprias estruturas nacionais. Eu preferiria manter alguns custos, nomeadamente com a televisão, lidando com estes através de patrocínios centralizados. É desta forma que funcionam uma série de outras modalidades – a Federação Mundial de Curling, por exemplo, cuja estrutura conheço muito bem – e que levam as suas próprias equipas de produção de TV aos grandes eventos. Podíamos ver isto a funcionar também no caso da Orientação. Não será fácil chegar a esse ponto e precisaríamos de ter um pouco de sorte em conseguir um grande patrocinador com visão à escala europeia ou mundial, mas estamos a trabalhar nisso - e eu sou sempre otimista. O modelo é bastante simples - basta olhar para Viessmann, no Biatlo, por exemplo. Como referi a propósito dos Jogos Olímpicos, seria um erro estar demasiado optimista nesta fase, mas sabemos aquilo que temos de fazer. Precisamos de trabalhar a sério e também precisamos de um pouco de sorte. Tenho trabalhado muito junto de patrocinadores e lembro-me bem quando estava a montar a Maratona de Glasgow, em 1982. Andava numa luta para conseguir o dinheiro necessário para financiá-la quando, de repente, alguém nos chamou da fábrica de cereais e nos disse: “Estamos à procura de algo para patrocinar”. Eu disse: “quanto dinheiro?” - “£ 25.000” - e eu disse "que tal uma Maratona?" - Eles disseram “ok, vamos a isso" (risos). É isso! Precisamos de sorte, além de muito trabalho no duro!

[Foto de Pirjo Valjanen]


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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