quinta-feira, 27 de setembro de 2012

A ORIENTAÇÃO EM PORTUGAL: UMA ABORDAGEM ANALÍTICA




por Luís Santos


Qualquer análise efetuada à evolução do número de praticantes de uma modalidade desportiva não pode ser dissociada do enquadramento económico envolvente, nomeadamente contando com os efeitos do momento de crise vivida actualmente em Portugal.

É em função de uma realidade de quebra do número de praticantes na Orientação, única nos 14 anos de história com quadros competitivos organizados, e à luz do enquadramento atual, que se explica sucintamente como evoluiu a modalidade, em que ponto se encontra e como se perspectiva o futuro.


Participantes por evento

Desde o início da Taça de Portugal em 1998/1999 até 2005/2006 o número médio de participantes foi sempre subindo, passando de 408 participantes médios por evento para 635. Até 2003/2004 nunca houve um evento que ultrapassasse os 1000 participantes, e o Portugal’O’Meeting 2007 superava, logo no início de 2007, os 1500. Desde 2006/2007 até à época atual (2012) o número de participantes médio está estável com números médios por evento acima dos 750, o que de alguma forma contradiz a leitura de quebra atual de participantes. No entanto, o número médio de 2012 não é comparável com os das épocas anteriores uma vez que a época ainda decorre e os eventos anuais com maior número de participantes já decorreram, pelo que os 832 de número médio irão ser significativamente reduzidos com os 3 eventos de nível 1 que ainda não estão contabilizados.

Objetivamente, a estabilidade do número de participantes por evento deve-se à crescente capacidade nacional de cativar cada vez mais praticantes estrangeiros nos eventos de Inverno (principalmente no Portugal O’Meeting).

Isto mostra que Portugal se posicionou muito bem comparativamente com Espanha, pois há uma década atrás, a grande maioria dos turistas/praticantes de Inverno da Orientação optava por visitar Espanha, tendo essa tendência sido gradualmente invertida, com Portugal a ter atualmente uma óptima imagem organizativa a nível internacional, capital esse que deve ser salvaguardado e potenciado nos próximos anos.

Da leitura do quadro 1 decorre também que, desde 2008, não há nenhum evento de Taça de Portugal de nível 1 com menos de 400 participantes, o que confere à Orientação uma dimensão social que poucas modalidades desportivas (ainda mais não olímpica) alcançam.

Em relação aos eventos com maior número de participantes, desde 2007 que o evento com maior número de participantes é constantemente o Portugal O’Meeting sendo a edição de 2011 a mais participada de sempre, com 1941 participantes.

O panorama atual na Orientação em BTT é bastante mais sombrio que na Orientação Pedestre. Ao contrário da Orientação Pedestre, na variante de BTT, o número de estrangeiros nunca assumiu um peso tão significativo como na pedestre, nunca excedendo a centena em nenhum evento a contar para a Taça de Portugal. Para além disso há caraterísticas na Orientação em BTT que tornam os efeitos da crise muito mais evidentes como as dificuldades logísticas quer no transporte de bicicletas quer no acesso de jovens à participação em eventos.

Entre 1998 e 2002 os números médios de participantes rondavam a centena nunca tendo nenhum evento ultrapassado a centena e meia de participantes. A partir de 2003/2004 e até 2006/2007 o crescimento da modalidade foi de tal ordem que, nesta última época, o evento com menor número de participantes ficou acima dos 250. A IOF chegou a comprovar que o WRE de Sesimbra na época de 2005/2006 terá sido o evento com maior número de participantes a nível mundial na Orientação em BTT (532).

No entanto esse crescimento não foi sustentável e a partir de 2007/2008 iniciou-se um processo de regressão nocivo para a modalidade. Entre 2007 e 2010, os números de participantes estabilizaram cerca de 20% abaixo dos anos aúreos de 2005 e 2006, mas a alteração da época desportiva para o ano civil e o agravar da crise em Portugal fizeram com que 2011 e 2012 tenham sido anos muito complicados com números médios mais baixos, a rondar agora os 50% daquele que era o número de participantes de 2005 a 2007.

No gráfico 1 é possível constatar a realidade expressa nos quadros 1 e 2. A linha vermelha mostra o número de participantes nacionais nas provas de Taça de Portugal pedestre, demonstrando que a estabilidade acima dos 750 participantes médios só é obtida à custa da participação de estrangeiros. A linha azul mostra que o número de estrangeiros não tem impacto visível no total de participantes de Orientação em BTT.

De referir que, até 2006 o número de estrangeiros por evento nunca atingia os 100 participantes, mas desde 2007 esse número encontra-se sempre acima dos 200. Isto traduz-se pelo impacto que um único evento (Portugal O’Meeting) tem na média anual, com o número de estrangeiros nesse evento a exceder o número de portugueses em 3 vezes, quando até 2006, o número de portugueses era quase sempre superior ao de estrangeiros.

Apesar do que nos mostra a linha vermelha, a redução de participantes portugueses em eventos de Taça de Portugal é compensada com um cada vez maior número de eventos locais e com a transformação dos eventos regionais em eventos de Taça de Portugal de nível 2, fazendo com que estes últimos incrementassem significativamente o número de participantes médio dos referidos eventos.


Participantes federados


Numa ótica diferente é possível analisar o número de federados com base nos participantes federados integrados nos rankings da Taça de Portugal. Esta imagem dá-nos uma perspectiva mais fiável do interesse competitivo da modalidade e da sua evolução ao longo dos anos por agrupamentos etários.

Apesar disso, as linhas gerais das conclusões são similares às tiradas anteriormente quer na vertente pedestre quer na Orientação em BTT. A leitura dos quadros deve ter em atenção duas caraterísticas que desvirtuam de alguma forma a análise e que se referem à época de 2009/2010 e à época 2012. Como se referem números absolutos (e não médias), a época 2009/2010 durou cerca de 18 meses para criar a transição para época de ano civil, o que implica que tenha uma maior área temporal para inscrição de novos praticantes tornando assim os seus números mais elevados do que nas outras épocas em análise. Pelo contrário, a época 2012 ainda não terminou e, como tal, os números irão ainda aumentar não podendo ser tiradas conclusões dos números de 2012.

Na orientação pedestre, as principais ilações mostram que o número de praticantes praticamente duplicou entre 2000 e 2006. Depois de uma ligeira quebra de 2006 a 2009, os quadros competitivos voltaram a fazer aumentar o interesse dos praticantes (já em enquadramento de crise) conseguindo ultrapassar em 2 épocas sucessivas (2009/2010 e 2011) os 900 praticantes.

Se o crescimento na orientação pedestre nos primeiros anos do século tinha sido notável (duplicação de participantes), na Orientação em BTT foi ainda mais impressionante com os números de 2006/2007 a mais que triplicar os números de 2001/2002 (427 comparando com 129). Infelizmente a estabilidade visível na Orientação Pedestre não foi conquistada na vertente de orientação em BTT com uma quebra significativa logo na época seguinte. O número elevado de 2009/2010 torna difícil tirar ilações das épocas mais recentes mas é visível que a quebra nesta ótica de análise pelo número de federados não é tão dramática como no número de participantes por evento, o que nos leva a outra conclusão: os praticantes regulares de Orientação em BTT continuam presentes mas fazem agora um número menor de provas por época.


Sugestões para o futuro

Tanto na Orientação Pedestre como na Orientação em BTT há duas traves mestras essenciais: agradar aos praticantes atuais motivando-os a continuar e trazer novos praticantes para a modalidade.

- Para fidelizar e manter os atuais praticantes é imprescindível manter os elevados padrões de qualidade atuais. Os percursos, os mapas, a escolha de áreas, o nível das arenas, o interesse competitivo do quadro de competições, são traves mestras essenciais para manter o interesse dos atuais praticantes. É importante que os clubes organizadores não baixem os padrões de qualidade dos seus eventos, consequência essa que será difícil de evitar, dada a redução do número de praticantes de alguns eventos e a maior escassez de apoios (principalmente autárquicos), o que faz reduzir a capacidade financeira dos organizadores reduzindo a sua margem para apostas de maior risco (e normalmente mais apelativas para os participantes).

- Para cativar novos praticantes a variável essencial é a divulgação. Foram dados passos significativos nos últimos anos, com o mais visível de todos a assentar na reportagem regular da TV2 Desporto, mas é possível fazer mais e melhor cativando novos praticantes. Curiosamente o panorama atual nada tem a ver com o de há 10 anos atrás. Nessa altura, a força de crescimento da modalidade assentava essencialmente no número de adultos que entrava na modalidade por via dos escalões abertos enquanto atualmente é através dos jovens que há mais entradas de praticantes na modalidade. Isto não é um sinal negativo, pois este sinal positivo nos jovens é muito benéfico mas é estranho que se tenha perdido a capacidade de cativar novos praticantes adultos. Há que analisar com detalhe todos os sinais que nos conferem os praticantes esporádicos de escalões abertos para tentar inverter esse sinal negativo da atualidade.

1 comentário:

Nuno José disse...

Seria possível incluir os dados da desvia padrão onde exista média?Fiquei curioso.