sábado, 18 de agosto de 2012

SÉRGIO BRITO: "ENSINAR É TUDO DE BOM!"




Sérgio Gonçalves Brito é, reconhecidamente, um dos maiores nomes da Orientação brasileira e um dos pioneiros da modalidade nesse enorme País. Ao Orientovar fala com emoção da forma como vive e sente a nossa modalidade.


Orientovar - Como conheceu a Orientação e quais os primeiros passos na modalidade?

Sérgio Brito - Primeiro, agradeço os elogios, sempre agradáveis de ouvir mas exagerados por conta da amizade e cortesia do Joaquim Margarido. Conheci a Orientação em 1979, como cadete da Academia Militar das Agulhas Negras - AMAN, a escola de formação dos oficiais do Exército Brasileiro. O novo desporto ajudava a desenvolver importantes habilidades ao profissional militar, como leitura de mapas (cartas), uso da bússola, raciocínio rápido, decisão, condição física e, naquela época, muita rusticidade.

Nada mais inteligente na instrução militar do que incluir a Orientação como prática obrigatória. Atleta apenas esforçado de voleibol, basquetebol, futebol e tiro, eu sofria nas corridas e precisava treinar muito para ser mediano, jamais um atleta de corrida. Por isso, vencer o primeiro percurso no I Campeonato de Orientação do Corpo de Cadetes da AMAN foi o impulso para me dedicar ao novo desporto, que valorizava mais o raciocínio do que a corrida, além de reconhecer sua importância na atividade profissional militar.


Buscar os desafios da próxima rota é o melhor do nosso desporto”

Orientovar - Desse autêntico desbravar do caminho, há três décadas atrás, que momentos guarda de forma mais grata?

Sérgio Brito - Difícil escolher. Cada ponto de controle é único, inebriante. Mas buscar os desafios da próxima rota é o melhor do nosso desporto e porque não dizer, da própria vida. Guardo com carinho a lembrança de todos os percursos, mesmo os de resultados ruins.
  • Praticar Orientação é sempre bom;
  • Ter participado como atleta e técnico das equipas de todas as Unidades Militares que servi até Tenente-Coronel, na Brigada Paraquedista, foi um adorável desafio;
  • Ser técnico sempre foi muito bom! Dos companheiros de quartel, dos meus filhos, das crianças e jovens nos clubes, do Exército e do Brasil no CISM em 1992 (melhor resultado brasileiro individual e por equipe até hoje);
  • Mapear é um prazer. Sozinho ou com amigos, assino mais de trinta mapas, incluindo a primeira carta de Orientação do Uruguai. São como filhos queridos;
  • Trabalhar na Orientação de Precisão é uma obrigação social que emociona nos sorrisos dos atletas em cadeira de rodas, nas suas pequenas grandes vitórias;
  • Coordenar a Orientação nos 5º Jogos Mundiais Militares do CISM (44º WMOC) foi a maior responsabilidade;
  • Mas o maior orgulho, sem dúvida, foi ser instrutor de Orientação na Escola de Educação Física do Exército – EsEFEx, ao longo de oito anos. Ensinar é tudo de bom!


A Orientação faz parte da nossa natureza”

Orientovar - A Orientação brasileira não cessa de crescer e a sua presença foi, seguramente, marcante em muitos momentos deste longo processo. Quer citar alguns daqueles que são, no seu entender, momentos-chave desta lindíssima história?

Sérgio Brito - O grande desafio foi difundir a Orientação para a população civil, até então restrito aos quartéis e alguns poucos parentes de militares; Como instrutor da EsEFEx, organizei o I Encontro Brasileiro de Orientadores* (Rio, 1989), um ciclo estudos de qualificação para regular e divulgar o nosso desporto, oficializar legalmente clubes, criar federações regionais e futuramente a confederação nacional; Participei na fundação de oito clubes por todo o Brasil, da Federação de Orientação do Rio de Janeiro e, sinceramente, chorei no dia da fundação da Confederação Brasileira de Orientação - CBO. Não por estar ausente, impossibilitado por obrigações profissionais, mas pela realização de um sonho: Levar a Orientação ao grande público civil de forma organizada. Para chegarmos à CBO foi um longo e árduo percurso de incontáveis entusiastas, inclusive do então Presidente da Federação Portuguesa de Orientação, o amigo Higino Esteves. Ter colocado alguns prismas neste imenso percurso enche-me de orgulho.
Obs: *Orientadores era o termo usado no Brasil para praticantes da Orientação, hoje orientistas.

Orientovar - Até que ponto se sente envolvido com a modalidade?

Sérgio Brito - Totalmente! É como o lema do nosso clube: “A Orientação faz parte da nossa natureza”.


Não conseguimos reunir adeptos”

Orientovar - Abriria aqui um parêntesis para abordar a Orientação de Precisão, afinal o motivo que nos pôs em contacto pela primeira vez, há meia dúzia de meses atrás. Como é que vai de saúde a Orientação de Precisão no Brasil?

Sérgio Brito - Infelizmente, quase inerte. É com tristeza que faço esta constatação porque acredito no seu potencial para melhorar a qualidade de vida dos praticantes. Muitas palestras seguidas de prática para pessoas com mobilidade reduzida e professores, em instituições públicas e privadas, nos eventos de Orientação regionais e da CBO e... não conseguimos reunir adeptos. Sem querer procurar culpados, os motivos do lento processo de desenvolvimento são muitos: Os próprios portadores de necessidades especiais e suas famílias que, culturalmente, preferem não se expor. É muito difícil encontrar pessoas em cadeira de rodas passeando com familiares nos parques, mais difícil ainda dispostos a aprender e praticar um novo exercício. Ficam em casa com os jogos eletrónicos, leitura e computador.

Aqui no Rio de Janeiro, incluímos a Orientação de Precisão nalgumas etapas do campeonato regional de forma pioneira (tão bem divulgado pelo Orientovar e que seremos eternamente agradecidos), entretanto mesmo com resultados estimulantes em duas etapas, nenhum atleta se inscreveu na nossa última prova; As instituições governamentais não ajudam: Transporte e paramédicos são dificílimos de conseguir. Enfim, temos uma importante modalidade desportiva de inclusão social mas que é portadora de necessidades especiais.


Tem pedal à vista”

Orientovar - A minha anterior entrevistada, Barbara Bomfim, interrogava-se porque motivo a Orientação em BTT pura e simplesmente não existe no Brasil. O Sérgio sabe a resposta?

Sérgio Brito - Embora tenhamos notícias de alguns eventos de Orientação em BTT no Brasil, creio que ainda não surgiu um orientista-ciclista entusiasmado para incrementar esta modalidade. Precisará ser um grande empreendedor porque, inexplicavelmente, o nosso país não tem tradição de atletas de ciclismo. Mas tem pedal à vista! Em abril deste ano, a CBO nomeou um Diretor de Orientação de Orientação em BTT, o que deve impulsionar a modalidade. Já estou preparando minha “magrela”, afinal para um corredor ruim, pedalar se orientando pode ser a solução.

Orientovar - Esteve recentemente em Portugal, tendo participado na nossa mais importante competição, o Portugal O' Meeting e também no XIII Meeting de Orientação do Centro e ainda numa prova de Estafetas pontuável para o nosso recém-criado Circuito Nacional. Quer relatar-me as emoções desta, ainda que curta, seguramente frutuosa experiência?

Sérgio Brito - Sensacional! Fiquei muito bem impressionado com a qualidade da organização, comprovado com o prestígio dos principais atletas europeus presentes. A temporada de Orientação começa em Portugal e, com toda certeza, voltarei sempre que possível. Sem contar o carinho dos portugueses connosco: Coisa de família, parentes que moram longe mas nunca se separaram.


Um oceano de dificuldades”

Orientovar - O que é que encontrou em Portugal e que poderia, facilmente, ser “transportado” para o Brasil e vir a enriquecer a qualidade das vossas organizações?

Sérgio Brito - Modestamente, avançamos muito na organização dos nossos grandes eventos. Mas estamos sempre com a máquina fotográfica na mão para adaptar as soluções de organização que só a prática constante dos organizadores pode alcançar. A nossa maior dificuldade é o intercâmbio (eu diria um oceano de dificuldades). A participação regular e em curto período de atletas e organizadores dos principais países orientistas leva a comparações constantes, gerando um cuidado perfeccionista. A participação brasileira ainda é pequena. Pior, raros organizadores de eventos.

Orientovar - Depois de Portugal esteve em Múrcia, numa prova internacional igualmente importante e onde fez parte do Juri Técnico da prova. Como viu o convite de José Angel Nieto Poblete e que recordações guarda dessa experiência?

Sérgio Brito - Foi uma surpresa maravilhosa. Um grande orgulho integrar o Juri Técnico numa prova internacional. Um reconhecimento aos cursos de qualificação e alguma experiência que só recebi na Europa e antes no Uruguai. No Brasil, a legislação da CBO para constituir o Juri Técnico é diferente e eu nunca tive o privilégio de ajudar.


Acompanhando e interagindo”

Orientovar - A propósito de José Angel Nieto Poblete, gostaria de saber a sua opinião acerca do trabalho que a Federação Espanhola está a desenvolver na América Latina? O Brasil parece estar um bocadinho à margem deste labor ou é impressão minha?

Sérgio Brito - À margem mas acompanhando e interagindo. Prova disso são os diversos mapeamentos, cursos e estágios ministrados por brasileiros em toda América Latina e os Campeonatos Sul-Americanos de Orientação (o XV CSAO acontecerá este ano, de 14 a 18 Nov, http://www.cbo.org.br/sistema/competicoes/documentos/Boletin%20Nr2_XV_SAOC2012_WRE_Espanol.pdf). O brilhante trabalho da Federação Espanhola, e em especial do dedicado José Nieto, leva com toda sua experiência no nosso desporto a vantagem da língua. Assim como a FPO contribuiu e ainda contribui com o Brasil.

Orientovar - Em 2014, o Brasil receberá o Campeonato do Mundo de Veteranos de Orientação Pedestre. A esta distância, que perspectivas se abrem em relação ao evento?

Sérgio Brito - Posso afirmar que será um evento imperdível. A CBO está trabalhando com esmero desde a candidatura. Queremos receber os atletas do mundo inteiro com uma competição de altíssima qualidade técnica e logística. A Comissão Organizadora é qualificada e experiente.


Ultrapassámos os 13 mil atletas filiados”

Orientovar - No seu entender, para onde caminha a Orientação brasileira?

Sérgio Brito - Fizemos um grande esforço para massificar o desporto (talvez com um método único no mundo: número nacional fixo) e recentemente ultrapassámos os 13 mil atletas filiados. Ainda é pouco para os padrões europeus, mas um bom número para a realidade brasileira. Sem contar os milhares de atletas não filiados. Creio que devemos continuar buscando a quantidade, porém já podemos investir mais na busca por atletas com performances interessantes. Isto já começa a acontecer com a maior participação em eventos internacionais. A minha sugestão é a contratação de técnicos europeus experientes, que possam otimizar as potencialidades dos nossos atletas.

Orientovar - E em termos pessoais? Até onde irá a sua caminhada na Orientação?

Sérgio Brito - Estou feliz por continuar correndo atrás de prismas com um mapa na mão, mapeio quando dá vontade e vou ensinando orientação para as crianças. Lembra? Ensinar é tudo de bom!


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

1 comentário:

Paulo Roberto Medeiros Machado disse...

E um prazer saber que o cel Sergio Brito continua se dedicando a orientacao. Tive o prazer de ser seu comandado no 4 G A C nos anos 80 onde foi meu cmt e instrutor. Militar de carater forte e excelente profissional. Muito moldou o meu carater. Com sua sinceridade e profissionalismo. Lembro-me com muito carinho e respeito deste companheiro de caserna. Se ler este comentario receba o meu abraco e saiba que continuo te admirando.1 Sgt
Refo Paulo Roberto Medeiros Machado. zampiermachado@gmail.com