segunda-feira, 20 de agosto de 2012

EDGARS BERTUKS: "SOU O ÍDOLO DE MIM PRÓPRIO"



Quando, no final do ano, o "World of O" lançar uma nova edição do "The Orienteering Achievement of…", Edgars Bertuks será o principal candidato à vitória. Duas medalhas, uma das quais de ouro, nos recentes Campeonatos do Mundo WOC 2012 fizeram recair as atenções sobre este letão, nascido em Aluksne no primeiro dia do já distante ano de 1985. Aqui e agora ele fala ao Orientovar, falando-nos um pouco de si e deste sonho que está a viver.


Orientovar - Que façanha notável, a sua medalha de ouro na final da Distância Média do Campeonato do Mundo de Orientação, em Lausanne. Permita-me felicitá-lo e, já agora, deixe-me perguntar-lhe se este título estava nos seus planos?

Edgars Bertuks - Obrigado! Foi um momento verdadeiramente fantástico. Ganhar uma medalha de ouro num WOC sempre foi um dos meus maiores sonhos. Nos momentos em que isto parecia impossível, viver no sonho deu-me aquela força necessária para avançar e não desistir, para tentar mais uma vez. Se olharmos mais objetivamente, a minha grande meta estava definida para o WOC 2013 e para uma medalha de ouro na Distância Longa. Portanto, o objetivo este ano limitava-se a repetir o meu recorde pessoal, que foi um 9º lugar no WOC 2008.

Orientovar - Estou certo que analisou dezenas de vezes a sua prova. Onde residiu o segredo da vitória? Consegue definir algum momento verdadeiramente decisivo durante o percurso?

Edgars Bertuks - Não há segredos por detrás da vitória. Eu poderia referir até os mais pequenos detalhes do meu desempenho, mas tenho quase a certeza que não iria funcionar para nenhum outro atleta. Para vencer é preciso sermos nós próprios. Para mim, tudo se resumiu a permanecer focado, a estar presente, a estar consciente - "estar aqui e agora". Olhando em frente e fazendo o que sei melhor. Detalhando, encarei o percurso como um todo e só quando parti é que mudei para o “modo de corrida”. Tinha feito um acordo comigo próprio de que em prova era para "dar tudo". E fiz um bom negócio!


Tudo é possível”

Orientovar - Há alguns meses atrás entrevistei Thierry Gueorgiou. Nessa entrevista, ele disse que “é no inverno que ganhamos as medalhas do verão.” Como se prepara uma medalha de ouro?

Edgars Bertuks - Eu só posso concordar com o Thierry. Comecei a minha preparação para esta temporada por volta de Outubro de 2011. A verdade é que não estava bem de todo, já que não podia correr muito por causa da minha lesão no calcanhar que tinha trazido do WOC de França e, por isso, virei-me particularmente para a natação. No início deste ano, fui a Portugal sem saber se seria capaz de correr o suficiente, mas senti-me muito melhor e, por isso, continuei com os Campos de Treino em Espanha e passei o resto do inverno no Reino Unido. "É no inverno que ganhamos as medalhas do verão" também se tornou um dos meus lemas favoritos.

Orientovar - Que significado tem para si este título?

Edgars Bertuks - Para mim é sobretudo a prova de que tudo é possível enquanto eu estiver confiante e acreditar realmente nas minhas possibilidades. Esta conquista mostra também a outros orientistas (especialmente aos mais jovens) que vale a pena, que um dia eles vão estar no meu lugar, mesmo que possamos não ter todos os benefícios que as "grandes" nações da Orientação têm. Eu já disse isto um monte de vezes, mas nunca é demais, acho eu. Espero sinceramente que possamos obter todos os benefícios possíveis como resultado desta vitória, para fazer da orientação um desporto ainda mais popular na Letónia e torná-lo mais familiar para as massas.


O que tu dás é o que obténs”

Orientovar - Olhando para a medalha de ouro na Distância Média, quase nos esquecemos do 3º lugar na Distância Longa. Por favor, diga-me algo sobre este outro desempenho espectacular.

Edgars Bertuks – Em termos pessoais, essa segunda medalha tem quase tanta importância como uma medalha de ouro, porque depois de ganhar a medalha de ouro a minha grande dúvida era se seria capaz de repetir ou mesmo chegar perto das medalhas novamente no próximo ano (é verdade, eu sentia que o meu trabalho estava terminado). Por isso, ganhar uma medalha de bronze na Distância Longa foi uma prova para todos e, mais importante, para mim mesmo, de que o ouro na Média não fora uma mera questão de sorte.

Orientovar - Como atleta, certamente, Edgars Bertuks é um nome com créditos firmados na Orientação. E como pessoa? Como se define? Quais são as coisas que mais aprecia na vida? E aquelas que mais odeia?

Edgars Bertuks - Há poucas coisas em que eu acredito. O mais importante seria - “o que tu dás é o que obténs”. É algo que tenho sempre em mente. Isso não significa que possa ter passado por momentos particularmente difíceis na minha vida, mas a maioria das vezes eu sei porque é que as coisas acontecem. A minha família é para mim o mais importante e aprecio tudo o que faz por mim e todos os momentos que consigo passar com ela. Mantenho-me livre de emoções negativas, como o ódio. Tento livrar-me delas em menos de vinte segundos. Essa é uma grande habilidade que aprendi com a minha noiva Kristine.


Enquanto eu tiver ídolos só posso ficar em segundo lugar”

Orientovar - É supersticioso? Nas corridas leva consigo algum amuleto?

Edgars Bertuks – Não, na verdade não sou supersticioso. Existem alguns rituais (as minhas próprias meditações) que eu sigo, e tenho um colar com âmbar do Mar Báltico. Mas não lhe atribuo nenhum super-poder.

Orientovar - Há algum atleta que vê como ídolo neste momento?

Edgars Bertuks - Tive alguns durante a minha carreira, mas o que eu também percebi foi que, enquanto eu tiver ídolos, só posso ficar em segundo lugar. Isto pode soar de forma arrogante, mas eu sou o ídolo de mim próprio.


O meu grande objetivo mantém-se”

Orientovar - Ser Campeão do Mundo aumenta as suas responsabilidades. Quais são os seus projetos para o futuro?

Edgars Bertuks - Para este ano tinha planeado participar na final da Taça do Mundo, mas os meus planos mudaram pois sinto que preciso de dar ao meu corpo um pouco de descanso das corridas. Irei para Vuokatti para um curto campo de treino para o WOC 2013 e participarei nos Campeonatos da Finlândia logo a seguir. E claro que vou encontrar-me com os meus treinadores e os meus companheiros de clube. Vou-me preparar e tentar qualificar-me para os Europeus de Cross Country no final do outono. A longo prazo - o meu grande objetivo mantém-se e, por isso, vou fazer o meu melhor para conquistar a medalha de ouro na Distância Longa em Vuokatti.

Orientovar - E o futuro da Orientação? O nosso desporto está a caminhar na direção certa?

Edgars Bertuks – Apenas recentemente me debrucei sobre esta questão e confesso que fico feliz por o Campeonato do Mundo não ser dividido em duas partes. Pessoalmente, qualquer mudança será bem vinda desde que haja lugar para verdadeira floresta na Orientação. Ao mesmo tempo, estou ciente de que vou ter de me concentrar nas provas de Sprint porque, no futuro, estas vão tornar-se cada vez mais populares. Se eu tivesse o poder de decidir, traria grandes eventos de Orientação para países como a Letónia, a fim de torná-la mais e mais reconhecida para mais e mais pessoas. O único problema é que não temos tantos recursos quanto isso para organizar verdadeiras competições de nível superior e qualquer ajuda das grandes nações da Orientação seria muito apreciada.

Saiba mais sobre Edgars Bertuks, consultando a sua webpage em http://www.bertuks.com/en/

[Foto gentilmente cedida por Jan Kocbach, www.worldofo.com]


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

Sem comentários: