sábado, 16 de junho de 2012

WTOC 2012 CAMPEONATO DO MUNDO DE ORIENTAÇÃO DE PRECISÃO: DIÁRIO (V)




Junho, 08. Terrível noite mal dormida. O vento e a chuva, misturei-os nos meus sonhos com mapas e bússolas. E gigantescos sacos de plástico para abrigar o Ricardo.


1. Terrível noite mal dormida. O vento e a chuva, misturei-os nos meus sonhos com mapas e bússolas. E gigantescos sacos de plástico para abrigar o Ricardo. Saio para tomar o pequeno almoço e os meus piores receios parece que não se confirmam. O tempo está menos agreste do que supunha e, pelo menos por agora, não chove. Só o vento sopra rijo, colocando uma nota de invernia nesta segunda quinta-feira de Junho, às portas do Verão.

2. O Campeonato do Mundo de Orientação de Precisão vai começar. Deito uma última olhadela às nossas coisas, confirmo os horários. O Ricardo será dos primeiros a partir, quando forem 10h09; eu sairei ás 10h44. Temos um longo dia pela frente.

3. A viagem até Tentsmuir faz-se na companhia da comitiva húngara. Viajamos em silêncio. E em silêncio, após a nossa chegada, remetemo-nos ao aconchego duma recatada tenda, recheada de japoneses e americanos. Olhamos para a bandeira da IOF sacudida pelo vento. Tentamos adivinhar-lhe a direção. Alguém trouxe uma bússola?

4. Confirmo junto de Anne Braggins que o Ricardo terá assistência na deslocação durante a prova. A Diretora destes Mundiais recebe-me com um sorriso e, à sua curiosidade, respondo que já ganhámos a nossa medalha e que a quantidade de ensinamentos que vamos recolhendo dia após dia vale ouro. Fala-me do seu “staff”, dos muitos indisponíveis e de estarem a trabalhar nos mínimos. Têm um “núcleo duro” de aproximadamente dez pessoas, outras dez bastante próximas e são, no total, 72 pessoas a trabalhar nesta organização, 50 das quais aqui a tempo inteiro. Percebo nisto um recado. Portugal prepara os Europeus de Orientação de Precisão em 2014 e não podemos adiar por muito mais tempo o início dos trabalhos.

5. Viajo em mini-autocarro para as partidas. Quase a chegar, um sobressalto: esqueci-me do cartão de controlo na mochila. É irlandês o meu companheiro de viagem e logo me tranquiliza ao dizer que não serei o único a esquecê-lo e que a organização deverá ter nas partidas cartões a mais. Com efeito!...

6. Acerto os dois primeiros pontos cronometrados e gasto 15 segundos apenas. Os Mundiais não poderiam ter começado da melhor forma. À medida que a prova vai decorrendo, começo a perceber que todos os atletas têm uma estratégia própria de abordagem aos vários pontos. Marit Wiskell não se afasta muito do ponto de observação, Lauri Kontkanen já circula mais em torno dos pontos, tal como Ivo Tilsjar. Remo Madella quase dá a volta à floresta para aferir a sua resposta no ponto 4. Quanto a mim, não sei se fique, não sei se vá. Vou!

7. A prova corre-me bem. Embora sinta como certas as respostas dadas em apenas três ou quatro pontos, tenho a impressão que talvez tenha conseguido uma percentagem superior a cinquenta por cento de respostas certas. Não erro por muito. Dos 22 pontos que compunham este primeiro dia de provas, acerto 11. Na verdade acerto 10, já que houve um ponto anulado pela organização e no qual tinha dado uma resposta acertada. Não me sinto frustrado, foi uma bela experiência, embora a minha aspiração de ficar entre os 50 melhores do mundo tenha ido completamente por água abaixo.

8. O Ricardo está inconsolável. Depois da excelente prestação no Model Event, os sete pontos conseguidos deixam-no “à beira de um ataque de nervos”. Digo-lhe que, tal como eu, tem tudo a aprender e nada a provar. Mas compreendo a sua desilusão, o seu desconsolo. Diz-me que amanhã vai vingar este resultado menos conseguido. Mas como? Fez aquilo que sabia e amanhã vai voltar a fazê-lo, que isto da Orientação de Precisão não se aprende dum dia para o outro.

9. Aproveitamos o início da tarde para conhecer um pedacinho de Dundee. É uma cidade pequenina e simpática, com um bom par de ruas comerciais apenas para peões, museus, galerias e um espaço comercial de excelência, bem no centro da cidade. Uma rede de transportes públicos adaptados deixam-me muito agradavelmente surpreendido. Entre as obras que revolvem toda a frente ribeirinha do Tay, descortina-se, imponente, o RRS Discovery, o primeiro navio a ser construído especificamente para pesquisa científica. É nele que embarcamos e, sob as ordens do Capitão Scott, atingimos o Pólo Sul nesse distante 17 de Janeiro de 1912.

10. O Trail-O Meeting de hoje é marcado pelo anúncio dum ponto anulado, precisamente o primeiro. A queixa partiu da Finlândia e baseou-se na incorreta colocação das balizas. Na Orientação de Precisão tudo tem de bater certo e, por sinal, havia ali uma árvore "fora do sítio". Mas os aspetos negativos não se quedam por aqui. Considera-se que o mapa não está à altura dum Campeonato do Mundo, o traçador de percursos ofereceu vários pontos de “bingo”, como lhes chamaria Lauri Kontkanen, e os atletas paralímpicos viram as suas provas muito dificultadas, não apenas pela desadequada assistência de jovens sem preparação, mas também pela deficiente colocação dos pontos em termos da sua visibilidade. No segundo dia as coisas viriam a correr bastante melhor, mas a nódoa nos Campeonatos, essa, não há como a fazer desaparecer.

11. Deitadas para trás das costas as agruras do primeiro dia de provas, o jantar faz-se à mesa do conjunto da Polónia. Ágata Ludwiczak é uma atleta paralímpica que tem uma queixa. A assistência dada às pessoas em cadeira de rodas, por parte de miúdos com 14 e 15 anos, não foi a melhor. É claro que esta foi uma experiência fantástica para os jovens, é óbvio que eles constituiram um recurso de valor inquestionável para a organização. Mas se a desvantagem de progredir em cadeira de rodas é um facto, aqui tornou-se mais evidente ainda. Ágata opina que deveriam ter participado no Model Event e, em cadeira de rodas, deveriam ter feito a prova empurrando-se uns aos outros. A ideia é brilhante e, em situações semelhantes, devemos pô-la em prática em Portugal. Para a Ágata, o ideal é que os jovens sejam substituídos por militares: Altos, fortes, fardados!



Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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