terça-feira, 12 de junho de 2012

WTOC 2012 CAMPEONATO DO MUNDO DE ORIENTAÇÃO DE PRECISÃO: DIÁRIO (III)




Junho, 06. Viatura com motorista à porta, um luxo. Antes disso, um pequeno-almoço à inglesa (ou à escocesa) e, ainda antes, uma noite mal dormida, que isto de Mundiais mexe – e de que maneira! - com uma pessoa.

1. Viatura com motorista à porta, um luxo. Antes disso, um pequeno-almoço à inglesa (ou à escocesa) e, ainda antes, uma noite mal dormida, que isto de Mundiais mexe – e de que maneira! - com uma pessoa. Depois este tempo invernoso, cinzentão, molhado. Apesar de não ser uma companhia bem vinda, a chuva parece estar aí para ficar. O que se pode fazer? Camperdown Park é um paraíso de verde, tornado opaco por esta cortina de chuva miudinha que persiste em cair. Procuro ânimo num café duplo, mas aquilo que me cai em sorte não passa duma sensaborona e morna água tingida, que rapidamente se transforma na mais triste das companhias.

2. As partidas atrasam-se para lá da meia hora. A tão badalada pontualidade britânica parece não fazer escola neste canto das terras de Sua Majestade. Reina o fairplay e só a chuva lá fora parece fazer mossa na disposição de alguns. Encontro Roberta Falda, conversamos. Diz-me que desistiu da competição o ano passado para se dedicar quase em exclusivo ao treino. Confessa que não pode ser treinadora e concorrente ao mesmo tempo. Percebo-a muito bem. Talvez deva analisar a minha própria situação em termos de futuro.

3. O Ricardo acaba de partir e estou preocupado com ele. O terreno está pesado, os atletas em cadeira de rodas não têm assistentes e agora a chuva cai com alguma intensidade. Falta uma boa meia hora para a minha partida. Aproveito para visitar o Jardim Zoológico de Camperdown Park. Não sei o que me espera em sorte e a modorra deste tempo parece estar a mexer comigo. Uma enorme árvore estende os seus braços mortos onde se acotovelam algumas aves de grande porte. De quando em vez, uma cegonha lança o seu grito lúgubre. Poisado na rede, do lado de fora, um melro apregoa um melodioso canto à liberdade.

4. Completo o meu percurso. Derrota ou vitória? Tanto eu como o Ricardo somos aqueles que, à partida, mais temos a ganhar. Assim, como falar em derrota? A verdade, porém, é que da experiência do TempO acabo por retirar muito pouco. Questões operacionais e logísticas à parte (dá para perceber que um percurso destes, com oito estações, implica um número de voluntários a rondar as quatro dezenas), aquilo que retiro é a extraordinária dificuldade em lidar com o tempo. Num terreno com algum detalhe, encontrar uma referência segura é, para o nosso nível, quase como encontrar uma agulha num palheiro. E lá se foi um minuto. O pior é quando o juíz nos avisa que já só temos 15 segundos para concluir a prova e ainda não demos uma resposta sequer.

5. O exemplo anterior corresponde à minha experiência no ponto 1. Pareceu-me ter melhorado no ponto 2 e ter já alguns automatismos a funcionar. Todavia, os pontos 3 e 4 fazem-me perder a fé em Deus ao reconhecer que este é um nível de exigência brutal. Encontrar uma referência segura apenas na última resposta e perceber imediatamente que as duas respostas anteriores estão erradas dá cabo do moral a qualquer um. E perceber, já com metade da prova feita, que as linhas de norte estão na parte superior do mapa, idem, idem, aspas, aspas. O tanto que tenho para aprender!...

6. Troco impressões com o Ricardo. Para ele, a prova de TempO foi uma lição. Desde logo porque lhe dói terrivelmente a mão e reconhece que estamos mal habituados em Portugal em termos da qualidade dos caminhos. Apesar de tudo, gostou muito da experiência, considera ser um óptimo desafio e já só pensa em desenhar um percurso de TempO no Parque da Prelada, uma prova a sério, que obrigue a decidir rapidamente em situações de grande stress. “Muito desafiante”, não se cansa de dizer. Deixo-me contagiar pelo seu entusiasmo. Para o próximo ano temos de montar uma prova de TempO no III Open de Orientação de Precisão do Hospital da Prelada.

7. O Auditório de West Park recebe a Cerimónia de Abertura dos 9º Campeonatos do Mundo de Orientação de Precisão. É uma cerimónia digna, onde todos se sentem e tratam com amizade e carinho. Os sorrisos estampam-se nas caras de todos. Dos japoneses aos suecos, dos russos aos checos e a nós, portugueses. Eu e o Ricardo não nos cansamos de fotografar e de ser fotografados. Vai saber bem recordar mais tarde estes momentos tão especiais, de emoção e felicidade, de orgulho de ser português e de, pela primeira vez, estar a representar o País nesta grande competição.

8. Depois da Croácia, hoje estamos sentados à mesa juntos com a Dinamarca. Falamos da tradição orientista no país, da Maja Alm e da Signe Søes, do Erik Skovgaard Knudsen e da Rikke Kornvig, dessa extraordinária vitória da Estafeta feminina nos Mundiais de BTT de Montalegre e de como a Ida Bobach é tão franzina. E falamos de Futebol, claro. A Dinamarca está no nosso grupo no Europeu e esteve anteriormente em grupos de apuramento para o Europeu e o Mundial. Puxamos todos pela cabeça em busca do histórico de resultados recentes. Tenho que dar a mão à palmatória. A Dinamarca está em vantagem.

9. Søren Saxthorp, o Vice-Campeão do Mundo da Classe Paralímpica em título, está ao meu lado na mesa. Traz com ele a mulher, as duas filhas e ainda uma assistente que o auxilia nalgumas das principais tarefas. Conversamos sobre a Orientação de Precisão em Portugal, falo-lhe do Dia Nacional da Orientação em 2009 e, depois disso, do Circuito de Orientação de Precisão “Todos Diferentes, Todos Iguais” até aos nossos dias. Fica impressionado com o que fizemos, com o que fazemos. Diz-me que a Orientação de Precisão tem muito poucos atletas na Dinamarca, “talvez uns vinte, não muito mais do que isso”. E diz-me que, se estão aqui, é graças a uma Federação Dinamarquesa de Desporto para Pessoas com Deficiência ou algo do género. Um mau cartão de visita para a Federação Dinamarquesa de Orientação!


[Veja aqui as fotos do TempO World Trophy e da Cerimónia de Abertura]


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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