sábado, 23 de junho de 2012

RICARDO PINTO: "SEM EXPERIÊNCIA NÃO HÁ MILAGRES"




O comboio rodava velozmente a caminho de Londres. Naquela manhã cinzenta, chuvosa e fria, deixávamos para trás Dundee, os Campeonatos do Mundo de Orientação de Precisão WTOC 2012 e seis dias riquíssimos em contactos e experiências. Ricardo Pinto foi o meu companheiro nesta aventura inesquecível e um balanço dos Campeonatos impunha-se. Conversamos demoradamente, relembramos como tudo começou, as expectativas criadas com a participação nos Mundiais, as muitas alegrias e algumas desilusões ao longo do evento e olhamos para um futuro que se abre, auspicioso, ante os nossos olhos. Eis o resultado dessa conversa.


Orientovar – Como começou a praticar Orientação?

Ricardo Pinto – Casualmente, numa consulta de rotina no início do ano no Hospital da Prelada, os médicos convidaram-me a experimentar. Lembro-me de, em 2001 ou 2002, o Grupo Desportivo dos Quatro Caminhos ter tentado implementar a Orientação de Precisão e ter organizado uma prova no Parque da Cidade do Porto e outra na Quinta de Santo Inácio nas quais participei. Já não me consigo recordar muito bem dessas experiências, mas tinham-me despertado alguma curiosidade. Depois as coisas morreram e agora, quando surgiu este convite, disse para comigo mesmo: Porque não?

Orientovar – A sua primeira prova “a sério”, digamos assim, foi em Viseu e coincidiu com a primeira etapa da primeira Taça de Portugal de Orientação de Precisão. Um segundo lugar na prova de estreia foi sorte de principiante?

Ricardo Pinto – Também não éramos muitos (risos)… Bem, eu não lhe chamaria só sorte. Na verdade, na viagem para Viseu deram-me algumas noções de sinalética, de como orientar o mapa e usar a bússola. Foi uma prova interessante e da qual guardo um sentimento misto de satisfação e de frustração. Satisfação porque foi a primeira prova e, talvez com alguma sorte à mistura, consegui entender alguns princípios básicos da modalidade e que me acabaram por valer sete pontos corretos. E frustração por perceber que, apesar de não ter criado qualquer expectativa em termos de resultados, hoje percebo que poderia ter feito muito melhor.


Foi às cegas que abracei o desafio

Orientovar – Que evolução sentiu nas provas seguintes?

Ricardo Pinto – Comecei por trabalhar a questão da sinalética. Chegar aos pontos e saber aquilo que é pedido é importante. Hoje sei que há aspetos muito mais importantes, que as questões relacionadas com a sinalética são o básico, mas acredito que, para quem se inicia na modalidade, este seja um dos aspetos mais confusos e que maiores preocupações acarreta. Quanto às provas e ao colocar em prática aquilo que se vai aprendendo, talvez Espanha pudesse ter sido um marco, mas infelizmente não houve condições para fazer uma boa prova. Aquele granizo todo, já não sentia as mãos, tinha o cartão de controlo completamente desfeito… Enfim, em muitos pontos nem pensei na resposta, foram atiradas completamente à sorte. Só mesmo quando iniciei a preparação para o Campeonato do Mundo, com pouco mais de quinze dias para estudar o máximo que fosse possível, é que percebi a complexidade da nossa modalidade.

Orientovar – Como é que recebeu a proposta para representar Portugal nos Campeonatos do Mundo WTOC 2012?

Ricardo Pinto – Não sei, sinceramente não sei. Acho que foram todos muito honestos comigo. A Diana Coelho era ainda uma hipótese e eu nunca me senti uma segunda escolha, talvez porque nunca tivesse acreditado que alguém pudesse ser escolhido que não a Diana. Só quando fomos a Lisboa, à prova do CPOC, é que interiorizei que, afinal, seria mesmo eu a representar Portugal. Aí as coisas mudaram um pouco de figura, mas não o suficiente para me tirar o sono. A modalidade era ainda uma ilustre desconhecida para mim, não era falada, nem mesmo entre os restantes orientistas e não fazia a menor ideia do envolvimento em torno dum evento com a dimensão dum Campeonato do Mundo. Por isso foi às cegas que abracei o desafio.


Estudar, estudar, estudar

Orientovar – Um Mundial de que forma se prepara?

Ricardo Pinto – No meu caso, estudando muito toda a teoria, sobretudo as diretrizes da Federação Internacional de Orientação. O facto de ter sido operado à mão na véspera da prova do CPOC, fez com que estivesse de baixa uns dias seguidos. Em casa, em frente ao computador, foi estudar, estudar, estudar. As traduções das diretrizes para espanhol, feitas pelo meu amigo Roberto Munilla, revelaram-se muito importantes. Mas também as pesquisas em sites e blogues de outras Federações e de clubes, com exemplos de mapas, de situações concretas, até de pontos cronometrados. Algumas vezes estivemos, eu e o Joaquim Margarido, a trocar impressões via Skype, mas foi sobretudo o trabalho solitário, dia após dia, que serviu de base à minha preparação. Apesar da pouca ou nenhuma experiência prática, queria não fazer fraca figura e dignificar a nossa presença na Escócia.

Orientovar – Como foi esse embate com a realidade dum Campeonato do Mundo?

Ricardo Pinto – Até à primeira prova, o Troféu Mundial de TempO, parecia que andava nas nuvens. Tudo correu de forma excepcional, as condições foram perfeitas, toda a gente foi duma simpatia e duma disponibilidade enorme. Lembro-me do jantar logo no primeiro dia, de estarmos à conversa com o Zdenko e com o Ivo, da Croácia, dos conselhos tão importantes que nos deram. Até receber o primeiro mapa do TempO foi tudo verdadeiramente surreal.


Quando olhei para o mapa só pensei: E agora?

Orientovar – E depois?

Ricardo Pinto – Bem, quando olhei para o mapa só pensei: E agora? Difícil, muito difícil, completamente à margem de tudo quanto tinha feito até aqui. Com todo o respeito pelas provas em Portugal e pelas pessoas que tudo fazem para nos proporcionar os melhores desafios possíveis, mas isto sim, isto era o Campeonato do Mundo. E ali estava eu, o mapa à frente… só árvores, árvores e curvas de nível, sem quaisquer outras referências. Até à quinta estação, não consegui nunca entrar nos mapas. Não era só a dificuldade dos pontos, era também a pressão do tempo. Tinha de usar a minha intuição e de confiar na sorte mas sentia-me completamente perdido. Também o facto de não haver assistência e de ter de me deslocar pelos próprios meios, num terreno enlameado e debaixo de chuva, não ajudou. Não serve de desculpa – até porque só na quinta estação é que percebi que o mapa também tinha linhas de norte –, mas chegar aos pontos extremamente cansado não ajudava muito na minha concentração. A partir daí comecei a ganhar alguns automatismos, a fazer uma melhor gestão do tempo e as coisas passaram a ser mais calculadas, mais racionalizadas. Só que nessa altura já o mal está feito e é tarde para aspirar a um bom resultado.

Orientovar – Se fosse hoje, o que teria mudado?

Ricardo Pinto – Hoje lidava com o tempo doutra forma, mas sobretudo com a pressão. Noventa segundos para três pontos é uma pressão enorme. Juntando a isso uma melhor leitura do mapa, fruto da experiência que se vai adquirindo, estou certo que as coisas poderiam correr muito melhor.


Falhar tanto é realmente muito frustrante

Orientovar – Esteve muito bem no Model Event, mas o resultado do primeiro dia, sobretudo, ficou bastante aquém das expectativas. O que sentiu na altura?

Ricardo Pinto – Muita frustração. Chegar ao fim do percurso e saber que se falhou nalguns pontos é uma coisa, mas falhar tanto é realmente muito frustrante. Os mapas eram de muito difícil leitura, com muito detalhe, muito diferentes do Model Event. Não tenho conhecimentos suficientes para saber se o mapa era bom ou não. Percebi que houve muitos participantes desagradados com o mapa e com os percursos, mas confesso que não sei. Foi algo tão diferente daquilo que tinha experimentado até então, uma realidade completamente distinta, não sei… Mas muito, muito difícil, lá isso era.

Orientovar – E no segundo dia?

Ricardo Pinto – Não foi mais nem menos que a continuação do primeiro. Embora me parecesse que o mapa era de muito melhor leitura – ou talvez já fosse um pouco da aprendizagem da véspera a funcionar -, era ainda assim muito difícil. Daí que o resultado voltasse a ser idêntico. Sentia-me muito cansado, nessa noite quase não tinha conseguido dormir só de pensar em como poderia melhorar, mas na verdade não é em vinte e quatro horas que as coisas se alteram. Assim, ter melhorado um lugar em relação à véspera não foi mau. A única coisa realmente frustrante no segundo dia foi ter picotado dois pontos diferentes na mesma linha e ter anulado um dos pontos que estava correto.


Acredito que podemos melhorar muito

Orientovar – O que é que faz verdadeiramente falta para se poder encarar uma prova destas com mais confiança e ambição?

Ricardo Pinto – Faz falta muita coisa. Treino, conhecimentos e mais provas como esta. A falta de contacto com provas exigentes impede-nos de podermos aspirar a melhores resultados. O conhecimento advém da experiência e sem experiência não há milagres. Aliás, toda a gente com que falei já tinha, só este ano, participado num bom número de provas internacionais, sobretudo na Suécia e na Noruega. Este contacto com o terreno, a troca de experiências, a discussão dos problemas, faz toda a diferença. Apanhar um percurso com mais do dobro das questões a que estamos habituados em Portugal e com um grau de exigência incomparavelmente superior coloca-nos numa posição de desvantagem muito grande. Daí que o esforço do Hospital da Prelada em enviar alguém aos Campeonatos do Mundo seja louvável, pois só com este tipo de experiência adquirida poderemos melhorar. Estou seguro que uma boa aplicação dos conhecimentos à nossa realidade irá ser muito benéfico e eu gostaria de dizer, desde já, que estou totalmente disponível para colaborar nesse esforço. Acredito que podemos melhorar muito.

Orientovar – TempO ou Trail-O?

Ricardo Pinto – Ambos. Penso que se complementam. São muito desafiantes, mas penso que no TempO as coisas têm de ser mais intuitivas, ao passo que no Trail-O é tudo mais racional, mais ponderado. Mas se me dessem a escolher apenas entre uma delas, escolheria o Trail-O, obviamente. É outro desafio, a certeza na resposta é outra, muito maior. Se acertamos, podemos ficar contentes com o nosso desempenho, mas se não acertamos podemos entender o porquê e corrigir em certa medida. Ao passo que no TempO essa possibilidade praticamente não existe, quase não temos tempo para responder e menos tempo ainda para perceber. E depois há essa impossibilidade no TempO de podermos sair do lugar, de procurar pontos de referência. Também, se o pudéssemos fazer, lá se ia o tempo (risos).


Portugal tem todas as condições de realizar um Europeu de excelência

Orientovar – Portugal mereceu da parte de todos uma atenção e um carinho enormes e, naturalmente, muita curiosidade pelo facto de organizarmos o Europeu em 2014. Que expectativas tem relativamente a esse grande evento?

Ricardo Pinto – Com as pessoas certas, Portugal tem todas as condições de realizar um Europeu de excelência. Mas temos de encontrar as pessoas certas e encontrá-las rapidamente. Foi possível perceber que um evento desta natureza não se prepara num par de meses. É preciso, para além da qualidade dos mapas e dos terrenos, um cuidado muito grande com o transporte, com o alojamento e com a assistência dada aos atletas da Classe Paralímpica. E é preciso um quadro muito grande de voluntários, não apenas disponíveis para ajudar mas que saibam o que estão a fazer, algo que, infelizmente, nem sempre aconteceu nestes Campeonatos do Mundo. Em termos pessoais, espero poder voltar a ter mais contactos internacionais e, em 2014, poder fazer parte da equipa nacional paralímpica, com outros dois atletas.

Orientovar – E a nível interno, quais os seus planos? Vamos vê-lo a vencer o ranking da Taça de Portugal em 2013?

Ricardo Pinto – Espero que sim, embora reconheça que há outros atletas com as mesmas possibilidades. Mas se eu não ganhar, espero que isso sirva para que eu possa compreender que tenho de me esforçar mais ainda. Espero que a qualidade técnica das provas aumente, que a qualidade dos mapas melhore e, sobretudo, espero que possamos começar a deixar os espaços de parque para irmos à procura da floresta e dos seus desafios. Gostaria que muitas mais pessoas pudessem aparecer. Só dessa forma o nível competitivo poderá aumentar, a motivação será maior e poderemos pensar em evoluir. A vitória não pode estar sempre do lado do mesmo, assim vamos estagnar. Temos de ter mais gente, mais competição. Esse é o meu voto!


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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