sexta-feira, 25 de maio de 2012

ADRIANO RODRIGUES: "SOMOS TODOS IGUAIS, APESAR DAS NOSSAS DIFERENÇAS"




Atleta de referência do DAHP – Núcleo de Desporto Adaptado do Hospital da Prelada, Adriano Rodrigues é reconhecido pelo seu carácter afável e brincalhão. Um bloco de granito roubou-lhe a mobilidade dos membros inferiores, mas não a alegria de viver e palavras como “infortúnio” ou “desventura” parecem arredadas do seu vocabulário. Hoje damos a palavra à pessoa e ao atleta, ficando a conhecer melhor o espírito combativo e altruísta de alguém que encara o desporto e a vida da mesma forma: como uma dádiva!


Orientovar - Quando veio para Portugal, os seus sonhos passavam certamente por muita coisa, mas nunca por uma cadeira de rodas. Como foi o tomar conta dessa dura realidade?

Adriano Rodrigues - Confesso que estar nesta situação seria a última coisa que me passaria pela cabeça. Enfrentar a realidade duma vida em cadeira de rodas foi muito difícil. A verdade é que, se o acidente fechou muitas portas, também abriu outras e as portas que se abriram foram os amigos que se fazem, a cumplicidade e a solidariedade que se gera entre as pessoas. Hoje já consigo encarar a minha situação duma forma mais natural.

Orientovar - Como é que decorreu o processo de recuperação após o acidente?

Adriano Rodrigues - Após o acidente encontrei-me numa situação muito delicada. Senti que tinha perdido tudo, tinha perdido até o gosto de viver. O processo de recuperação, tanto a nível físico como psicológico, devo-o ao Hospital da Prelada e ao Serviço de Medicina Física e de Reabilitação. Foi ali que iniciei todo o processo de recuperação e que ganhei, em grande medida, alguma autonomia. Foi ali que passei duma cama para uma cadeira de rodas e, daí, de novo, para o mundo cá fora. Hoje sinto-me uma pessoa realizada porque consegui levar por diante o sonho de me tornar de novo independente. Faço tudo sozinho, estou bem!


Fiquei com pena de não termos comido a Sopa de Pedra

Orientovar - Percebe-se que é uma pessoa muito positiva e que soube grangear uma estima muito grande entre pessoas na mesma situação. Onde é que se vai buscar essa energia, essa alegria de viver?

Adriano Rodrigues - Sinceramente, não sei. Talvez ao facto de ver que há muitas pessoas que estão pior do que eu, que não têm essa força que eu tenho. Sinto uma grande necessidade de lhes transmitir a minha experiência, que vale a pena levantar a cabeça, olhar o mundo e seguir em frente. É essa a mensagem que procuro transmitir às pessoas. E depois gosto muito de falar, de brincar. Isso também ajuda a ultrapassar os meus próprios problemas, para mim está tudo bem.

Orientovar - Foi no Hospital da Prelada que, através do DAHP, tomou contacto com a Orientação de Precisão. Lembra-se dessa primeira experiência?

Adriano Rodrigues – Lembro, pois, apesar de não ter sido uma experiência lá muito bem sucedida (risos). Foi em Almeirim, em 2009, numa prova que acabou por não se realizar devido a uma chuvada terrível. Guardo, sobretudo, o convívio entre as pessoas que foram a Almeirim. Fiquei com pena de não termos comido a Sopa de Pedra porque, dos três Restaurantes que encontrámos, nenhum deles tinha condições para receber um grupo de pessoas em cadeira de rodas. Lembro-me, depois, da segundo vez em que participei – a primeira vez realmente “a valer” – e que foi na Tocha, no Hospital Rovisco Pais. Foi um autocarro cheio de doentes da Prelada, foi uma coisa fantástica. Foi incrível aquilo que três ou quatro pessoas conseguiram, levar aquele pessoal todo… passámos um dia realmente inesquecível.


Esquecemos até que estamos doentes

Orientovar - Este conjunto de participações ao longo dos últimos três anos, tem algum significado especial para si?

Adriano Rodrigues - Tem um enorme significado. Representa, desde logo, a ligação a um desporto que não conhecia e a esse conceito de que o desporto deve ser para todos. Mas representa, sobretudo, a partilha de momentos muito bonitos, mesmo durante a prova, com aqueles que nos acompanham. A Orientação de Precisão é uma modalidade fantástica. Quando estamos a fazer a prova estamos concentrados e esquecemos tudo o resto. Esquecemos até que estamos doentes.

Orientovar - A Orientação de Precisão tem, como todos os desportos, a competição inerente e o objectivo é ganhar. Também entende a modalidade desta forma?

Adriano Rodrigues - Sim, o objetivo é ganhar. Mas é também o convívio com os outros que está aqui em causa. As pessoas mantêm, desta forma, uma ligação muito mais forte. Pertencemos a um mesmo clube, fazemos aquilo que gostamos e essa é uma mais-valia muito grande para todos nós.


O resto é o desafio, é intelecto

Orientovar - Entre todos os locais que conheceu e onde competiu, consegue eleger aquele que mais o marcou?

Adriano Rodrigues - Há um que, realmente, supera todos os outros. Esse lugar é Vila do Conde, onde estive em Dezembro do ano passado. Não consigo explicar o porquê, mas foi em Vila do Conde que tive o acidente e a prova decorreu mesmo junto ao local onde tive o acidente. Eu não queria ir, não queria enfrentar a realidade, mas acabei por me convencer a mim próprio que tinha de ser. Eu sou como sou e esta é a minha situação. Então fui e gostei muito. Lembro-me do percurso, de todos os pontos, das pessoas… É uma prova que estará sempre presente na minha memória.

Orientovar - Às pessoas com mobilidade reduzida e que nunca experimentaram a modalidade, o que diria?

Adriano Rodrigues - É uma modalidade fantástica e as pessoas não precisam de se preocupar com nada. Existe muito apoio, muita entreajuda e os percursos, embora decorram em espaços naturais, são escolhidos de forma a facilitar a progressão, nomeadamente duma cadeira de rodas, por exemplo. O resto é o desafio, é intelecto, é saber interpretar o mapa e o terreno. Tenho a certeza que aqueles que experimentarem não ficarão desiludidos e vão querer voltar.


O difícil é começar

Orientovar - Ainda que timidamente, a Orientação de Precisão vai dando alguns pequenos passos no Brasil. Sendo um cidadão brasileiro, como é que vê esta realidade?

Adriano Rodrigues - Através do Orientovar acompanho os desenvolvimentos que a Orientação de Precisão brasileira teve nos últimos tempos e fico muito feliz por ver que, no meu País, começa a trabalhar-se junto das pessoas portadoras de mobilidade reduzida no sentido de lhes mostrar esta modalidade lindíssima. E fico muito emocionado por ver que este trabalho assenta, em grande medida, no esforço da Enfermeira Stefania. Para ela eu gostaria de mandar uma grande força e pedir-lhe que prossiga com este trabalho. O difícil é começar, mas depois de começar as coisas não vão mais parar. O Brasil tem muita gente empenhada, é uma potência desportiva muito grande e tenho a certeza que a Orientação de Precisão tem aqui um enorme futuro.

Orientovar - Vai regressar em breve ao Brasil. Considera a possibilidade de vir a fazer Orientação de Precisão no seu País?

Adriano Rodrigues - Isso seria uma coisa fantástica. Vou procurar levar os ensinamentos que adquiri em Portugal e levar algumas dessas sementes lá para o Brasil. Seria um sonho encontrar os meios para poder levar os atletas do Núcleo de Desporto Adaptado do Hospital da Prelada a competir no Brasil. E outro sonho seria o de poder vir a representar o Brasil num evento internacional de Orientação de Precisão. Quero manter esta ligação ao Núcleo, quero continuar a aprender, a crescer. Talvez assim possa ver um dia o meu sonho tornar-se realidade.


Um trabalho fantástico

Orientovar - A finalizar, quer deixar uma mensagem?

Adriano Rodrigues - A minha mensagem vai no sentido de que continuem com esse trabalho em levar o Desporto a todas as pessoas. O Núcleo de Desporto Adaptado do Hospital da Prelada faz um trabalho fantástico junto dos doentes, para muitos de nós a primeira oportunidade de contacto de novo com a sociedade é-nos dada por esta via e isso é muito importante. Ajuda-nos a sentir que somos de novo capazes, que somos todos iguais apesar das nossas diferenças. Nesse sentido, lanço também um apelo à sociedade civil para que olhe para este exemplo e apoie o Núcleo. É um trabalho que deve merecer o apreço de todos, que deve ser apoiado.


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

3 comentários:

Anónimo disse...

Do Canadá onde me encontro em trabalho (cartografia), quero dar os parabéns ao entrevistado Adriano Rodrigues pela forma desenvolta, clara e realista como explicou o seu sentir relativamente ao tema.Quero ainda enviar-lhe um grande abraço e que tenha muita força e coragem para continuar a superar os obstáculos da vida.Também para o sempre amigo Margarido,
um grande abraço e parabéns por mais esta excelente entrevista.

RuiAntunes

OrientistaemRota A.Carlos disse...

Mais uma excelente matéria, Joaquim.
Lendo a entrevista, tive uma idéia sobre como alavancar a orientação de precisão aqui no Brasil. Peço ao Adriano Rodrigues que entre em contato comigo para nos auxiliar nessa empreitada.

Abs.

Presidente disse...

Palavras para quê?!
Um grand'abraço!!!