terça-feira, 10 de abril de 2012

HUMBERTO SANTOS, PRESIDENTE DO COMITÉ PARALÍMPICO DE PORTUGAL: "É POSSÍVEL TERMOS EM PORTUGAL UM DESPORTO INCLUSIVO"




Depois da participação portuguesa nos Campeonatos de Espanha de Orientação de Precisão 2012 e nas vésperas da segunda etapa da Taça de Portugal daquela disciplina, o Orientovar publica uma Entrevista com Humberto Santos, Presidente do Comité Paralímpico de Portugal. São declarações plenas de importância e onde se releva o espírito inclusivo e a componente social da modalidade.


Orientovar - Teve a oportunidade, em Viseu, de assistir pela primeira vez a uma prova de Orientação de Precisão e a uma demonstração de Actividade de Orientação Adaptada. Que especial emoção é que estas iniciativas despertaram em si?

Humberto Santos – Foi, de facto, a demonstração de que é possível. De que é possível termos em Portugal um desporto inclusivo, um desporto para todos, um desporto onde as pessoas com deficiência podem, a par dos outros cidadãos, participar nos eventos desportivos. Haja vontade, haja querer, haja motivação para o efeito e, na verdade, a organização destes eventos demonstrou cabalmente que é possível.

Orientovar - O Comité Paralímpico de Portugal tem estado envolvido num Projecto que tem como nome “Inclusão Desportiva”. De que forma é que a Orientação de Precisão assenta neste projecto?

Humberto Santos – Que nem uma luva, claramente. No âmbito desde projecto, temos tentado sensibilizar os diferentes agentes desportivos para um novo paradigma, um paradigma de inclusão, onde temos vindo a afirmar que o desporto para pessoas com deficiência deve ocorrer onde, de facto, todos os outros estão. Aquilo que pudemos ver foi exactamente essa vivência, essa realidade, em que a Federação Portuguesa de Orientação cria aqui dois eventos que se complementam e que são a demonstração de que não há que ter receios. Há é, na verdade, que estruturar pensamentos, tentar encontrar soluções para eventuais dificuldades, espírito de imaginação, grande colaboração. E, na verdade, as coisas acontecem.


Mudança de paradigma

Orientovar – Estava à espera de ver aquilo que realmente viu?

Humberto Santos – Desde a primeira hora que este evento suscitou em mim uma grande curiosidade, daí ter feito a opção de estar aqui hoje. Queria perceber, no terreno, como é que as coisas funcionam. Mais do que alguém chegar a Lisboa e dizer “aquilo foi assim e assim”, eu quis ver. Neste momento temos quinze Federações – entre elas a Federação Portuguesa de Orientação – que aderiram aos princípios do Comité Paralímpico e são seus membros. Há Federações que colocaram um membro da sua Comissão Executiva com responsabilidades na área do Desporto Adaptado. Há outras que criaram Comissões de Modalidades Adaptadas. A Federação Portuguesa de Orientação está a organizar eventos onde demonstra, de facto, que é possível acontecer esta mudança de paradigma. Nós só pudemos aplaudir e agradecer a todos aqueles que de alguma forma contribuem para esta demonstração dum mundo diferente e melhor.

Orientovar – Quando regressar a Lisboa, o que é que irá ficar destas experiências?

Humberto Santos – O que eu registei foi uma grande jornada de confraternização entre um grupo muito diversificado de pessoas. Esta é uma modalidade em que eu poderia vir aqui com a minha esposa e com os meus filhos e passarmos um dia diferente daquilo que é estar em casa. Para além de termos este contacto com a paisagem envolvente, teríamos a possibilidade de contactar com muitas pessoas que, a prazo, só podem tornar-se amigas. Eu acho que aquilo que verifiquei hoje, durante as horas que aqui estive, foi uma grande relação de proximidade entre todos aqueles que fazem parte da família da Orientação.


Uma pretensão bastante ousada

Orientovar - Que potencialidades vê na Orientação de Precisão para, um dia, poder vir a tornar-se numa modalidade Paralímpica?

Humberto Santos – A exemplo do que tem acontecido com outras modalidades que estão exactamente neste processo, essa é uma pretensão bastante ousada da parte de quem quer que seja. São sempre processos muito árduos, muito exigentes, mas parece-me que as sementes lançadas entretanto podem, a prazo, vir a criar as condições para que tenhamos todos, do ponto de vista do plano argumentativo e justificativo, as ferramentas necessárias para que esta modalidade venha a ser paralímpica. Se me perguntar daqui a quantos anos é que isso acontecerá, eu não estou em condições de o dizer. Agora, que tem potencial julgo que sim, porque esta é uma modalidade que pode permitir, mesmo àqueles que não tenham na Orientação de Precisão a sua modalidade de eleição, desfrutar destes momentos excepcionais que a modalidade oferece.

Assim sendo, esta é uma modalidade com todo o potencial de crescimento e, como sabemos, muita da decisão em torno das modalidades paralímpicas passa muito pela expressão que a modalidade tem nos diversos países que fazem parte do Comité Paralímpico Internacional. E volto ao início para dizer que Viseu ficará, seguramente, nos anais da história da Orientação de Precisão, como um marco de sucesso na afirmação da modalidade em Portugal.


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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