sexta-feira, 13 de abril de 2012

HANA BAJTOSOVA: "O NÍVEL COMPETITIVO É CADA VEZ MAIS ELEVADO"




Hana Bajtosova é, de há uns anos a esta parte, um dos nomes de referência da Orientação em BTT a nível mundial. Medalha de Ouro de Sprint nos Campeonatos do Mundo de 2008 e 2009, Hana prepara cuidadosamente a temporada com vista a um novo grande feito. O Orientovar falou com ela em Barcouço, no “lavar dos cestos” da 5ª edição do Ori-BTT Rota da Bairrada, dando a ver um pouco mais da grande atleta, dos seus sonhos e ambições.


Orientovar - Como é que tomou contacto com a Orientação?

Hana Bajtosova - Conheci a Orientação Pedestre quando tinha mais ou menos 15 anos, através do Desporto Escolar, na Escola que frequentava em Bratislava. Como era muito boa na leitura e interpretação dos mapas, apesar de fisicamente não ser muito forte, era seleccionada com frequência para a equipa nacional de jovens. Foi assim que participei pela primeira vez numa grande competição internacional, os Campeonatos da Europa de Jovens – European Youth Orienteering Championships. Depois fui pela primeira vez aos Campeonatos do Mundo de Juniores e fiquei muito desgostosa porque perguntei ao seleccionador nacional o que era necessário para me qualificar para a equipa sénior para os próximos Mundiais e ele respondeu-me que só daí a dois anos, que antes havia os Mundiais Universitários. Confesso que perdi a motivação e fiquei sem saber o que fazer.

Orientovar - É então que surge a Orientação em BTT?

Hana Bajtosova - Sim. Estávamos em 2004 e o meu treinador actual, que é treinador da Selecção Nacional de Orientação em BTT da Eslováquia, propôs-me experimentar a Orientação em BTT. A Selecção da Eslováquia tinha sofrido uma grande remodelação, muitas atletas tinham abandonado a equipa por questões relacionadas com a maternidade e acabei por dizer a mim própria: “Porque não?” Os Mundiais de 2005 eram na Eslováquia, havia lugar para mim na equipa e o desafio era enorme. Fiz as primeiras provas, fiquei em terceiro lugar numa delas e ganhei a outra e tudo parecia indicar que as coisas poderiam resultar. Acabei por ganhar um lugar na equipa, que mantenho até hoje.


2011 foi o concretizar dum sonho

Orientovar - A ideia de representar a Eslováquia nuns Mundiais de Orientação Pedestre nunca a abandonou, de tal forma que, no ano passado, foi mesmo uma agradável surpresa o seu 29º lugar na Final A de Distância Média do WOC. É verdade?

Hana Bajtosova - De facto, 2011 foi o concretizar dum sonho. Os Campeonatos eram em França e eu tinha ali uma oportunidade única. Continuava a sentir-me mais à vontade na parte técnica que na parte física e os terrenos em França eram particularmente desafiantes do ponto de vista técnico. Sabia que não tinha de provar nada a ninguém, mas queria mostrar a mim mesma que tinha valor para estar nuns Mundiais e tracei como objectivo a passagem a uma Final A. Penso que, em termos do treino físico, foi tudo muito bem conseguido. Quase coloquei a BTT de lado e todo o meu tempo foi orientado para a preparação para os Mundiais. Aquilo que realmente custou foi a parte mental. Foi realmente muito duro, mas consegui alcançar os meus objectivos.

Orientovar - Para ser um bom orientista em BTT é fundamental o treino de Orientação Pedestre?

Hana Bajtosova - Não sei. Penso que ajuda mas não é obrigatório. Pessoalmente, como comecei na Orientação Pedestre, é algo que me dá sempre um enorme prazer. No Inverno, por exemplo, se não se pode fazer Orientação em BTT, faz-se Orientação Pedestre ou, pura e simplesmente, corre-se.


Sinto que este ano está tudo a correr muito bem

Orientovar - Está agora em Portugal. Porquê Portugal?

Hana Bajtosova - Porque o tempo é óptimo, está calor. E porque os terrenos são excelentes. Vim a Portugal já em 2007 e depois em 2008, para um estágio de dez dias. É verdade que, desde essa altura, tenho a noção de que este é um local para treinar muito bom. Há uma enorme variedade de terrenos interessantes e vim aqui porque é uma oportunidade para treinar com mapa. Poderia fazê-lo em França mas, por um lado, os terrenos têm menos qualidade e depois já os conhecemos, o que diminui a qualidade do treino. E depois é bom sair um bocado de França, ficar à margem desta crise.

Orientovar - Falou de 2007 e de 2008, mas esquivou-se a falar em 2010 e nos Campeonatos do Mundo que tiveram lugar em Portugal. As recordações que guarda desses Mundiais não são as melhores?!

Hana Bajtosova - É verdade que comecei a trabalhar em 2009 e não sabia muito bem como gerir o emprego, os treinos e as provas. Daí que em Montalegre a minha forma física não fosse a melhor e os resultados não tenham aparecido como eu gostaria que aparecessem. No ano passado, em Itália, as coisas já correram um bocadinho melhor e sinto que este ano está tudo a correr muito bem.


A melhor prova da minha vida

Orientovar - Em 2008 e em 2009 conquistou o título de Campeã do Mundo de Sprint. Que recordações guarda desses momentos mágicos?

Hana Bajtosova - Guardo sobretudo uma forte emoção da medalha de ouro de Israel, em 2009. Foi, talvez, a melhor prova da minha vida. Uma prova de Sprint perfeita na qual terminei com uma vantagem de quase 40 segundos para a segunda classificada e com a terceira atleta a quase dois minutos. Foi algo de realmente impressionante. Nunca mais voltei a fazer uma prova assim.

Orientovar - Mas é possível repetir estes resultados e voltarmos a vê-la, já este ano, no lugar mais alto do pódio?

Hana Bajtosova - Gostaria, claro, mas vai ser muito duro porque o nível competitivo na Orientação em BTT é cada vez mais elevado. Vai depender muito da condição física no momento, mas sobretudo da situação face ao meu trabalho e à forma como conseguirei gerir os meus treinos. Treino em média duas vezes por dia, com uma pausa, geralmente à segunda-feira. São treinos físicos e, por vezes, aos fins de semana, consigo treinar com mapa. Estes são treinos normalmente muito intensos e faço-os em conjunto com a selecção francesa.


Pedalar em todo o lado, nos caminhos e fora deles, não sei... não gosto da ideia!

Orientovar - E porquê a selecção francesa?

Hana Bajtosova - Eu vivo em França e está aí a explicação. E depois, na Eslováquia, não existem condições para a realização de estágios de alto nível. Havia a possibilidade de treinar na República Checa, mas têm uma selecção nacional muito forte e são muito fechados. Consigo treinar com a selecção francesa a título excepcional e sinto-me muito bem com eles. Actualmente, a selecção francesa é mais a minha equipa do que propriamente a selecção da Eslováquia.

Orientovar - Tem acompanhado as alterações que se configuram na Orientação em BTT, no sentido de a tornarem mais competitiva, mais justa e mais mediática?

Hana Bajtosova - Sim e partilho das opiniões no que respeita a algumas alterações. No que diz respeito às categorias femininas no Campeonato do Mundo, penso que as séries qualificatórias de Distância Longa não têm razão de ser. Se falamos do apuramento de 60 atletas para a final, então todas as atletas se apuram. Talvez limitar o apuramento às quinze primeiras classificadas de cada série pudesse ser uma solução mais interessante, colocando uma maior pressão nas atletas e tornando as séries mais competitivas. Por outro lado, penso que a questão da transitabilidade fora dos caminhos deve ser permitida, mas com as duas rodas da bicicleta no ar, como acontece aqui em Portugal, por exemplo. Isto obriga o atleta a optar por correr com a bicicleta às costas ou prosseguir a pedalar e fazer uma volta mais longa. Mas pedalar em todo o lado, nos caminhos e fora deles, não sei... não gosto da ideia!


A concorrência é agora muito maior do que era há cinco anos atrás

Orientovar - A Orientação em BTT, enquanto modalidade, está a envelhecer?

Hana Bajtosova - Não concordo. Há grandes valores na Orientação em BTT mundial que despontam agora e que são muito jovens. Estou a falar da Marika Hara, da Susanna Laurila ou da Gaëlle Barlet, por exemplo. Acho que há muita gente jovem a chegar aos lugares de topo e a concorrência é agora muito maior do que era há cinco anos atrás.

Orientovar - Vamos continuar a vê-la na Orientação em BTT por muito mais tempo?

Hana Bajtosova - Não faço ideia. Este ano estou cá, seguramente, e depois se verá. Vou casar-me este Verão e tenciono constituir família, logo as coisas têm de ser ponderadas de acordo com as circunstâncias. Isto pode fazer com que a sitaução se modifique radicalmente, mas duma coisa tenho a certeza: Pretendo continuar a fazer Orientação em BTT, mesmo não sendo de alto nível. E, no caso de ser possível, pretendo transmitir isso aos meus filhos. Quem sabe, não virão a ser uns campeões no futuro.


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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