quinta-feira, 5 de abril de 2012

ESTHER GIL: "SINTO-ME UMA REFERÊNCIA PARA AS MULHERES"




Lançado há três anos na vizinha Espanha, o projecto “Mujer Y Deporte” começa a dar saborosos frutos. Este é o tema principal duma conversa que o Orientovar manteve com Esther Gil, referência maior da Orientação espanhola e uma das grandes impulsionadoras do projecto.


Orientovar - Ser mulher e ser orientista. Que especial significado tem esta realidade para si?

Esther Gil – Sinto-me uma pessoa afortunada por ter podido desfrutar da Orientação e, sobretudo, da Orientação de alto nível.

Orientovar - Nos desportos individuais, a Orientação é uma das modalidades que revela uma maior percentagem de mulheres a competir. Como é que isto se explica?

Esther Gil – Explica-se porque o factor físico não é o aspecto principal nem se revela imprescindível para a realização da actividade. Isto faz com que qualquer pessoa, independentemente do resultado, possa cumprir um percurso. Por outro lado, o orientista compete na floresta, num ambiente sem público a assistir. À parte isso, dum modo geral, as mulheres na Orientação não são tão competitivas como os homens, não revelam o mesmo nível de exigência. Em muitos casos o objectivo é desfrutar, acompanhar a família, etc.


Tinha uma vontade enorme de ganhar

Orientovar - No seu caso pessoal, como é que descobriu a Orientação e o que é que fez com que ficasse “amarrada” duma forma tão sólida?

Esther Gil – A Orientação faz parte desde sempre da minha vida. O meu pai integrou-me na modalidade desde pequena. Na categoria Juvenil comecei a dedicar mais tempo à Orientação pois sabia que havia um longo caminho a percorrer, tinha uma vontade enorme de ganhar e o ambiente da Orientação divertia-me muito mais do que o do Atletismo ou do Triatlo.

Orientovar - O seu envolvimento com a modalidade vai além da competição e o programa “Mujer y Deporte” é um bom exemplo disso mesmo. Porque sentiu a necessidade de avançar com este tipo de iniciativa?

Esther Gil – Em certa medida, sinto-me uma referência para as mulheres, na Orientação em Espanha. Assim me fizeram crer as pessoas interessadas em que me envolvesse e desse a minha colaboração ao projecto. Durante as as jornadas “Mujer y Deporte”, o facto de que a Directora seja uma mulher e as monitoras também o sejam faz com que as participantes se sintam mais identificadas, acreditem mais nelas próprias e na sua margem de progressão.


Trata-se duma boa forma de promoção

Orientovar - Em que consiste, basicamente, o programa?

Esther Gil – Em iniciar as mulheres num qualquer desporto, fazendo-as ver que nós também o podemos praticar, tal como os homens. Trata-se duma iniciativa do Conselho Superior do Desporto de Espanha e a Orientação é uma das modalidades integradas neste programa. Para nós, mulheres, trata-se duma boa forma de promoção, para que mais mulheres possam associar-se à prática desportiva.

Procura-se um envolvimento a nível pessoal de cada participante. Existem vários grupos de diferentes níveis mas, sobretudo, há um contacto muito estreito entre monitora e participante. A comunicação antes, durante e depois do exercício é importantíssima, procurando-se que cada mulher melhore os seus pontos fracos, aprenda a identificar todos os elementos e seja capaz de adaptá-los à realidade do terreno. Encontramos com frequência mulheres que possuem já uma prática de Orientação de muito tempo mas nunca lhes explicaram como se lê um mapa. Uma parte importante do programa é que, durante esses dias, sentem-se muito descontraídas, uma vez que temos pessoas responsáveis por ficar com as crianças, por promover actividades para elas, etc. As participantes podem estar totalmente tranquilas durante a realização do exercício.


Colocar uma maior ênfase na análise das provas

Orientovar - Após três anos de implementação, quais os resultados?

Esther Gil – Há mulheres que se federaram e que, além disso, fizeram com que outras mulheres se federassem também. Muitas repetem o curso ou incentivam outras mulheres para que aprendem muito em poucos dias.

Orientovar - Quais as novidades para a quarta edição, agendada para Alicante no final de Agosto e início de Setembro?

Esther Gil – Há ainda um enorme leque de aspectos para concretizar. Este ano vamos colocar uma maior ênfase na análise das provas. Para além da variedade de exercícios, em cada um dos quais são abordadas diferentes técnicas, percebemos que as mulheres que se iniciam apresentam enormes lacunas nessa importante base que são os conhecimentos teóricos. Como referi antes, muitas delas têm um numeroso historial de provas efectuadas mas não sabem analisar os seus percursos e retirar dessa análise as necessárias conclusões. Assim sendo, a análise prévia ao treino e aquela que é feita posteriormente será muito importante.


O nível de Elite está a evoluir lentamente

Orientovar - Antes disso vamos vê-la, certamente, envolvida nas grandes competições internacionais. Quer partilhar connosco os seus grandes objectivos para esta temporada?

Esther Gil – Os meus objectivos para esta temporada estão ainda a pairar no ar. No ano passado foi possível preparar-me para o Campeonato do Mundo porque não estava a trabalhar. O regresso ao trabalho e a exigência de mais empenho está a impedir que me dedique bem aos treinos. Por agora, confesso que não sei quais as competições onde irei participar.

Orientovar - Como avalia o actual momento da Orientação feminina em Espanha?

Esther Gil – Creio que o nível de Elite está a evoluir lentamente. São mais as mulheres a praticar Orientação, mas não ao mais alto nível. Creio que a Federação Espanhola tem uma abordagem errada neste sentido.


Não sabemos onde se encontram os nossos limites

Orientovar - A terminar, quer deixar um voto para as orientistas espanholas e, dum modo geral, para todas as mulheres que abraçaram e abraçam o desporto da floresta?

Esther Gil – Ao longo de todos estes anos em que pratiquei Orientação de nível internacional, fui-me dando conta de que não sabemos onde se encontram os nossos limites. Lutar por algo que queres conseguir pode trazer-te grandes surpresas.


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO
 

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