Thierry Gueorgiou
dispensa apresentações. No rescaldo da sua vitória no recente
Portugal O' Meeting 2012, o Orientovar falou com ele. O resultado
dessa conversa pode ver-se em seguida, aqui se ficando a saber um
pouco mais do homem e do atleta.
Orientovar
- Regressar, cinco anos depois, ao lugar mais alto do pódio do
Portugal O' Meeting, que especial significado tem para si?
Thierry
Gueorgiou - Guardo boas
recordações de 2007. Quanto a esta edição do Portugal O' Meeting
ela foi, realmente, muito diferente. Em 2007 estávamos a uma
altitude de 1000 metros, num terreno um pouco mais aberto, daí que
tenha sido uma agradável surpresa encontrar aqui um terreno muito
técnico, em zona de floresta. As duas primeiras etapas foram muito
boas mas as etapas 3 e 4, na verdade, ultrapassaram-nas de longe.
Todos os participantes irão recordar por muito tempo as duas etapas
de Sátão.
Orientovar
- Começar a época a ganhar é importante para o que vem aí? Em que
medida pode constituir um reforço dos níveis de confiança?
Thierry
Gueorgiou - No Inverno tenho
necessidade de traçar objectivos de curto prazo. O meu objectivo
supremo, obviamente, aponta para os Campeonatos do Mundo, mas é
realmente importante, nesta altura do ano, que trace objectivos
intermédios, para este mês ou para o mês seguinte. O Portugal O'
Meeting foi um; a Silva League, na Suécia, em Abril, será outro; a
Tiomila... Faz parte da minha preparação e é por isso que me sinto
satisfeito pelas boas provas que realizei aqui, apesar de não estar
muito contente com o meu desempenho na segunda etapa do Portugal O'
Meeting e na primeira etapa do XIII Meeting de Orientação do
Centro. Há imensos aspectos a trabalhar, claramente, mas ganhar
acarreta sempre uma boa dose de confiança.
Aprendi a conviver com
este tipo de pressões
Orientovar
- Tive a oportunidade de falar com Olav Lundanes, Daniel Hubmann ou
Anders Nordberg e bater Thierry Gueorgiou parece ser, em si mesmo, um
objectivo. Como consegui gerir esta enorme pressão nos momentos mais
importantes e de maior intensidade? É gelo aquilo que lhe corre nas
veias?
Thierry
Gueorgiou - Não, não é gelo
(risos). Diria que nos habituamos a essa pressão, visto que toda a
gente que me vê no início duma prova espera que eu ganhe. Aprendi a
conviver com este tipo de pressões e as coisas são como são de há
dez anos a esta parte. À partida para uma competição sinto-me
sempre muito descontraído porque a Orientação é, realmente,
aquilo que eu gosto de fazer. E depois na floresta, quando me emprego
a fundo, divirto-me imenso. Não preciso de me concentrar nos outros,
basta concentrar-me no prazer que a prática da Orientação me
proporciona, naquilo que faço no momento, numa bela floresta, com um
belo percurso para desfrutar.
Orientovar
- Mas quando percebe que errou, isso não o leva a desconcentrar-se?
Thierry
Gueorgiou - Sim, precisamente.
Se é um erro menor, procura voltar a entrar na prova e no ritmo o
mais rapidamente possível porque as hipóteses de ganhar estão
ainda todas lá. Mas se é um erro como aquele que aconteceu na
segunda etapa do Portugal O' Meeting, bom, é verdade que a
frustração é muito maior, sei que as hipóteses de ganhar ou mesmo
de entrar nos três primeiros lugares são quase nulas e aí torna-se
muito mais difícil reencontrar o ritmo certo. São coisas que se vão
percebendo com o tempo, tanto podemos ganhar apesar de cometermos
dois ou três pequenos erros, como podemos perder, apesar de termos
feito uma prova perfeita.
Gosto muito de
descobrir novos lugares, novas culturas
Orientovar
- Fora da Orientação, quem é Thierry Gueorgiou? Onde habitam os
seus pequenos prazeres da vida?
Thierry
Gueorgiou - Infelizmente os meus
tempos livres praticamente não existem. A minha vida reparte-se
entre Estágios e Campos de Treino e, nos intervalos, o tempo
disponível é empregue a traçar os planos de acordo com os
objectivos mais próximos. Assim, diria que 90% do meu tempo é,
apenas e só, Orientação, mas gosto muito de descobrir novos
lugares, novas culturas. Aproveito o final do ano para viajar e
escolho locais onde a Orientação está absolutamente ausente. As
minhas últimas férias foram em Nova Iorque e pude usufruir de
momentos muito bons. Mas tenho outras paixões como o cinema ou a
pesca. Aliás, a pesca é o meu passatempo preferido, é aí que mais
me descontraio. Quanto ao cinema, o último filme que vi foi
“Millennium” [N.R. Niels Arden Oplev, Suécia 2009], fui vê-lo
com a Annika [Billstam] em versão original e estava muito bem. Tenho
um bom número de filmes entre os meus favoritos mas talvez eleja o
“Gladiador” acima de todos. E também gosto de ler, claro. Leio
imenso, sobretudo publicações relacionadas com o desporto. Leio o
diário desportivo L'Équipe e, de tempos a tempos, leio também um
livro durante um estágio.
Orientovar
- O que diria a alguém que se está a iniciar na Orientação?
Thierry Gueorgiou - Penso que o mais
importante, como aliás digo frequentemente, é sonhar. Ter um sonho
e persegui-lo é muito importante em termos de motivação. Que isso
possa vir a ter uma tradução no dia a dia, depende da dimensão e
do alcance desse sonho. Se o sonho é vir a ser campeão do mundo,
torna-se necessário treinar diariamente com uma tal entrega e uma
tal vontade que corresponda, finalmente, aos objectivos traçados.
Não há limites para o sonho. Temos o caso, por exemplo, dessa
pequena grande atleta do Canadá, a Emily Kemp, que integra o nosso
grupo de treino. É verdade que no Canadá a Orientação não tem a
expressão que tem em França ou na Suécia, por exemplo. Mas a
vontade dela é tal que começa a fazer excelentes coisas e os
resultados estão a aparecer. Quando se sonha e quando se trabalha
para alcançar os resultados, é possível chegar lá.
Ficarei imensamente
feliz se conseguir uma medalha de ouro
Orientovar
- O grande objectivo, como disse anteriormente, são os Campeonatos
do Mundo. Vamos poder vê-lo repetir as três medalhas de ouro
alcançadas em 2011?
Thierry Gueorgiou - Vai ser extremamente
difícil. Todos sabemos que os suíços são praticamente imbatíveis,
irão estar excepcionalmente bem preparados pelo que, pessoalmente,
vou ter de fazer melhor do que fiz no ano passado para chegar ao
ouro. Não tenho dúvidas nenhuma que o nível das competições vai
ser extraordinariamente elevado e se, em França, havia esse grande
objectivo de alcançar as três medalhas de ouro, aqui na Suíça, já
ficarei imensamente feliz se conseguir uma medalha de ouro.
Orientovar
- Em 2014, Portugal será o País organizador dos Campeonatos da
Europa de Orientação Pedestre. A esta distância, o que espera do
evento?
Thierry
Gueorgiou - Portugal tem imenso
a oferecer a todos os orientistas dos quatro cantos do mundo. O
Portugal O' Meeting é um excelente exemplo e vocês conseguem, ano
após ano, organizar provas absolutamente incríveis. Penso que não
irão desperdiçar esta oportunidade para fazer algo que toda a gente
recordará por muito tempo. Portugal tem terrenos magníficos, de
montanha, como aqueles que vimos em Viseu, e toda a gente irá ficar
uma vez mais surpreendida com a qualidade da organização.
Pessoalmente, não sei se em 2014 estarei ainda a fazer Orientação
de alta competição mas, na pior das hipóteses, espero estar aqui
entre o público a assistir às provas. Estou certo que, se
conseguirem oferecer aquilo que de melhor existe em Portugal, teremos
um Campeonato da Europa memorável. Em todo o caso, não tenho
dúvidas que a organização será perfeita. O número de pessoas
apaixonadas pela Orientação em Portugal é de tal maneira elevado
que me deixa totalmente confiante e tranquilo quanto à qualidade
destes Campeonatos da Europa.
Saudações
orientistas.
JOAQUIM MARGARIDO
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