quinta-feira, 29 de março de 2012

THIERRY GUEORGIOU: "NÃO HÁ LIMITES PARA O SONHO"




Thierry Gueorgiou dispensa apresentações. No rescaldo da sua vitória no recente Portugal O' Meeting 2012, o Orientovar falou com ele. O resultado dessa conversa pode ver-se em seguida, aqui se ficando a saber um pouco mais do homem e do atleta.


Orientovar - Regressar, cinco anos depois, ao lugar mais alto do pódio do Portugal O' Meeting, que especial significado tem para si?

Thierry Gueorgiou - Guardo boas recordações de 2007. Quanto a esta edição do Portugal O' Meeting ela foi, realmente, muito diferente. Em 2007 estávamos a uma altitude de 1000 metros, num terreno um pouco mais aberto, daí que tenha sido uma agradável surpresa encontrar aqui um terreno muito técnico, em zona de floresta. As duas primeiras etapas foram muito boas mas as etapas 3 e 4, na verdade, ultrapassaram-nas de longe. Todos os participantes irão recordar por muito tempo as duas etapas de Sátão.

Orientovar - Começar a época a ganhar é importante para o que vem aí? Em que medida pode constituir um reforço dos níveis de confiança?

Thierry Gueorgiou - No Inverno tenho necessidade de traçar objectivos de curto prazo. O meu objectivo supremo, obviamente, aponta para os Campeonatos do Mundo, mas é realmente importante, nesta altura do ano, que trace objectivos intermédios, para este mês ou para o mês seguinte. O Portugal O' Meeting foi um; a Silva League, na Suécia, em Abril, será outro; a Tiomila... Faz parte da minha preparação e é por isso que me sinto satisfeito pelas boas provas que realizei aqui, apesar de não estar muito contente com o meu desempenho na segunda etapa do Portugal O' Meeting e na primeira etapa do XIII Meeting de Orientação do Centro. Há imensos aspectos a trabalhar, claramente, mas ganhar acarreta sempre uma boa dose de confiança.


Aprendi a conviver com este tipo de pressões

Orientovar - Tive a oportunidade de falar com Olav Lundanes, Daniel Hubmann ou Anders Nordberg e bater Thierry Gueorgiou parece ser, em si mesmo, um objectivo. Como consegui gerir esta enorme pressão nos momentos mais importantes e de maior intensidade? É gelo aquilo que lhe corre nas veias?

Thierry Gueorgiou - Não, não é gelo (risos). Diria que nos habituamos a essa pressão, visto que toda a gente que me vê no início duma prova espera que eu ganhe. Aprendi a conviver com este tipo de pressões e as coisas são como são de há dez anos a esta parte. À partida para uma competição sinto-me sempre muito descontraído porque a Orientação é, realmente, aquilo que eu gosto de fazer. E depois na floresta, quando me emprego a fundo, divirto-me imenso. Não preciso de me concentrar nos outros, basta concentrar-me no prazer que a prática da Orientação me proporciona, naquilo que faço no momento, numa bela floresta, com um belo percurso para desfrutar.

Orientovar - Mas quando percebe que errou, isso não o leva a desconcentrar-se?

Thierry Gueorgiou - Sim, precisamente. Se é um erro menor, procura voltar a entrar na prova e no ritmo o mais rapidamente possível porque as hipóteses de ganhar estão ainda todas lá. Mas se é um erro como aquele que aconteceu na segunda etapa do Portugal O' Meeting, bom, é verdade que a frustração é muito maior, sei que as hipóteses de ganhar ou mesmo de entrar nos três primeiros lugares são quase nulas e aí torna-se muito mais difícil reencontrar o ritmo certo. São coisas que se vão percebendo com o tempo, tanto podemos ganhar apesar de cometermos dois ou três pequenos erros, como podemos perder, apesar de termos feito uma prova perfeita.


Gosto muito de descobrir novos lugares, novas culturas

Orientovar - Fora da Orientação, quem é Thierry Gueorgiou? Onde habitam os seus pequenos prazeres da vida?

Thierry Gueorgiou - Infelizmente os meus tempos livres praticamente não existem. A minha vida reparte-se entre Estágios e Campos de Treino e, nos intervalos, o tempo disponível é empregue a traçar os planos de acordo com os objectivos mais próximos. Assim, diria que 90% do meu tempo é, apenas e só, Orientação, mas gosto muito de descobrir novos lugares, novas culturas. Aproveito o final do ano para viajar e escolho locais onde a Orientação está absolutamente ausente. As minhas últimas férias foram em Nova Iorque e pude usufruir de momentos muito bons. Mas tenho outras paixões como o cinema ou a pesca. Aliás, a pesca é o meu passatempo preferido, é aí que mais me descontraio. Quanto ao cinema, o último filme que vi foi “Millennium” [N.R. Niels Arden Oplev, Suécia 2009], fui vê-lo com a Annika [Billstam] em versão original e estava muito bem. Tenho um bom número de filmes entre os meus favoritos mas talvez eleja o “Gladiador” acima de todos. E também gosto de ler, claro. Leio imenso, sobretudo publicações relacionadas com o desporto. Leio o diário desportivo L'Équipe e, de tempos a tempos, leio também um livro durante um estágio.

Orientovar - O que diria a alguém que se está a iniciar na Orientação?

Thierry Gueorgiou Penso que o mais importante, como aliás digo frequentemente, é sonhar. Ter um sonho e persegui-lo é muito importante em termos de motivação. Que isso possa vir a ter uma tradução no dia a dia, depende da dimensão e do alcance desse sonho. Se o sonho é vir a ser campeão do mundo, torna-se necessário treinar diariamente com uma tal entrega e uma tal vontade que corresponda, finalmente, aos objectivos traçados. Não há limites para o sonho. Temos o caso, por exemplo, dessa pequena grande atleta do Canadá, a Emily Kemp, que integra o nosso grupo de treino. É verdade que no Canadá a Orientação não tem a expressão que tem em França ou na Suécia, por exemplo. Mas a vontade dela é tal que começa a fazer excelentes coisas e os resultados estão a aparecer. Quando se sonha e quando se trabalha para alcançar os resultados, é possível chegar lá.


Ficarei imensamente feliz se conseguir uma medalha de ouro

Orientovar - O grande objectivo, como disse anteriormente, são os Campeonatos do Mundo. Vamos poder vê-lo repetir as três medalhas de ouro alcançadas em 2011?

Thierry Gueorgiou Vai ser extremamente difícil. Todos sabemos que os suíços são praticamente imbatíveis, irão estar excepcionalmente bem preparados pelo que, pessoalmente, vou ter de fazer melhor do que fiz no ano passado para chegar ao ouro. Não tenho dúvidas nenhuma que o nível das competições vai ser extraordinariamente elevado e se, em França, havia esse grande objectivo de alcançar as três medalhas de ouro, aqui na Suíça, já ficarei imensamente feliz se conseguir uma medalha de ouro.

Orientovar - Em 2014, Portugal será o País organizador dos Campeonatos da Europa de Orientação Pedestre. A esta distância, o que espera do evento?

Thierry Gueorgiou - Portugal tem imenso a oferecer a todos os orientistas dos quatro cantos do mundo. O Portugal O' Meeting é um excelente exemplo e vocês conseguem, ano após ano, organizar provas absolutamente incríveis. Penso que não irão desperdiçar esta oportunidade para fazer algo que toda a gente recordará por muito tempo. Portugal tem terrenos magníficos, de montanha, como aqueles que vimos em Viseu, e toda a gente irá ficar uma vez mais surpreendida com a qualidade da organização. Pessoalmente, não sei se em 2014 estarei ainda a fazer Orientação de alta competição mas, na pior das hipóteses, espero estar aqui entre o público a assistir às provas. Estou certo que, se conseguirem oferecer aquilo que de melhor existe em Portugal, teremos um Campeonato da Europa memorável. Em todo o caso, não tenho dúvidas que a organização será perfeita. O número de pessoas apaixonadas pela Orientação em Portugal é de tal maneira elevado que me deixa totalmente confiante e tranquilo quanto à qualidade destes Campeonatos da Europa.


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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