E público e notório
ser Joaquim Sousa uma das maiores referências de sempre da
Orientação nacional. Como notório e público é o facto de ser
pessoa de não deixar para amanhã o que pode ser dito hoje. Falador,
extrovertido, contundente, polémico, irreverente, o homem e o atleta
diz de sua justiça ao Orientovar, numa grande entrevista que há
muito se impunha.
Orientovar
– Do Vinho do Porto se diz que “quanto mais velho melhor” e
estou convicto que, em grande medida, este lugar comum pode
aplicar-se também a si. O mérito é seu ou é demérito dos seus
adversários?
Joaquim Sousa
– Comecei a praticar desporto muito tarde, na tropa, já com 21
anos. Talvez isso faça com que o meu organismo esteja ainda muito
disponível para a actividade física e o desporto, o que não
aconteceria se tivesse começado mais cedo. Se calhar agora estava já
um bocadinho mais rebentado e se calhar não andava tão bem. Em
termos físicos, acho que as coisas podem passar um pouco por aí.
Mas depois há o seguinte: Nós temos treinador e temos que confiar
nele. O que ele disser para fazer é o que tem de ser feito. Se ele
disser que temos de fazer cinquenta rampas, temos de fazer cinquenta
rampas. Mas a verdade é que há muita gente que hoje não lhe
apetece treinar e não vai treinar. Na prática, eu sou um atleta que
cumpre rigorosamente os planos de treino. É natural que, comparado
com outros atletas que não o fazem, o meu rendimento seja superior.
Mas a única diferença está aí. Eu cumpro o plano e eles, se
calhar, não o cumprem como deviam.
Orientovar
– Isso pode explicar a parte física. Mas então a componente
técnica? Como é que se explica?
Joaquim Sousa
– Felizmente, em 1991, quando estive na tropa, tive uma pessoa que
me ensinou a partir do zero o que era a Orientação e que foi o Luís
Sérgio. Começámos pela Cartografia – ainda eram mapas na escala
1:25.000 -, eu mostrei muita disponibilidade em termos de me
conseguir orientar e assimilei tudo aquilo que me foi ensinado. Na
altura não havia tanta informação. Hoje vemos o Thierry Gueorgiou
a correr no meio do mato a 3 minutos ao quilómetro, mas não altura
não havia isso. A preocupação era sabermos como nos iríamos
orientar com aquilo que tínhamos, com os terrenos que tínhamos, com
as pernas que tínhamos. E era assim que nos tínhamos de
desenrascar. Basicamente, o que o Luís Sérgio construiu em mim em
termos técnicos de Orientação foram curvas de nível. Ou seja,
fazer uma orientação muito por curvas de nível, não andar por
caminhos. Hoje é isso que me vale e talvez seja por isso que consigo
fazer um bocado melhor do que os outros.
Estão a esquecer-se
que nós não somos profissionais
Orientovar
– Esse tipo de ensinamentos está a faltar hoje aos nossos jovens?
Joaquim Sousa
– Eu acho que o problema é que os nossos jovens têm informação
a mais. Aqueles que procuram que eles evoluam, dão-lhes demasiada
informação. São matérias teóricas vistas ou ouvidas dos atletas
profissionais, mas estão a esquecer-se que nós não somos
profissionais. Se não somos profissionais, como é que querem que
treinemos como profissionais? Quando o Diogo Miguel era ainda
iniciado, já toda a gente via que ele tinha qualidades para vir a
ser um bom atleta. Se ele por acaso tivesse a sorte de sair de
Portugal e ir para um país nórdico durante um ano, ele era neste
momento, sem dúvida nenhuma, um atleta de final A. Ele é muito bom,
claro que é muito bom. Mas falta-lhe aquele bocado que é a
Orientação em cima da linha vermelha em zonas muito complicadas. É
algo que nós ainda não conseguimos fazer. Ainda sentimos muitas
dificuldades na zona dos pontos e é aí que está o nosso maior
problema.
Orientovar
– Na sua opinião, e no que diz respeito aos nossos jovens, estamos
então a andar “com o carro à frente dos bois”?
Joaquim Sousa
– Penso que sim. Quando vemos que este ou aquele jovem vai ser um
jovem de futuro, começamos logo a dar-lhe o que ele ainda não
pediu. Ou seja, em vez de serem os nossos jovens a trabalhar e a
mostrar no terreno que merecem ir mais além, não! São-lhes logo
dadas todas as oportunidades e mais algumas. E depois, como eles têm
aquilo de borla, se calhar não lhes dão valor.
Andamos com as Elites
ao colo
Orientovar
– Mas isso não é isso que está a acontecer dum modo geral?
Joaquim Sousa
- É também o que acontece com os nossos atletas de Elite. Andamos
com as Elites ao colo. Ninguém espera que um dos nossos atletas de
Elite venha ao POM e ganhe as quatro etapas. Mas o seleccionador
devia chegar à beira das nossas Elites e dizer: “Vocês aqui, no
POM, têm de ficar os quatro dias à frente do Sousa, porque o Sousa
tem 42 anos e vocês têm vinte e poucos. Não é admissível que ele
vos ganhe provas”. E aí esses atletas podiam ser atletas de Elite
e podiam ser atletas de Selecção. Agora, quando vimos para aqui e
temos um atleta de 42 anos que ganha duas provas em quatro e é o
melhor português num POM, acho que há aqui qualquer coisa que não
bate certo. Meter atletas no grupo A ou no grupo B da Selecção, que
são supostamente atletas de topo, se aqui não são bons, como é
que vão ser bons num Campeonato do Mundo? Não estou a ver!
Orientovar
– Devíamos parar para pensar? Um ano, dois anos?...
Joaquim Sousa
– Se calhar, se calhar... Aquilo que aconteceu no ano passado não
devia ter acontecido. Não havia atletas de nível para ir à
Selecção, não se ia. Mas qual é o problema? Não morre ninguém!
Sem os portugueses lá, ia haver Campeonato do Mundo na mesma. Agora,
andamos a gastar dinheiro para quê? E depois acontecem coisas como
estas que aconteceram: Há uma participação em termos federativos
com atletas que são juniores ou que são atletas de segunda
categoria, mas que alguém acha que eles vão ser bons atletas e
depois levam-nos para a Taça do Mundo, levam-nos para aqui e para
acolá e ninguém sabe porquê. Ninguém percebe como é que eles
chegaram lá.
Temos de acarinhar quem
cá anda e dar o devido valor a quem trabalha
Orientovar
– E os resultados são aquilo que se vê...
Joaquim Sousa
– Pois claro! Ir lá fora é muito bom, é óbvio. Se me levarem a
mim, porreiro, está bem, eu vou. E vou lá fazer igual aos outros.
Mas acho que, quem tem a responsabilidade nestas coisas, devia pensar
de outra forma, devia de ver quem tinha possibilidades de fazer um
bom resultado. Se acham que só o Diogo é que vai fazer um bom
resultado, então vamos levar só o Diogo. Agora, só porque temos
que levar três, não vamos pegar em dois “besuntas” que andam aí
e levá-los com ele. Isso é completamente injusto, principalmente
para quem trabalha. Eu, se treino, por exemplo, o meu treinador e o
meu clube concerteza gostariam que eu fosse ao Mundial. Se eu no
Portugal O' Meeting, como ficou demonstrado, sou melhor do que os
atletas de Elite que nós temos, se calhar as pessoas ficam a pensar
porque é que os outros é que vão à Selecção e eu não. Mas
porquê? Por ter mais de quarenta anos?
Orientovar
- Há atletas que foram medalhados com quarenta e mais anos!...
Joaquim Sousa
- Mas em Portugal não se pensa assim! Eu não quero que me dêem
nada a mim. Mas sobretudo não quero que me tirem a mim para dar aos
outros. Isso é que eu acho mal. Eu trabalho, eu treino e os
resultados estão à vista aqui. Fui o melhor português! O meu
treinador fica contente, o clube fica contente e eu fico contente
mas, ao mesmo tempo, fico triste. É injusto, como já ouvi dizer aí,
que eu ganhei pelo facto do Tiago Aires ou do Diogo Miguel não
estarem cá. Porque eu também lhes ganho! Se eles estivessem aqui,
ninguém diz que eles não iriam fazer um “mp” e eu não iria ser
na mesma o melhor português. Temos de acarinhar quem cá anda e dar
o devido valor a quem trabalha.
Estão a esquecer-se
que a Orientação tem este pequeno pormenor que são os mapas
Orientovar
- Para onde caminha a Orientação portuguesa?
Joaquim Sousa
– Eu acho que estamos no bom caminho. Em termos organizativos, não
temos nada que nos possam apontar. Se perguntarmos a quem quer que
seja que venha a Portugal, toda a gente fica encantada. Aliás, nós
vamos a uns Campeonatos do Mundo de Veteranos, por exemplo e toda a
gente nos dá ainda os parabéns por aquilo que foram os dias do WMOC
2008. Ou seja, em termos organizativos estamos ao nível dos melhores
do Mundo. O problema está nas selecções e eu volto a bater na
mesma tecla: Ou se tem pessoas idóneas a comandar as Selecções,
pessoas que olham para a toda a gente da mesma maneira, ou então não
adianta.
Não é como eles agora
querem com a questão dos mínimos aos dez quilómetros. Tudo bem.
Mas o Mega Figueiredo dá-me quatro ou cinco minutos em dez
quilómetros e eu dou-lhe cinco ou dez minutos numa prova de
Orientação. Então, mas onde é que está o critério, afinal?
Estou a falar no Mega e se calhar estou a falar nos outros. Na prova
lá em baixo, ganhei ao Pedro Nogueira, dei-lhe sete minutos. Sete
minutos dá-me ele a mim numa prova normal de atletismo. Como é que
é possível? É que estão a esquecer-se que a Orientação tem este
pequeno pormenor que são os mapas. Temos os mapas e isto não é só
correr. Nem mesmo no Sprint. Parece muito simples mas não é!
O problema é que as
pessoas não querem que eu ande lá também
Orientovar
– Quais os seus objectivos para esta temporada? Passam pela medalha
de ouro nos Mundiais de Veteranos na Alemanha?
Joaquim Sousa
– Claro! No ano passado, as condições foram todas excelentes. Foi
a primeira vez que o Albano e a Palmira foram comigo, ou seja,
psicologicamente eu estava no auge. Considero que reajo bem às
coisas, mas com companhia sai tudo muito mais fácil. Ter comigo o
Albano e a Palmira foi completo, estavam criadas as condições
ideais. Eram coisas que só se falavam em privado, mas o objectivo
era a medalha no Sprint e ela apareceu. Em termos de objectivos o
trabalho estava feito e, quando parti para a Distância Longa, estava
descontraído. Corri feliz e satisfeito, acabei por juntar o útil ao
agradável e, no final, arrecadei outra medalha. É claro que agora
gostava de ir à Alemanha, gostava de ganhar o ouro, mas se calhar
também gostava, se alguém tiver direito a ir ao Campeonato do Mundo
de Séniores, que olhassem para mim como olham para os atletas que
estão no Grupo de Selecção.
Orientovar
– O que não tem acontecido...
Joaquim Sousa
– Pois não. Temos em Portugal o Tiago Aires e o Diogo Miguel que
são, para mim, os melhores atletas nacionais, sem dúvida nenhuma, e
são os únicos que têm valor para ir à Selecção. A seguir a eles
temos um grupo de seis ou sete atletas, bastante homogéneo, onde eu
me incluo claramente. Aqui temos o Miguel Silva que, devido às suas
aptidões físicas, pode estar um bocadinho à frente dos outros e
talvez também possa merecer um lugar na Selecção. Mas depois o
Tiago Romão é muito incerto, tanto pode fazer uma ou duas provas
muito boas como pode não fazer nada de jeito. Quanto ao resto do
grupo, eu não me excluo porque acho que tenho muito mais valor do
que alguns que lá andam. O problema é que as pessoas não querem
que eu ande lá também. Ou porque não sou do clube certo, ou porque
não sou treinado pela pessoa certa, ou porque se calhar falo muito,
ou porque sou velho... O problema é que, chegada a hora da verdade,
as provas são muito complicadas e os resultados estão à vista.
Se eu ganho, a idade é
secundária
Orientovar
– E a nível interno?
Joaquim Sousa
– Ter chegado ao final da Taça de Portugal 2011 em terceiro lugar
na geral do ranking já foi muito bom e vou lutar para conseguir
manter essa posição. O objectivo, claro que passa sempre por
alcançar um título ou, pelo menos, imiscuir-me no pódio, tal como
aconteceu no ano passado, onde fui Vice-Campeão de Distância Longa
e Campeão de Estafetas. E tentar o título ibérico.
Orientovar
– Até quando um Joaquim Sousa a este nível?
Joaquim Sousa
– Eu trabalho para o Clube e tenho um treinador. Quando o meu
treinador disser que está na altura de passar a correr no escalão
H35 ou H40, eu vou correr no H35 ou no H40. Mas enquanto ele achar
que eu estou bem fisicamente e em termos técnicos e enquanto os
nossos jovens não valerem mais do que aquilo que valem, eu vou
continuar assim. Se eu ganho, a idade é secundária e o que
interessa são os resultados. Pelo menos para o clube. Agora é
assim: Quando aparecerem dez jovens que me ganhem, tenha eu 43 ou 45
anos, se calhar deixa de fazer sentido andar na Elite. Mas enquanto
isso não acontecer, podem contar comigo!
Acompanhe Joaquim
Sousa na sua renovada página pessoal em
http://wordpress.joaquimsousa.com/
Saudações
orientistas.
JOAQUIM MARGARIDO

6 comentários:
Grande Joaquim Sousa ! Gostei e concordo com cada vírgula desta entrevista do "rapaz irreverente"!
Um grande abraço.
A verdade desportiva tem que ser dirimente, qualquer outro critério é “corrupção” desportiva.
És muito grande... Pode ser que se aprenda alguma coisa com esta entrevista.
;) ;) ;)
Abraço,
Rui Morais
Embora Eu esteja afastada da modalidade, visito diariamente este blogue e concordo em pleno com as palavras deste "experiente" atleta....
Um excelente entrevistador e um magnifico entrevistado
Um bem haja e em breve estarei de regresso.
Maga
"Joaquim Sousa – ... Ou seja, em vez de serem os nossos jovens a trabalhar e a mostrar no terreno que merecem ir mais além, não! São-lhes logo dadas todas as oportunidades e mais algumas. E depois, como eles têm aquilo de borla, se calhar não lhes dão valor."
Gostei de te ouvir dizer isto porque é uma coisa que eu sempre disse e discuti muito com o J.Carlos Pires quando ele era o DTN. Na situaçao actual, se os nossos jovens nem sequer tem de ganhar ao Sousa para ir aos Mundias, que motivaçao podem ter? Estao realmente a ser exigidos ao máximo? E neste caso a culpa nao seria inteiramente deles.
Joao Pedro Valente
Viva,
Concordo com algumas destas opiniões e o atleta tem todo o mérito desportivo!
Apenas acho que no geral as respostas pecam pela falta de ponderação: falta de respeito e egocentrismo (o habitual do entrevistado).
Na parte que me toca:
1. Um dos referidos "besuntas" presentes no WOC2011 (eu) é colega de equipa do entrevistado (falta de respeito) e como muitos sabem dedica-se tanto ou mais ao treino (egocentrismo) e segue o seu treinador.
2. Não querendo medir ombros até porque a comparação dos resultados nos últimos anos não deixa dúvidas de quem tem sido o mais forte, mas esse "besunta" na primeira oportunidade que teve num WOC obteve melhor resultado que o entrevistado em 20 e tal anos de orientação.
Não é que julge muito relevante o meu input neste tema, até porque na pausa da manhã tinha por escolher entre ir ao bar comer um croissant ou ler o orientovar e como o croissant engorda optei por deixar o esclarecimento nos bastidores enquanto se aquecem os motores para Espanha! :)
Vamos a eles que nós gostamos é de mato! :)
Paulo Franco
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